domingo, 24 de julho de 2011

SANGUE LIMPO

— Sou filho de um escravo, e que tem isso? Onde está a mancha indelével?… O Brasil é uma terra de cativeiro. Sim todos aqui são escravos. O negro que trabalha seminu, cantando aos raios do sol; o índio que por um miserável salário é empregado na feitura de estradas e capelas; o selvagem, que, fugindo a colonização, vaga de mata em mata; o pardo a quem apenas se reconhece o direito de viver esquecido; o branco, enfim, o branco, que sofre de má cara a insolência dos mais ricos e o desdém do governo. Oh! Quando caírem todas essas cadeias, quando esses cativos todos se resgatarem, há de ser um belo e glorioso dia! (Ato II, cena 12, da peça Sangue Limpo de Paulo Eiró¹)
Sangue Limpo é um drama que tem por cenário São Paulo nos dias da Independência e situa um caso de amor entre um jovem da burguesia e uma jovem parda. O preconceito é vencido pelo rapaz que se rebela contra o pai, ao mesmo tempo em que este é assassinado por Rafael, um negro que jurara nunca mais "ajoelhar-se aos pés de um senhor".
   Na cena 12 do ato II, temos a fala em que Rafael, irmão da jovem mestiça, responde ao "Senhor" que lhe perguntara se corria sangue escravo em suas veias. ®Sérgio.
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1 - Paulo Eiró (1836-1871), foi poeta e dramaturgo.

sábado, 16 de julho de 2011

AS REGÊNCIAS DO VERBO AGRADECER

Nós aprendemos a regência naturalmente, intuitivamente, no dia-a-dia. Ninguém precisou ensinar para nós que quem gosta, gosta de alguém. Ou que quem concorda, concorda com alguma coisa. Ou que quem confia, confia em algo. E assim por diante. Só que a gramática, muitas vezes, estabelece formas diferentes das que utilizamos na linguagem cotidiana, como as que veremos abaixo:
1ª. Com o sentido de mostrar-se grato por alguma coisa, é transitivo direto. Use-o sem preposição:
   Agradeceu o favor recebido.
   Agradeço o favor que me prestou.
   Agradeço a audiência recebida.
   Agradeço as flores que me enviou.
   Agradecemos o bom atendimento.
2ª. Com sentido de demonstrar gratidão a alguém, é transitivo indireto. Use-o com a preposição [a]:
   Agradeço aos ouvintes.
   Já agradeci aos que me ajudaram.
   Recebi o livro e ainda não lhe agradeci. (lhe = a você)
   A empresa agradece aos funcionários.
3ª. Com o sentido de demonstrar gratidão "a alguém" por "alguma coisa", é transitivo direto e indireto:
   Agradecemos a V.S.ª (indireto) / o convite (direto).
   Agradecemos ao Senhor (indireto) / as bênçãos (direto) recebidas.
   Agradeço ao chefe / a carta de recomendação.
   Agradeceu-lhe (= a ele) o convite.
   Agradeceu-lhes (= a eles) a gentileza.
   Agradeceu a Deus (indireto) a graça alcançada (direto).
Observação: Como se agradece sempre a alguém, não existe a forma "agradecê-lo", mas apenas agradecer-lhe. ®Sérgio.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O SOL DA MEIA-NOITE

O poeta e diplomata João Cabral de Mello Neto (1920-1999), estava sempre a dizer que uma de suas grandes frustrações era não ter sido jornalista. Aos 16 anos foi rejeitado por um jornal. A rejeição lhe afetou tanto que, segundo ele, uma enxaqueca do lado esquerdo passou a lhe incomodar por 50 anos. Dor que médico nenhum foi capaz de detê-la.
Ouviu muitas recomendações de simpatias. Entretanto, atendeu a sugestão de um parente, que lhe recomendou um sanatório. "Foi uma internação que durou cerca de seis meses. Mas apesar disso – dizia – não produziu qualquer resultado positivo. Só deixou más lembranças".
Sem esperança de cura, o poeta apelou para a aspirina. Passou a tomar 10 comprimidos por dia; um a cada 4 horas, regularmente; o que o impedia de ter uma noite de sono inteira. Contudo, vivia agradecido a pírula, que passou a chamar de "sol artificial" e a homenageou no inusitado poema Num Momento a Aspirina:
Claramente, o mais prático dos sois,
O sol de um comprimido de aspirina;
De emprego fácil, portátil e barato,
Compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente por que, sol artificial,
Que nada limita a funcionar de dia,
Que a noite, não expulsa, cada noite,
Sol imune às leis de meteorologia,
A toda hora em que se necessita dele
Levanta e vem (sempre num claro dia):
Acende, para secar a aniagem da alma,
Quará-la, em linhos de meio-dia.
Convergem: a aparência e os efeitos
Da lente do comprimido de aspirina:
O acabamento esmerado desse cristal,
Polido a esmeril e repolido a lima,
Prefigura o clima onde ele faz viver
E o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
De uso interno, por detrás da retina,
Não serve exclusivamente para o olho
A lente, ou o comprimido de aspirina:
Ela reenfoca, para o corpo inteiro,
O borroso de ao redor, e o reafina.
Mas, 10 comprimidos ingeridos ao longo de 50 anos, só podia causar, ao trato digestivo, úlceras. Então chegou o dia que o poeta pernambucano necessitou de uma cirurgia emergencial. Mas, como há coisas que não tem explicação, João após a cirurgia, aos 66 anos, pode comemorar o desaparecimento da dor de cabeça. ®Sérgio.

terça-feira, 5 de julho de 2011

ALFINETADAS LITERÁRIAS

Harold Bloom (1930), autor de Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes de Todas as Idades, em uma entrevista pública, provoca abertamente Joanne Kathleen Rowling (1965), conhecida como J. K. Rowling e autora dos sete livros da famosa e premiada série Harry Potter: "Como ler Harry Potter e a Pedra Filosofal? Rapidamente, para começar, e talvez também para acabar logo. Por que ler esse livro? Presumivelmente, se você não pode ser convencido a ler nenhuma outra obra, Rowling vai ter que servir".
Oscar Wilde também não deixou por menos; perguntado sobre Alexander Pope (1688-1744) um dos maiores poetas britânicos do século XVIII, disparou: "Existem duas formas de se odiar poesia: uma delas é não gostar, a outra é ler Pope". ®Sérgio.
Salve-se quem puder!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A COLHEITA DO DIABO - Recontando Contos Populares

São Pedro morava ao lado da casa do diabo. Quando chegou o tempo da colheita de batatas doces na chácara de São Pedro, este chamou o diabo e perguntou-lhe:
— Quer ajudar-me a colher as batatas? Eu lhe darei metade da produção.
O diabo pensou um pouco e achando que era bom negócio, respondeu:
— Está bem. Vamos fazer a colheita.
Saíram com o sol saindo, e, ao chegarem à horta onde estavam plantadas as batatas doces, São Pedro perguntou ao diabo:
— Agora, você tem de escolher: quer ficar com a metade de cima da terra, ou com a metade debaixo?
O diabo respondeu:
— Ora essa! Quero ficar com a metade de cima da terra!
Sem mais delongas, São Pedro aceitou o acordo:
— Está bem; pode colher sua parte; quando terminar, virei colher a minha!
De daí, depois que o diabo cortou todas as ramas de batata doce e as levou para a casa dele, São Pedro voltou ao terreno e arrancou as batatas que tinham ficado debaixo da terra. Satisfeito com a colheita, ofereceu um grande almoço e até convidou o diabo para à sua mesa. O diabo, que não conseguiu comer as ramas colhidas, ficou alumiando de raiva e com muita inveja do santo, prometendo a si mesmo que se vingaria.
Passados alguns dias, São Pedro encontrou-se novamente com o diabo e perguntou-lhe se queria ajudá-lo a colher repolhos de sua horta. O diabo aceitou imediatamente, mas foi logo dizendo que dessa vez seria ele a ficar com a parte debaixo da terra. São Pedro que não é bobo - concordou. Então, o seguinte é esse: irei colher minha parte e deixarei a sua no terreno.
E, São Pedro colheu todas as bonitas cabeças de repolho, deixando para o diabo somente as raízes.
O diabo, se sentido logrado outra vez, redobrou a vontade de vingar-se do santo e aceitava todos os convites que este lhe fazia para colher os produtos de sua chácara, mas nunca acertava na escolha: quando a planta dava em cima da terra, ele preferia a parte debaixo; quando dava embaixo, ele preferia a parte de cima. E assim, fez as colheitas de mandioca, de alface, de amendoim, de tomates e outras tantas.
Todos os dias, depois que passaram esses, o diabo está pelejando para ver se engana São Pedro - sem conseguir. ®Sérgio.

O TERMO BARDO

Atualmente o termo "bardo" é usado como sinônimo de "poeta". Entretanto, originalmente, esse vocábulo significava – entre galeses, irlandeses e escoceses – a espécie de poetas e cantores, que empregavam o talento para elogiar os príncipes e reis, celebrar feitos de guerra e conservar a memória das classes aristocráticas. Alem disso, elaboravam, às vezes, poesia de cunho satírico. Não seria sem razão dizer que o "bardo" correspondia ao "trovador" da poesia trovadoresca.
Lá pelo século VI, alguns brados emigraram para a Betranha francesa, levando seus poemas e canções. Ora prestigiados, ora em desgraça, conseguiram se mantiver até o século XVIII, então reduzidos a condição de vagabundos ou mendigos. ®Sérgio.

sábado, 25 de junho de 2011

VOU FAZER UMA COLOCAÇÃO

O termo colocação é um modismo da linguagem popular muito usado atualmente em assembleias, reuniões e debates de agremiações não científicas. Não faz parte da linguagem culta. Portanto, se em uma reunião alguém pede a palavra e diz: "Gostaria de fazer uma colocação bastante polêmica". Ele está usando um modismo não recomendado pela gramática, principalmente para os textos formais. A terceira edição do dicionário Aurélio¹ já registra colocação como brasileirismo popular.
As palavras colocar e colocação devem ser usadas no sentido de arrumação, disposição, lugar. Elas não equivalem à observação, sugestão ou ideia:
   Ficou na segunda colocação.
   Não gostei da colocação do quadro acima do sofá.
   Conseguiu uma colocação na farmácia de um parente.
   Arranjou uma boa colocação no banco.
   Colocou a bola na marca do pênalti.
   Vou colocar o livro na estante.
No caso do vou fazer uma colocação, use termos mais precisos, como: exposição, argumentação, opinião, observação, afirmação...
   Posso fazer uma observação [e não: colocação] sobre este assunto
 Gostaria de fazer uma observação / afirmação / exposição [e não: colocação] bastante polêmica.
   Ele fez uma observação / afirmação [e não: colocação].
  Era uma observação / afirmação / exposição [e não: colocação] equivocada. ®Sérgio.
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1 - Novo Aurélio Século XXI: o Dicionário da Língua Portuguesa. 3a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1999.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O TERMO ADÁGIO

Adágio é o mesmo que os conhecidos ditos, provérbios, sentenças ou máximas, que segundo o filósofo alemão Friedrich Von Schlegel, um dos grandes teóricos do romantismo, é "a maior quantidade de pensamento no menor espaço". Não raro, o adágio registra a experiência culta dos Antigos, universalmente difundida. Quando o adágio tem origem não literária, diz-se adágio popular.
Um dos adagiários mais famoso é o Adágios (1500-1506) escrito por Erasmo de Roterdã (1466-1536), que compila mais de quatro mil sentenças colhidos nos autores da Antiguidade Greco-latina.
O termo adágio também é usado (ainda) na linguagem musical, para indicar um movimento vagaroso e gracioso. ®Sérgio.

sábado, 18 de junho de 2011

UMA JANELA PARA O MUNDO

"Tenho muitas deficiências físicas, mas no jogo Star Wars Galaxies posso pilotar uma moto voadora, enfrentar monstros ou, simplesmente, encontrar os amigos em um bar. Minha vida real é bem mais limitada. Como os movimentos de minhas mãos são restritos, não consigo pressionar as teclas de um teclado normal. Por isso uso um teclado virtual que me permite conversar on-line com outros jogadores. A tela do computador é a minha janela para o mundo. Online, não importa a aparência. Os mundos virtuais reúnem as pessoas – e todos estão na mesma situação (é uma pena que nem todos pensem assim) [opinião minha]. No mundo real, elas podem se sentir desconfortáveis perto de mim antes de me conhecer e descobrir que, sem levar em conta a aparência, eu sou como elas. Aí está uma vantagem da internet: é possível interagir com alguém antes de conhecê-lo fisicamente. Assim, uma pessoa é conhecida por suas ideias e personalidade, não pela aparência física. Num encontro de jogadores em 2002, a Ultimate Online Fan Faire, em Austin, percebi que as pessoas ficaram intrigadas, mas agiam como se eu fosse uma delas. Elas me trataram como igual, como se eu não fosse do jeito que sou – quer dizer, deficiente e em uma cadeira de rodas. Éramos todos apenas jogadores."
(Jason Rowe, 32 anos, Texas, Estados Unidos)
Em nossas leituras, de repente, “damos de cara”, com pequenas coisas que nos atinge de dentro e penetra as íntimas fibras do nosso ser e nos deixa envergonhados por acharmos que a vida, ás vezes, nos é injusta.
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Fonte e imagem:

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O CÉREBRO INIMITÁVEL

"A consciência baseada em silício, se ela algum dia surgir, certamente se manifestará de formas muito distintas daquelas exibidas pela versão humana. [...] Nossa peculiar história evolutiva não pode ser comprimida em nenhum algoritmo computacional, um fato que elimina qualquer esperança de que máquinas, simulações computacionais ou formas artificiais de vida poderiam ser sujeitas a uma lista idêntica de pressões evolutivas, geradas por qualquer código de computador ou outra máquina criada pelo homem. [...] Por carregar o legado de sua própria história impresso dentro de seus circuitos, o cérebro recebeu como recompensa a imunidade mais poderosa contra possíveis tentativas de copiar seus mais íntimos segredos e arte."
Trecho do livro Muito Além do Nosso Eu, do neurocientista Miguel Nicolelis. 

domingo, 12 de junho de 2011

O ENTERRO DO BOIADEIRO - Recontando Contos Populares

Certo dia, lá pros lados do sertão de Minas, morreu Bastião Boiadeiro. Caboclo novo ainda. Os parentes se debulharam em lágrimas. Houve muita tristeza entre os amigos boiadeiros. Mas Bastião tinha que ser enterrado. Chico do Laço, seu amigão do peito, arrumou mais cinco caboclo para carregar o corpo do defunto até o cemitério de Rio Claro. Caminho longo de quase quatro léguas. Botaram Bastião numa rede, onde passaram uma vara bem grossa e, dois a dois, foram carregando o amigo até a cidade dos "pés juntos". Vencida obra de duas léguas, o cansaço era muito. Por isso, diminuíram um pouco a marcha, porém continuaram a andar. O dia também andava. Chegou à tardezinha. O sol se some. À noite veem; não dá para chegar a Rio Claro antes do fechamento do cemitério. O negócio é descansar e continuar no rompante da manhã.
Colocaram o morto num canto, e cada qual se ajeitou como podia. Logo, puxavam um ronco danado. Cansaço dos diabos. Só o Chico Boiadeiro, pesaroso com a morte do amigo e medroso como ele só, não consegue pegar no sono e fica apreciando a lua cheia que alumiava até passeio de pulga no chão. Lá pelas tantas, com os olhos ainda arregalados, vê uma coisa que o deixou de cabelos em pé. O morto se levanta e meio no ar vem em direção ao grupo de amigos, no rumo dele. Passa por cima de um. Passa pelo outro e mais outro, até passar pelo quinto. Tudo muito vagaroso, como deve de ser um fantasma. Quando Bastião vai passar por cima do Chico, este não se contém e apronta o maior berreiro, soltando guinchos como os de boneca rapidamente apertada na barriga.
— Por amor de Deus, Bastião! Vai pro seu corpo, diabo! Cruz credo!... Avemaria!... Será possível, meu senhor?!
Com a gritaria do Chico Boiadeiro, os companheiros acordam querendo saber o que foi...
Chico explica bem explicadinho. Alguns acharam graça e outros ficaram com a pulga atrás da orelha, preocupados. Um deles foi o Italívio:
— Óia, gente! Isso é castigo de Deus. O morto num discansô até agora porque a gente num interrô ele. Bastião deve tá devera puto da vida com a gente!
E o diacho é que ele passô inriba de nóis, né sô? Tocou no crucifixo que no peito trazia... e continuou. Isso é mau siná. Queira Deus que certas coisa que o povo fala seja só boataria...
Foi o que conseguiu completar Manuel, todo cismado, o primeiro que o espírito do Bastião passou por cima. Daquela hora pra frente ninguém mais dormiu. Só o Deodoro que, de madrugadinha, conseguiu tirar uma pestana. Afinal, ele não acreditava nas lorotas que o povo contava.
— Deixa de bobage, gente! Larga de mão disso! Quem morreu, morreu! Num vorta mais. O Chico tava era com sonhação!
Saíram com o sol saindo, e, na metade da manhã chegaram com o corpo frio e duro do Bastião no cemitério. Enterraram o amigo. Passaram num boteco para molhar a goela e se mandaram de novo, estrada a fora, rumo do sertão, cada qual pro seu canto.
É crença no sertão de que, quando se vai levar um defunto para enterrar, não se pode parar. Pra nada. Parar é desgraça na certa para os carregadores.
Dê daí, ô gente... o Chico Boiadeiro, naquele ano, teve que fazer o mesmo trajeto de carregamento de defunto mais cinco vezes. ®Sérgio.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O APÓCRIFO

Apócrifo, do Grego, apókryphos = oculto. Primitivamente, esse termo designava os textos que eram mantidos secretos, escondidos, como o Livro das Sabinas, na Roma Antiga.
Com o advento do cristianismo o termo passou a caracterizar os textos bíblicos isento de "inspirações divinas" e, por isso, não incluído nas escrituras, como o Livro de Enoch, Vida de Adão e Eva, de Salomão, pertencentes ao Antigo Testamento; Atos de Mateus, Apocalipse e Evangelho de Pedro, do Novo Testamento.
Modernamente, toma-se apócrifo como sinônimo de textos falsos, não autênticos, ou seja, falsamente atribuído a determinado autor, ou ainda de autor incerto. ®Sérgio.

A APOSIOPESE - Figuras de Linguagem

A Aposiopese - do Grego, aposiópesis = silêncio súbito - consiste na suspensão de um pensamento já iniciado, por meio de um corte repentino ao perceber que vai adiantar raciocínios, surpresas, ou quando pretende dar ênfase as suas palavras, ou ainda quando se dá conta que vai dizer mais do que deseja. De modo geral, a aposiopese, se evidencia, graficamente, pelas reticências.
"Seria inútil querer dissuadi-la, e ainda que não fosse inútil, seria desarrazoado, porque uma viúva moça... Ela amava muito o marido, não?" (M. Assis, Ressurreição)
"Deus tenha misericórdia de mim! E esse homem... Jesus! Esse homem era... esse homem tinha sido..." (Garrett, Frei Luís de Souza) ®Sérgio.

A LENDA DA JOVEM ARACNE

Numa antiga região da Ásia Menor chamada de Lídia, vivia uma jovem de nome Aracne, que tinha uma extraordinária habilidade e grande reputação na arte de tecer e bordar.
As tapeçarias que desenhava eram tão belas e perfeitas que pessoas vinham de terras distantes só para contemplá-las. Devido a tanta admiração, Aracne começou a comparar-se à Atena - deusa das fiandeiras – e que seria capaz de derrotá-la na arte da tecelagem. Quando a notícia chegou ao Olimpo, Atena ficou furiosa com a petulância da mortal. Sentiu-se desafiada e resolveu aceitar a competição com Aracne, para ver quem merecia de fato ser considerada a melhor na arte de bordar. Antes, porém, a deusa disfarçou-se de uma humilde velhinha e foi ter com Aracne. Pediu-lhe que a escutasse, devido à experiência de sua idade avançada: "Busque entre os mortais toda fama que desejar, mas reconheça a posição da deusa". Aracne, entretanto, não aceitou os conselhos da deusa, e, mais uma vez, a desafiou, dizendo: "Por que motivo sua deusa está evitando competir comigo"? Nesse momento, Atena tirou o disfarce e todos, ao redor, ficaram surpresos, exceto Aracne, que permaneceu impassível. As duas, então, dão início à competição.
 Ambas trabalharam com rapidez e habilidade. Atena representou sobre a tapeçaria os doze deuses do Olimpo em toda a sua majestade e para aviso da sua rival acrescentou nos quatro cantos a representação de quatro episódios mostrando a derrota dos mortais que tinham ousado desafiar os deuses. Aracne ousou ilustrar sobre o seu trabalho as conquistas amorosas de Zeus. Sob a forma de touro, arrebatando Europa; sob a forma de águia, abordando Astéria; sob a forma de cisne, conquistando Leda; sob a forma de sátiro, fazendo amor com Antíope; Zeus fazendo-se passar por Anfitríon para seduzir Alcmene, mãe de Heraclés (Hércules); Zeus, o pastor que fez amor com Mnemosine, mulher-titã; e, ainda, Zeus conquistando Egina, Deméter e Danae, disfarçado de chama, serpente e chuva de ouro, respectivamente. Isso deixou Atena tão enraivecida que rasgou em pedaços o trabalho e golpeou, com o bastão de tecer, a cabeça Aracne. Ultrajada e desesperada, Aracne enforca-se.
Atena, ao ver o que sua cólera havia provocado, compadeceu-se de Aracne e transformou a corda que ela usara para enforcar-se numa teia. Em seguida, derramou sobre Aracne fluidos retirados das ervas da deusa Hecate e transformou-a em uma aranha. Dessa forma, Aracne foi salva da morte e, embora condenada a ficar dependurada em sua teia, a fiar e a tecer para sempre. ®Sérgio.

terça-feira, 7 de junho de 2011

TESTANDO NOSSA PACIÊNCIA

Estamos vivendo um século das grandes conquistas tecnológicas. Apesar disso, quem se dispõe a abrir um CD recém-comprado, enfrentará um grande desafio se não tiver a mão um objeto cortante. Embora o plástico seja fininho, rasgá-lo é um teste para cardíaco.
Pior é o saquinho de sachê de ketchup, mostarda e maionese. Sem chance de você conseguir rasgar aquela pontinha sugerida pelo produto, principalmente se a mão estiver um tanto engordurada pelo sanduíche.
No pacote de bolacha, ao puxar a "abinha" identificada com os dizeres "abra aqui", automaticamente, duas bolachas serão sacrificadas no topo desprotegido da embalagem.
No copo de água mineral, a tampa de alumínio parece ter sido soldada ao copinho.
E a bandeja de frios? Encontrar a ponta do plástico é tarefa impossível.
Não podemos esquecer-nos da tampa do vidro de azeitona e outros similares. É rezar para vencê-la, ou ganhar um pulso aberto.
Pois é, apesar de tanta tecnologia, simples embalagens parecem que foram unicamente projetadas para dificultar nossa vida e testar nossa paciência. Não é mesmo? ®Sérgio.

sábado, 4 de junho de 2011

QUE LEITE MAMOU MEU PROCESSO?

Dizem que quem é criado no sertão com leite de cabra, fica ligeiríssimo no correr. Estou considerando que leite mamou meu processo na mão dos juízes e seus oficiais, pois não há remédio que o faça correr. Decerto bebeu leite de preguiça, que gasta dois dias em subir a uma árvore e outros dois em descer.
O processo a cada passo para e dorme. Dois meses para entrar o papel, e parou; outros dois para subir a consulta, e tornou a parar; outros dois para descer abaixo, e outra vez parado. Mais tantos meses para se consultarem os autos, mais outro tanto para se formar a resolução, mais tantos anos virão, para embargos, apelações, suspensões, dilações, vistas, revistas, réplicas, tréplicas... Já eu digo, não por ironia, senão por boa verdade: "Oh! Preguiça da Justiça"! ®Sérgio.
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Baseado no fragmento do texto Dá Duas Vezes quem Dá Logo do Padre Manuel Bernardes (1644-1710). In: Marques Rebelo, org. Antologia Escolar Portuguesa. Rio de Janeiro, FENAME/MEC, 1970. P.261.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

AS MULHERES DE IDI AMIN DADA

Idi Amin Dada Oumee (1925-2003) foi lider militar e ditador de Uganda de 1971 a 1979. Tinha um temperamento megalômano, vingativo e violento. Quando Idi Amin se interessava por uma mulher, e esta fosse casada ou noiva, ele, simplesmente, ordenava a execução de seu marido ou noivo. As mulheres que não se submetessem aos seus caprichos eram estupradas, tinham os seios extirpados e poderiam até acabar dentro de uma geladeira. Sua quinta esposa, Sarah Amin, revelou ter visto no congelador do ditador a cabeça de uma de suas amantes, uma jovem muito bela chamada Ruth. Ela havia tido esse triste fim porque Idi suspeitava de sua fidelidade. Divorciou-se das três primeiras esposas porque elas haviam se tornado mulheres de negócios – o que era verdade, já que administravam tecelagens que ele próprio lhes havia dado. Chegou a surrar tão fortemente uma de suas esposas que fraturou o próprio pulso – e não perdoava as mulheres nem mesmo quando estavam grávidas. ®Sérgio.

domingo, 29 de maio de 2011

O DISFEMISMO - Linguagem Figurada

O Disfemismo é, simplesmente, o oposto do eufemismo. Enquanto no eufemismo ocorre a substituição de uma palavra ou expressão rude, desagradável, por outra de sentido agradável ou menos chocante, no disfemismo há uma substituição de termos normais por outros mais vulgares, rudes, desagradáveis:

   A esta hora, os mineiros soterrados, já bateram as botas.
   Aí vem a Olívia palito. (Olívia palito = pessoa magra)
   Quem é que vai querer dançar com um pintor de rodapé?
   Depois de muito sofrimento foi para a terra dos pés juntos.
   Ela está, a esta hora, começando a apodrecer, não a perturbemos.
O disfemismo é comumente empregado na oralidade. ®Sérgio.

A DEPRECAÇÃO - Linguagem Figurada

A Deprecação consiste em exprimir uma súplica comovente, ardente, ou um convite, por meio de uma oração. A deprecação acontece, frequentemente, nas súplicas religiosas, face às calamidades ou a algo de trágico:
"Ó cristãos, pelas chagas de Cristo, e pelo que deveis a vossas almas, que não queirais que vos aconteça tão grande infelicidade [...]" (A. Vieira)
Um belo exemplo de deprecação está neste fragmento de Inocência de Visconde de Taunay:
"Minha Nossa Senhora, mãe da Virgem que nunca pecou, ide adiante de Deus. Pedi-lhe que tenha pena de mim, que não me deixe assim nessa dor cá de dentro tão cruel. Estendei vossa mão sobre mim. Se é crime amar Cirino mandai-me a morte. Que culpa tenho eu ao que me sucede? Rezei tanto para não gostar desse homem!" ®Sérgio.

A IMPRECAÇÃO - Linguagem Figurada

A Imprecação é uma figura de pensamento que consiste em exprimir uma ameaça ou uma maldição ditada pela raiva, desespero, ou desejo de vingança, rogada contra uma pessoa ou entidade. Não se trata de um diálogo e sim de um monólogo, pois apenas um dos interlocutores é quem a faz. Este fala para acusar, ameaçar, ou injuriar. O outro interlocutor é passivo, apenas, escuta não se defende, não tem o direito a palavra. Sente-se incapaz de reverter a situação:
   Que o Diabo te carregue!
   Vai para raio que te parta! 
   Que você fique seca como palha!
   Desejo-te tantos anos de vida, como os que me desejas!
   Que você viva a vida toda desassossegada, como fez com a minha!
   Maldita a hora em que meus olhos te enxergaram!
A imprecação também pode aparecer em maus exemplos de oração:
Entre o Cálice e a Hóstia
Meu Deus, eu vos peço:
Que fulano tenha tantas fadigas
Como as que afligem a mim. ®Sérgio. 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A PARÁBOLA - Figuras de Linguagem

A Parábola (do Grego parabolê = comparação, alegoria) é uma narrativa curta, não raro, confundida com o apólogo e a fábula em razão do conteúdo moral explícito ou implícito que encerra e de sua estrutura dramática. No entanto, a distinção das outras duas se faz pelo fato de a parábola ser protagonizada por elementos humanos.
Parábola é uma prosa altamente metafórica que realça fatos que sirvam de comparação a outros de conteúdo moral. Serve de uma lição ética indireta ou simbólica.
A parábola é, geralmente, inventada; entretanto, um acontecimento histórico também pode servir de parábola. Ninguém se serviu de maneira mais perfeita e frequente da parábola do que Jesus Cristo. As parábolas do Evangelho adquiriram um sentido tão exemplar que seria impossível um princípio ou uma verdade mais objetivo:
"Como vês a palha no olho de teu irmão, e não vês a trave* (lasca de madeira) no teu? Como ousas dizer a teu irmão: deixa-me tirar a palha do teu olho, quando tens uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trava de teu olho, então tratarás de tirar do olho de teu irmão (Mt 7,1-5)."
A trave representa o defeito que ignoramos ou tentamos ignorar em nós mesmos e palha é o defeito que apontamos nos outros.
"Eis que o semeador saiu a semear. E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho; foi pisada, e as aves do céu a comeram. Outra caiu sobre a pedra; e, tendo crescido, secou por falta de umidade. Outra caiu no meio dos espinhos; e, estes, ao crescerem com ela, a sufocaram. Outra, afinal, caiu em boa terra; cresceu e produziu a cento por um" (Lucas 8:5-8).
Jesus assim explicou essa parábola: "A semente é a palavra de Deus. A que caiu à beira do caminho são os que a ouviram; vem, a seguir, o diabo e arrebata-lhes do coração a palavra, para não suceder que, crendo, sejam salvos. A que caiu sobre a pedra são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria; estes não têm raiz, creem apenas por algum tempo e, na hora da provação, se desviam. A que caiu entre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer. A que caiu na boa terra são os que, tendo ouvido d bom e reto coração retêm a palavra; estes frutificam com perseverança" (Lucas 8:11-15).
Fica explicito, portanto, que não obstante haver exemplos profanos, a parábola é exclusiva da Bíblia. ®Sérgio.

NÃO SE ENGANE...

"Não se engane", diz o Dr. Edward M. Hallowel¹, "a Internet e o telefone celular não economizam tempo, apenas aceleram o nosso já movimentado ritmo de vida. Ficamos maravilhados com a velocidade da Internet e adotamos seu ritmo instantaneamente; sentimos-nos obrigados a obter respostas imediatas, ou seja, abrir e responder e-mails e mensagens eletrônicas por impulso. Devemos preencher nossas horas de folga com tarefas agradáveis e não com obrigações".
Há uma frase, título de um livro, do qual não me recordo mais o autor, que resume em poucas palavras todo o assunto tratado nesse texto: A vida é incerta... coma a sobremesa primeiro! ®Sérgio.
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1 - Dr. Edward M. Hallowel é especialista no diagnóstico e tratamento do transtorno do déficit da atenção.

domingo, 22 de maio de 2011

PROJETADAS PARA DIFICULTAR NOSSAS VIDAS

Estamos vivendo o século das grandes conquistas tecnológicas. Apesar disso, quem se dispõe a abrir um CD recém-comprado, enfrentará um grande desafio se não tiver a mão um objeto cortante. Embora o plástico seja fininho, rasgá-lo é um desafio.
E o saquinho de sachê de Ketchup, mostarda e maionese. Sem chance de você conseguir rasgar aquela pontinha sugerida pelo produtor, principalmente se a mão estiver um tanto engordurada pelo sanduíche. Tem mais:
No pacote de bolacha, ao puxar a "abinha" identificada com os dizeres "abra aqui", automaticamente, duas bolachas serão sacrificadas no topo desprotegido da embalagem.
No copo de água mineral, a tampa de alumínio parece ter sido soldada ao copinho.
E a bandeja de frios? Encontrar a ponta do plástico é tarefa impossível.
Não podemos esquecer-nos da tampa do vidro de azeitonas e outros similares. É rezar para vencê-la; mesmo os mais fortes.
Pois é, apesar de tanta tecnologia, simples embalagens parecem que foram simplesmente projetadas para dificultar nossa vida. ®Sérgio.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O TRENZINHO DAS MOSCAS BÊBADAS

Descobri algo que me deixou pasmado e, com certeza, vai afastar-me, para sempre, da companhia dos amantes de uma boa cachaça. Vejam:
Cientistas da universidade do Estado da Pensilvânia, para entender como o álcool atua no nosso sistema nervoso, resolveram embriagar as moscas-das-frutas, conhecidas cientificamente como drosófilas, um dos organismos mais propícios a experiências de laboratório.
Como eles realizaram a experiência? Trancafiaram as inofensivas mosquinhas dentro de uma câmara de plástico apelidada de bar das moscas (em inglês flypub) e tacaram dentro da câmara vapor de álcool. Pois foi aí que aconteceu o inimaginável. As mosquinhas (machos), completamente bêbadas, ficaram grandemente excitadas e... atacaram furiosamente as fêmeas. É o que se esperava, não é mesmo? Porém não foi isso que aconteceu. "Ababacados", os cientistas viram com seus próprios olhos (desculpe a redundância) os machos se cortejarem, ou seja, passaram a fazer, mutuamente, aquele convite indecoroso que normalmente fazemos somente as mulheres. Pior, chegaram a formar "trenzinhos", um subindo sobre o outro.
Passada a bebedeira, os machos voltaram a acasalarem normalmente, isto é, com suas parceiras. Mas... a caneca já tinha sido virada... ou algo semelhante.
Pois bem, os cientistas concluíram que o álcool, afeta da mesma forma o sistema nervoso dos seres humanos.
Salve-se quem puder!
Se eu fosse você meu amigo, largava, agora mesmo, de tomar aquele chopinho com a rapaziada. Ou faça como eu, que estou tomando minha cachaça somente em companhia da minha parceira e em lugar reservado. ®Sérgio.