sábado, 19 de junho de 2010

DOR SEM NOME

Jamais nesta vida e, possivelmente, na outra, me cansarei de louvar o poeta Gonçalves Dias. De poesia genuinamente brasileira, foi ele o nosso primeiro e jamais excedido poeta. Digo jamais excedido porque falo de um poeta comum, escrevendo sobre uma realidade comum a todos, na linguagem do homem comum.
Quando Gonçalves Dias viajou para Portugal, acompanhava-lhe seu pai. O poeta buscava instrução e seu pai a saúde. Pouco depois de ali terem chegado, morreu-lhe o pai, que já saíra do Brasil muito doente. Com quatorze anos, achou-se Gonçalves Dias só, em terra estranha. Esta circunstância, agravada pela distância da pátria e da mãe, aumentou-lhe a natural dor da perda do pai. No belíssimo poema autobiográfico “Saudades”, que dedicou à irmã, retirei este fragmento, que expressa os momentos de uma dor que não tem nome:
[...]
De quando sobre as bordas de um sepulcro
Anseia um filho, e nas feições queridas
Dum pai, dum conselheiro, dum amigo,
O selo eterno vai gravando a morte!
Escutei suas últimas palavras,
Repassado de dor! — Junto ao seu leito,
De joelhos, em lágrimas banhado
Recebi os seus últimos suspiros.
E a luz funérea e triste que lançaram
Seus olhos turvos, ao partir da vida,
De pálido clarão cobriu meu rosto
No meu amargo pranto refletido
O cansado porvir¹ que me aguardava!
______________________________
1 - o tempo que está por vir, por acontecer; futuro.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

CARA AMIGA...

Os olhos
Que olhas,
No espelho,
Não são teus olhos;
São os olhos
Da tua dor. ®Sérgio.

EU E MINHA ALEGRIA

Há uma perpétua distância entre mim e minha alegria; e quanto mais procuro vivê-la mais parece que ela se afasta de mim: como se os esforços que faço para encontrar a luz só servissem para tornar mais espeça e impenetrável à cortina que me separa dela. (Jacques Levigne)

O MATA-BURRO INSIDIOSO

O verso livre foi uma porteira aberta para os maus artistas. Mas há um mata-burro nessa porteira aberta. E o que se está vendo e muita perna quebrada nesse mata-burro insidioso. (Manuel Bandeira)

A MINHA ANIQUILAÇÃO

Eu acredito que quando morrer irei apodrecer e nada do meu ego sobreviverá. Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação. A felicidade não é menos felicidade porque deve chegar ao fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor porque não são eternos. (Bertrand Russel, filósofo galês)

domingo, 6 de junho de 2010

O MANIFESTO TÉCNICO DA LITERATURA FUTURISTA

Em 1912, escritor Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), publica em Milão, o Manifesto Técnico da Literatura Futurista, propondo:
    A destruição da sintaxe;
    O emprego do verbo no infinitivo;
    A abolição do adjetivo, do advérbio e da pontuação;
    A supressão dos elementos de comparação;
    Dispor os substantivos ao acaso, como nascem;
    A supressão do "eu";
    O uso de símbolos matemáticos e musicais.
Não seria sem razão afirmar que Marinetti abriu caminho para uma geração de escritores que empregaram uma estética liberada dos usos e da lógica tradicionais.
A respeito disso, ou melhor, da liberdade poética, Manuel Bandeira escreveu: "O verso livre foi uma porteira aberta para os maus artistas. Mas há um mata burro nessa porteira aberta. E o que se está vendo é muita perna quebrada nesse mata-burro insidioso." (M. Bandeira, in: Andorinha, Andorinha.) ®Sérgio.

VOCÊ SABIA QUE...

Na Antiguidade Grega, acreditava-se que o tamanho do nariz era proporcional ao dos órgãos genitais; portanto, narizes grandes eram sinônimos de virilidade. Virgílio, na "Eneida", descreve o costume de amputação da pirâmide nasal em homens e mulheres como punição ao crime de adultério.
Aristóteles (384-322 a.C.), em seu livro "A História dos Animais" escreveu que as pessoas com orelhas grandes e salientes tinham uma tendência para as conversas sem importância e fofocas.
O filósofo Diógenes de Apolônia (499–428 a.C) acreditava que os fluídos (menstruação) da mulher podiam enevoar um espelho de metal, tirar o corte de uma lâmina de aço, o brilho do marfim, enferrujar bronze e ferro, destruir colmeias de abelhas e enlouquecer cachorros.
Os gregos acreditavam que os seres vivos respiravam pelas orelhas. O filósofo Alcmaeon (século V a.C.) escreveu que "o sopro da vida entra pela orelha direita, e o sopro da morte, pela orelha esquerda". ®Sérgio.

sábado, 5 de junho de 2010

AS FORMAS DE ESCREVER

Cada indivíduo tem seu jeito de falar e de escrever, isto é, tem seu estilo. Mas, também, cada indivíduo, tem uma maneira, uma forma própria de melhor materializar seus pensamentos. Veja neste excerto a maneira escolhida por alguns dos mais consagrados escritores.
"Os escritores escrevem de forma anárquica: ao meio-dia, ao cair da tarde, à noite, no calor, nos cafés, na cama, sentados, deitados, de pé, passeando com um gravador, duas horas de vez em quando, 20 horas a fio... Nada de método, nada de receitas, nada que parece uma organização racional de trabalho.
Sim, escreve-se de dia ou de noite, de pé, sentado ou na cama, a lápis, com caneta, com máquina de escrever, ou mesmo com computador. Henry Miller confessava que na sua juventude escrevia de noite e que depois se acostumou a fazê-lo pela manhã, como Faulkner ou Moravia. De pé escrevia Hemingway, e na cama, Trumam Capote, Proust, Alexaindre... No escuro Gabriela Mistral... Em silencio total, Lamartine, Juan Ramón Jimenez... Com música ou no ambiente barulhento de um café, Ramon Gomes de La Serna, Breton, Valle-Inclán... Já vimos que Balsaque e Strindberg bebiam muito café, e este último fumava sem parar. Miller, Garcia Marques... com computador, o primeiro foi o autor de ficção Arthur Clarke, que muitos anos atrás foi morar numa ilha do Pacífico, de onde enviava seus romances num disquete, a seu editor... Deveria ser feita uma pesquisa para saber quantos escritores de hoje compõem seus textos diante de uma tela. Isso faria mais de um autor se revirar no túmulo. Flaubert, que levava quatro horas para completar uma frase e cinco dias para acabar uma página, enlouqueceria." (Nieto, Ramón. O Ofício de Escrever. Ed. Angra:2001)
E você, meu amigo, de que forma sente mais prazer para escrever? ®Sérgio.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O GOSTO EM SER PISADA - Seleta de Prosa

"A terra aqui é pegajenta e melada, agarra-se aos homens com modos de garanhona. Mas ao mesmo tempo parece sentir gosto em ser pisada e ferida pelos pés da gente, pelas patas dos bois e dos cavalos. Deixa-se docemente marcar até pelo pé de um menino que corra brincando, empinando um papagaio. Até pelas rodas de um cabriolé velho que vá aos solavancos de um engenho de fogo morto a uma estação da Great Western." (Gilberto Freyre, A Cana da Terra; in Nordeste. Rio de Janeiro: Record, 1989. p. 42.)
Gilberto de Mello Freyre (1900—1987) foi sociólogo, antropólogo, escritor e pintor brasileiro; um dos grandes nomes da história do Brasil. ®Sérgio.

sábado, 22 de maio de 2010

HEITOR E O FILHO DE TÉTIS

"Canto de ira, deusa, a destruidora ira de Aquiles, filho de Peleu, que trouxe incontáveis dores aos Aqueus, e mandou muitas almas valiosas de heróis a Hades, enquanto seus corpos serviam de alimento para os cães e pássaros, e a vontade de Zeus foi feita ..." (introdutório de a Ilíada de Homero)
Aquiles, o maior dos heróis gregos, era filho de Peleu, rei da Riótida, na Tessália. Pela parte de seu avô Éaco, ele descendia de Zeus (há quem diga de Posídon). Os vassalos de Peleu eram chamados de Mirmidões, desde quando Zeus, desejoso de dar um povo a Éaco, transformou uma colônia de myrmex (formigas) em homens. A mãe de Aquiles era Nereide Tétis, neta da Terra e do Mar.
Pois bem, durante nove anos, os gregos estiveram envolvidos em escaramuças com os Troianos sem grandes consequências. No decorrer desse período, os invasores aproveitaram para realizarem expedições às ilhas vizinhas de Tróia e pilharem as cidades. Em uma dessas expedições, Agamêmnon (o rei mais poderoso da Grécia) raptou Criseida, a filha do sacerdote de Apolo, e Aquiles, a bela Briseida, tornando-a sua serva.
No décimo ano de cerco a Tróia, Aquiles e Agamêmnon envolveram-se em uma disputa. Apolo dirigiu uma praga sobre o acampamento grego, que só seria retirada se Agamêmnon devolvesse Criseida ao pai. O rei grego, então, se viu obrigado a entregá-la ao pai; porém, como compensação, exigiu a serva de Aquiles. Enraivecido, o herói grego, decidiu abandonar a guerra e retirou-se para o acampamento, pondo assim em perigo a causa Grega.
Pátroclo, primo e possível amante de Aquiles, pediu-lhe que permitisse liderar os Mirmidões, na batalha que se fazia iminente. Pediu, também, emprestada a armadura de Aquiles; usando-a, espalharia o terror nas linhas troianas, pois iriam tomá-lo por Aquiles. Este concordou e Pátroclo partiu, lutou, e foi morto por Heitor, o melhor guerreiro troiano, filho de Príamo (rei de Troia).
Ao receber a notícia da morte de Pátroclo, Aquiles ficou enlouquecido de dor. Esqueceu a sua rixa com Agamêmnon, e só pensava em vingar a morte do primo. Sua mãe veio até ele e prometeu-lhe uma nova armadura para substituir a que ficou na posse de Heitor. Tetis encarregou Hefesto, o deus-ferreiro, de lhe forjar uma nova armadura. Assim, Aquiles e os Mirmidões conseguiram empurrar os troianos para dentro da muralha da cidade. As vítimas de Aquiles foram tantas que entulharam o leito do rio Escamandro. Mas é Heitor que Aquiles quer. E Heitor não viu alternativa, senão enfrentar Aquiles em duelo.
Quando o filho de Tétis, sombrio, olhar fulgurante, monstruoso dentro da nova armadura, surgiu diante de Heitor, este se aterrorizou e tentou fugir. Aquiles, porém, o perseguiu por três voltas ao redor das muralhas de Tróia. Na terceira volta, a deusa Atenas resolveu intervir. Assumindo a forma do irmão favorito de Heitor, Deífobo, convence-o a enfrentar Aquiles.
Antes que o duelo começasse, Heitor pede a Aquiles um pacto: que o vencedor respeitasse o cadáver do vencido, permitindo que o corpo fosse resgatado após a morte para que tivesse um funeral digno. Aquiles, furioso por Heitor ter matado Pátroclo, diz-lhe que não há pacto entre presa e predador. Dito isso, partiu, insano, para o duelo. Com a lança, fere mortalmente Heitor na garganta (a única parte desprotegida de armadura), que cai ao chão, mal podendo falar. Entretanto, compreendendo que ia morrer, com grande esforço, volta a implorar que Aquiles permita que seu corpo seja devolvido a Tróia para ser devidamente velado. Aquiles novamente nega-lhe o pedido, e lhe diz que seu corpo será pasto de cães e abutres, enquanto o de Pátroclo será honrado. Depois, mais uma vez, atravessa a garganta de Heitor com a lança. Assim morre o bravo Heitor diante de seus entes queridos, desmanchados em lágrimas e lamentos, que a tudo assistiram de dentro das muralhas.
Aquiles, então, amarra o corpo de Heitor - pelos calcanhares - atrás de sua biga e o arrasta ao redor das muralhas da cidade, para que toda Troia pudesse ver. Feito isso, arrasta-o até ao acampamento grego e joga-o em frente de sua choupana. A seguir, prepara um esmerado funeral em honra a Pátroclo. Uma grande pira foi construída; sobre ela ovelhas, bois, os quatro cavalos e dois dos cachorros de Pátroclo são sacrificados e suas carcaças empilhadas ao lado de seu corpo. A pira ardeu durante toda a noite. Nos dia seguinte, os ossos de Pátroclo foram coletados e colocados numa urna dourada, e um grande monte foi erguido no local da pira. Todo dia ao amanhecer, Aquiles arrastava por três vezes o corpo de Heitor ao redor do monte, que até mesmo os deuses ficaram chocados com isso. Tanto que Zeus enviou Íris (mensageiro dos deuses) a Tróia para instruir Príamo, pai de Heitor, a ir durante a noite, secretamente, pedir a Aquiles o corpo do filho.
Escoltado por um mensageiro ele veio escondido ao acampamento e, sem ser percebido, chegou à tenda de Aquiles. Jogando-se aos pés do herói grego, implorou que lhe fosse permitido levar a Tróia o corpo de seu filho, para que pudesse ser adequadamente pranteado e enterrado. O apelo foi tão comovente que choraram juntos. Aquiles, então, concede o salvo-conduto a Príamo. Ainda mais: promete-lhe trégua pelo tempo que fosse necessário para a realização do funeral de Heitor. Príamo leva o corpo do filho de volta a Tróia, onde são prestadas as honras fúnebres ao príncipe e maior herói troiano. ®Sérgio.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O DELEGADO, O BÊBADO E OS DIABOS - Recontando Contos Populares

Um amigo, que por alguns anos atuou como delegado em uma cidadezinha do interior, narrou-me esse "causo". Eu não sei se o acontecido é verdadeiro ou não; certo é que poderia ser. Mas “assim ou assado”, eu lhes conto, com minhas letras o que dele ouvi.
Havia, dentro do cemitério dessa pequena cidade, uma figueira "lotada" de frutos. Dois irmãos, seduzidos pelos figos, decidiram entrar no cemitério, na calada da noite, e pegar uma porção de figos. Pois então..., pularam o muro, aproximaram-se da figueira e o irmão mais velho subiu na árvore, enquanto o mais novo ficou embaixo para "catar" os figos que o mais velho deixava cair lá de cima.
E vêm, e vêm figos. De repente o irmão mais novo grita para o mais velho:
— Mano! Dois figos caíram do lado de fora do muro.
— Não tem importância, depois que a gente terminar aqui, pegamos os outros.
E vêm figos. Terminada a colheita, o mais velho desceu da árvore e com o mais novo, começou a repartir o resultado da coleta:
— Um pra mim, um pra você; um pra mim, um pra você; um...
E assim, cada qual ia colocando os figos em suas respectivas sacolas.
Segundo a crença de nossos sertanejos, a figueira é planta do diabo. É tido como certo que nas figueiras há reunião de demônios que ali fazem suas orgias. Então, um bêbado que passava do lado de fora do muro, escutou aquela conversa de "um pra mim, um pra você"; para ter certeza de que não estava imaginando coisas, parou e escutou novamente: "um pra mim, um pra você". Não deu outra, lançou-se numa carreira despinguelada até a delegacia da cidadezinha. Chegou quase sem fôlego, mas teve força suficiente para dizer ao delegado:
— Doutor, vem comigo! Os diabos estão no cemitério, debaixo da figueira, dividindo as almas dos mortos!
O delegado, suspeitando ser conversa fiada de cachaceiro, ameaçou-o de prisão caso não saísse, imediatamente, da delegacia. Ao que o bêbado respondeu:
- Juro Doutor! Juro por Deus que é verdade! Vem comigo!
Diante de tanta insistência, o delegado resolveu acompanhar o bebum. Foram até o cemitério, chegaram perto do muro e escutaram a repartição dos irmãos:
- Um pra mim, um pra você... Um pra mim, um pra você...
O delegado um tanto assustado exclama:
- Ora essa! É verdade! Eles estão dividindo as almas dos mortos!
Mal o delegado acabara de falar, os dois irmãos terminam a divisão dos figos; então o mais novo pergunta ao mais velho:
— Pronto, acabamos. E agora?
— Agora, a gente vai lá fora e pega os dois que estão do outro lado do muro…
O resto da história vocês podem imaginar, foi um tal de salve-se, quem puder. ®Sérgio.

REFLEXÕES SOBRE A CRÔNICA

"A crônica é filha do jornal e da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa. Ela não foi feita originalmente para o livro, mas para essa publicação efêmera que se compra num dia e no seguinte é usada para embrulhar um par de sapatos ou forrar o chão de cozinha." (CÂNDIDO, Antônio. A vida ao rés do chão. Em: Para gostar de ler: crônicas, volume 5. São Paulo, Ática.
Antonio Candido de Mello e Souza (Rio de Janeiro, 24 de julho de 1918) é poeta, ensaísta e professor. Recebeu os prêmios:  Intelectual do Ano 2007, conferido pela UBE - União Brasileira de Escritores, em 2008, e O Prêmio Juca Pato que agracia o intelectual que mais se destacou no ano anterior.
"A estrutura da crônica é uma desestrutura; a ambiguidade é sua lei. A crônica tanto pode ser um conto, como um poema em prosa, um pequeno ensaio, como as três coisas simultaneamente. Os gêneros literários não se excluem: incluem-se. O que interessa é que a crônica, acusada injustamente como um desdobramento marginal ou periférico do fazer literário, é o próprio fazer literário. E quando não o é, não o é por causa dela, a crônica, mas por culpa dele, o cronista. Aquele que se apega a notícia, que não é capaz de construir uma existência além do cotidiano, este se perde no dia-a-dia e tem apenas a vida efêmera do jornal. Os outros estes transcendem e permanecem." (PORTELLA, Eduardo. Visão prospectiva da literatura brasileira, 1979, p. 53-4. In: Vocabulário técnico da literatura brasileira. Rio de Janeiro, Tecnoprint, 1979.)
Eduardo Mattos Portella (Salvador, 8 de outubro de 1932) é crítico, professor, escritor, conferencista, pesquisador, pensador, advogado e político brasileiro. Pertence à Academia Brasileira de Letras.
®Sérgio.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

OS REMÉDIOS DO AMOR E O AMOR SEM REMÉDIO

"O que é o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem poderá apreendê-lo, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir em palavras o seu conceito? [...]. Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, então o tempo? Se ninguém me perguntar, eu o sei; se quiser explicá-lo a quem me fizer a pergunta, já não sei." (Santo Agostinho. Confissões, p.322.)
Há muito tempo, quando meu ser despertava para as letras, folheava um livro sobre nossa Literatura e, em dado momento, meus olhos fixaram-se sobre um texto do Padre Antônio Vieira. Já no primeiro parágrafo de leitura, senti-me tomado de emoção e, também de admiração, ao perceber que tinha em minhas mãos algo realmente maravilhoso. Assim, sempre que me é dada a oportunidade, procuro repassá-lo, na esperança de que os mesmos sentimentos que transpassaram meu coração, transpassem outros também.
OS REMÉDIOS DO AMOR E O AMOR SEM REMÉDIO¹
[...].Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore quanto mais a corações de cera! São as feições como as vidas, em que não há mais certo sinal de haverem durado pouco, do que terem durado muito. São as vidas como linhas espirais, que partindo do centro, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão vigoroso que chegue a ser velho. De arco e flecha que lhe armou a natureza, desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco com que já não mais atira; embota-lhe a seta, com que já não mais fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda essa diferença, é, porque o tempo tira a novidade das coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem mais as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso quanto mais o amor! O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.
Padre Antônio Vieira (1608-1697), Sermão do Mandato, parte III, in Sermões (1643).
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1 – Título Fantasia. (N. T.)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

QUEM SOU?

Sou matéria e espírito.
Sou finito e infinito.
Sou transitório e definitivo.
Sou provisório e permanente.
Sou mortal e imortal.
Sou terreno e celestial.
Sou o oximoro, o paradoxo, a antítese divina.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

UMA PUNHETA PARA A MESA OITO!

Não tenho dificuldade em dizer que no campo da semântica já temos uma unidade linguística praticamente brasileira. Mas essa reflexão é minha e não posso absolutamente garantir que esteja certo. Mas se você for comparar o significado de algumas palavras aqui do Brasil com as de Portugal, certamente vai concordar comigo. Mais ainda, se observar que nas capas de alguns livros de autores brasileiros atuais, aparece escrito: traduzido para Portugal. Como na capa do livro Quem Ama, Educa, do doutor Içami Tiba, que aparece escrito: Traduzido para a Itália, Espanha e Portugal. Não é de se estranhar? Um livro foi traduzido do português para o português?
Ora, isso, conscientemente falando é prova de que o jeito brasileiro de escrever e falar vem se afastando da puríssima língua portuguesa.
Quem for a Portugal não deve deixar de provar um delicioso tira-gosto: uma rica porção de bacalhau, cru e desfiado. Nem deve se apoquentar se o empregado de mesa (garçom) gritar bem alto: — Uma Punheta Para a Mesa Oito! (Revista Época, de 27 de março, pág. 17)
Para deixar você mais seguro sobre o assunto, alguns exemplos de palavras que não têm mais nada a ver aqui e lá, entre tantas outras. Antes, porém, quero esclarecer que, em Portugal, Durex é uma famosa marca de camisinhas:
Aqui na Terra
Lá na terrinha...
Camisinha
Camisa-de-vénus
Durex
Fita-cola
Cafezinho
Bica
Fila
Bicha
Homossexual
Paneleiro
Sapatão
Fufa
Pãozinho francês
Cacete
Um grupo de crianças
Canalhas
Um adolescente
Puto
Peruca
Capacinho
Calcinha feminina
Cueca
Ficar menstruada
Andar com o período
Absorvente feminino
Penso higiênico
Dentista
Estomatologista
Professor particular
Explicador
Comissária de bordo
Hospedeira
Garis
Almeidas
Salva-vidas de praia
Banheiro
Sanitário
Retrete
Cego
Invisual
Chiclete
Pastilha elástica
Injeção
Pica
Embebedar-se
Enfrascar-se
Tesão*
Ponta
Alô?
Está lá?
Fonte: Revista Época, de 27 de março, pág. 17. ®Sérgio

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A ARMADILHA DA COLUNISTA

Uma amiga, que trabalha na redação de uma revista feminina, contou-me, certa vez, que recebeu de uma leitora o seguinte e-mail:
"Sou uma mãe novata e assídua leitora de sua coluna de conselhos para a mulher e o lar. Sempre faço o que você manda, por isso quero que me dê uma explicação. No último número, dirigindo-se às mães que não amamentam os filhos, você escreveu: Quando a criança terminar a mamadeira, lave-a bem em água corrente. Eu experimentei lavar minha filhinha na torneira, mas ela chorou tanto que eu desisti. O que devo fazer?"
Olhei bem para minha amiga e lhe perguntei zombeteiramente:
— É para acreditar?!
Infelizmente era, sua colega que também trabalha na revista, confirmou o fato.
Naquele momento, foi essa a primeira impressão que tive da assídua leitora de minha amiga; porque a linguagem oral conta com certos recursos para tornar o sentido preciso (gestos, expressão corporal ou facial, repetição, etc.). Além do mais, a comunicação oral convida-nos mais a opiniões acerca da intérprete que do conteúdo da obra comunicada. Quando fiz a transcrição da carta para o papel, pois era algo digno de nota, notei que a interpretação da leitora sobre o texto da colunista, era resultado de uma armadilha textual.
Como a linguagem escrita conta apenas com a palavra para compor um texto, o escritor precisa assumir a perspectiva do leitor, caso contrário pode dificultar a compreensão e criar para o ele uma armadilha chamada ambiguidade: "Quando a criança terminar a mamadeira, [lave-a] bem em água corrente." Lavar quem: a criança ou a mamadeira?. A leitora assídua interpretou que a criança é quem deveria ser bem lavada. Não é uma interpretação muito comum, mas acontece.
Em casos como esse, é compreensível a repetição do termo «mamadeira», como meio de evitar a ambiguidade: “Quando a criança terminar a mamadeira, lave bem a [mamadeira] em água corrente”.
Pensando bem, nem haveria a necessidade de se repetir o termo, bastava ela escrever mamar, em vez de mamadeira, assim: “Quando a criança terminar de [mamar], lave bem a mamadeira em água corrente.” E fim de papo.
Dias depois, quando reencontrei minha amiga colunista, não lhe comentei nada, regra geral é uma tarefa ingrata... ®Sérgio.

sábado, 24 de abril de 2010

AULA NO CAMPO

O professor de geografia chamou-me, à porta de minha sala de aula. Interrompi a exposição que fazia aos alunos e fui atendê-lo.
— Pois não!
— Ricardo! Vou levar meus alunos para uma aula de campo na chácara do diretor; escalei você para me ajudar a controlar a meninada no mato! - Explicou o professor.
Luís Carlos, professor de geografia, era um dos bons amigos que fiz naquela escola; não havia como não aceitar o pedido. Concordei com um, OK!
Retornei ao centro da sala, notifiquei e dispensei os alunos, que levaram menos de um minuto para arrumarem suas mochilas, e fui reunir-me com Luís, que já me aguardava no micro ônibus que levaria a molecada para o campo. Antes, porém, fui até a sala dos professores e guardei no meu armário todos os objetos que porventura poderia derrubar ou perder na mata.
Seguíamos, vagarosamente, por uma trilha, com o professor Luís explicando aqui e ali os acontecimentos geográficos, quando nos deparamos com um riacho e uma ponte estreita feita com dois troncos de árvore, presos ao solo em cada uma das margens. Tipo de ponte que aqui se dá o nome de pinguela.
— Ricardo!... Temos de atravessar!... Vou atravessar primeiro e você só depois que o último aluno atravessar! - Grita-me Luís em meio à algazarra da meninada.
Fiz-lhe um positivo e ele partiu, não sem antes advertir os alunos para tomarem cuidado com os objetos pessoais e, principalmente, com as mochilas. Caso elas caíssem no riacho, seria difícil de recuperá-las, devido à correnteza.
Logo após os primeiros passos, na pinguela, o professor Luís, perde o equilíbrio e, se não agarra a um dos troncos, cairia inteiro, no riacho. Depois desse incidente, atravessamos a garotada normalmente.
Eu, sem noção do tempo, ali no meio da mata, pois tinha deixado meu relógio na escola, perguntei ao professor Luís quanto tempo faltava para retornamos:
— Não sei mesmo – respondeu-me, constrangido, olhando para a ponte – deixei cair meu relógio, no riacho, ao atravessá-la.
Salve-se..., quem puder! ®Sérgio.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O UNHA DE FOME - Recontando Contos Populares

Conta-se que morava em certa região do sertão, um fazendeiro bonachão, cheio de si e muito rico, porém unha de fome como ele só. Viúvo de muito tempo, só deixava como seu herdeiro dois sobrinhos aos quais em vida – verdade seja dita – nada lhes dera.
Um dia esse fazendeiro, que vivia sempre isolado, foi dado como morto no quarto da casa onde morava. Os sobrinhos foram chamados pelos empregados da fazenda, que trataram de lhe fazer o enterro.
Como o lugar ficava muito distante do arraial, onde seria enterrado, o corpo foi levado numa padiola. Vencida obra de meia légua, a padiola estremeceu e como ia acompanhando o enterro um benzedeiro do lugar, chamaram-no, e o charlatão examinado o fazendeiro avarento - que tentava sentar-se na padiola - tirou do bolso um vidro de cheiro, chegando-lhe ao nariz. O perfume era tão ruim que o avarento se pôs, mais que depressa, sentado na padiola e perguntou-lhe:
— E então, seu benzedeiro, quanto custou o seu trabalho?
E o benzedeiro, querendo aproveitar a ocasião para ganhar algum dinheiro daquele pão-duro, disse-lhe:
— Quase nada, seu Epaminondas, uns cem mil à toa pagam bem.
O avarento do Epaminondas ficou aturdido, meio que tonteou, levantou as sobrancelhas, arregalou os olhos e exclamou:
— Cem mil! Ara sô, tá doido homem! Sabe de uma coisa? Pessoal, toca pro cemitério!
E estendeu-se a todo comprimento na padiola. ®Sérgio.
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Nota: Este texto é uma variante do conto João Preguiça. Nos folclore tradicional português (Algarves) há variantes com o nome de Pedro Preguiça e A Preguiçosa. Alphonse Daudet aproveitou-o em um conto intitulado O Figo e o Preguiçoso.