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sábado, 5 de outubro de 2013

A LENDA DO CUPIM

As lendas indígenas são lendas interessantes, geralmente de fundo histórico; algumas vezes reminiscências, restos de fatos verídicos, conservados parcialmente pela tradição histórica.
O conselho indígena obrigou uma formosa jovem a se casar com um rapaz, contra a sua vontade. Ela não gostava do marido de jeito nenhum. À noite, quando ele vinha se deitar, tentando abraçá-la, ela descia da rede e ficava de costas. Toda noite era assim. Para ver se aos poucos ela se acostumava, o pai convidou o genro para caçarem no mato, levando-a junto. Mas ela continuava a não querer dormir com o marido. O pai teve uma ideia. Pegou muitos vaga-lumes (bagapbagawa man, na língua indígena). Então, sem que a filha percebesse, pregou os de vaga-lumes nos cupins (txapô). Fez isso de dia. Atou a rede da filha bem pertinho do ninho de cupim (munduru), e a rede do marido do outro lado. Assim, fez uma cabana (tapiri) entre as duas redes.
Anoiteceu, jantaram, e a moça deitou na própria rede. Dormiu. Quando foi no meio da noite, acordou e viu aquele munduru alumiado. Assustou que só vendo e deitou com o marido. Nunca mais o largou, e até hoje é possível ver a luz do munduru. ®Sérgio.

NOÉ E A CRIAÇÃO DO VINHO

Esta é a lenda Armênia de Noé e da Criação do Vinho, contada Hovanés Tumanian, um dos maiores poetas de todos os tempos na Armênia. Fiz pequenas adaptações, por julgá-las necessárias.
Após quarenta dias e quarenta noites de chuvas torrenciais, a Arca de Noé se deteve na mais alta montanha da Armênia: o Monte Ararat, ponto de partida de um novo mundo perdoado e purificado.
O primeiro trabalho de Noé, ao sair da Arca, foi plantar a vinha para criar o Vinho, pois, cansado estava de ver tanta água durante o dilúvio.
 Ao começar a plantar as primeiras ramas da vinha, o diabo aparece e diz:
– O que está fazendo aí?
– Estou plantando uma vinha.
– Para que?
– Seu fruto é doce e gostoso. Quando espremido dá um suco que reconforta o coração do Homem.
– Quero te ajudar, diz o diabo.
– Como quiser, responde Noé.
Plantada a vinha, o diabo vai buscar na arca, um cordeiro, um leão, um macaco e um porco. Degola-os e rega a planta com o sangue deles.
É por isso que quando alguém bebe vinho, fica primeiro dócil tal qual cordeiro, depois se sente forte como leão, a seguir começa a fazer caretas, feito macaco e, por fim, quando bêbado, torna-se um porco. ®Sérgio.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A LENDA DO HOMEM CHUVA

Begorotire era um índio cabelos negros e muito forte. Certo dia, porém, na divisão da caça, foi "passado para trás". Injustiçado ficou furioso e, por causa disso, decidiu que sairia à procura de outro lugar para viver. Pintou toda a família com uma tintura preta que havia retirado do fruto do jenipapo. Pegou um pedaço de madeira pesada e resistente, da qual fez uma borduna Caiapó (grupo indígena habitante da Amazônia brasileira), com o cabo trançado em preto e a ponta tingida com sangue da caça. Chegou então ao alto de uma montanha, levando sua borduna, e começou a gritar. Seus gritos soaram como fortes trovões. Girou fortemente sua arma no ar e de suas pontas saíram relâmpagos. Em meio ao barulho e às luzes, Begorotire, com os olhos alumiados, subiu aos céus. Os índios assustados atiraram suas flechas, mas não conseguiram impedir que Begorotire desaparecesse no firmamento.
As nuvens, também assustadas, derramaram chuva que parecia que o mundo vinha abaixo. Por isso Begorotire tornou-se o homem chuva. Tempos depois, levou toda a família para o céu, onde nada lhes faltava, e de lá muito fez para ajudar os que na terra ficaram. Juntou sementes de suas fartas roças, secou-as sobre o girau e entregou a uma de filhas para trazê-las a terra.
A pequena índia desceu dentro de uma cabaça enorme amarrada a uma longa corda, tecida com as próprias ramas do vegetal. Caminhando pela floresta, um jovem encontrou a cabaça, amarrou-a com os cipós e pedaços de madeira e, com ajuda dos amigos levou-a para a aldeia. A mãe, abrindo a cabaça, encontrou a índia, a filha da chuva, que estava magra e com longos cabelos, por lá haver permanecido muito tempo.
A jovem foi retirada e alimentada, e teve seus cabelos aparados. Ao ser indagada, a filha da chuva explicou por que viera, entregando-lhes as sementes enviadas por seu pai e deixando a todos muito felizes. O jovem que encontrou a cabaça casou-se com a moça, passando esta a morar novamente na terra. Com o tempo, resolveu visitar os pais. Pediu ao esposo vergasse um pé de Pindaíba, trazendo a copa até o chão. Sentou-se sobre ela e, ao soltarem a árvore, a índia foi lançada ao céu. Ao retornar, trouxe consigo toda a família e cestos repletos de bananas e outros frutos silvestres. Begorotire ensinou a todos como cultivar as sementes e cuidar das roças, regressando depois ao seu novo lar. Ate hoje, quando as plantas necessitam de água, o homem chuva provoca trovões, fazendo-a cair sobre as roças para mantê-las sempre verdes e fartas. ®Sérgio.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A LENDA DO OVO

Vivia num belo país um casal humilde e feliz. O casal tinha tudo o que necessitava para viver em alegria. Um belo casebre, embora pequeno, com um bonito jardim, um rio que passava perto e um belo conjunto de árvores de diversos tipos. Sol brilhava radiante.
Mas um dia a tristeza começou a cobrir a casa. Havia uma coisa que o casal não tinha e desejava muito: filhos. Faltava-lhes o riso e as brincadeiras das crianças. Todos os dias acordavam com o mesmo desejo no coração.
Ora, numa bela noite estrelada, um raio de luz intenso entrou pela janela do quarto. Na sua cauda vinha sentada uma fada.
O casal ficou muito espantado, mas não se assustou porque sabia que a fada era boa. Então a fadinha começou a falar:
— Eu conheço os seus desejos, e já estava à espera que um dia isto lhes acontecesse. Fiz todo o possível para felicidade de suas vidas, mas calculei que não seria o suficiente. Pois bem, vou dar-lhes duas filhas, com dois anos de diferença. Terão de fazer com que elas sejam muito unidas, para que continuem a ser uma família feliz.
— Oh, sim! Nós prometemos boa fada. Isto foi tudo o que sempre desejamos - replicou o casal.
— Aviso-lhes que a tarefa não é fácil. Se o desejarem conseguirão cumpri-la, senão eu voltarei com melhor solução. E com estas palavras a fada desapareceu.
O casal ficou muito feliz e esperou ansiosamente pela chegada da primeira filha.
Um dia, finalmente chegou. Era uma linda menina. Tinha uma pele muito rosada, uns olhos claros e brilhantes e um belo cabelo muito louro, que mais tarde se tornou numa cabeleira loura. A esta filha, o casal deu o nome de Gema.
Tinham desejado tanto esta filha que lhe dedicaram todo o seu amor e acabaram por mimá-la demais.
Gema tornou-se indolente, vaidosa e preguiçosa, mas os seus pais não a achavam assim.
Passaram-se dois anos e a outra filha nasceu. Esta, ao contrário de Gema, não era tão bonita. O cabelo era muito claro, quase transparente como a água, a pele era muito branca - os olhos, esses, eram claros, cintilantes, a única semelhança com Gema. Os pais deram-lhe o nome de Clara.
As duas crianças cresceram felizes e muito brincalhonas, apesar das brincadeiras que Gema fazia a Clara. Elas pareciam gostar muito uma da outra. Gema era muito mais viva e brincalhona que Clara e muito mais forte também. Clara era mais séria e trabalhadora. Gema irritava-se com Clara, pois esta, nem sempre queria brincar, e por isso passava a vida a apoquentá-la.
O tempo foi passando e as maldades crescendo, assim como as arrelias que faziam uma à outra. Quando os pais repararam, já era tarde demais para que conseguissem mudar alguma coisa. A felicidade nunca mais voltou a reinar naquela casa. O tempo passou e a situação mantinha-se.
Um dia a fada voltou:
— Eu avisei-os, a tarefa não era fácil, não quiseram ouvir-me e deixaram que a alegria desaparecesse. Infelizmente, terei que agir e como castigo ordeno que Clara e Gema se unam num só alimento, rico e completo. As duas partes serão indispensáveis e assim vivam em conjunto para sempre.
Dizendo isto, apontou a varinha para Clara e Gema, apareceu uma luz muito forte e quando desapareceu no lugar das duas estava um ovo. E assim, Clara e Gema viveram juntas para sempre, tornando-se úteis para nós. O casal aprendeu bem a lição e a partir daí tiveram muitos filhos e filhas. ®Sérgio.
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Nota sobre o Texto: Alguns contos conseguiram manter suas autorias, outros, porém, como este, pularam das fronteiras do livro e do registro autoral e caíram na memória do povo, em tantas feições e línguas, que acabaram por passar ao domínio de ninguém, isto é, ao uso de todos.

terça-feira, 17 de abril de 2012

A LENDA SIOUX - Versão da Lenda Americana

Há uma lenda dos índios Sioux que, com a devida licença, não poderia deixar de contar-lhes. Mas vou avisando que apesar da narrativa ser minha, a essência da lenda não foi modificada.
Conta-se que, certa vez, os jovens índios Sioux Touro Bravo e Nuvem Azul, foram à tenda do velho feiticeiro fazer um pedido:
— Sábio senhor, eu amo Nuvem Azul e ela a mim e vamos nos casar. Nosso amor é tanto que viemos lhe pedir um conselho: há algo que possamos fazer que nos garanta ficarmos para sempre juntos, um ao lado do outro até a morte?
 O velho feiticeiro, ao ver aqueles  jovens, tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse emocionado:
— Há uma coisa que podem fazer, porém é uma tarefa muito difícil e exige muito sacrifício. Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte, ao norte da aldeia, levando consigo apenas uma rede, caçar o falcão mais vigoroso e trazê-lo aqui, com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia. E tu, Touro Bravo, deves escalar a montanha do trono e também levar apenas uma rede; quando chegares lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias. Deves apanhá-la e trazê-la para mim, viva!
Touro Bravo e Nuvem Azul abraçaram-se com ternura, agradeceram o velho feiticeiro e partiram para cumprir a missão.
No dia estabelecido, os jovens, com as aves, voltaram à tenda do feiticeiro. O velho tirou as aves dos sacos de couro e constatou que eram verdadeiramente os exemplares dos formosos animais que ele tinha pedido.
— E agora, o que faremos? Perguntaram os jovens, tomados de expectativa.
— Peguem as aves e amarrem uma à outra pelos pés com essas fitas de couro. Quando estiverem amarradas, soltem-nas para que voem livres.
Touro Bravo e Nuvem Azul fizeram o que lhes foi ordenado e soltaram os pássaros. A águia e o falcão tentaram voar, mas, o que conseguiram foi apenas saltar pelo terreno. Após várias tentativas, as aves, irritadas pela impossibilidade de voarem, arremessaram-se uma contra a outra, bicando-se até se machucarem. Então o velho disse:
— Jamais esqueçam o que estão vendo, esse é o meu conselho. Vocês são como a águia e o falcão. Se, um ao outro, estiverem amarrados, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde, começarão a machucarem-se. Se quiserem que o amor entre vocês perdure, voem juntos, porém, jamais amarrados. Libere a pessoa que você ama para que ela possa voar com as próprias asas.
“A única verdadeira segurança não se encontra em ter ou possuir, nem em exigir ou prever; e sim na fluidez, na libertação.” ®Sérgio.

domingo, 27 de novembro de 2011

ANTIGA LENDA CHINESA

Na hora de ir para o trabalho, um lenhador dá falta do machado. Observa seu vizinho: tem o aspecto típico de um ladrão de machados, o olhar os gestos e o modo de falar de um ladrão de machados. Mas o lenhador encontra sua ferramenta, que estava caída por ali. E, enquanto torna a observar seu vizinho, constata que não se parece nem um pouco com um ladrão de machados, nem no olhar, nem nos gestos, nem no modo de falar. ®Sérgio.

domingo, 18 de setembro de 2011

A LENDA DA FORMIGA SAÚVA - Recontando Lendas Populares

Diz a lenda, que no tempo de dantes, havia uma formiga que ganhava a vida costurando. E para ajudá-la, nas muitas costuras, ensinava a filha a coser. Quando saía, deixava deveres de costura para a filha. A formiguinha, porém, ignorava o trabalho e ia para o mato juntar uma porção de folhas que trazia para casa. Então pegava a tesoura e começava a cortá-las.
Quando a mãe chegava e encontrava aquele montão de folhas cortadas, agarrava a filha e lhe dava umas boas chineladas. E isso era todo o santo dia. A formiga já não sabia mais o que fazer para corrigir a filha. Até que um dia, muito zangada, pegou uma corda, amarrou-a pela cintura e a outra extremidade da corda ao pé da mesa. Em seguida saiu para entregar umas costuras, trancando a porta.
Tanto fez a formiguinha, tanto esperneou, tanto espinoteou que o nó da corda foi lhe apertando, arrochando-lhe a cintura que quase a corta em dois pedaços.
Quando sua mãe chegou e a viu naquele estado, com a cintura tão fina por causa do arrocho da corda, teve pena da filha e soltou-a.
Mal se viu solta, a formiguinha sem mais conversa correu para o mato, e toca a carregar folhas para cortar em casa. Sua mãe vendo que não ia conseguir corrigi-la do mau costume botou-a para fora de casa, dizendo:
— Arre! Vai-te embora! Tua sina há de ser cortar folhas, até o mundo se acabar.
Por isso é que a formiga saúva tem cintura fina, uma tesoura na cabeça e só vive cortando folhas. ®Sérgio.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A LENDA DO DIABO NA GARRAFA - Recontando Contos Populares

Segundo o que me contou seu Joaquim, numa dessas belas noites de outono, os caboclos que viviam na região mineira do Vale de São Francisco, chamavam de famaliá um diabinho preto, que se conservava preso dentro de uma garrafa. Quem estivesse precisando de dinheiro era só pedir ao diabinho que o dinheiro aparecia na hora. Se por acaso um caboclo estivesse necessitando de um dinheirinho e quisesse aprisionar um famaliá, usava a seguinte receita:
Matava um gato preto e tirava-lhe os dois olhos. Punha cada olho dentro de um ovo de galinha preta e enfiava os ovos dentro de esterco de cavalo, que ainda estivesse quente. Depois o caboclo ia todo dia até perto do monte e dizia: "Ó, diabão! Eu te entrego estes dois olhos de um gato preto para que me sejas favorável nesta apelação: Que deles nasçam dois diabinhos para eu cria-los dentro de uma garrafa e me darem dinheiro na hora da precisão".
Dizia isso durante trinta dias. Ao fim desse tempo, nasciam dois diabinhos, na forma de pequeno lagarto. O caboclo apanhava os diabinhos, colocava-os dentro da garrafa e os alimentava com pó de ferro ou aço moído (Bombril). Aí era só pedir dinheiro em qualquer quantidade, que aparecia na hora.
Conclui seu Joaquim que, embora essa tradição fosse muito combatida pelos religiosos, era muito comum comprar nas feiras, principalmente nordestinas, garrafas com o famaliá. ®Sérgio.
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Nota Sobre o Texto: Como esta lenda veio-me por meio da oralidade, estou recontando-a com o que retive na memória, dentro do meu estilo de prosear. Por isso, há, com toda certeza, versões diferentes.
Imagem: Heliorola.sites.uol.com.br/odiabodagarrafa.jpg

sexta-feira, 8 de maio de 2009

AS LENDAS POLITICAMENTE INCORRETAS

O Branco e o Negro
Deus fez o homem perfeito à sua imagem e semelhança.
O diabo entendeu que podia conseguir obra igual ou ainda melhor.
Tomou um pouco de barro como vira Deus fazer, e começou a trabalhar. Quando terminou a figura, reparou que estava toda ela enegrecida, porque feita pelas mãos dele que são de fogo, saíra cor de carvão e com o cabelo todo chamuscado.
O diabo ficou indignado por não ter podido conseguir uma figura tão perfeita como a que saíra das mãos de Deus e, contemplando enfurecido o boneco, deu-lhe tamanho murro no nariz que o esborrachou.
Deus tinha feito o branco e o diabo fizera o negro, preto como carvão, de cabelo encarapinhado e nariz esborrachado.
O Branco, o Índio e o Negro
Deus criou o branco, o índio e o negro. Quis depois testar as qualidades de inteligência, coragem e destreza de cada um.
Atirou-os a um poço de certa profundidade.
O branco vendo-se em perigo pensou logo no que devia fazer e, aproveitando-se das fendas da terra, agarrou-se as paredes do buraco e, assim, saiu do poço; salvando-se.
O índio, que lhe observara todos os movimentos e expedientes, procurou imitá-lo, mas só pode conseguir o que desejava, subindo as costas do negro.
Mas este, indolente, nada tentou para salvar-se, e deixou-se ficar inativo, sem pedir socorro, sem procurar qualquer recurso, até que veio morrer.
E aí está como Deus, na sua grande sabedoria, fez o negro inferior ao índio e o índio inferior ao branco.
Não menos digna de observação, esta quadrinha popular que pode, também, ser julgada como politicamente incorreta:
Deus quando fez o negro
Começou no calcanhar,
Quando chegou ao nariz
Deu ao diabo para acabar.
O diabo tinha preguiça,
Não queria trabalhar;
Deu um soco no nariz
E o acabou de esborrachar. ®Sérgio.