quinta-feira, 24 de março de 2011

ACREDITE SE QUISER

O bispo Irlandês James Ussher (1581-1656) somou a idade dos profetas e fixou a criação do mundo na noite que antecedeu o dia 23 de outubro de 4004 a. C., às nove horas, um domingo, no calendário Juliano. Ussher calculou também o dia da expulsão de Adão e Eva do Paraíso (segunda-feira 10 de novembro de 4004 a. C.) e a data em que a Arca de Noé encalhou no monte Ararat depois que as águas do dilúvio baixaram: quarta-feira, cinco de maio de 2348 a. C. ®Sérgio.

sábado, 19 de março de 2011

O HOMEM QUE FAZIA SAL - Recontando Contos Populares

Este causo se deu no tempo de Reis e Rainhas. Nesse tempo, que já se foi, havia no mundo uma carestia de sal. Não havia lugar onde se pudesse encontrar um torrãozinho sequer; nem mesmo no mar.
Pois bem, vivia numa certa cidade um cozinheiro que tinha uma máquina capaz de produzir sal. Vai daí que esse mestre de cozinha ficou famoso, pois era o único capaz de temperar o alimento de seu restaurante, com sal. Apesar de muita gente tentar descobrir a origem do sal, ele mantinha severo segredo.
O Rei, certo dia, recebeu, de um dos seus súditos, uma amostra da comida temperada com o sal. Gostou tanto, que resolveu adquirir de qualquer maneira a fórmula, única, de produzir o sal. Mas, o famoso cozinheiro não tinha a intenção, nem para um Rei, de revelar o seu segredo, que era o principal sustento da família. O Rei então prometeu ao cozinheiro real uma fortuna se conseguisse descobrir o segredo daquele homem. 
O cozinheiro real então tratou de viajar até a cidade do mestre de cozinha que produzia sal. Com muita conversa e fingida amizade, conseguiu que o mestre de cozinha, cheio de inocência, revelasse que o sal era produzido por uma máquina toda vez que ele dizia determinada palavra mágica; e fez pior, demonstrou o funcionamento da máquina. Não deu outra, durante a noite, enquanto o mestre de cozinha dormia com a família, o cozinheiro real foi até ao restaurante, roubou a máquina e perna pra que te quero.
Chegando a casa real, anunciou ao Rei que descobrira o segredo e para prová-lo prepararia um jantar especial. O Rei, então, para comemorar, resolveu realizar o jantar no seu luxuoso navio. Para tanto, convidou todos os nobres de seu reino.
O cozinheiro real preparou a máquina e pronunciou a palavra mágica, e ela desandou a produzir sal e o jantar ficou espetacular. Mas enquanto os nobres se divertiam, o cozinheiro real viu-se diante de um problema. A máquina não parava de produzir o sal, pois a palavra mágica que a fazia funcionar não era a mesma para desligá-la. Não demorou muito e o navio estava coberto de sal e, com o peso, afundou, arrastando para o fundo, o Rei, os nobres, o cozinheiro real e a máquina que continua ligada até hoje, enchendo o mar de sal. ®Sérgio.

segunda-feira, 14 de março de 2011

HOMENAGEM À POESIA

Há quem ache que a poesia é coisa ridícula e inútil. Acham-na, até, nociva à vida porque envenena as almas, os sentimentos e as ideias. Dizem: "Estamos saturados de poesia"! Nada mais falso.
Falso, porque a poesia,
Ao contrário, estimula a circulação de ideias.
É crescimento da espiritualidade.
É a mais nobre,
E a mais bela expressão da vida intelectual.
É profunda;
É contraditória;
É enigmática;
Como é a própria vida.
Traz em si todos os encantos;
Os encantos mais sutis e fugitivos.
O encanto dos sentidos,
Do luar,
Das estrelas,
Do oceano,
Da aragem perfumada,
Da vida.
É relâmpago e é trovão;
É vendaval e é brisa;
É noite e é madrugada;
É luta sangrenta e é dor;
É balsamo e é consolo;
É luar e é suspiro;
É voo de pássaro.
Ampara os oprimidos,
Anima os fracos,
Açoita os tiranos,
Amansa os instintos,
E embeleza a vida.
E quando tudo o mais se desfizer;
Quando desaparecerem para sempre as nações,
Será ela,
A poesia,
Que recolherá e guardará a alma do povo extinto. ®Sérgio.
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Inspirado no texto O Calvário do Poeta; in O Elogio da Mediocridade, de Amadeu Amaral (1875-1958), poeta, folclorista, filólogo e ensaísta.

quinta-feira, 10 de março de 2011

TUDO O MAIS ou TUDO MAIS?

Emprega-se indiferentemente tudo o mais  ou tudo mais. No entanto, o mais usado é tudo o mais.
 Isso posto e tudo o mais que dos autos consta.
 Isso posto e tudo mais que dos autos consta.
• Meus livros e tudo o mais.
 Meus livros e tudo mais.
• Computadores e tudo o mais precisa de manutenção.
• Computadores e tudo mais precisa de manutenção.
Da mesma forma, tudo o que e tudo que:
• Fez pelo país tudo o que pôde.
• Fez pelo país tudo que pôde.
• Conseguiu tudo o que queria.
• Conseguiu tudo que queria.
 Deu à família tudo o que estava ao seu alcance.
• Deu à família tudo que estava ao seu alcance.
Emprega-se tudo a ver. E nunca tudo haver:
  • Essa roupa tem tudo a ver (e não: tudo haver) com você.
O pronome tudo corresponde a todas as coisas e é de gênero neutro. ®Sérgio.

segunda-feira, 7 de março de 2011

HERESIA GREGA - Notas à Toa

Em 500 a. C., o filósofo grego Anaxágoras concebeu a teoria de que o Sol é uma massa de pedra ardente, do tamanho pouco maior que o território da Grécia.
Não deu outra. Anaxágoras foi preso e acusado de heresia. Para os gregos o Sol era resultado do passeio do Deus Hélio pelo céu, a bordo de uma carruagem com cavalos que soltavam fogo pelas narinas. ®Sérgio.
Fonte: A Luz da Ciência e da Fé, Revista Veja, 9 de março de 211; p. 84.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O FEMININO "TODA-PODEROSA" NÃO EXISTE

Lia uma resposta (sem rodeios) a um comentário deixado num blog, quando me deparei com a expressão: "[...] você se acha toda-poderosa...". Pensei: "mais uma vez alguém escorrega no feminino de todo-poderoso".
Não é para menos, pois estamos acostumados a usar toda como feminino do pronome indefinido todo, assim: Todo menino e toda menina gostam de brincar.
Mas, no caso do composto toda-poderosa, poderíamos dizer com fundadas razões que este feminino "não existe". Como assim? Por certo, diria alguém. Ora, assim:
O composto todo-poderoso, que pode funcionar como adjetivo ou substantivo masculino – um homem todo-poderoso / sentia-se o todo-poderoso – tem como elementos o pronome indefinido todo e o adjetivo poderoso; como se vê,  "todo" não está ligado a um substantivo e sim, ao adjetivo "poderoso", o que o torna um advérbio de intensidade (= inteiramente); portanto, sendo todo um advérbio, fica invariável, ou seja, não tem plural, nem feminino. Conclusão: o feminino de todo-poderoso é todo-poderosa. Não esqueçam! ®Sérgio.
Todo-Poderoso (ô)
Adjetivo: Que pode tudo; onipotente.
Substantivo masculino: Aquele que pode tudo. [Flex.: todo-poderosa (ó), todo-poderosos (ó), todo-poderosas (ó).] (Novo Dicionário Aurélio Eletrônico 7.0)

HISTÓRIA OU ESTÓRIA?

Embora, estória já esteja incorporada em nossos dicionários (não existe nos dicionários portugueses), a preferência é pelo uso do termo história em qualquer situação, ou seja: realidade ou ficção.
    Isso é história para boi dormir.
    Você conhece a história da mula sem cabeça?
    A História da vida de Gandhi é interessante demais.
    Tem gente que não conhece a história de chapeuzinho vermelho.
O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, também, recomenda a grafia de história, em qualquer sentido.
Julgam os estudiosos ser a forma mais correta o termo história e não estória, por ser estória uma imitação do inglês story, sem correspondente com raízes em nossa língua. O Dicionário de Caldas Aulete, também, refere-se à forma estória como um brasileirismo, isto é, apenas um aportuguesamento da forma inglesa.
Portanto, para não cometermos anglicismo (importação do inglês), melhor usamos a recomendação dos dicionaristas.
História com "H" maiúsculo se trata de ciência, estudo. Exemplo: A História do Descobrimento do Brasil é muito interessante. ®Sérgio.

quarta-feira, 2 de março de 2011

O CARDEAL MEZZOFANTI - Notas Biográficas

Com a devida licença, lhes apresento o Cardeal Gaspare Mezzofanti, um dos  maiores poliglotas de todos os tempos.
Gaspare nasceu em 19 de setembro de 1774. Filho de um pobre carpinteiro de Bolonha. Ainda menino, se entregou ao conhecimento do idioma. Com a idade de 12 anos fez os três anos do curso filosofia. Quando terminou seus estudos teológicos ainda não tinha idade para ser ordenado. Aos vinte e três anos de idade, há pouco ordenado, já era professor de árabe da Universidade de Bolonha, sua cidade natal. Pouco tempo depois, estendeu suas atividades ao ensino do grego e línguas orientais.
Sua vocação para o estudo das línguas foi tanta, que o astrônomo Zach - de passagem para Genebra, aonde se dirigia para observar um eclipse - ao conhecê-lo, registrou em seu bloco de notas: "Ia observar um milagre no céu, e a terra me forneceu outro fenômeno não menos admirável". E não foi esta a única referência elogiosa a capacidade de Gaspare para assimilar idiomas; Byron já havia dito: "Devia ter vivido no tempo da torre de Babel como intérprete universal". Sua memória era tão privilegiada que uma única leitura lhe bastava para reproduzir, de cor, uma página inteira de São João Crisóstomo.
Certa vez, satisfez a curiosidade do conselheiro de Estado russo, Muravief, remetendo-lhe o nome de Deus escrito em cinqüenta e seis idiomas. Três anos depois, em 1846, já dominava a soma de setenta e oito línguas, excluídos os dialetos. É algo, realmente admirável, principalmente se atentarmos para o fato de que, para ele "dominar uma língua significava falá-la com ótima pronúncia, lê-la, escrevê-la e até compor poesias nela".
Não foi a sede de aventuras espirituais que o motivou a desenvolver essa capacidade - era excessivamente modesto - e sim, a necessidade de dar vazão, num terreno bastante extenso, a uma capacidade prodigiosa, da qual não sabia o que fazer. O domínio sobre os idiomas era tão grande, que notava solecismos (imperfeição) no polaco que o czar Nicolau usava para conversações entre ambos. Ou ainda "palestrar em grego com Byron, em provençal com Manavit, em croata com o imperador Francisco I". Alimentava também uma vaidade natural: passear no pátio do Colégio Propaganda, em Roma, saudando na língua de cada um de seus alunos, procedentes de todos os recantos da Terra, além de sustentar uma conversação em várias línguas com muitos interlocutores ao mesmo tempo.
De acordo com Russell, o Cardeal Mezzofanti falava perfeitamente trinta e oito línguas, e trinta outras línguas, menos perfeitamente. Cinquenta dialetos das línguas acima mencionadas. Eis algumas: Hebraico, Árabe, Caldeu, Armênio (antigo e moderno), Persa, Turco, Albanês, Maltês, Grego (antigo e moderno), Latim, Italiano, Espanhol, Português, Francês, Alemão, Inglês, Russo, Polonês, Chinês, Sírio, Basco, Hindu, para só citar essas. Ele não deixou trabalhos científicos, embora alguns estudos comparativos em Lingüística encontram-se entre os seus manuscritos, que deixou, em parte, à biblioteca municipal e, em parte, à biblioteca da Universidade de Bolonha. ®Sérgio.
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Fonte: Arsênio, Arnaldo; Aspecto da nossa Língua; CERN, 1983.

POR SER PANTANEIRO...

Tenho grande afinidade com a natureza; talvez por ser de uma família de camponeses. Para mim, a natureza é expressiva...
Pelos campos vaguear
sentir o vento, respirando a vida
E livre suspirar
[...] (Álvares de Azevedo)
Por ser pantaneiro, meus sentidos se abrem para a mata, para o riacho e para sentir na mais íntima fibra do meu eu, um dos mais belos poemas descritivos de nossa língua:
A tarde morria! Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia vigia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.
A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das ervas, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos.
A tarde morria! Mais funda nas águas
Lavava-se a gralha do escuro ingazeiro,
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo rangia o coqueiro.
Somente por vezes, dos jungles da borda
Dos golfos enormes daquela paragem,
Erguia a cabeça surpreso, inquieto,
Coberto de limos – um touro selvagem.
(Crepúsculo Sertanejo - fragmento- Castro Alves)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

AS MUSAS INSPIRADORAS

Clio, segundo Mignard
As musas são figuras mitológicas, deusas irmãs inspiradoras da criação artística. Inicialmente, eram as inspiradoras dos poetas. Na literatura, por exemplo, inspiradoras da poesia e dos poetas. Daí, serem eles (os poetas) quem mais as citaram em seus poemas. Mais tarde sua influência se estendeu a todas as artes e ciência.
Na Grécia, eram nove as musas; todas filhas de Mnemosine (Memória) e Zeus (Júpiter). As musas tinham a incumbência de perpetuar vitórias e glórias do Olimpo; por isso cantavam o presente, o passado e o futuro, acompanhadas pela lira de Apolo, para o prazer das divindades gregas. Atenas consagrou-lhes um templo o Museion (que deu origem à palavra museu); e Roma muitos templos. Estátuas das musas eram muito usadas em decoração. Os escultores representavam-nas sempre com algum objeto, como a lira ou o pergaminho.
Apesar das Musas terem se consagrado como o ente que inspira o poeta, nos tempos modernos, muitas vezes, elas são confundidas com a amada do poeta. No arcadismo e no Romantismo, os poetas sempre invocaram as musas, não mais numa atitude de pedir proteção, mas como recurso literário.
Segundo Hesíodo as musas são em número de nove, a saber:
 Calíope (musa do poema épico) – a mais velha das musas; representada pelos escultores com ar majestoso, ornada de grinaldas e fronte cingida de uma coroa de ouro; com uma mão segura uma trombeta e com a outra, um pergaminho contendo um poema épico.
 Clio (musa da História) – representada pelos escultores coroada de louros, tendo na mão direita uma trombeta e na esquerda um livro intitulado Tucídide (historiador grego, autor de A Guerra do Peloponeso). Descansa sobre o globo terrestre para mostrar que a história alcança todos os lugares e todas as épocas.
●  Érato (musa da poesia lírica) - tinha por símbolo a flauta, sua invenção. Representada coroada de flores, tocando a flauta. Ao seu lado estão papéis de música, oboés e outros instrumentos. Essa imagem simbolizava o quanto as letras encantam àqueles que as cultivam.
●  Tália (musa da comédia) - vestia-se com uma máscara cômica e portava ramos de hera.
●  Melpômene (musa da tragédia) - ricamente vestida, usa máscara trágica, folhas de videira e coturnos. O seu aspecto é sempre grave e sério.
●  Terpsícore (musa da dança) - regia também o canto coral. Representada pelos escultores coroada de grinaldas, tocando uma lira, ao som da qual dirige a cadência dos seus passos.
●  Euterpe (musa do verso erótico) - coroada de mirto e rosas, a jovem musa segura na mão direita uma lira e na esquerda um arco. Ao seu lado está um pequeno cupido que lhe beija os pés.
●  Polímnia (musa da retórica) - vestida de branco e de véu, apresenta-se em atitude pensativa, meditativa.
●  Urânia (a musa da astronomia) – era a entidade a que os astrônomos e/ou astrólogos pediam inspiração. Vestida de azul-celeste e coroada de estrelas, segura um compasso e um globo celeste.
Na mitologia greco-romana existem outros grupos de musas, de cunho mais regional, como o das musas Méleta, da meditação; Mnema, da memória; e Aede, protetora do canto e da música.
Platão, certa vez escreveu: "Dizem que há nove musas, que falta de memória! Esqueceram a décima, Safo de Lesbos." ®Sérgio.
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Para maiores informações a restpeito deste assunto ver: Portal Graecia Antiqua. Disponível em: http://greciantiga.org/lit/lit03b.asp. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

NOIVAS FANTASMAS - Negócios da China

A polícia chinesa prendeu cinco homens acusados de matar mulheres jovens para vendê-las como “noivas fantasmas”. Segundo a tradição de camponeses do norte do país, homens que morrem solteiros têm a linhagem comprometida na próxima vida. Para evitar o mau agouro na eternidade e para quebrar o galho do solteirão, os familiares tentam arranjar um minghun, “casamento após a morte”, enterrando uma noiva fantasma ao lado do solteirão. Segundo a polícia, o preço dos corpos varia, geralmente, de acordo com a idade da noiva: as mais jovens chegam a ultrapassar dois mil dólares.
Fique agora você sabendo o porquê do velho clichê: “Nem morto eu me caso”.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

JUSTIÇA SEJA FEITA - Recontando Contos Populares

Seu Antenor, mineirinho da gema, pensou melhor e decidiu que os ferimentos sofridos no acidente de trânsito há três semanas eram sérios o suficiente para levar o dono do outro carro ao tribunal.
No tribunal, o advogado do réu começou a inquirir seu Antenor:
— Não foi o Senhor que disse na hora do acidente: "Estou muito bem"?
E seu Antenor:
— Bão, vou lhe contá o que aconteceu. Eu tinha acabado di colocá minha mula favorita na caminhonete...
— Eu não pedi detalhes! - interrompeu o advogado. Só responda à pergunta! O senhor não disse na cena do acidente: "Estou muito bem"?
— Bão, eu coloquei a mula na caminhonete e tava deceno a rodovia...
O advogado interrompe novamente:
— Meritíssimo, estou tentando estabelecer os fatos aqui. Na cena do acidente este homem disse ao patrulheiro rodoviário que estava bem. Agora, várias semanas após o acidente ele está tentando processar meu cliente, e isso é uma fraude. Por favor, poderia dizer a ele que simplesmente responda à pergunta?
Mas, a essa altura, o Juiz estava muito interessado na resposta de seu Antenor e disse ao advogado:
— Eu gostaria de ouvir o que ele tem a dizer.
Seu Antenor agradeceu ao Juiz e prosseguiu:
— Como eu tava dizendo, coloquei a mula na caminhonete e tava descendo a rodovia quando uma picapi atravessô o sinar vermeio e bateu na minha caminhonete bem na laterar. Eu fui jogado fora do carro prum lado da rodovia e a mula foi jogada pro ôtro lado. Eu tava muito firido e num podia mi movê. De quarqué forma, eu pudia orvi a mula zurrano e grunhino e, pelo baruio, eu pude percebê que o estado dela era muito ruim.
E continuou:
— Logo dispois do acidente, o patruiero rodoviário chegô no locar. Ele orviu a mula gritano e zurrano e foi até onde ela tava. Depois de dá uma oiada nela, ele pegô a arma e atirô bem nos óio do animar. Então, o policiar atravessô a estrada com sua arma na mão, oiô pra mim e disse:
— Sua mula estava muito mal e eu tive que atirar nela. Como o senhor está se sentindo?
E olhando para o Juiz, o Seu Antenor perguntou:
— E o sinhô, o quê que falaria meritisso?!
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História retirada e adaptada de Ponte Preta, Stanislaw. Choro, Vela e Cachaça. In: Garoto Linha Dura. 4ª ed. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1975. p. 154-55.

NEGÓCIO DA CHINA – Notas à Toa

Descobri que um bar na região leste da China está oferecendo um novo serviço contra os estresses da vida moderna. Os clientes do Bar da Liberação de Raiva  podem pagar para bater à vontade nos garçons. Além disso, é permitido quebrar copos e berrar no estabelecimento. Os garçons e as garçonetes são treinados e equipados com material de proteção para receber golpes sem se machucar.
Se nada disso combater o estresse, os frequentadores têm direito a atendimento psicológico no lugar.
O interessante é que a maior parte dos clientes do Bar da Liberação de Raiva são mulheres.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

CUIDADO COM O "E NEM"

Nem é a soma de e + não. Assim, "e nem" é redundante quando, na frase, há uma negativa antes.  Nesse caso, o nem rejeita o [e]:
    Não foi nem ficou. / Não faço nem quero.
    Não se anda nem se corre. / Nunca o viu nem verá.
Podemos usar e nem apenas quando não há negativa antes ou quando a expressão equivale a: e nem mesmo, e nem sequer, e muito menos, como reforço ou ênfase:
 Estudavam o dia todo e nem (mesmo, sequer, e muito menos) se lembravam de comer.
 Meu irmão chegou ontem e nem (mesmo, sequer, e muito menos) me telefonou ainda.
 E nem (mesmo, sequer, e muito menos) da própria vida estou seguro. ®Sérgio.

PESADELOS RECORRENTES

Tarsila Maciel nos revelou que sofria de pesadelos recorrentes. Na maioria dos sonhos, ela morria de diversas formas, em diversos tipos de acidentes, sendo  mais comum o de carro. De modo que, viu o velório (dela) incontáveis vezes.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O ARTÍFICE DO VERSO

A habilidade, a engenhosidade e a veia satírica de Gregório de Matos, deixam-me, sobremaneira, desconcertado. Com que facilidade, esse artífice do verso, trabalhava seus poemas. Veja:
Certa vez, um conde pediu a Gregório de Matos que fizesse um soneto em seu louvor. O poeta baiano, porém, não achou nele nada que pudesse ser louvado. Não querendo desagradar o nobre conde, compôs assim mesmo o soneto que você vai ler abaixo:
Um soneto começo em vosso gabo¹             (¹ louvor)
Contemos essa regra por primeiro,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo²                (² no fim)
Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
Na sexta entro já com a grã³ canseira          (³ grande)
E saio dos quartetos muito brabo.
Agora nos tercetos que direi?
Direi que vós senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.
Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.
Com que maestria Gregório compôs este soneto: usando apenas a forma do soneto, esvaziou o conteúdo e não se comprometeu com elogios falsos. É por coisas assim que tenho de admirar esse poeta. ®Sérgio.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O CAÇADOR E O URSO

Por diversas vezes resisti à tentação de compartilhar com vocês esta Fábula de Millôr Fernandes¹. Entretanto, a tentação, acabou por vencer-me:
Vestido como caçador o homem caçava. Estava metido no mais negro da floresta e caçava. Mas, não procurava qualquer caça não. Procurava uma caça determinada capaz de lhe dar uma pele que aquecesse suas noites hibernais.
E procurava. Procura que procura, eis, senão, quando numa volta da floresta depara nada mais nada menos que com um urso. Os dois se defrontam. O caçador apavorado pela selvageria do animal. O animal pela civilização em forma de rifle do caçador. Mas foi o urso quem falou primeiro:
— Que é que você está procurando
— Eu – disse o caçador – procuro uma boa pele com a qual possa abrigar-me no inverno. E você?
— Eu – disse o urso – procuro algo que jantar, porque faz três dias que não como.
E os dois se puseram a pensar. E foi de novo o urso que falou primeiro:
— Olha caçador, vamos entrar na toca e conversar lá dentro, que é melhor!
Entraram. E dentro de meia hora o urso tinha o seu almoço e consequentemente o caçador tinha o seu capote.
Moral: Falando a gente se entende. ®Sérgio.
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1 - O Encontro, in Fabulas Fabulosas. Editora Nórdica: São Paulo, 1973, p.65.
Imagem: http://conversadatreta.com/wp-content/woo_uploads/65-ca%C3%A7a_grossa.gif

O CORVO E A ÁGUIA¹

Certo dia, a águia perguntou ao corvo:
— Diz-me, corvo, por que vives sob o sol trezentos anos e eu apenas trinta e três?
– Porque tu, meu caro, respondeu o corvo, bebes sangue fresco, enquanto eu me alimento de carne podre.
A águia pôs-se a pensar: “E se me alimentasse da mesma coisa?” Pois bem. A águia e o corvo levantaram voo. E eis que descobriram um cavalo morto. Desceram e pousaram nele. O corvo começou a dar bicadas e louvar a carniça. A águia deu uma bicada, outra, bateu as asas e disse ao corvo:
— Não, irmão corvo: prefiro saciar-me uma só vez com sangue fresco, do que me sustentar durante trezentos anos de carne podre. E seja o que Deus quiser! ®Sérgio.
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1 - Fábula Russa. 

domingo, 13 de fevereiro de 2011

ENTALHADOR CHATEADO

O Entalhe para mim já foi muito mais do que uma distração, um passatempo, ou seja, um hobby. Houve época que tive um atelier ou ateliê, comercialmente bem localizado, onde além dos artísticos, aceitávamos encomendas de entalhes, principalmente portas.
Às vezes, pessoas que iam observar meus trabalhos na sala de exposição, diziam-me, diante de alguns deles em que havia figuras humanas:
— Mas uma pessoa não é assim!
Eu ficava sem saber o que responder e um tanto chateado com isso, até que, certo dia, li uma máxima de Matisse:
Conta-se que uma vez Matisse mostrou a uma senhora um quadro em que havia pintado uma mulher nua; sua visitante, indignada, retrucou:
— Mas uma mulher nua não é assim!
 E Matisse:
— Não é uma mulher, minha senhora, é uma pintura!
Era a resposta aos meus anseios. ®Sérgio.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O POTE DE BALAS

Na sala de espera do dentista (de um amigo) havia na mesinha de centro um pote cheio de balas e um convite impresso, ao lado dele: "Porque esperar? Comece novas cáries hoje mesmo"!

Será que alguém, algum dia, pegou uma ou algumas daquelas balinhas? ®Sérgio.

TRISTE SOMBRA


“Ah! Não me roubou tudo a negra sorte:
Ainda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.”
(Cantando a vida, como o cisne a morte, Bocage, 1765-1805)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O DESPERTAR DE POETA

Arrastava-me para o ermo um sentimento íntimo, o sentimento de haver acordado, vivo, ainda, deste sonho febril chamado vida, e que hoje ninguém acorda, senão depois de morrer.
Sabeis o que é esse despertar de poeta?
É o ter entrado na existência com o coração que transborda de amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajuntarem-se os homens e laçarem-lhe dentro do seu vaso de inocência lodo, fel e peçonha e, depois, rirem.
É ter dado as palavras – virtude, amor, pátria e glória – uma significação profunda e, depois de haver buscado por anos a realidade delas neste mundo, só encontrar hipocrisia, egoísmo e infâmia:
É o perceber a custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se, e a esperança nas coisas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo tênue que ondeia em horizonte aquém do qual esta assentada à sepultura. (Fragmento de Eurico, O Presbítero de Alexandre Herculano¹) ®Sérgio.
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 (1) Alexandre Herculano. Eurico, O Presbítero São Paulo, Ática, 1991. p. 21.