sexta-feira, 14 de maio de 2010

OS REMÉDIOS DO AMOR E O AMOR SEM REMÉDIO

"O que é o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem poderá apreendê-lo, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir em palavras o seu conceito? [...]. Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, então o tempo? Se ninguém me perguntar, eu o sei; se quiser explicá-lo a quem me fizer a pergunta, já não sei." (Santo Agostinho. Confissões, p.322.)
Há muito tempo, quando meu ser despertava para as letras, folheava um livro sobre nossa Literatura e, em dado momento, meus olhos fixaram-se sobre um texto do Padre Antônio Vieira. Já no primeiro parágrafo de leitura, senti-me tomado de emoção e, também de admiração, ao perceber que tinha em minhas mãos algo realmente maravilhoso. Assim, sempre que me é dada a oportunidade, procuro repassá-lo, na esperança de que os mesmos sentimentos que transpassaram meu coração, transpassem outros também.
OS REMÉDIOS DO AMOR E O AMOR SEM REMÉDIO¹
[...].Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore quanto mais a corações de cera! São as feições como as vidas, em que não há mais certo sinal de haverem durado pouco, do que terem durado muito. São as vidas como linhas espirais, que partindo do centro, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão vigoroso que chegue a ser velho. De arco e flecha que lhe armou a natureza, desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco com que já não mais atira; embota-lhe a seta, com que já não mais fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda essa diferença, é, porque o tempo tira a novidade das coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem mais as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso quanto mais o amor! O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.
Padre Antônio Vieira (1608-1697), Sermão do Mandato, parte III, in Sermões (1643).
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1 – Título Fantasia. (N. T.)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

QUEM SOU?

Sou matéria e espírito.
Sou finito e infinito.
Sou transitório e definitivo.
Sou provisório e permanente.
Sou mortal e imortal.
Sou terreno e celestial.
Sou o oximoro, o paradoxo, a antítese divina.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

UMA PUNHETA PARA A MESA OITO!

Não tenho dificuldade em dizer que no campo da semântica já temos uma unidade linguística praticamente brasileira. Mas essa reflexão é minha e não posso absolutamente garantir que esteja certo. Mas se você for comparar o significado de algumas palavras aqui do Brasil com as de Portugal, certamente vai concordar comigo. Mais ainda, se observar que nas capas de alguns livros de autores brasileiros atuais, aparece escrito: traduzido para Portugal. Como na capa do livro Quem Ama, Educa, do doutor Içami Tiba, que aparece escrito: Traduzido para a Itália, Espanha e Portugal. Não é de se estranhar? Um livro foi traduzido do português para o português?
Ora, isso, conscientemente falando é prova de que o jeito brasileiro de escrever e falar vem se afastando da puríssima língua portuguesa.
Quem for a Portugal não deve deixar de provar um delicioso tira-gosto: uma rica porção de bacalhau, cru e desfiado. Nem deve se apoquentar se o empregado de mesa (garçom) gritar bem alto: — Uma Punheta Para a Mesa Oito! (Revista Época, de 27 de março, pág. 17)
Para deixar você mais seguro sobre o assunto, alguns exemplos de palavras que não têm mais nada a ver aqui e lá, entre tantas outras. Antes, porém, quero esclarecer que, em Portugal, Durex é uma famosa marca de camisinhas:
Aqui na Terra
Lá na terrinha...
Camisinha
Camisa-de-vénus
Durex
Fita-cola
Cafezinho
Bica
Fila
Bicha
Homossexual
Paneleiro
Sapatão
Fufa
Pãozinho francês
Cacete
Um grupo de crianças
Canalhas
Um adolescente
Puto
Peruca
Capacinho
Calcinha feminina
Cueca
Ficar menstruada
Andar com o período
Absorvente feminino
Penso higiênico
Dentista
Estomatologista
Professor particular
Explicador
Comissária de bordo
Hospedeira
Garis
Almeidas
Salva-vidas de praia
Banheiro
Sanitário
Retrete
Cego
Invisual
Chiclete
Pastilha elástica
Injeção
Pica
Embebedar-se
Enfrascar-se
Tesão*
Ponta
Alô?
Está lá?
Fonte: Revista Época, de 27 de março, pág. 17. ®Sérgio

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A ARMADILHA DA COLUNISTA

Uma amiga, que trabalha na redação de uma revista feminina, contou-me, certa vez, que recebeu de uma leitora o seguinte e-mail:
"Sou uma mãe novata e assídua leitora de sua coluna de conselhos para a mulher e o lar. Sempre faço o que você manda, por isso quero que me dê uma explicação. No último número, dirigindo-se às mães que não amamentam os filhos, você escreveu: Quando a criança terminar a mamadeira, lave-a bem em água corrente. Eu experimentei lavar minha filhinha na torneira, mas ela chorou tanto que eu desisti. O que devo fazer?"
Olhei bem para minha amiga e lhe perguntei zombeteiramente:
— É para acreditar?!
Infelizmente era, sua colega que também trabalha na revista, confirmou o fato.
Naquele momento, foi essa a primeira impressão que tive da assídua leitora de minha amiga; porque a linguagem oral conta com certos recursos para tornar o sentido preciso (gestos, expressão corporal ou facial, repetição, etc.). Além do mais, a comunicação oral convida-nos mais a opiniões acerca da intérprete que do conteúdo da obra comunicada. Quando fiz a transcrição da carta para o papel, pois era algo digno de nota, notei que a interpretação da leitora sobre o texto da colunista, era resultado de uma armadilha textual.
Como a linguagem escrita conta apenas com a palavra para compor um texto, o escritor precisa assumir a perspectiva do leitor, caso contrário pode dificultar a compreensão e criar para o ele uma armadilha chamada ambiguidade: "Quando a criança terminar a mamadeira, [lave-a] bem em água corrente." Lavar quem: a criança ou a mamadeira?. A leitora assídua interpretou que a criança é quem deveria ser bem lavada. Não é uma interpretação muito comum, mas acontece.
Em casos como esse, é compreensível a repetição do termo «mamadeira», como meio de evitar a ambiguidade: “Quando a criança terminar a mamadeira, lave bem a [mamadeira] em água corrente”.
Pensando bem, nem haveria a necessidade de se repetir o termo, bastava ela escrever mamar, em vez de mamadeira, assim: “Quando a criança terminar de [mamar], lave bem a mamadeira em água corrente.” E fim de papo.
Dias depois, quando reencontrei minha amiga colunista, não lhe comentei nada, regra geral é uma tarefa ingrata... ®Sérgio.

sábado, 24 de abril de 2010

AULA NO CAMPO

O professor de geografia chamou-me, à porta de minha sala de aula. Interrompi a exposição que fazia aos alunos e fui atendê-lo.
— Pois não!
— Ricardo! Vou levar meus alunos para uma aula de campo na chácara do diretor; escalei você para me ajudar a controlar a meninada no mato! - Explicou o professor.
Luís Carlos, professor de geografia, era um dos bons amigos que fiz naquela escola; não havia como não aceitar o pedido. Concordei com um, OK!
Retornei ao centro da sala, notifiquei e dispensei os alunos, que levaram menos de um minuto para arrumarem suas mochilas, e fui reunir-me com Luís, que já me aguardava no micro ônibus que levaria a molecada para o campo. Antes, porém, fui até a sala dos professores e guardei no meu armário todos os objetos que porventura poderia derrubar ou perder na mata.
Seguíamos, vagarosamente, por uma trilha, com o professor Luís explicando aqui e ali os acontecimentos geográficos, quando nos deparamos com um riacho e uma ponte estreita feita com dois troncos de árvore, presos ao solo em cada uma das margens. Tipo de ponte que aqui se dá o nome de pinguela.
— Ricardo!... Temos de atravessar!... Vou atravessar primeiro e você só depois que o último aluno atravessar! - Grita-me Luís em meio à algazarra da meninada.
Fiz-lhe um positivo e ele partiu, não sem antes advertir os alunos para tomarem cuidado com os objetos pessoais e, principalmente, com as mochilas. Caso elas caíssem no riacho, seria difícil de recuperá-las, devido à correnteza.
Logo após os primeiros passos, na pinguela, o professor Luís, perde o equilíbrio e, se não agarra a um dos troncos, cairia inteiro, no riacho. Depois desse incidente, atravessamos a garotada normalmente.
Eu, sem noção do tempo, ali no meio da mata, pois tinha deixado meu relógio na escola, perguntei ao professor Luís quanto tempo faltava para retornamos:
— Não sei mesmo – respondeu-me, constrangido, olhando para a ponte – deixei cair meu relógio, no riacho, ao atravessá-la.
Salve-se..., quem puder! ®Sérgio.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O UNHA DE FOME - Recontando Contos Populares

Conta-se que morava em certa região do sertão, um fazendeiro bonachão, cheio de si e muito rico, porém unha de fome como ele só. Viúvo de muito tempo, só deixava como seu herdeiro dois sobrinhos aos quais em vida – verdade seja dita – nada lhes dera.
Um dia esse fazendeiro, que vivia sempre isolado, foi dado como morto no quarto da casa onde morava. Os sobrinhos foram chamados pelos empregados da fazenda, que trataram de lhe fazer o enterro.
Como o lugar ficava muito distante do arraial, onde seria enterrado, o corpo foi levado numa padiola. Vencida obra de meia légua, a padiola estremeceu e como ia acompanhando o enterro um benzedeiro do lugar, chamaram-no, e o charlatão examinado o fazendeiro avarento - que tentava sentar-se na padiola - tirou do bolso um vidro de cheiro, chegando-lhe ao nariz. O perfume era tão ruim que o avarento se pôs, mais que depressa, sentado na padiola e perguntou-lhe:
— E então, seu benzedeiro, quanto custou o seu trabalho?
E o benzedeiro, querendo aproveitar a ocasião para ganhar algum dinheiro daquele pão-duro, disse-lhe:
— Quase nada, seu Epaminondas, uns cem mil à toa pagam bem.
O avarento do Epaminondas ficou aturdido, meio que tonteou, levantou as sobrancelhas, arregalou os olhos e exclamou:
— Cem mil! Ara sô, tá doido homem! Sabe de uma coisa? Pessoal, toca pro cemitério!
E estendeu-se a todo comprimento na padiola. ®Sérgio.
Leia Também: (clique no link)
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Nota: Este texto é uma variante do conto João Preguiça. Nos folclore tradicional português (Algarves) há variantes com o nome de Pedro Preguiça e A Preguiçosa. Alphonse Daudet aproveitou-o em um conto intitulado O Figo e o Preguiçoso.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

NEM ADMIRADOR NEM RESPEITADOR - Notas Biográficas

Por volta de 1865, havia em Coimbra (Portugal) um grupo de estudantes - os futuros realistas - interessados em discutir a possibilidade de modernização da cultura portuguesa. Encabeçavam o grupo Antero de Quental e Eça de Queirós.
Em Lisboa, um grupo conservador liderado pelo poeta romântico Antônio Feliciano de Castilho, não dispensava críticas aos jovens de Coimbra. Castilho, na advertência colocada ao final do livro (posfácio) Poema da Mocidade de seu discípulo Teófilo Braga, fez uma pequena referência ao grupo de Quental, criticando-lhes a "falta de bom senso e de bom gosto".
O poeta Antero, citado nominalmente, prontamente escreveu um violento e debochado opúsculo (folheto) chamado Bom Senso e Bom Gosto, tratando o poeta romântico como causa do atraso português. Essa carta suscitou polêmicas acirradas. Os ânimos se exaltaram a tal ponto que, Antero de Quental e Ramalho Ortigão se enfrentaram num duelo em que esse último saiu ligeiramente ferido.
Leia a seguir, o trecho final da carta pública de Antero de Quental dirigida ao romântico Antônio de Castilho:
"Paro aqui, Exmo. Sr. Muito tinha eu que dizer: mas temo no ardor de discursos, faltar ao respeito a V. Exa., aos seus cabelos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra frase não reverente e tão lisonjeira como eu desejava. [...] Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas que saem dele confesso não me merecem nem admiração, nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. Exa. precisa menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão.
É por esses motivos todos que lamento do fundo da alma não me poder confessar, como desejava, de V. Exa.
Nem admirador nem respeitador.
Antero de Quental
Coimbra, dois de novembro de 1865."
Dizem os entendidos que desta frase de Antero: "A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança", saiu o conhecido ditado: "Não há coisa pior do que velho assanhado e criança precoce". ®Sérgio.

domingo, 4 de abril de 2010

A GALINHA DO VIZINHO - Recontando Contos Populares

Há muito tempo, esta história foi narrada por um caixeiro-viajante; e, na época, tido como verídica. Entrou para a oralidade popular e, hoje, já é ouvida em diferentes localidades do Brasil. Vou recontá-la, porém nas minhas letras.
Quando eu era viajante, tinha sempre de andar a cavalo (não havia estradas de automóveis e, portanto, sequer autos de aluguel ou ônibus) e levava sempre em minha companhia um guia.
Entre os muitos que tive, havia um, muito curioso e perguntador, que tinha por costume de me dar o tratamento (aliás, indevido) de doutor. Cansei de adverti-lo que não era doutor, mas o homenzinho não se consertava. De momento a momento estava ele a dizer-me: seu doutor pra aqui, seu doutor pra acolá.
Certa vez viajávamos num município distante. Íamos silenciosos pela estrada fora. O dia estava lindo e o céu azul com muitas nuvens que se moviam preguiçosas. 
De repente pergunta-me o guia: 
— Por que será, seu doutor, que as nuvens não têm sossego e andam sempre de um lado para outro? 
Sorri, e lhe respondi: 
— Ora essa! Pois você não sabe que as nuvens são, como os homens, ambiciosas e invejosas e procuram tomar o lugar uma das outras, pensando ser, o lugar das outras, melhores que os delas? 
— Lá isso é verdade seu doutor. Bem diz o ditado: “A galinha do vizinho é sempre mais gorda do que a minha”.
— Pois então?
— Tá certo! ®Sérgio.

quarta-feira, 24 de março de 2010

SE HOUVER AMIZADE... - Seleta de Poemas

Como pensar, que um físico, cientista, matemático, voltado para o exato, para o lógico, pudesse compor um poema sobre a amizade tão significante como este. Pois é..., ele escreveu.
A AMIZADE
Pode ser que um dia deixemos de nos falar…
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.
Pode ser um dia que o tempo passe…
Mas, se a amizade permanecer,
Um do outro há de se lembrar.
Pode ser que um dia nos afastemos…
Mas, se formos amigos de verdade
A amizade nos reaproximará.
Pode ser que um dia não mais existamos…
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe…
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente;
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Albert Einstein (1879 – 1955). ®Sérgio.

sábado, 20 de março de 2010

JUSTIÇA À MODA ANTIGA

É verdade que o abuso sexual existe desde o tempo do guaraná de rolha, mas também é verdade que é um dos crimes urbanos que mais tem crescido de uns tempos para cá. Tanto é que nunca tivemos tantos estupradores seriais killers.
O abuso sexual compreende o estupro, o assédio sexual e a pedofilia. Esta, então, depois que a internet deu aos pedófilos o Orkut, os chats e o anonimato... Antes, não sei se por falta de divulgação, pouco se ouvia falar nos abusos sexuais. Hoje, pela extensão da comunicação, até a Santa Igreja entrou na lista. Comenta-se, que, tal fato se dá, porque as leis, aqui no Brasil, para esses crimes não tem o rigor que deveria ter. Em razão disso, recordei-me de uma antiga e preciosa sentença judicial que me foi repassada por um amigo.
O Jornal da Cidade, de Sergipe, descobriu, em duas folhas manuscritas (daquelas de livro de cartório) que se encontravam arquivadas no fórum municipal da cidade de Gararu (SE), uma rigorosa sentença judicial por abuso sexual, executada no ano de 1833. O jornal a publicou na integra, em uma edição de julho de 2007. Dizia o seguinte:
O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se, deitou-a no chão, deixando as encomendas dela de fora e ao Deus dará. Elle não conseguiu matrimônio porque ella gritou e veio em assucare della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo, em flagrante.
    Dizem as leises que duas testemunhas que assitiam à qualquer naufrágio do sucesso faz prova. Considero que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ella e fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana. Que o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis fazer conxambranas com Quitéria e Clarinha, moças donzellas; Que Manoel Duda é um sujeito perigoso e que se não tiver uma causa que atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo até nos homens. Condeno o cabra Manoel Duda pelo malefício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio carrasco o carcereiro. 
Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.
Vila de Porta da Folha (Sergipe), 15 de outubro de 1833.
Manoel Fernandes dos Santos
Juiz de Direito
Bons tempos esses. É ou Noé? ®Sérgio.

domingo, 14 de março de 2010

A TEORIA DOS OSSOS

Poucos são aqueles que desconhecem a teoria de Charles Robert Darwin. Também, não é novidade, que antes de Darwin a ciência girava em torno da crença religiosa da criação. A intolerância religiosa era tão poderosa, que nenhum cientista teve, antes de Darwin, argumentos e coragem intelectual de se opor a essa crença. As descobertas eram, ou tinham de ser, pateticamente adaptadas ao dogma religioso. Sendo assim, quando começaram a serem desenterrados ossos de dinossauros e outros animais extintos, o sábio francês Georges Cuvier (1769-1832) ofereceu a mais extraordinária dessas patéticas adaptações:
“São ossos de animais que não conseguiram embarcar na Arca de Noé e morreram no dilúvio bíblico”.
Apesar dos atrasadinhos, imagine só, toda aquela coleção de dinossauros, embarcada na Arca de Noé.
Nem Emma, mulher de Darwin, teve coragem suficiente para somar-se a ele, pois tinha certeza que iria para o céu e seu marido, pela teoria, para o inferno. Ela se torturava com a ideia de passar a eternidade longe do marido.
Salve-se... quem puder! ®Sérgio.

II POVERELLO - Seleta de Poemas

Seleta de Poemas representa as poesias que li e tocaram-me a alma. Assim, posso compartilhar com vocês as minhas preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
Poverello significa o Pobrezinho, diminutivo carinhoso pelo qual era tratado São Francisco de Assis.
II POVERELLO
Desgrenhado e meigo, andava na floresta.
Os pássaros dormiam em seus cabelos.
As feras o seguiam mansamente.
Os peixes bebiam-lhe as palavras.
Dentro dele todo o caos se resolvera,
Numa ingênua certeza: — “Preguei a paz,
Mostrei o erro, domei a força, curei o mal.
Antes de mim o crime. Depois de mim o amor.”
Mas a floresta esqueceu no outro dia,
O bíblico sermão e novamente o lobo comeu a ovelha,
A águia comeu a pomba,
Como se nunca houvera santos e sermões.
José Paulo Paes (1926 - 1998) ®Sérgio.

sábado, 13 de março de 2010

O DEPUTADO QUE FOI PARA O INFERNO

A história que vou lhes transcrever, já percorreu o Brasil. Mas, acho que não faz mal contá-la aqui, a meu modo; pois estou certo de que pelo menos um leitor há de me agradecer a lembrança.
Contam que um conhecido político, muito chegado a uma falcatrua - que já tinha passado pela vereança e agora era sua excelência deputado e presidente duma tal comissão de ética - certo dia, num bate-boca com seus pares, subitamente, sentiu-se mal e bateu as botas. Morto, não teve conversa, foi direto para o inferno. Lá chegando, foi logo pedindo uma audiência com o Diabo e explicando:
— Companheiro Diabo, lá embaixo eu era amigo duns caciques e de outros que já vieram a minha frente e estão, agora, articulando politicamente em causa de vossa excelência. Portanto, eu lhe pergunto: qual vai ser meu gabinete aqui no inferno?
O satanás, muito calmo, lhe explicou que o inferno estava dividido em diversos departamentos, cada um administrado por um país, porém o nobre colega não precisava ficar no departamento administrado pelo país de origem dele. Podia ficar no departamento do país que escolhesse. O deputado falecido agradeceu muito e tratou de dar uma voltinha para escolher o departamento e quem sabe reencontrar velhos amigos.
Não andou uma quadra e deu com o departamento dos Estados Unidos; pensou que um gabinete ali seria um grande negócio, pois este deveria ser o departamento mais organizado do inferno e lhe daria grandes privilégios. Entrou no departamento e perguntou como era o regime ali.
— Pela manhã, depois de passar três horas num forno a trezentos graus, trezentas chibatadas. Na parte da tarde: ficar numa geladeira a 200 graus abaixo de zero durante três horas, e voltar ao forno de trezentos.
O deputado ficou abestalhado. Isso não era tratamento que se dava a uma excelência falecida. Puro preconceito e perseguição política dos gringos. E tratou logo de cair fora dali. Passou pelo departamento português, italiano, russo e japonês; tudo igual, em todo o lugar era o mesmo: chibatadas e forno pela manhã, geladeira e forno pela tarde. O deputado falecido chegou à conclusão que não tinha privilégio no inferno e lamentou ter morrido antes de chegar a ser senador.
Caminhava desconsolado, quando viu um departamento, no qual uma placa acima do batente da porta, ostentava o nome: Brasil. Aproximou-se e notou uma imensa fila à porta do departamento, coisa que ele não tinha visto em nenhum outro. Logo pensou: "aqui tem coisa". Entrou na fila e começou a chatear o camarada da frente, perguntando por que ali havia fila e ninguém reclamava de nada. O pecador da frente fingia não ouvir, mas ele tanto insistiu, que o da frente, com medo de despertar a atenção dos serviçais do diabo, disse baixinho:
— Fica na tua e não espalha não. O forno daqui tá quebrado, não funciona; a geladeira, quando funciona não passa dos trinta graus.
— E as trezentas chibatadas? Perguntou a excelência.
— Capaz... O funcionário encarregado desse serviço vem aqui de manhã, assina o ponto e sai fora.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

sexta-feira, 5 de março de 2010

A ENCOMENDAÇÃO DAS ALMAS

Quando eu era jovem, morei por um tempo numa cidade muito pequena, onde não havia eletricidade e a noite desabava em escuridão completa. Nada era mais triste do que à noite; as casas fechavam-se e em breve as últimas luzes dos lampiões se apagavam.
Os moradores dessa cidade costumavam a realizar muitas práticas religiosas, e não é que poucos meses depois de minha chegada, fui surpreendido por uma delas.
Na noite da véspera do dia de finados, entre onze horas e meia-noite, os sinos da matriz principiaram a repicar enchendo o ar de vibrações... Aos primeiros repiques, os residentes da cidade e das terras mais próximas, começaram a se reunir diante da igreja. Olhava-se para a banda do mato, vinha gente. Olhava-se para o lado da igreja, vinha gente. Para onde quer que se olhasse, estava gente chegando. Gente a cavalo, de carro de bois e de a pé, todos vestindo túnicas brancas que cobriam até a cabeça.
Por volta da meia-noite, o ranger dos sinos cessou de todo e a vila parecia ter retornado a tranquilidade... Não fosse a aglomeração diante da matriz. Nisso o capelão aparece à porta tendo a frente o sacristão com uma grande cruz de madeira. O padre capelão rezou, acompanhado pelos presentes, uns versículos da oração dos mortos e deu início à procissão em rogo das almas do purgatório.
Uns levavam lanternas de velas de sebo, outros um berra-boi (um cordão com peso na ponta e que é girado rápido, provocando forte e sinistro zumbido) ou a matraca; todos, porém, de rosários nas mãos. O desfile, guiado pela grande cruz, tinha o objetivo de fazer orações para as almas sofredoras ou para os que morreram de acidentes (como picadas de cobra) ou de doenças.
Os fiéis, ora rezavam rosários, ora cantavam ladainhas e rogatórias extensas, que tinha por princípio os versos abaixo:
Alerta, alerta pecadores!
Acordai quem está dormindo;
Veja que o sono é irmão da morte
E a cama é a sepultura!
Nas ruas em que a procissão atravessava, as residências estavam hermeticamente fechadas, como era o costume. Em certo ponto da caminhada, uma janela se entreabriu e foi furiosamente alvejada por uma saraivada de pedras. Um caboclo robusto disse-me, de dentro de sua túnica, que o curioso - que conseguisse olhar a procissão - veria apenas um rebanho de ovelhas brancas, conduzido por um frade sem cabeça. Disse-me, ainda, que a procissão não podia parar para nada. Tinha de estar sempre em movimento. Se parasse na frente duma casa, era desgraça na certa para o dito cujo. Até tiro davam se havia ameaça de parar.
Saindo de uma viela estreita, o cortejo pegou, em campo aberto, a estradinha que acabava no velho cemitério da cidade. Lá chegando, todos, rezando orações em voz alta, entraram na morada dos mortos e detiveram-se ao pé do cruzeiro. Ali, embalados por cânticos de ladainhas e rogatórias, alguns fiéis iniciaram a flagelação penitencial (uma mescla de prazer e dor), com chicotes de couro de nove correias, conhecido como gato de nove rabos, porque têm nas pontas unhas de metal, semelhantes a dos felinos, e que causam graves ferimentos, deixando os penitentes em tratamento por vários dias. Os sinistros batidos das matracas e os gemidos dos flagelantes me causaram tremendo mal-estar.
Outras atividades aconteceram ao pé do cruzeiro... porém, me foi proibida a revelação, caso contrário, é desgraça na certa para mim; como não quero ver para crer, vou ficando de bico calado. Inté! ®Sérgio.