sexta-feira, 7 de junho de 2013

OS ANIMAIS E A PESTE

Em certo ano terrível de peste entre os animais, o leão, mais apreensivo, consultou um macaco de barbas brancas.
— Esta peste é um castigo do céu – respondeu o macaco – e o remédio é aplacarmos a cólera divina sacrificando aos deuses um de nós.
— Qual? – perguntou o leão.
— O mais carregado de crimes.
O leão fechou os olhos, concentrou-se e, depois duma pausa, disse aos súditos reunidos em redor:
— Amigos! É fora de dúvida que quem deve sacrificar-se sou eu. Cometi grandes crimes, matei centenas de veados, devorei inúmeras ovelhas e até vários pastores. Ofereço-me, pois, para o sacrifício necessário ao bem comum.
A raposa adiantou-se e disse:
— Acho conveniente ouvir a confissão das outras feras. Porque, para mim, nada do que Vossa Majestade alegou constitui crime. São coisas que até que honram o nosso virtuosíssimo rei Leão.
Grandes aplausos abafaram as últimas palavras da bajuladora e o leão foi posto de lado como impróprio para o sacrifício.
Apresentou-se em seguida o tigre e repete-se a cena. Acusa-se de mil crimes, mas a raposa mostra que também ele era um anjo de inocência.
E o mesmo aconteceu com todas as outras feras.
Nisto chega à vez do burro. Adianta-se o pobre animal e diz:
— A consciência só me acusa de haver comido uma folha de couve da horta do senhor vigário.
Os animais entreolharam-se. Era muito sério aquilo. A raposa toma a palavra:
— Eis amigos, o grande criminoso! Tão horrível o que ele nos conta, que é inútil prosseguirmos na investigação. A vítima a sacrificar-se aos deuses não pode ser outra porque não pode haver crime maior do que furtar a sacratíssima couve do senhor vigário.
Toda a bicharada concordou e o triste burro foi unanimemente eleito para o sacrifício. (Monteiro Lobato, Fábulas.)
Moral da Estória: Aos poderosos, tudo se desculpa… Aos miseráveis, nada se perdoa. ®Sérgio.

terça-feira, 28 de maio de 2013

A FELICIDADE E A DEPRESSÃO

“Há uma perpétua distância entre mim e minha alegria e quanto mais procuro vivê-la mais me parece que ela se afasta de mim: como se os esforços que faço para conquistar a luz só servissem para tornar mais espessa e impenetrável à cortina que me separa dela.” (Jacques Lavigne)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A LENDA DO OVO

Vivia num belo país um casal humilde e feliz. O casal tinha tudo o que necessitava para viver em alegria. Um belo casebre, embora pequeno, com um bonito jardim, um rio que passava perto e um belo conjunto de árvores de diversos tipos. Sol brilhava radiante.
Mas um dia a tristeza começou a cobrir a casa. Havia uma coisa que o casal não tinha e desejava muito: filhos. Faltava-lhes o riso e as brincadeiras das crianças. Todos os dias acordavam com o mesmo desejo no coração.
Ora, numa bela noite estrelada, um raio de luz intenso entrou pela janela do quarto. Na sua cauda vinha sentada uma fada.
O casal ficou muito espantado, mas não se assustou porque sabia que a fada era boa. Então a fadinha começou a falar:
— Eu conheço os seus desejos, e já estava à espera que um dia isto lhes acontecesse. Fiz todo o possível para felicidade de suas vidas, mas calculei que não seria o suficiente. Pois bem, vou dar-lhes duas filhas, com dois anos de diferença. Terão de fazer com que elas sejam muito unidas, para que continuem a ser uma família feliz.
— Oh, sim! Nós prometemos boa fada. Isto foi tudo o que sempre desejamos - replicou o casal.
— Aviso-lhes que a tarefa não é fácil. Se o desejarem conseguirão cumpri-la, senão eu voltarei com melhor solução. E com estas palavras a fada desapareceu.
O casal ficou muito feliz e esperou ansiosamente pela chegada da primeira filha.
Um dia, finalmente chegou. Era uma linda menina. Tinha uma pele muito rosada, uns olhos claros e brilhantes e um belo cabelo muito louro, que mais tarde se tornou numa cabeleira loura. A esta filha, o casal deu o nome de Gema.
Tinham desejado tanto esta filha que lhe dedicaram todo o seu amor e acabaram por mimá-la demais.
Gema tornou-se indolente, vaidosa e preguiçosa, mas os seus pais não a achavam assim.
Passaram-se dois anos e a outra filha nasceu. Esta, ao contrário de Gema, não era tão bonita. O cabelo era muito claro, quase transparente como a água, a pele era muito branca - os olhos, esses, eram claros, cintilantes, a única semelhança com Gema. Os pais deram-lhe o nome de Clara.
As duas crianças cresceram felizes e muito brincalhonas, apesar das brincadeiras que Gema fazia a Clara. Elas pareciam gostar muito uma da outra. Gema era muito mais viva e brincalhona que Clara e muito mais forte também. Clara era mais séria e trabalhadora. Gema irritava-se com Clara, pois esta, nem sempre queria brincar, e por isso passava a vida a apoquentá-la.
O tempo foi passando e as maldades crescendo, assim como as arrelias que faziam uma à outra. Quando os pais repararam, já era tarde demais para que conseguissem mudar alguma coisa. A felicidade nunca mais voltou a reinar naquela casa. O tempo passou e a situação mantinha-se.
Um dia a fada voltou:
— Eu avisei-os, a tarefa não era fácil, não quiseram ouvir-me e deixaram que a alegria desaparecesse. Infelizmente, terei que agir e como castigo ordeno que Clara e Gema se unam num só alimento, rico e completo. As duas partes serão indispensáveis e assim vivam em conjunto para sempre.
Dizendo isto, apontou a varinha para Clara e Gema, apareceu uma luz muito forte e quando desapareceu no lugar das duas estava um ovo. E assim, Clara e Gema viveram juntas para sempre, tornando-se úteis para nós. O casal aprendeu bem a lição e a partir daí tiveram muitos filhos e filhas. ®Sérgio.
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Nota sobre o Texto: Alguns contos conseguiram manter suas autorias, outros, porém, como este, pularam das fronteiras do livro e do registro autoral e caíram na memória do povo, em tantas feições e línguas, que acabaram por passar ao domínio de ninguém, isto é, ao uso de todos.

sábado, 25 de maio de 2013

A QUEDA

Seleta de Poemas representa os poemas que li e me emocionaram ou me agradaram no conteúdo. Assim, posso compartilhar com vocês as minhas preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
A QUEDA
É terrível cair.
Não é apenas o orgulho que cai
Quando caímos,
Mas toda a segurança interior
Equilíbrio de cérebro e pessoa.
Caindo nos perdemos;
E alguma coisa fica lá em toda queda.
[...]
Os que já caíram,
No Paraíso, na rua, na História.
Na escada caiu Fidel.
Na aventura da Alice,
Caiu à própria Alice.
Caiu a mãe de Hamlet,
Caem as folhas no outono,
Mais triste quando cai à tarde.
E depois do primeiro homem
E da primeira mulher
Todos os grandes caem
Em seu dia e hora.
Caiu Saul, e Jonas, e Golias,
E também os muros que cercavam
Os poderosos donos de Jericó.
Caiu Tróia e caíram os Romanos.
Há grandeza nos que caem.
Não se respeitam, porém, as decaídas.
A gravidade é a negação da vida
Desde a invenção dos tempos.
Millôr Fernandes (1923) é poeta, desenhista, humorista, dramaturgo, escritor e tradutor brasileiro. ®Sérgio.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

SUPERSTIÇÕES E CRENDICES - Coisas de Nossa Gente

As lendas e crendices de nossa gente. São tão incontáveis e lindas por sua cativante ingenuidade, que não consigo conter o desejo de expor a vocês a minha antologia. Todas as lendas e crendices foram colidas em diversas fontes.
SUPERSTIÇÕES E CRENDICES
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• Quando passa um enterro, não se deve atravessar o acompanhamento, pois isso traz a morte para pessoas da família.
• Pôr o chapéu em cima da cama traz azar.
• Vaga-Lume dentro de casa impede o leite de coalhar.
• Mês de agosto não presta para fazer negócio.
• Varrer a casa à noite causa problemas financeiros ao lar.
• Não tenha coruja em casa porque é ave agourenta.
• Presente de lenço desfaz as amizades.
• Não presta acender só três velas para defunto; deve-se acender quatro.
• Acender muitas velas numa mesa ou numa sala chama defunto e atrai a morte.
• Coser roupa no corpo de pessoa viva atrai a morte.
• Se você e seu noivo já vivem juntos, passem a noite antes do casamento, separados.
• Quando o pedaço de pão cai no chão, não se deve apanhá-lo mais: pertence às almas. A não ser que lhe dê um beijo.
• Não se case em janeiro, para não ter problemas econômicos ao longo da sua vida conjugal.
• Quem pisa em rabo de gato não acha casamento por sete anos.
• Pôr o chapéu em cima da cama traz azar.
Mulher que está amamentando não deve visitar pessoa mordida por cobra. Se o fizer a pessoa morrerá.
• Quem passar por debaixo do arco-íris muda de sexo: o homem vira mulher, e a mulher vira homem.
• Viajar ou fazer mudança em sexta-feira dá azar de toda a espécie.
• Passar por baixo de escada dá azar e atrai desgraças.
• Quando está ventando muito forte é que o diabo está zangado.
• Quando se vê uma pessoa muito preguiçosa, é costume se dizer: Coitado, aquele ali o diabo cruzou os braços.
• Não fique de costa para o umbral de uma porta; dá azar.
• Quando a porta bate forte, após a nossa saída ou entrada em casa, foi o diabo que a fechou.
• Quando várias pessoas estão conversando e param repentinamente, é que algum padre morreu.
• Passar a vassoura, ao varrer a casa, nos pés de moça solteira, atrapalha o noivado ou casamento.
• Não use pérolas no dia do casamento; dizem que elas trazem má-sorte para os noivos.
• Três velas ou três lâmpadas acesas em um mesmo quarto podem ser prenúncio de morte.
Não se deve passar a ferro as costas da camisa de um homem: este se tornará desmoralizado, sem-vergonha etc.
• Colocar a vassoura atrás da porta, de cabeça pra baixo, espanta as visitas.
• Uma pessoa solteira que se senta à quina de uma mesa não se casará nos próximos sete anos.
• Não se deve olhar num espelho à luz de velas, traz azar.
• Guardar espelho quebrado atrai desgraças, dá azar.
• Se um homem levar uma vassourada fica impotente, a não ser que se vingue desferindo 7 vassourada com a mesma vassoura.
• Dentro de casa o guarda-chuva deve ficar sempre fechado. Deixá-lo aberto traz infortúnios e problemas aos familiares.
• Acender três cigarros com um mesmo palito de fósforo significa perigo.
Apontar estrelas com o dedo faz nascer berruga na ponta do dedo.
• Quando desaparece uma coisa qualquer, foi o diabo que levou. O jeito é esperar, porque quando ele não quiser mais, devolve.
• Saltar da cama, de manhã, com o pé esquerdo atrapalha a vida durante o dia todo.
Não presta comer cabeça de galinha: faz perder o juízo.
• Varrer a casa depois de alguém sair afasta os espíritos malignos.
• Casar no mês de agosto é casamento infeliz, porque agosto traz desgosto.
• Redemoinho de vento é diabo que está dançando. E se no redemoinho entrarmos, o diabo nos carrega.
• Não se deve chorar a morte de um anjinho, pois as lágrimas molharão as suas asas e ele não alcançará o céu.
• Perder a aliança do casamento deixa a pessoa viúva ou viúvo.
• Matar gato atrasa a vida de quem o matou por sete anos.
• Marcado o dia do casamento não devem os noivos comer mais qualquer coisa na própria panela em que o petisco foi feito, a fim de que não chova no dia do enlace.
• Colocar criança de colo, que ainda não fala, diante do espelho faz com que ela custe a falar.
• Homem velho que muda de casa, morre logo.
• Nas sextas-feiras, ao nos levantarmos, se virmos uma pessoa preta, o diabo vai nos atentar o dia inteiro.
• Deixar chinelo emborcado no meio da casa dá azar.  
• Coloque vaga-lumes sob um copo, e na manhã seguinte encontrará uma moeda junto deles.
• Varrer uma casa logo pela manhã afasta os espíritos malignos.
Borboleta preta é sinal de que algo de mal vai acontecer.
• Dormir com os pés para a porta da rua agoura morte.
• Duas pessoas juntas lavarem as mãos ao mesmo tempo provoca afastamento e desunião.
• Menino que brinca com fogo urina na cama.
• Não construa casa em local onde caiu raio. O lugar em que cai raio é lugar maldito.
Essas antologias estão reunidas no e-livro: CRENDICES, SUPERSTIÇÕES E SIMPATIAS DE NOSSA GENTE (clique no link para baixá-lo). 

SIMPATIAS E CRENDICES - Coisas de Nossa Gente

As lendas e crendices de nossa gente. São tão incontáveis e lindas por sua cativante ingenuidade, que não consigo conter o desejo de expor a vocês a minha antologia, todas colidas em diversas fontes.
1. SIMPATIAS
Para as moscas mudarem de sua casa, faça em jejum, e, em qualquer sexta-feira pela manhã, o seguinte pedido:
Moscas malvadas,
da sexta pro sábado
estejam mudadas.
Quando beber água de uma fonte, de um poço, ou doutro local qualquer. Diga antes de beber a água:
Aqui passou S. João,
Com uma cruzinha na mão.
Se esta água tiver baba,
Não me chega ao coração.
Quando uma visita está demorando a ir-se embora e começa a aborrecer joga-se um punhado de sal no fogo. A visita vai-se embora logo.
Para emagrecer, amarrar na cintura, por baixo das roupas, um cordão bem fininho.
Devemos sair de casa ou entrar em qualquer lugar, sempre com o pé direito, para evitar o azar.
Na hora de acordar, abra os dois olhos ao mesmo tempo para ver, durante o dia, tudo com clareza e não ser enganado por ninguém.
Quando se perde alguma coisa e não se consegue encontrar, toma-se uma palha de milho e damos-se nela três nós, com o que se amarra o diabo, e o objeto perdido aparecerá. Mas, depois de encontrá-lo não se deve esquecer-se de desmanchar os nós, se não tudo de ruim acontecerá na casa.
Queimar chifre de boi e casca de coco no canto da casa, à noite, espanta o capeta.
Ponha um caroço de melancia na testa e, antes que ele caia, faça um desejo.
Se tivermos um gato e formos mudar de casa, é bom passar manteiga em suas patinhas, para que ele não volte para a casa antiga.
Pôr um chifre de boi estrepado na ponta de um pau, no terreiro, espanta o capeta.
Para garantir muito sol no seu dia de seu casamento, dias antes, leve alguns ovos a uma igreja de Santa Clara.
Quando tiver um tremor, é porque a morte passou por perto de você. Diga rápido: Sai morte, que estou bem forte.
Deixar um copo de vidro cheio de sal grosso no canto da sala traz sorte. ®Sérgio.

sábado, 18 de maio de 2013

PARADOXO - Figuras de Linguagem

Paradoxo é a reunião de idéias contraditórias e aparentemente inconciliáveis, num só pensamento, o que nos leva a expressar uma verdade com aparência de mentira. Quando falamos, por exemplo:
     ●   Eles são ricos pobres.
Tanto "rico" quanto "pobre" são adjetivos que se referem ao sujeito [eles]. Os dois adjetivos pertencem a uma mesma unidade da frase, ambos qualificam um mesmo ser. Mas estes dois adjetivos têm sentidos opostos. Estamos a conciliar dois julgamentos distintos: pensamos na riqueza deles porque têm dinheiro, mas simultaneamente na pobreza, por sabermos do vazio de vida que vivem, ou da aridez de alma.
Todo o paradoxo, em última análise, encerra uma antítese, porém uma antítese especial, que em vez de opor, enlaça idéias contrastantes: Antítese: Eu sou velho, você é moço. Paradoxo: Eu sou um velho moço.
O paradoxo revela-nos que a conciliação de contrários é possível e, por vezes, indispensável para se exprimir a verdade. Exemplos de paradoxos modernos: Inocente culpa / lúcida loucura / silêncio eloquente / ditadura democrática / ilustre desconhecido / um silêncio ensurdecedor / um supérfluo essencial / boatos fidedignos / espontaneidade calculada / mentiras sinceras / É proibido proibir. / Foi sem querer, querendo.
Quando Camões em célebre soneto sobre as contradições do amor, disse que esse sentimento:
“Amor é fogo que arde sem se ver, / É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente, / É dor que desatina sem doer.”
Criou um dos mais bonitos paradoxos do lirismo português. O contrário do paradoxo é o pleonasmo. ®Sérgio.

ANTÍTESE - Figuras de Linguagem

A língua latina, posteriormente, adotou a grafia de antithese, designando oposição, contraste. Antítese é uma figura de pensamento que consiste na aproximação de dois pensamentos de sentido antagônicos, contrários. O contraste pode realizar-se entre palavras, frases ou orações; geralmente ligadas por coordenação:
       Nesta cidade habitam o amor e o ódio.
   Você se preocupa com o passado; eu, com o presente.
   O esforço é grande e o homem é pequeno. (Fernando Pessoa)
   Amigos e inimigos estão, amiúde em posições trocadas. Uns nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos trazem o mal. (Rui Barbosa)
A antítese, em outras palavras, harmoniza dois conceitos contraditórios numa só expressão, formando assim um terceiro. Este recurso expressivo veio a ter extraordinário desenvolvimento no Barroco; foi apreciado por poetas e prosadores, em particular, por Gregório de Mattos, Por exemplo, no poema A Instabilidade das Cousas do Mundo:
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, (antítese: nascer / morrer)
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura, (antítese: feio / belo)
Em contínuas tristezas a alegria. (...)
A antítese realça, dá ênfase a dualidade de sentimentos do poeta. Por isso eles a empregam com frequência. ®Sérgio.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O TROVADOR

Trovador (trouvère em francês) designava na lírica trovadoresca, o poeta completo, que compunha a letra e a melodia das cantigas e também as executava acompanhado de instrumento musical.
O mais das vezes, o trovador pertencia à aristocracia ou era um fidalgo decaído. É precisamente sua condição de nobre que lhe explica a múltipla capacidade, pois ao talento individual acrescentava o estudo apurado das regras da Retórica, da Poética e da Música. Era igualmente de nobres, na sua grande maioria, o público ouvinte. Reis e outros membros da família real partilhavam esse dom da composição poética: tal foi o caso de D. Dinis (chamado o Rei-trovador) a quem se creditam umas cento e trinta e nove canções.
Os trovadores de maior destaque na lírica galego-portuguesa são: Dom Duarte, Dom Dinis, Paio Soares de Taveirós, João Garcia de Guilhade, Aires Nunes e Meendinho.®Sérgio.

A FRITADA DO JOÃO

Era uma vez um fazendeiro que resolveu fazer uma grande criação de galinhas num rancho que tinha lá nas suas terras.
O fazendeiro tinha como capataz um preto velho chamado João e entendeu de encarregá-lo desse serviço, pois, com a idade que tinha, devia ter uma boa prática de criações. Entretanto, receando que João lhe passasse a perna e fosse um gambá de galinheiro, embora morasse há tanto tempo na fazenda, o fazendeiro usou de manha para ver se ele gostava de ovos. Perguntou-lhe:
— João, você gosta de ovos cozidos?
— Eh! Eh! João não gosta nem um pouquinho disso não!
— E de ovos assados na brasa?
— Não sinhô.
— E de ovos estrelados?
— Não, não, sinhô. Eh! Eh!
— E de ovos crus, você gosta João.
— Não, não. Antão João é gambá pra modo de gostá de comê zovo cru?!
Depois dessas respostas do velho, o fazendeiro cegou a conclusão de que João não gostava de ovos de modo nenhum; assim, achou que ele estava no ponto para cuidar do rancho das galinhas e deu-lhe a empreitada.
O velho João tratava muito bem das galinhas e a criação prosperava que dava gosto.
O fazendeiro aparecia por lá de vez em quando e ficava para lá de satisfeito.
Certa vez, João que era um perfeito gambá de galinheiro, estava fritando ovos para o seu almoço quando, de repente, o fazendeiro apontou na porteira que rangeu: rim... ri... im... Depois, dobrou e deu o baque de aviso: blaaaam...
João ficou todo atrapalhado e não tendo mais tempo, nem onde esconder os ovos, que estralavam na frigideira, e vendo que o senhor chegava, despejo-os dentro do chapéu de couro que logo pôs na cabeça.
Muito vexado, correu ao encontro do fazendeiro, que olhando para ele, viu a gordura da fritada escorrendo pela cara abaixo de João. Além do mais, era a primeira vez que o velho lhe falava de chapéu na cabeça. Desconfiado o fazendeiro gritou:
— João, que é isso! Falando de chapéu na cabeça?! Tire o chapéu, João!
O nego velho abobou.
— Vamos tire o chapéu!
João não teve outro remédio senão tirá-lo. Em cima do cabelo da cabeça apareceu a fritada.
— Então, João, que é isso. Mentiu para mim? Pois não me disse que não gostava de ovos?
— Eh! Eh! Senhor! João disse que não gostava di zovo cuzido, di zovo assado, di zovo estrelado, di zovo cru; mas não disse que não gostava di zovo fritangado. João não minte! ®Sérgio.

NA ÉPOCA DAS CAVERNAS


segunda-feira, 13 de maio de 2013

BATEU A OU À PORTA?

Se você bateu a porta, significa que você fechou a porta (a porta é objeto direto do verbo bater):
    ●   Furiosa, Sandra entrou no quarto e bateu a porta.
    ●   Tive de bater a porta com força.
Se você bateu à porta, quer dizer que bateu na porta (à porta = adjunto adverbial de lugar):
    ●   De manhã cedo, bateram à porta de dona Joana.
    ●    Bati à porta, mas ninguém me atendeu.
Belo exemplo do assunto abordado no dá o poeta Cineas Santos: "Quando o amor bate à porta, tudo é festa / Quando o amor bate a porta, nada resta". ®Sérgio.

AULA NO CAMPO

O professor de geografia chamou-me, à porta de minha sala de aula. Interrompi a exposição que fazia aos alunos e fui atendê-lo.
— Pois não!
— Ricardo! Vou levar meus alunos para uma aula de campo na chácara do diretor; escalei você para me ajudar a controlar a meninada no mato! - Explicou o professor.
Luís Carlos, professor de geografia, era um dos bons amigos que fiz naquela escola; não havia como não aceitar o pedido. Concordei com um, OK!
Retornei ao centro da sala, notifiquei e dispensei os alunos, que levaram menos de um minuto para arrumarem suas mochilas, e fui reunir-me com Luís, que já me aguardava no ônibus que levaria a molecada para o campo. Antes, porém, fui até a sala dos professores e guardei no meu armário todos os objetos que porventura poderia perder na mata.
Seguíamos, vagarosamente, por uma trilha, com o professor Luís explicando aqui e ali os acontecimentos geográficos, quando nos deparamos com um riacho e uma ponte estreita feita com dois troncos de árvore, presos ao solo em cada uma das margens. Tipo de ponte que aqui se dá o nome de pinguela.
— Ricardo!... Temos de atravessar!... Vou atravessar primeiro e você só depois que o último aluno atravessar! - Grita-me Luís em meio à algazarra da meninada.
Fiz-lhe um positivo e ele partiu, não sem antes advertir os alunos para tomarem cuidado com os objetos pessoais e, principalmente, com as mochilas. Caso elas caíssem no riacho, seria difícil de recuperá-las, devido à correnteza.
Logo após os primeiros passos na pinguela, o professor Luís, perde o equilíbrio e, se não se agarra a um dos troncos, cairia, inteiro, no riacho. Depois desse incidente, atravessamos a garotada normalmente.
Eu, sem noção do tempo, ali no meio da mata, pois tinha deixado meu relógio na escola, perguntei ao professor Luís quanto tempo faltava para retornamos:
— Não sei mesmo – respondeu-me, constrangido, olhando para a ponte – deixei cair meu relógio, no riacho, ao atravessá-la.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

AS VEZES OU ÀS VEZES?

Usamos o acento grave em às vezes somente quando for uma locução adverbial de tempo (=de vez em quando, em algumas vezes):
  ●   Às vezes (=algumas vezes) ela chora, às vezes ri.
  ●   Costumo ir, às vezes (=de vez em quando), em encontros culturais.
  ●   Às vezes (=algumas vezes), conto para todos.
  ●   Às vezes os alunos acertam esta questão.
   O Flamengo às vezes ganha do Fluminense.
Quando não houver a idéia de [de vez em quando], não devemos usar o acento grave:
   Foram raras as vezes em que ele veio aqui. (as vezes = sujeito)
   Em todas as vezes, ele criou problemas. 

EXTREMA-DIREITA ou EXTREMA DIREITA?

Com hífen, designa o jogador ou a posição no futebol. Nesse caso, o termo extrema é cada uma das zonas laterais do campo, à direita e à esquerda, por onde atuam os extremas (o extrema-direita e o extrema-esquerda) ou pontas (o ponta-direita e o ponta-esquerda).
Sem hífen, é a tendência política.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA E TIRADENTES

Durante os interrogatórios feitos pelo governo português para descobrir "os cabeças" da malograda conspiração mineira, todos os envolvidos procuraram diminuir sua culpa e responsabilizar Tiradentes, o único participante pobre e popular do movimento. Tomás Antônio Gonzaga, por exemplo, que nunca se dera bem com Tiradentes, chega a chamá-lo numa de suas liras escritas na prisão, de «pobre, sem respeito e louco». Gonzaga foi o inconfidente que melhor se deu bem no exterior, tornando-se um verdadeiro magnata no exílio. Casou-se com Juliana de Souza Mascarenhas, herdeira de uma das maiores fortunas de Moçambique, filha de um riquíssimo "traficante de escravos". Quando morreu em janeiro ou fevereiro de 1810, Gonzaga era juiz de alfândega de Moçambique. ®Sérgio.

sábado, 30 de março de 2013

DOCE LEMBRANÇA


A AFLIÇÃO DE ADOLF HITLER - Notas Biográficas

Rudolph Binion (psicohistoriador) em seu livro Hitler Entre os Alemães (1984)¹, considera que o ódio de Hitler pelos judeus teria sido motivado por um incidente ocorrido em sua infância: a morte de sua mãe. Nascido em Braunau, na Áustria, Hitler era o quarto filho de Klara, que perdera os três primeiros, pequeninos ainda, pela difteria. Cinco anos depois de Adolf nascia Edmund, que também morreria (de sarampo), e finalmente Paula, que cresceria junto com Adolf. Klara, em vista da má sorte com os filhos homens, agarrou-se tremendamente ao pequeno Adolf, que ela, também, temia perder. Mãe e filho viviam numa associação afetiva.
Quando Klara desenvolveu câncer de seio, a aflição tomou conta da vida de Adolf. Desesperado, ele decidiu contratar o Dr. Edmund Bloch, famoso médico judeu, de honorários elevados. Este médico deixou como testemunho jamais ter visto um jovem tão transtornado com a já esperada morte de sua mãe. Bloch propõe usar, como única medida para tentar minorar o terrível sofrimento de Klara, a aplicação de gaze embebida em iodo sobre as feridas cancerosas; deixando bem claro que tal medida poderia envenenar a paciente. O jovem Hitler insistiu em que tal tratamento fosse realizado e, de fato, Klara morreu da intoxicação provocada pelo iodo; na verdade, o iodo apenas abreviou o curso de sua morte, muito próxima e inevitável. Hitler sentia-se culpado desta morte e por ter permitido o tratamento. Desde então, passou a nutrir um tremendo rancor pelo médico e, evidentemente pelos judeus. ®Sérgio.
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1- BINION, Rudolph. Hitler Entre os Alemães. Northern Illinois University Press, 1984. Northern Illinois University Press, 1984.