sábado, 29 de dezembro de 2012

SEM PALAVRAS


A HISTÓRIA DE CÍCERO E ROSÂNGELA

Cícero e Rosângela formavam o mais belo casal do vilarejo. Seus pais moravam em casas adjacentes, o que aproximou os dois jovens e a amizade logo se transformou em amor.
Tudo seria maravilhoso se os seus pais não fossem brigados. Assim, a namoro de Cícero e Rosângela foi proibido. Uma coisa, contudo, não podiam proibir: que o amor crescesse com a mesma paixão no coração dos dois jovens. Conversavam por sinais ou por meio de olhares. No muro que separava as duas casas havia uma fenda. Ninguém havia notado antes, mas os jovens notaram. A fenda permitia a passagem da voz; e mensagens amorosas passavam nas duas direções. Quando à noite chegava e tinham de dizer adeus, apertavam o lábio contra a parede, ela do seu lado, e ele do outro, já que não podiam aproximar-se mais.
Numa manhã os dois encontraram-se no lugar de costume. E, então, combinaram que, na noite seguinte, quando todos estivessem dormindo, fugiriam. Encontrar-se-iam debaixo de uma imensa e antiga amoreira branca, bem ao lado da fonte, fora dos limites do vilarejo. Combinaram que aquele que chegasse primeiro esperaria o outro.
Então, naquela noite, tão logo todos dormiram, Rosangela ergueu-se, cautelosamente de sua cama e sem ser observada pela família, cobriu a cabeça com um véu e, deslizando furtivamente pela janela, deixou sua casa. Caminhou até a amoreira e sentou-se embaixo da árvore e assim, sozinha, permaneceu por um bom tempo, até que de repente avistou uma onça, que com a boca ensanguentada por uma presa recente, aproximou-se da fonte, que havia perto da amoreira, para matar a sede. Rosângela, assustada, esgueirou-se por trás da árvore e fugiu a procura de um refúgio. Na presa, entretanto, deixa cair o véu. A onça depois de saciar a sede na fonte virou-se para voltar à mata, e, ao ver o véu no chão, começou a brincar com ele até reduzi-lo a um monte de tiras ensanguentadas.
Cícero que se atrasara, aproximou-se do local de encontro. Viu na areia as pegadas da onça, e o sangue fugiu-lhe das faces. Logo em seguida encontrou o véu, espedaçado e sujo de sangue. Apanhou-o e levando até a árvore onde fora combinado o encontro, e cobriu-lhe de beijos e lágrimas.
— Meu sangue também manchará teu tecido – exclamou.
E arrancando seu punhal da bainha, enterrou-o em seu próprio coração. O sangue esguichou da ferida, e penetrando terra adentro, pelo caule da amoreira, atingiu suas raízes, de modo que a cor vermelha subiu, através do tronco até os frutos.
Enquanto isso, Rosângela, ainda tremula de medo, saiu cautelosamente de seu refúgio, a procura de Cícero, ansiosa por contar-lhe o perigo que atravessara. Chegando ao local e vendo a nova cor das amoras, duvidou que estivesse no mesmo lugar. Enquanto hesitava, avistou um vulto que agonizava. Um temor percorreu-lhe todo o corpo. Reconheceu Cícero, gritou e abraçou o corpo sem vida de seu amante. Avistando a bainha vazia de punhal, disse:
— Tua própria mão te matou e por minha causa. Também posso ser corajosa uma vez, e meu amor é tão forte quanto o teu. Seguir-te-ei na morte. E tu árvore, conserva as marcas de nossa morte.
Assim dizendo apanhou o punhal que caíra da mão de Cícero, enterrando-o em seu próprio peito.
E assim ficaram os dois corpos juntos, unidos como um só. Foram enterrados na mesma sepultura e a amoreira passou a dar frutos vermelhos, como faz até hoje.
Cícero e Rosângela separados em vida, foram finalmente unidos pela morte. ®Sérgio.
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Nota Sobre o Texto.: Este texto é baseado na história da mitologia grega Píramo e Tisbe. A comédia, Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare e baseado também em Píramo e Tisbe só que de uma forma divertida.

O ADVÉRBIO LATINO [SIC]

Sic (Latim, sik = assim) é a "palavra que se pospõe a uma citação, ou que nesta se intercala, entre parênteses ou entre colchetes, para indicar que o texto original é bem assim, por errado ou estranho que pareça." (verbete extraído do Novo Dicionário Eletrônico Aurélio)
Cabe lembrar que [sic] é um advérbio latino e não uma abreviação; de maneira que deve ser escrito em negrito ou itálico [sic]. Quando um mesmo erro se repete em várias passagens duma citação ou texto, usa-se [sic passim = está assim por toda parte]. Derivado do sic, temos o verbo "sicar", de uso constante entre os acadêmicos: "Eu não posso sicar esta expressão, pois não tenho certeza do erro".
Se você está citando o texto de alguém e observa que em determinada parte do texto há um erro ou uma expressão estranha, o sic serve para indicar aos seus futuros leitores que, por mais errado ou estranho que pareça, é assim mesmo que consta no texto original. Se você intercala o sic no seu próprio texto, está alertando a seus leitores de que é dessa maneira mesmo que quis grafar; não foi um erro ou um equívoco de digitação. É obvio que um deslize na digitação não pode ser considerado como erro do autor citado; portanto, nesse caso, não devemos usar o sic. O mais certo é corrigir o deslize ao fazer a transcrição:
Segundo alguns pesquisavores [sic]... => Segundo alguns pesquisadores...
No entanto, se o erro for ortográfico, você, como uma espécie de crítica ao autor, pode reproduzi-lo exatamente como está e intercalar o sic. Entretanto, o mais ético é ignorar o erro e transcrever a palavra da forma correta.  Há casos, porém, que a definição de erro é subjetiva, e, nesse caso, não convém a intercalação do sic. Veja: "Fulano de tal, escreveu aos 92 [sic] anos a obra X, seu primeiro sucesso literário". A informação, apesar de exagerada, pode configurar-se um erro ou, talvez, não. De modo que devemos evitar sicá-la. ®Sérgio.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

ESTAMOS A SUA DISPOSIÇÃO ou À SUA DISPOSIÇÃO

Tanto faz. Pois, antes dos pronomes possessivos (minha, tua, sua nossa…), o uso dos artigos definidos é facultativo.
      ●   Este é o meu irmão. Ou: Este é meu irmão.
      ●   Aquela é a minha casa. Ou: é minha casa.
Se o uso do artigo feminino é facultativo, quando houver a preposição [a] antes de um pronome possessivo feminino singular, o uso do acento da crase também será facultativo:
   Cedi o lugar a minha avó. Ou: Cedi o lugar à minha avó.
   Estamos a sua disposição. Ou: Estamos à sua disposição.
   Não fez menção a nossa empresa. Ou: à nossa empresa.
   Levou a encomenda a sua tia. Ou: à sua tia.
   Abracei a minha prima. Ou: à minha prima.
Podemos comprovar comparando com a forma masculina:
   Estamos ao seu dispor.
Observação: Na maior parte dos casos, a crase dá clareza a esse tipo de oração. ®Sérgio.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

PEGO ou PEGADO?

Aprendi quando estudante que o particípio do verbo pegar era somente pegado:
       ●   Tinha pegado os documentos. (e não: pego)
       ●   Ele foi pegado em flagrante. (e não: pego)
O problema é que, independente de qualquer reforma oficial, o português falado no Brasil está sempre sendo modificado, moldado no dia-a-dia pelas necessidades dos usuários. De modo que, por analogia com verbos que têm duas formas de particípio, uma regular e outra irregular (pagar= pagado e pago), criou-se a forma irregular pego (pêgo em algumas regiões e pégo em outras). Essa inovação concorreu com a forma regular, até enfim substituí-la amplamente. Encontramos registros destas substituições em várias obras da nossa literatura e nos estudos de muitos especialistas.
Hoje, no Brasil (em Portugal, somente a forma pegado é usada), a forma irregular pego está consagrada entre nós e já é aceitável na língua padrão. Pode ser usada com qualquer verbo auxiliar (ser, estar, ter ou haver):
   Ele foi pego em flagrante.
   Ele tinha pego (ou pegado) os documentos.
   Ele foi pego, ela está pega, ele será pego.
A forma pegado só pode ser usada quando antecedida dos verbos ter ou haver:
   Ele tem pegado, ele havia pegado, ele terá pegado.
   Ele tinha (ou havia) pegado os documentos.
Entretanto, há gramáticos ainda que defendem só o uso de pegado. Pego é tão inaceitável quanto chego (particípio de chegar), que já se usa Dizem que ao usarmos a forma pegado, estamos falando ou escrevendo corretamente. A forma pego é aceitável na fala coloquial e incorreta em textos que exijam a língua culta formal. Segundo o professor Cláudio Moreno¹, um dos defensores: "A língua que a gente usa é como nossa vestimenta: bermuda também é roupa, e atende às necessidades básicas do decoro; numa recepção, contudo, o paletó e a gravata sempre serão a opção de quem quer se vestir bem". ®Sérgio.
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1 - O Professor Cláudio Moreno é formado em Letras com ênfase em Português e Grego pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), desde 1969 é professor de Português e Redação nos principais colégios de Porto Alegre.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O VELHINHO E O PÃO DE QUEIJO

O velhinho – como se diz por aí - já estava com o "pé na cova". Agora, com perto de 98 anos, a hora chegava. Desenganado, os parentes só aguardavam ele entregar a alma a Deus. O velho caboclo meio cego, ausente das coisas, febril, as pernas mortas, já não reconhecia ninguém, certamente não passaria daquela tarde. De repente, sem mais, sem menos, o velhinho, contrariando a junta médica, começou a dar mostras de que voltava à vida.
Ao lado de sua cama, estava o netinho que rendia seu turno. E então daí, um cheiro de pão de queijo saindo do forno chegou até o quarto do moribundo e ele, que não comia havia dias, entrou em êxtase. Sem mais delongas, reunindo as poucas forças, pediu ao netinho: busque para o vovô uns pães de queijo. O netinho foi correndo:
— Vovó, o vovô melhorou e pediu pão de queijo.
— Diz para ele que nada de comer pão de queijo agora, eles são para o velório. ®Sérgio.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O NASCIMENTO DE AFRODITE (VÊNUS)

Deusa do amor, da beleza e do êxtase sexual. De acordo com Hesíodo, Afrodite nasceu quando Urano foi castrado por seu filho Cronos (Saturno) com uma foice de dentes agudos, que atirou os órgãos genitais do pai ao mar. O membro cortado ejacula pela última vez e um turbilhão levantou-se das águas e dele teria surgido Afrodite (aphroditê = espuma do mar). Zéfiro a levou, sobre as ondas, até a ilha de Chipre, onde foi recolhida e cuidada pelas Estações que a levaram, depois a assembléia dos deuses. Todos ficaram encantados com sua beleza e desejaram-na para esposa. Zeus (Júpiter) temendo uma briga entre os deuses, devido os encantos de Afrodite, resolveu casá-la com Hefestos (Vulcano), (deus do fogo, coxo e um dos mais feios deuses do Olimpo) em gratidão pelo serviço que ele prestara, forjando os raios. O casamento não deu certo. Amante de Ares, a quem deu vários filhos (entre eles Fobos = Medo, e Demos = Terror). Com Hermes (mensageiro dos deuses) deu a luz a um menino que tinha os dois sexos que recebeu o nome de Hermafrodito. Com Apolo (deus do sol) teve o filho Himeneu (deus do casamento). Afrodite possuía um cinto bordado, o cestus, que tinha o poder de inspirar o amor. Suas aves preferidas eram o pombos e os cisnes, e a rosa era flor a ele dedicada. Afrodite era também mãe de Eros (Cupido), deus do amor. ®Sérgio.

MORTALIDADE INFANTIL


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

TODAS AS HORAS

Sempre fui colecionador de frases e porque não compartilhar com vocês, minhas citações preferidas, colhidas em inúmeras fontes:
"Eu gostaria de ficar numa esquina movimentada de chapéu na mão, pedindo, às pessoas que me dessem todas as horas que desperdiçaram." (Bernard Berenson)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O USO MAIS QUE ERRADO DE VERBOS

Em seu Manual de Redação e Estilo, Eduardo Martins, nos adverte que há verbos que, devido ao seu significado, não podem ser acompanhados pela palavra [que].
Em geral, são formas de verbos discendi (declarativos), ou seja, verbos que exprimem uma afirmativa categórica. São discendi o verbo dizer e sinônimos ou afins (declarar, afirmar, aprovar, defender etc.), cujo objeto direto é uma oração substantiva que exprime um conteúdo do ato da fala:
   João assumiu [quem admite, admite alguma coisa] estar errado.
   E não: João assumiu que estava errado.
   Ela mencionou a compra de um lindo vestido.
   E não: Ela mencionou que comprou um lindo vestido.
   Maria comentou estar doente.
   E não: Maria comentou que estava doente.

Você defende uma idéia, uma posição, mas nunca defende que alguma coisa se realize. Portanto, são erradas, ou no mínimo impróprias, as formas:
[acusar que] [alertar que] [antecipar que] [apontar que]
[aprovar que] [assumir que] [citar que] [comentar que]
[continuar que] [defender que] [definir que] [denunciar que]
[desmentir que] [difundir que] [divulgar que] [enfatizar que]
[indicar que] [justificar que] [mencionar que] [narrar que]
[proferir que] [prosseguir que] [referir que] [registrar que].
No entanto, podem ser normalmente usadas com [que] as formas:
[acrescentar que] [adiantar que] [admitir que] [advertir que]
[advertir que] [advertir que] [afiançar que] [afirmar que]
[aguardar que] [afirmar que] [asseverar que] [assegurar que]
[asseverar que] [atestar que] [certificar que] [comprovar que]
[concordar que] [confirmar que] [constatar que] [declarar que]
[determinar que] [dizer que] [esperar que] [garantir que]
[jurar que] [negar que] [ordenar que] [prever que] [prometer que]
[reiterar que] [repetir que] [ressaltar que] [ressalvar que]
[revelar que] [verificar que]. ®Sérgio.