sábado, 30 de outubro de 2010

COMO PRENDER UM DIABINHO NA GARRAFA

Muito antes de me aposentar, desenvolvi com meus alunos um projeto de pesquisa cuja finalidade era o resgate de contos, mitos e lendas da nossa terra, recontados ao longo de nossa história pela tradição oral. A ideia era registrarmos o material colhido em uma brochura.
Hoje, revendo algumas das crendices "pescadas" na oralidade, não consegui conter o desejo de lhes contar um episódio que me foi narrado por um senhor da Mata de Minas, residindo há muito anos em minha cidade.
Segundo seu Joaquim, "a gente" que vivia na região mineira do Vale de São Francisco, chamava de "famaliá" um diabinho, que se conservava preso dentro de uma garrafa. Quem estivesse precisando de dinheiro era só pedir a ele que o dinheiro aparecia na hora.
Se, por acaso, você estiver necessitando de um dinheirinho e quiser aprisionar um famaliá, seu Joaquim tem a receita de como apanhá-los. Isso mesmo, apanhá-los: não um, mas dois deles e colocá-los dentro de uma garrafa. É assim:
Mate um gato preto e tire-lhe os dois olhos.
Ponha cada olho dentro de um ovo de galinha preta.
Enfie os ovos dentro de esterco de cavalo, que ainda esteja quente.
Todo dia, vá até perto do monte e diga: Ó, diabão! Eu te entrego estes dois olhos de gato preto para que me sejas favorável nesta apelação: "Que deles nasçam dois diabinhos para eu cria-los dentro de uma garrafa e me darem dinheiro na hora da precisão".
Diga isso durante trinta dias. Ao fim desse tempo, nascem dois diabinhos no corpo de uma lagartixa. Coloque-os dentro da garrafa e os alimente com pó de ferro ou aço moído (Bombril). Depois é só pedir dinheiro, que aparece na hora.
Mas, nem por sombras, poderíamos imaginar o que iria suceder aos gatos pretos se esta receita chegasse a Brasília. Ou poderíamos?
Salve-se o gato que puder! ®Sérgio.

O DRAMA NA PROSA FICCIONAL

A palavra Drama originou-se na Grécia Antiga (drâma) e designava simplesmente a ação. E como ação representava uma forma exclusiva do teatro.
Como a ação envolve o choque entre personagens, a palavra drama assumiu também o sentido de conflito, e o adjetivo dramático, o de conflitivo. Assim é que, no âmbito da prosa de ficção (conto, novela romance), é valido usarmos o termo drama para rotular a característica mais importante da prosa ficcional: o conflito.
Portanto, drama, dramático, no âmbito da prosa, deve ser entendido como conflito, ação conflituosa. Pois, o drama nasce quando se dá o choque de duas ou mais personagens; seja por contato com o mundo sobrenatural, seja por questões sociais, políticas, familiares, de caráter, ou mesmo com o próprio mundo íntimo duma personagem com suas ambições e desejos contraditórios. Você já se sentiu dividido, sem conseguir optar, querendo e não querendo uma coisa, com medo e com vontade de fazer algo? Então você entende o que é um conflito, um drama.
Se não há drama, não há conflito e, portanto nem história. E mesmo que houvesse uma história, sem drama, sem conflito, não despertaria interesse nenhum.
Os primeiros dramas registrados na literatura podem ser encontrados em Ilíada e Odisséia — são confrontos entre o homem e a natureza, entre o homem e os deuses, entre o herói e seus inimigos militares - todos esses confrontos são explorados nos poemas épicos de Homero.
A solução de um conflito depende das circunstâncias que o iniciaram. Na tragédia clássica, ele deveria ser resolvido dentro do próprio drama, segundo uma regra que assegurava ao espectador sair do espetáculo sem dúvidas sobre o destino e o caráter das personagens. Na dramaturgia e na ficção pós-moderna, por exemplo, explora-se a situação sem saída, o eterno conflito, o mais das vezes, nunca resolvido, ou apenas subentendido ou sugerido. Compete, muitas vezes, ao leitor tirar às conclusões necessárias a solução do conflito da história narrada.
Da Palavra Drama Derivou:
Dramalhão, termo pejorativo de drama, em relação às características desenvolvidas pelo drama após o século XVIII.
Dramaturgia e Dramatologia, sinônimo de arte dramática.
Dramaturgo, autor de dramas, ou seja, de peças teatrais.
De modo geral, podemos dizer que os conflitos envolvendo os protagonistas da ficção se estruturam de três modos:
1º. Conflito do protagonista com outro personagem: o mais tradicional exemplo deste modo de conflito está nas histórias de mocinho e bandido, de herói e vilão.
2º. Conflito do protagonista com um grupo de personagens: um bom exemplo deste caso é aquele investigador que combate sozinho ou com pouca ajuda, a máfia das drogas, crimes cometidos por gangues, etc.
3º Conflito do protagonista com ele mesmo: é o caso das narrativas de forte apelo psicológico, em que o personagem principal vive, com suas ambições e desejos contraditórios, um drama interior. ®Sérgio.
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Ajudaram na elaboração deste texto: PEACOCK, Ronald.  Formas da literatura dramática.  Rio de Janeiro: Zahar, 1968. / O. B. Hardison Jr., Christian Rite and Christian Drama in the Middle Ages – Essays in the Origin and Early History of Modern Drama (1965). / Brasil, Assis. Vocabulário Técnico de Literatura. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s.d.

domingo, 24 de outubro de 2010

A REALIDADE E A FICÇÃO EM O GLADIADOR

Sempre que assisto a um bom filme, procuro trocar ideias com amigos e conhecidos a respeito do enredo do filme. O Gladiador, além de arrematar cinco Oscar(es), levou ao cinema, no mundo todo, um grande público. Aqui não foi diferente.
Para a maioria das pessoas com quem tive a oportunidade de conversar, ficou uma indagação: o que era ficção e o que era História. Isso é, exatamente, o que Hollywood não quer dizer. Se disser o entretenimento acaba. Envolvido, também, por esse questionamento, fui pesquisar; e descobri que:
Se você achou que os gladiadores eram mesmo, como aqueles heróis do filme, altos e musculosos, é melhor ficar com Hollywood. Na realidade, a maioria dos gladiadores tinha menos de 1,70m, gordura sobrando e, frequentemente, eram executados nos fundos da arena, com golpes de martelo na cabeça.
Máximo, o Gladiador, protagonista do filme, é pura ficção. Foi inventado.
Do filme Spartacus (1960) foram emprestados três personagens fictícios:
a) Draba, o negro africano que se torna amigo de Spartacus; foi Juba em Gladiador. Também, se torna amigo de Máximo.
b) Batiato senhor de Spartacus; um governante de bom coração. Rebatizado de Próximo, em Gladiador, senhor de Máximo.
c) O cínico Senador Graco que enxerga Roma como ela realmente é: bela e corrupta; foi totalmente emprestado de Spartacus, até seu nome foi mantido.
Spartacus realmente existiu, e foi executado pelos romanos em 71 a.C.
A ideia para ascensão de Cômodo, filho do Imperador, veio do filme Calígula (1980). Demente e apaixonado por sua irmã Drusila (como Cômodo era por sua irmã), Calígula mata o tio (no Gladiador, Cômodo o pai) para se tornar Imperador.
César Marco Aurélio Antonino Augusto - Marco Aurélio para os íntimos, que eram bem poucos - pai de Cômodo, foi, realmente, Imperador Romano durante 19 anos. Além de estar presente nas batalhas, ele achava tempo para escrever sobre filosofia - no que foi bem sucedido, uma de suas obras, Meditações, resistiu ao tempo e chegou ate nós. Marco Aurélio morreu em 180 a.C., vitimado por uma daquelas pestes que eram comuns há 2.000 anos. A epidemia foi propagada pelos próprios soldados do imperador, no regresso de uma campanha militar («higiene» não era exatamente uma das prioridades dos soldados).
Cômodo, na realidade, não assassinou o pai, como na ficção. Por que o faria, se aos cinco anos já tinha recebido o título de César, o que equivalia a uma pré-nomeação para governar o Império Romano. Aos 17 anos foi empossado co-imperador e reinou em conjunto com o pai, Marco Aurélio, durante três anos. Com a morte do pai assumiu o poder e pelos 12 anos seguintes (bem mais que no filme), mandou e desmandou em Roma. Foi um melomaníaco. Tentou mudar o nome de Roma para Comodônia e, substituir os nomes dos meses do ano, pelos seus próprios (ele se chamava César Marco Aurélio Cômodo Antonino Augusto) e pelos títulos honoríficos que recebia do Senado Romano, como Invicto, Félix e Pio. Cômodo, também era um pervertido sexual (hobby de muitos imperadores romanos). Morreu em 192 a.C., estrangulado por um dos seus protegidos, um atleta chamado Narciso Mérida. Aliás, no primeiro rascunho do filme, o protagonista (Máximo) era chamado de Narciso. A preferência por Máximo Décimo Merídio veio a calhar, quem iria torcer por um herói chamado Narciso Mérida? 
O que parecia mais improvável no filme é mesmo verdade: Cômodo fazia suas estripulias na arena do Coliseu, matando feras e enfrentando gladiadores, embora haja sérias dúvidas quanto à qualidade e a motivação dos oponentes que eram escalados para medir forças com o imperador. As más línguas dizem que Cômodo era filho ilegítimo. Havia o boato de que a rainha Faustina teve uma aventura com um gladiador. Esse detalhe, omitido no filme, talvez explicasse a fascinação que os jogos de gladiadores exerciam sobre Cômodo.
Lucila, a irmã mais velha de Cômodo, realmente o detestava. No segundo ano de mandato do irmão armou uma conspiração para assassiná-lo. Mas a Lucila real não teve a mesma sorte que a da ficção: Cômodo a deportou para a ilha italiana de Capri, perto de Nápoles e, logo após, ordenou sua execução.
A reconstituição arquitetônica do Coliseu, no filme é exemplar; alojava algo em torno de 50000 pessoas. A carnificina não era somente diária, mas durava de sol a sol, isto é, a qualquer dia, e a qualquer hora, quem fosse ao Coliseu veria algum espetáculo. Essa era a teoria dos organizadores: enquanto o povo estivesse ocupado vendo combates sangrentos não se preocuparia com outras coisas, como uma revolução (será por isso que temos tantos e enormes estádios de futebol e poucos hospitais?). Daí vem à famosa frase: pão e circo!
O nome Coliseu, entretanto, só aparecerá 1.000 anos depois da época do filme. Na época de Marco Aurélio e Cômodo, o estádio era chamado de Anfiteatro Flaviano.
SPQR - a sigla tatuada que Máximo raspa do braço quando decide levar a sério a carreira de Gladiador -, significa: "para o Senado e o Povo de Roma" (Senatus Popules Que Romanus). Tinha a tatuagem porque pertencia a uma classe inferior, a dos soldados. Gente fina não se tatuava no tempo dos Romanos, só a ralé. É daí que surgiu uma expressão usada até hoje, «ele carrega um estigma». A palavra latina para tatuagem era estigma. ®Sérgio.

ESCRAVOS DE NOSSAS IDEIAS E AÇÕES

Certa vez, ouvi numa roda de prosa, o seguinte comentário: fulano tem umas manias esquisitas... Até certo ponto, é um comentário bem comum nas conversas informais. Se formos raciocinar sem preconceitos, chegaremos à conclusão que todo mundo tem lá suas manias, principalmente, se já somam uma boa quantidade de anos vividos. Eu tenho minhas manias e, certamente, você tem as suas. No entanto, devemos tomar cuidado para que essas manias não se extrapolem. Por diversos motivos, ainda não totalmente esclarecidos pela ciência, as manias podem se transformar em doenças chamadas cientificamente de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), transformando-nos "em escravos de nossas próprias ideias e ações". Santo Inácio de Loyola (1491-1556), antes de se converter, era um soldado extremamente vaidoso e tinha uma vida fútil. Depois de convertido, o fundador da Companhia de Jesus, passou a carregar uma enorme culpa pelo seu passado e como não conseguia livrar-se desta culpa, pois estava sempre presente em sua mente desenvolveu a mania de confessar sempre os mesmos pecados. "Ele começava a recordar seus pecados e, como num rosário, ia pensando de pecado em pecado, e lhe parecia de novo que estava obrigado a confessá-los outra vez."¹
Pior ainda, são as manias da professora Denisse (44 anos). Veja o relato: "O tormento começou aos 12 anos, quando minha avó morreu e eu me culpei por não estar ao lado dela. Minha primeira mania: toda vez que passava pela imagem de um santo que tinha em casa, tinha de tocá-lo e me benzer. Se eu não cumprisse esse ritual, tinha certeza de que, quando eu completasse quinze anos, minha mãe morreria. Todos os anos, como nada de ruim acontecia, eu estipulava uma nova idade para a suposta catástrofe. Foi assim até o 38º aniversário. Logo depois que minha avó morreu, vi um filme de terror em que os filhos do diabo tinham o número seis tatuado no braço. Desde então tenho pavor do número seis. Eu sou compelida a realizar uma tarefa inúmeras vezes. Do contrário sinto que as pessoas que amo podem sofrer algum mal. Todas as noites antes de dormir, tenho de cumprir um ritual que leva até três horas. Eu deito; imediatamente me levanto, e vou ao banheiro. Na volta para o quarto, tenho de tocar na imagem de Jesus Cristo pendurada no corredor. Antes de me deitar novamente, encosto-me a cada um dos santos que tenho no quarto. Ao todo são quase trinta imagens. Deito e pego “o santinho” que guardo debaixo do travesseiro e me benzo três vezes. Já aconteceu de eu repetir esse ritual 21 vezes. É como uma avalanche. Quando começa, é impossível parar. A angústia de não fazer o que minha mente pede – por mais ilógico que seja – é pior do que repetir as ações sem parar".
Não seria sem razão dizer que Denisse é como Sísifo, personagem de Odisseia, poema épico de Homero. Como castigo por ter enganado Zeus, Sísifo foi condenado a levar uma pedra enorme até o topo de uma montanha e deixar rolá-la até o sopé para começar tudo de novo. ®Sérgio.
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1- Relato do biógrafo de Santo Inácio, sobre confissão feita no mosteiro beneditino de Montserrat, em meados do século XVI.

sábado, 16 de outubro de 2010

O NOIVO QUE NÃO APARECIA - Recontando Contos Populares

Conta-se que uma jovem, embora linda, vivia a esperar por um noivo que nunca aparecia. O tempo já ia tão longe que a moça, desesperançosa de encontrar casamento, se apegou a Santo Antônio.
 Foi até o mercado da praça, comprou uma imagem do Santo, passou na igreja, pediu ao vigário para benzê-la e, chegando a casa, colocou-a em um pequeno oratório. Todos os dias, após o café de manhã, visitava o santo em seu oratório e lhe pedia a ajuda. Passaram semanas, meses, anos... e nada. O noivo não aparecia, nem se ouvia falar na região de algum jovem, ou mesmo na falta de outro, algum velhote endinheirado que tenha por ela se inclinado.
Vai daí, que a moça depois de lamentar, injuriada, o descaso do santo e questionar com a mãe sobre o desprestigiado poder miraculoso do santo casamenteiro, pega a imagem e, no limite do desespero, lança-a pela janela. Passava, nesse momento, por acaso, um jovem de igual beleza da moça, que recebe a imagem, em cheio sobre a cabeça. Um tanto atordoado, pega-a intacta, e sobe as escadas do sobrado de cuja janela a imagem partira. Vêm recebê-lo justamente a donzela formosa e geniosa. De imediato, apaixona-se o jovem pela moça e com ela vem a casar, com toda a certeza, por um milagre do santo casamenteiro. ®Sérgio.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

UMA RELAÇÃO COM FORÇAS SOBRENATURAIS

Júlio Cesar Monteiro - um seminarista de boa prosa com quem convivi nos tempos do Colégio Arquidiocesano - acreditava que homenzinhos, de alguns milímetros de altura, viviam dentro de sua cabeça. Esses homenzinhos davam-lhe ordens expressas, centenas de vezes, horas seguidas, tanto de dia como de noite, até a exaustão. Tinha certeza de eram emissários do diabo para atormentá-lo, roubar-lhe a alma. Para mim - o único a quem confiou o segredo - eram meras alucinações. Para ele uma relação com forças sobrenaturais. No entanto, para além de suas alucinações e delírios, Júlio Cesar continuava o que era: um amigo culto e informado. "Minha mente é tão clara quanto à de qualquer outra pessoa", estava sempre a me dizer.
Os homenzinhos iam e vinham na cabeça dele. Por vezes, desapareciam por um bom tempo; porém, acabavam retornando ou ressuscitando. Em agosto de 1998, pouco tempo antes de nos dirigirmos ao refeitório, ele confidenciou-me que as vozes dos emissários do diabo tornaram-se um tormento insuportável.
Logo após ter me acomodado na cadeira do refeitório para o café da manhã, notei que o lugar reservado ao meu amigo Júlio Cesar estava vazio. Olhei para o coordenador (irmão Marista), através de seu vidro especial - sempre limpo a tal ponto que não se pode dizer que está ali – como que perguntasse se havia notado a ausência de Júlio. Ele balança a cabeça para mim em sinal de aprovação. Após o café, saímos a procura de Júlio Cesar e o encontramos caído no banheiro do dormitório; um filete de sangue escorria de seu ouvido direito. Rapidamente o levamos a enfermaria e ali ficamos aterrorizados. O meu amigo, num surto de delírio, havia introduzido, em seu ouvido, uma caneta (daquelas de invólucro metálico) ficando de fora apenas o espaço que ele utilizou para introduzi-la. Apesar da gravidade do ato, Júlio Cesar estava consciente e explicou que o fizera para calar as vozes dos homenzinhos. Mais surpreendente, ainda, foi o resultado da tomografia feita no hospital: apesar da caneta destruir seu órgão auditivo, não causara dano algum ao cérebro de Júlio. Fora isso, foi  retirada sem mais problemas.
Em outubro deixei o Arquidiocesano para voltar à civilização, a união do lar; e, nunca mais vi Júlio Cesar, que ficara em um hospital psiquiátrico a espera da salvação. ®Sérgio.
Nota sobre o texto: Ouvir vozes na cabeça, interrompendo os pensamentos, é tão comum que é considerado normal, segundo psicólogos. Uma pesquisa realizada na Holanda sugere que uma em 25 pessoas ouve vozes regularmente. Pesquisadores britânicos da Universidade de Manchester afirmam que, ao contrário da crença tradicional, ouvir vozes não é necessariamente um sintoma de doença mental. Algumas pessoas que ouvem vozes descrevem o evento como se alguém as chamasse pelo nome, mas quando elas vão atender descobrem que não há ninguém. As pessoas também ouvem vozes como se fossem pensamentos de fora entrando em suas mentes. Elas não têm ideia do que estas vozes vão dizer e podem até iniciar uma conversa. Estudos anteriores descobriram que as pessoas que ouvem vozes geralmente tiveram uma infância traumática. Entretanto, Júlio Cesar não se enquadra em nenhum desses quadros, ele era portador de esquizofrenia.

TORTURANDO A LETRA

Dia desses, enquanto aguardava minha vez no saguão do consultório de meu cardiologista, folheava a Revista Gloss (editora Abril), de 08 de 2010, quando à pagina 158, dei "de cara" com um artigo de Fabiana Faria que me interessou grandemente. Vou transcrevê-lo a seguir, porque acho que ele se enquadra nos propósitos literários e artísticos dos associados e frequentadores do blog:
TRECHOS DA MÚSICA BRASILEIRA QUE NEM FREUD EXPLICA
"Inda da Lambuja tem o carneirinho, presente na boca." (Acabou Chorare, de L. Galvão e Morais Moreira)
"Vaca das Divinas Tetas /... E o resto inunde as almas dos caretas." (Vaca Profana, de Caetano Veloso)
"Grávida de um beija flor / grávida da terra / grávida de um liquidificador." (Grávida, de Arnaldo Antunes)
"Ó, menina pinta lainhá, iê / Biriti-guiri me dá / Biriti-guiri me dê / Biriti-guiri me diz." (Me dá, Me dê, Me diz, de Tom Zé)
"A paixão / puro afã, místico clã de sereia / castelo de areia, ira de tubarão, ilusão." (Acaí, Dijavan)
"Abacateiro, sabes ao que estou me referindo / Porque todo o tamarindo tem seu gosto azedo." (Refazenda, Gilberto Gil)
"O brilho do meu canto tem o tom / E a expressão da minha cor? Vermelho!..." (Vermelho de Chico da Silva)
"Colombo procurou as Índias, mas a terra avisto em você". (All Star de Nando Reis)
"[...] O peito como bússola / Nenhum receio do lado negro da rua / E me guia na bubuia". (Bubuia, da cantora Céu)
"Meu amor eu sinto muito, muito, muito, mais vou indo / Pois é tarde, muito tarde e eu preciso ir embora / Sinto muito meu amor mas acho que já vou andando / Amanhã acordo cedo e preciso ir embora / Eu queria ter você mas acho que já vou andando / [...]" (Núcleo Básico, Ira)
Quintus Horatius Flaccus, Horácio para nós, filósofo e um dos maiores poetas da Roma Antiga, achava que "aos poetas e aos pintores sempre foi concedida a liberdade de ousar qualquer coisa". Tá certo seu Horácio, quem sou eu para contradizê-lo, mas esse pessoal aí de cima ousou demais. É ou Noé? ®Sérgio.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

AS PÉROLAS DA DITADURA

O Cronista Sérgio Porto, Codinome Stanislaw Ponte Preta, em seu Febeapá um, Primeiro Festival de Besteira que Assola o País, 1996¹, coletou, entre os anos de 1995 e 1996, uma série de casos que faziam jus ao título de sua obra. São casos colhidos pela agência informativa de Stanislaw Ponte Preta a "Pretapress", que dizia ele ser a maior do mundo, porque nela colaboravam todos os seus leito­res. Desse festival de besteiras escolhi alguns casos que - com licença do mestre Sérgio Porto - quero compartilhar com vocês.
Ano de 65:
Em Belo Horizonte, um delegado de polícia distribuía espiões pelas arquibancadas dos estádios porque "da­qui para frente quem disser mais de três palavrões, tor­cendo pelo seu clube, vai preso".
Em Mariana (MG) outro delegado baixou portaria dizendo que moça só poderia ir ao cinema com atestado dos pais.
O Secretário de Segurança de Minas Gerais proibia (já que fevereiro ia entrar) que mulher se apresentasse com pernas de fora em bailes carnavalescos "para impedir que apareçam fan­tasias que ofendam as Forças Armadas". Como se perna de mulher alguma vez na vida tivesse ofendido as armas de alguém!
No nordeste de Minas a cidade de Itaboim, que fica à beira da estrada Rio - Bahia, viria para o noticiário depois que o prefeito local plantou lindas e tenras palmeiras para enfeitar a estrada, e a Oposição — com inveja — soltou 100 cabritos de madrugada, que jantaram as palmeiras.
Eram instituídos mais dois dias: o "Dia do Pobre" e o "Dia da Vovó". O primeiro por projeto do deputado Ge­raldo Ferraz e até hoje o pobre ainda não viu o dia dele; o segundo inventado por uma radialista "porque existem tantos dias e ninguém ainda se lembrou da avozinha". A distinta não reparou que existe o "Dia das Mães" e que — jamais em tempo algum — mulher nenhuma conseguiu ser avó sem ser mãe antes.
Foi então que estreou no Teatro Municipal de São Paulo a peça clássica "Electra", tendo comparecido ao lo­cal alguns agentes do DOPS para prender Sófocles, autor da peça e acusado de subversão, mas já falecido em 406 a. C.
Julho começava com a adesão do Banco Central à burrice vigente, baixando uma circular, relativa ao regis­tro de pessoas físicas, na qual explicava: "Os parentes consanguíneos de um dos cônjuges são parentes por afinida­de do outro; os parentes por afinidade de um dos cônju­ges não são parentes do outro cônjuge; são também pa­rentes por afinidade da pessoa, além dos parentes consanguíneos de seu cônjuge, os cônjuges de seus próprios parentes consanguíneos".
Em Campos ocorria um fato espantoso: a Associação Comercial da cidade organizou um júri simbólico de Adolf Hitler, sob o patrocínio do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito. Ao final do julgamento Hitler foi absolvido.
No dia 17 de agosto de 65, o deputado Eurico de Oliveira apresenta­va à Câmara um projeto para a importação de um milhão de portugueses para espalhar pela selva amazônica.
Na cidade de Mantena (MG) o delegado deu tanto tiro que a cidade deixou de ter população e passou a ter sobrevivente.
Ano 66:
O comandante da Base Aérea de Curitiba proibia o Padre Euvaldo de Andrade de rezar missa em ritmo de iê-iê-iê. Recorde-se que foi naquela Base que o piedoso sacerdote rezou pela primeira vez uma missa com música dos Beatles no Evangelho, bolero de Vanderlei Cardoso na Comunhão, e uma versão de "Quero que tudo mais vá pro inferno" ao final do ato religioso.
E julho começava com uma declaração muito bacaninha da Deputada espiroqueta Conceição da Costa Ne­ves, que afirmava nos bastidores da Assembléia Legislati­va de São Paulo: "A ARENA, se quiser, pode cassar o meu mandato e fazer dele supositório para quem estiver preci­sando".
Setembro começava com uma determinação de um governador, criando um novo ór­gão que tinha a sigla: SIRCFFSTETT. Ou seja, Setor de Investigações e Repressão ao Crime de Furtos de Fios de Serviços de Transmissões Elétricas, Telegráficas ou Tele­fônicas. Deve ser de lascar o cara trabalhar lá, atender ao telefone e ter que dizer: "Aqui é da SIRCFFSTETT".
O festival persistiu, mas vou interromper por aqui com este comunicado que a Pretapress recebeu do Serviço de Trânsito explicando que os talões de multa para motoristas infratores teriam agora três vias, para evitar o suborno do guarda. Em todo lugar do mundo, quando o guarda é subornável, muda-se o guarda. Aqui se muda o talão. ®Sérgio.
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¹ Ponte Preta, Stanislaw, 1923-1968, FEBEAPÁ 1: Primeiro Festival de Besteira Que Assola o País — 12. ed. — Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 1996.

A TESOURINHA - Recontando Contos Populares

Certo dia, o caboclo Romildo chegou a seu rancho desejando cortar umas fatias de queijo; então, pediu para sua mulher uma faca. A mulher que era teimosa a não mais poder, cismou que ele devia cortar o queijo com uma tesoura e, em vez da faca, trouxe-lhe uma tesoura. O caboclo estranhou e, de imediato, retrucou:
— Está doida, mulher? Pedi faca, e você me traz uma tesoura!
— Isso mesmo! Queijo não se corta com faca, corta-se com tesoura. Escutou?
— Não senhora! É com faca! E não me queima o juízo, senão...
— Senão o quê? É com tesoura! Com tesoura! Com tesoura! Vou dizer uma, duas, mil vezes...
Romildo insistia na faca e era sempre contestado pela mulher, tanto foi que o caboclo indignou-se e lhe aplicou o mais formidável bofetão de que há memória nas redondezas; depois agarrou sua mulher e a levou até o poço que havia no quintal, lançando-a dentro dele, gritando, irritado:
— Queijo se corta com faca ou com tesoura?
E debatendo-se dentro da cisterna, a mulher a gritou:
— Com tesoura! Com tesoura! Com tesoura... - E aos poucos foi submergindo, porém irredutível, inflexível na sua incompreensível teimosia.
Quando finalmente desapareceu em meio à água da cisterna, que lhe cobria todo o corpo, ainda conseguiu, num último esforço, erguer a mão e, com os dedos abertos, imitar as lâminas de uma tesoura.®Sérgio.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

COMO ERMA BOMBECK VÊ AS CRIANÇAS

Encontrei este texto nas minhas andanças pela internet. Ele foi escrito por Erma Bombeck, uma simples dona de casa americana. Traduzi, adaptei e lhes repasso, porque a minha paixão pelo espetáculo das ideias, não me permitiu banir da mente a vontade de compartilhá-lo com vocês. Aí está, como Erma Bombeck vê as crianças:
"Vejo as crianças como pipas. Você passa uma vida inteira tentando empiná-las. Você corre com elas até ficar sem fôlego..., elas caem..., você adiciona uma cauda mais longa. Você remenda e conforta, ajusta e ensina – e assegura-lhes que um dia vão voar.
Finalmente são capazes de voar, mas precisam de mais linha, que você continua a dar-lhes mais e mais. Com cada volta do carretel, a pipa fica mais distante. Você sabe que não vai demorar muito até que aquela bonita criatura arrebente a linha vital que os mantém unidos e voe – livre e sozinha. Só então saberá que terminou seu trabalho." ®Sérgio.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

VALORES INVERTIDOS

Já mencionei, por várias vezes em meus comentários a amigos, uma atitude comportamental que já está se tornando tradicional em nossa sociedade: a inversão de valores. Na minha adolescência, ansiávamos por participar do mundo de nossos pais e, para tanto, chegávamos até mesmo, imitá-los. Hoje, esse procedimento se inverteu: são os pais que imitam os filhos.
Pois é, para minha surpresa, lendo a revista Veja, "dou de cara" com o artigo: Os Limites da Amizade, que vem substanciar o que já havia comentado.
Diz o artigo que muitos pais e mães vão para as "baladas" com os filhos e chegam a namorar seus amigos/as. Renata Leão, que assina o artigo, pergunta: até que ponto isso é normal. Do meu ponto de vista e de meu conceito de família, isso é "anormal". É mais uma banalização, entre tantas outras. Veja o depoimento da bancária paulista Marize Tamaoki, 50 anos: "Fui casada durante mais de duas décadas com o pai de minhas filhas, Mirela, 20 anos, e Daniela, de 28. Quando me separei, em 2003, passei a frequentar, com minhas filhas, academias de ginásticas e baladas. Comecei a ir às danceterias da Vila Olímpia. Na primeira vez, os garotos da idade da Mirela vieram me paquerar. No começo ficava constrangida. Agora já me acostumei e acho ótimo".
Eis alguns trechos de outros depoimentos:
"[...] Foi estranho ver minha mãe com um amigo meu, tatuado e cabeludo, vinte anos mais novo que ela." (Camila, 20 anos)
"[...] Quando Camila quer ficar em casa, não me faço de rogada e saio com as amigas de minha filha. A moçada diz que eu tenho a síndrome de Peter Pan". (Alessandra, 52 anos)
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

sábado, 18 de setembro de 2010

TÁ FARTANDO FUBÁ - Recontando Contos Populares

Foi um dia um matuto queixar-se da falta de fubá nas redondezas onde morava, a um sitiante - homem muito simples que não gostava de contrariar as ideias do próximo.
— Eh, Patrão! É uma verdadeira desgraçia! Esse fubá anda pela horinha da morte. Não hai nem para tapar o buraco de um dente. Se continuar ansim, é coisa de pouco tempo se morrer de fome.
O sitiante, com sua natural cortesia, quis justificar a carestia:
— Há de ser com toda a certeza por falta de milho. Não tem chovido, decerto perderam-se as plantações lá pra suas bandas.
— Ih, Patrão! Choveu todo o ano. Água não fartou com a graça de Deus e ninguém deixou de plantar milho, louvado seja o Senhor, milho veio bonito que não se perdeu uma espiga!
— Então, já sei, será por avarias nos maquinismos dos moinhos lá de sua região.
— Também não é, patrão, os moinhos não têm desarranjo nenhuns, não hai outros como os nossos!
O sitiante já um tanto irritado, sem a natural cordialidade, ficou matutando, a olhar o matuto, e, não tendo mais nada pra dizer, saiu-se com esta:
— Então, patrício, há de ser por falta de fubá mesmo... ®Sérgio.

O REI QUE QUERIA CONHECER A HUMANIDADE - Recontando Contos Poulares

Mitos dos ensinamentos filosóficos da antiguidade Oriental vinham disfarçados em contos ou historinhas aparentemente inocentes, para melhor aproveitamento dos ensinamentos. É o caso deste conto do século VIII.
Conta-se que na Pérsia vivia um rei de nome Zemir. Coroado bastante jovem, descobriu que sabia muito pouco para ser um soberano. De modo que precisava, urgentemente, de instrução. Reuniu então a sua volta um grande número de eruditos, provenientes de muitos países. Pediu-lhes que compusessem, para seu uso, uma obra que contasse a história da humanidade.
Assim, os eruditos passaram a se concentrar nesse trabalho. Durante vinte anos se ocuparam no preparo da obra. Terminada, foram ao palácio, carregando quinhentos volumes acomodados no dorso de doze camelos. O Rei Zamir que já passara dos 40 anos, disse-lhes:
— Estou velho. Não terei mais tempo de ler todos esses quinhentos volumes antes de minha morte. Levando isso em conta, poderiam, por favor, preparar-me uma obra resumida?
Por mais vinte anos trabalharam os eruditos na feitura dos livros e voltaram ao palácio com três camelos apenas. Mas o rei envelhecera mais ainda. Com sessenta anos, sentia-se meio alquebrado:
— Não me será possível ler todos esses livros. Por favor, façam deles uma versão mais resumida!
Os eruditos trabalharam mais dez anos. Voltaram ao palácio com um camelo carregando alguns volumes da obra. A essa altura, com setenta anos, e quase cego, o rei não podia mais ler. Mesmo assim pediu uma versão mais resumida ainda. Os eruditos também tinham envelhecidos; mesmo assim, concentraram-se por mais cinco anos e, momentos antes da morte do monarca, voltaram com um só volume.
— Infelizmente morrerei sem nada conhecer da história do homem - disse o velho Rei.
Então, a sua cabeceira, o mais idoso dos sábios lhe respondeu:
— Vou explicar-lhe em três palavras a história do homem: o homem nasce, sofre e, finalmente, morre.
Pois foi depois de ouvir essas três palavras que o rei morreu. ®Sérgio.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O POSITIVISMO DA GÍRIA

"O que ela (a gíria) tem de positivo é a criatividade, a malícia inteligente, o poder de conotação que serve em tantos momentos para os quais a língua comum se desgastou demais. Gíria é renovação e espontaneidade. O mal, se houver, não estará na gíria, mas no seu uso inadequado. Já escrevi certa vez que não vamos em roupas de baixo a uma festa, assim como não devemos usar linguagem informal em ocasiões solenes, quando se espera do falante um tom mais sério, uma linguagem mais formal. Esse é o problema da linguagem na escola: não proibir gíria, mas também não a cultivar. Exigir, isso sim, que os alunos saibam escrever num nível culto, usando as metalinguagens apropriadas a cada disciplina: essa é uma das importantes funções do professor de qualquer disciplina, não só de português."
(Luft, Lya. Gírias e Gírias. In Correio do Povo, Porto Alegre, 1 de junho 1974. Caderno de Sábado. p. 15.)
Lya Fett Luft é romancista, poetisa, tradutora brasileira, professora universitária e colunista da revista semanal Veja. ®Sérgio.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

UM PENSAMENTO ÍNTIMO... - Seleta de Prosa

Arrastava-me para o ermo um sentimento íntimo, o sentimento de haver acordado, vivo, ainda, deste sonho febril chamado vida, e que hoje ninguém acorda, senão depois de morrer.
Sabeis o que é esse despertar de poeta?
É o ter entrado na existência com o coração que transborda de amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajuntarem-se os homens e laçarem-lhe dentro do seu vaso de inocência lodo, fel e peçonha e, depois, rirem dele.
É ter dado as palavras – virtude, amor, pátria e glória – uma significação profunda e, depois de haver buscado por anos a realidade delas neste mundo, só encontrar hipocrisia, egoísmo e infâmia:
É o perceber a custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se, e a esperança nas coisas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo tênue que ondeia em horizonte aquém do qual esta assentada à sepultura. (Fragmento de Eurico, O Presbítero de Alexandre Herculano¹.) ®Sérgio.
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(1) Alexandre Herculano. Eurico, O Presbítero São Paulo, Ática, 1991. p. 21.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

UMA HISTÓRIA QUE NÃO TEM NA HISTÓRIA

Nas festas comemorativas da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1559, Padre José de Anchieta protagonizou um acontecimento incomum.
Naquele dia, na programação das festividades comemorativas, constava o enforcamento de um prisioneiro francês, João de Bolés. O Padre José de Anchieta tinha conseguido converter o herege francês a Santa Madre Igreja, e, por isso, foi encarregado de acompanhar o condenado até a forca.
O carrasco fez a laçada, passou-a pela cabeça e ajustou-a no pescoço do condenado. A um sinal do comandante das armas, o corpo ficou suspenso no ar; mas, por incrível que possa parecer, o francês não morrera. O condenado vivia; o laço não o estrangulara.
Retiraram, então, a laçada do pescoço de Bolés; foi nesse momento que o Padre José de Anchieta - condoído da aflição do francês - interferiu no enforcamento, repreendendo o carrasco por sua imperícia desumana. Mostrou-lhe como se fazia o laço e como deveria puxá-lo para evitar, ao condenado, o suplício de ficar suspenso na laçada sem morrer.
Novamente, o corpo ficou suspenso no ar e o condenado viveu seus derradeiros instantes de vida. Consumara o enforcamento com a intervenção de Anchieta.
 Este caso foi citado em Roma contra a canonização do Padre José de Anchieta no fim do século XIX. Assim, Anchieta não foi santificado porque ajudou a enforcar o francês João de Bolés, conforme o relato do Padre Jesuíta Simão de Vasconcelos, ilustre cronista da Companhia de Jesus. ®Sérgio.
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Este texto foi elaborado de acordo com as informações contidas no livro: Histórias que não Vêm na História (1928), de Assis Cintra (1887/1937).

UM HOMEM DE CORAGEM

Imaginem:
Um domingo qualquer.
Uma Igreja lotada.
Senhores de engenho, coronéis e autoridades portuguesas.
Hora do sermão.
Um padre sobe ao púlpito.
Diz:
Os senhores poucos, os escravos muitos;
Os senhores rompendo galas, os escravos despidos e nus;
Os senhores banqueteando, os escravos perecendo à fome;
Os senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferros;
Os senhores tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e temendo-os como deuses;
Os senhores em pé apontando para o açoite, como estátuas da soberba e da tirania, os escravos prostrados com as mãos atadas atrás como imagens vilíssimas da servidão e espetáculos de extrema miséria.
Oh! Deus! Quantas graças devemos a fé que nos deste, porque só ela nos dá o entendimento, para que à vista destas desigualdades, reconhecemos, contudo, vossa justiça e providência!
Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva?
Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo?
Estes corpos não nascem e morrem, como os nossos?
Não respiram com o mesmo ar?
Não os cobre o mesmo céu?
Não os esquenta o mesmo Sol?
Que destino é este que os domina, tão triste, tão inimigo; tão cruel?
Esse Padre chamava-se Antônio Vieira.
Nasceu na primeira década de um século (Lisboa, 1608), e só morreu na última (Bahia, 1697).
Com uma coragem rara fez do púlpito sua tribuna e se tornou o maior Orador Sacro de nossa língua.
Em toda sua vida e em todo o seu tempo não houve, no Brasil e em Portugal, quem a ele, em brilho, fizesse sombra.
Poucos tiveram a faculdade de suscitar tanto ódio e admiração, poucos têm sido tão lidos e analisados.
Entrou nos palácios com a mesma segurança que explorou as selvas. Enfrentou a inquisição. Lutou contra a escravidão dos negros e dos índios num tempo em que a escravatura era encarada como normal e até mesmo necessária. Defendeu a liberdade religiosa numa época de intolerância, em que os suspeitos de professarem a fé não católica, eram condenados pela inquisição.
E, sobretudo, defendeu sonhos.
Por isso tudo, o Padre Antônio Vieira é uma das personagens mais importantes da nossa Literatura, como também, da História do Brasil e de Portugal no século XVII.
O Sermão? Era o Vigésimo Sétimo. ®Sérgio.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A SEMENTE E A PALAVRA DE DEUS

O trigo que semeou o pregador, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e neste seca-se a palavra de Deus, e se nasce não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e o tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam, e neste é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum.
Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje, e é uma dádiva ou admiração que me traz suspenso e confuso, depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus?
Padre Antônio Vieira, Sêmen est Verbum Dei, in Sermão da Sexagésima.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

AS COMÉDIAS (2)

Dependendo da fonte que provoca o riso, a comédia pode se classificar em vários tipos, dos quais destaco as seguintes:
Comédia de Costumes visa a criticar os hábitos e os costumes de uma sociedade em determinada época. A exemplo de Les Precieuses Ridicules (1659) e Les Femmes Savantes (1662), de Molière.
Comédia de Personagem – quando a ênfase recai num tipo, isto é, numa personagem representativa de uma tendência (perpétua) do ser humano, como em Tartuffe (1664) de Molière, cujo personagem homônimo é um hipócrita e falso devoto.
Comédia Ballete - inventada por Molière, consiste numa comédia de costumes ou de personagem entremeada de cenas de dança cômica.
Comédia Lacrimejante – quando emprega lágrimas para sensibilizar o público. O dramaturgo francês Nivelle de la Chaussée, foi o criador dessa modalidade com peças como Fause Antiphie (1733) e Melanida (1741). 
Comédia de Capa e Espada – de origem espanhola, recebeu tal denominação pelo fato de os cavaleiros da época (século XVI), usarem capa e a espada. Gira sempre ao redor de intrigas amorosas, como em La Dama Boba (1613), de Lopez de Vega.Il est le seul (avec sa mère, madame Pernelle) à en être dupe.
Comédia de Humor Negro - é um subgênero da comédia e da sátira, onde temas graves como a morte, estupro, assassinato, aniquilação humana ou violência doméstica são tratados de forma satírica.
Comédia Pastelão - é uma comédia de cinema, pois apresenta perseguições, colisões e brincadeiras onde as personagens só fazem coisas tolas e embaraçosas, como tropeçar, cair, só para provocar o riso nas pessoas.  O famoso comediante Charlie Chaplin, compôs uma série de comédias pastelão. ®Sérgio.
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AS COMÉDIAS

Dependendo da fonte que provoca o riso, a comédia pode se classificar em vários tipos, dos quais destaco as seguintes:
Entremés era um de comédia teatral de um só ato que se caracteriza pela comicidade e pela brevidade, pois a trama e o conflito eram mínimos. Os personagens oscilavam entre três e cinco e representavam as classes sociais baixas e populares em situações absurdas e grotescas a fim de provocar o riso fácil. A representação se dava nos intervalos dos atos de uma obra principal.
Commedia Dell'arte, também chamada de commedia a soggeto (comédia de tema), commedia all'improvviso (comédia de improviso), commedia dei zanni (comédia dos criados), commedia dei maschere (comédia de máscaras), commedia all'italiana (comédia italiana). Mas, de todas essas denominações, a que prevaleceu mesmo foi Commedia Dell'arte (séculos XVI e XVIII). Eram apresentações improvisadas a partir de um acervo de situações (adultério, ciúme, velhice, amor) e personagens padronizados. Muitos dos elementos básicos da Commedia Dell'arte vieram das comédias romanas (palliata comoedia) de Plauto e Terêncio.
O Vaudeville é uma comédia entremeada de árias. Fundamente-se quase que exclusivamente na intriga e no efeito provocado pelos equívocos, despertando a graça.
Comédia Burlesca - por meio da paródia, sátira ou caricatura, a comédia burlesca ridicularizava instituições, escolas, costumes e valores sociais. Originalmente, parodiava textos clássicos, como as epopeias, utilizando uma linguagem zombeteira e exagerada que tinha como finalidade ridicularizar a obra. Por exemplo, a obra Virgile Travesti (1648) de Paul Scarron, autor francês do séc. XVII, uma paródia ao poema épico de Virgílio.  Tem-se que a comédia burlesca originou-se a partir da Comédia Dell'arte italiana.
A Farsa - este tipo de comédia pretende provocar o riso sem intenção didática ou moralizante; e sim, a partir de exageros tirados da observação da vida quotidiana. A farsa depende mais da ação do que do diálogo; mais dos aspectos externos (cenários, roupas, gestos, etc.) do que do conflito dramático. Seus personagens, em número restrito, são tirados da própria vida urbana. A farsa não observa regras de verossimilhança podendo chegar ao absurdo. Difere da sátira ou da paródia por não pretender questionar valores. Dentre os numerosos exemplares desse gênero (mais de cento e cinquenta) produzidos entre 1440 e 1560, época de seu florescimento, destaca-se La Farce de Maîte Pathélin,  composta entre 1460 e 1470. ®Sérgio.