quinta-feira, 15 de abril de 2010

NEM ADMIRADOR NEM RESPEITADOR - Notas Biográficas

Por volta de 1865, havia em Coimbra (Portugal) um grupo de estudantes - os futuros realistas - interessados em discutir a possibilidade de modernização da cultura portuguesa. Encabeçavam o grupo Antero de Quental e Eça de Queirós.
Em Lisboa, um grupo conservador liderado pelo poeta romântico Antônio Feliciano de Castilho, não dispensava críticas aos jovens de Coimbra. Castilho, na advertência colocada ao final do livro (posfácio) Poema da Mocidade de seu discípulo Teófilo Braga, fez uma pequena referência ao grupo de Quental, criticando-lhes a "falta de bom senso e de bom gosto".
O poeta Antero, citado nominalmente, prontamente escreveu um violento e debochado opúsculo (folheto) chamado Bom Senso e Bom Gosto, tratando o poeta romântico como causa do atraso português. Essa carta suscitou polêmicas acirradas. Os ânimos se exaltaram a tal ponto que, Antero de Quental e Ramalho Ortigão se enfrentaram num duelo em que esse último saiu ligeiramente ferido.
Leia a seguir, o trecho final da carta pública de Antero de Quental dirigida ao romântico Antônio de Castilho:
"Paro aqui, Exmo. Sr. Muito tinha eu que dizer: mas temo no ardor de discursos, faltar ao respeito a V. Exa., aos seus cabelos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra frase não reverente e tão lisonjeira como eu desejava. [...] Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas que saem dele confesso não me merecem nem admiração, nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. Exa. precisa menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão.
É por esses motivos todos que lamento do fundo da alma não me poder confessar, como desejava, de V. Exa.
Nem admirador nem respeitador.
Antero de Quental
Coimbra, dois de novembro de 1865."
Dizem os entendidos que desta frase de Antero: "A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança", saiu o conhecido ditado: "Não há coisa pior do que velho assanhado e criança precoce". ®Sérgio.

domingo, 4 de abril de 2010

A GALINHA DO VIZINHO - Recontando Contos Populares

Há muito tempo, esta história foi narrada por um caixeiro-viajante; e, na época, tido como verídica. Entrou para a oralidade popular e, hoje, já é ouvida em diferentes localidades do Brasil. Vou recontá-la, porém nas minhas letras.
Quando eu era viajante, tinha sempre de andar a cavalo (não havia estradas de automóveis e, portanto, sequer autos de aluguel ou ônibus) e levava sempre em minha companhia um guia.
Entre os muitos que tive, havia um, muito curioso e perguntador, que tinha por costume de me dar o tratamento (aliás, indevido) de doutor. Cansei de adverti-lo que não era doutor, mas o homenzinho não se consertava. De momento a momento estava ele a dizer-me: seu doutor pra aqui, seu doutor pra acolá.
Certa vez viajávamos num município distante. Íamos silenciosos pela estrada fora. O dia estava lindo e o céu azul com muitas nuvens que se moviam preguiçosas. 
De repente pergunta-me o guia: 
— Por que será, seu doutor, que as nuvens não têm sossego e andam sempre de um lado para outro? 
Sorri, e lhe respondi: 
— Ora essa! Pois você não sabe que as nuvens são, como os homens, ambiciosas e invejosas e procuram tomar o lugar uma das outras, pensando ser, o lugar das outras, melhores que os delas? 
— Lá isso é verdade seu doutor. Bem diz o ditado: “A galinha do vizinho é sempre mais gorda do que a minha”.
— Pois então?
— Tá certo! ®Sérgio.

quarta-feira, 24 de março de 2010

SE HOUVER AMIZADE... - Seleta de Poemas

Como pensar, que um físico, cientista, matemático, voltado para o exato, para o lógico, pudesse compor um poema sobre a amizade tão significante como este. Pois é..., ele escreveu.
A AMIZADE
Pode ser que um dia deixemos de nos falar…
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.
Pode ser um dia que o tempo passe…
Mas, se a amizade permanecer,
Um do outro há de se lembrar.
Pode ser que um dia nos afastemos…
Mas, se formos amigos de verdade
A amizade nos reaproximará.
Pode ser que um dia não mais existamos…
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe…
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente;
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Albert Einstein (1879 – 1955). ®Sérgio.

sábado, 20 de março de 2010

JUSTIÇA À MODA ANTIGA

É verdade que o abuso sexual existe desde o tempo do guaraná de rolha, mas também é verdade que é um dos crimes urbanos que mais tem crescido de uns tempos para cá. Tanto é que nunca tivemos tantos estupradores seriais killers.
O abuso sexual compreende o estupro, o assédio sexual e a pedofilia. Esta, então, depois que a internet deu aos pedófilos o Orkut, os chats e o anonimato... Antes, não sei se por falta de divulgação, pouco se ouvia falar nos abusos sexuais. Hoje, pela extensão da comunicação, até a Santa Igreja entrou na lista. Comenta-se, que, tal fato se dá, porque as leis, aqui no Brasil, para esses crimes não tem o rigor que deveria ter. Em razão disso, recordei-me de uma antiga e preciosa sentença judicial que me foi repassada por um amigo.
O Jornal da Cidade, de Sergipe, descobriu, em duas folhas manuscritas (daquelas de livro de cartório) que se encontravam arquivadas no fórum municipal da cidade de Gararu (SE), uma rigorosa sentença judicial por abuso sexual, executada no ano de 1833. O jornal a publicou na integra, em uma edição de julho de 2007. Dizia o seguinte:
O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se, deitou-a no chão, deixando as encomendas dela de fora e ao Deus dará. Elle não conseguiu matrimônio porque ella gritou e veio em assucare della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo, em flagrante.
    Dizem as leises que duas testemunhas que assitiam à qualquer naufrágio do sucesso faz prova. Considero que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ella e fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana. Que o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis fazer conxambranas com Quitéria e Clarinha, moças donzellas; Que Manoel Duda é um sujeito perigoso e que se não tiver uma causa que atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo até nos homens. Condeno o cabra Manoel Duda pelo malefício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio carrasco o carcereiro. 
Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.
Vila de Porta da Folha (Sergipe), 15 de outubro de 1833.
Manoel Fernandes dos Santos
Juiz de Direito
Bons tempos esses. É ou Noé? ®Sérgio.

domingo, 14 de março de 2010

A TEORIA DOS OSSOS

Poucos são aqueles que desconhecem a teoria de Charles Robert Darwin. Também, não é novidade, que antes de Darwin a ciência girava em torno da crença religiosa da criação. A intolerância religiosa era tão poderosa, que nenhum cientista teve, antes de Darwin, argumentos e coragem intelectual de se opor a essa crença. As descobertas eram, ou tinham de ser, pateticamente adaptadas ao dogma religioso. Sendo assim, quando começaram a serem desenterrados ossos de dinossauros e outros animais extintos, o sábio francês Georges Cuvier (1769-1832) ofereceu a mais extraordinária dessas patéticas adaptações:
“São ossos de animais que não conseguiram embarcar na Arca de Noé e morreram no dilúvio bíblico”.
Apesar dos atrasadinhos, imagine só, toda aquela coleção de dinossauros, embarcada na Arca de Noé.
Nem Emma, mulher de Darwin, teve coragem suficiente para somar-se a ele, pois tinha certeza que iria para o céu e seu marido, pela teoria, para o inferno. Ela se torturava com a ideia de passar a eternidade longe do marido.
Salve-se... quem puder! ®Sérgio.

II POVERELLO - Seleta de Poemas

Seleta de Poemas representa as poesias que li e tocaram-me a alma. Assim, posso compartilhar com vocês as minhas preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
Poverello significa o Pobrezinho, diminutivo carinhoso pelo qual era tratado São Francisco de Assis.
II POVERELLO
Desgrenhado e meigo, andava na floresta.
Os pássaros dormiam em seus cabelos.
As feras o seguiam mansamente.
Os peixes bebiam-lhe as palavras.
Dentro dele todo o caos se resolvera,
Numa ingênua certeza: — “Preguei a paz,
Mostrei o erro, domei a força, curei o mal.
Antes de mim o crime. Depois de mim o amor.”
Mas a floresta esqueceu no outro dia,
O bíblico sermão e novamente o lobo comeu a ovelha,
A águia comeu a pomba,
Como se nunca houvera santos e sermões.
José Paulo Paes (1926 - 1998) ®Sérgio.

sábado, 13 de março de 2010

O DEPUTADO QUE FOI PARA O INFERNO

A história que vou lhes transcrever, já percorreu o Brasil. Mas, acho que não faz mal contá-la aqui, a meu modo; pois estou certo de que pelo menos um leitor há de me agradecer a lembrança.
Contam que um conhecido político, muito chegado a uma falcatrua - que já tinha passado pela vereança e agora era sua excelência deputado e presidente duma tal comissão de ética - certo dia, num bate-boca com seus pares, subitamente, sentiu-se mal e bateu as botas. Morto, não teve conversa, foi direto para o inferno. Lá chegando, foi logo pedindo uma audiência com o Diabo e explicando:
— Companheiro Diabo, lá embaixo eu era amigo duns caciques e de outros que já vieram a minha frente e estão, agora, articulando politicamente em causa de vossa excelência. Portanto, eu lhe pergunto: qual vai ser meu gabinete aqui no inferno?
O satanás, muito calmo, lhe explicou que o inferno estava dividido em diversos departamentos, cada um administrado por um país, porém o nobre colega não precisava ficar no departamento administrado pelo país de origem dele. Podia ficar no departamento do país que escolhesse. O deputado falecido agradeceu muito e tratou de dar uma voltinha para escolher o departamento e quem sabe reencontrar velhos amigos.
Não andou uma quadra e deu com o departamento dos Estados Unidos; pensou que um gabinete ali seria um grande negócio, pois este deveria ser o departamento mais organizado do inferno e lhe daria grandes privilégios. Entrou no departamento e perguntou como era o regime ali.
— Pela manhã, depois de passar três horas num forno a trezentos graus, trezentas chibatadas. Na parte da tarde: ficar numa geladeira a 200 graus abaixo de zero durante três horas, e voltar ao forno de trezentos.
O deputado ficou abestalhado. Isso não era tratamento que se dava a uma excelência falecida. Puro preconceito e perseguição política dos gringos. E tratou logo de cair fora dali. Passou pelo departamento português, italiano, russo e japonês; tudo igual, em todo o lugar era o mesmo: chibatadas e forno pela manhã, geladeira e forno pela tarde. O deputado falecido chegou à conclusão que não tinha privilégio no inferno e lamentou ter morrido antes de chegar a ser senador.
Caminhava desconsolado, quando viu um departamento, no qual uma placa acima do batente da porta, ostentava o nome: Brasil. Aproximou-se e notou uma imensa fila à porta do departamento, coisa que ele não tinha visto em nenhum outro. Logo pensou: "aqui tem coisa". Entrou na fila e começou a chatear o camarada da frente, perguntando por que ali havia fila e ninguém reclamava de nada. O pecador da frente fingia não ouvir, mas ele tanto insistiu, que o da frente, com medo de despertar a atenção dos serviçais do diabo, disse baixinho:
— Fica na tua e não espalha não. O forno daqui tá quebrado, não funciona; a geladeira, quando funciona não passa dos trinta graus.
— E as trezentas chibatadas? Perguntou a excelência.
— Capaz... O funcionário encarregado desse serviço vem aqui de manhã, assina o ponto e sai fora.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

sexta-feira, 5 de março de 2010

A ENCOMENDAÇÃO DAS ALMAS

Quando eu era jovem, morei por um tempo numa cidade muito pequena, onde não havia eletricidade e a noite desabava em escuridão completa. Nada era mais triste do que à noite; as casas fechavam-se e em breve as últimas luzes dos lampiões se apagavam.
Os moradores dessa cidade costumavam a realizar muitas práticas religiosas, e não é que poucos meses depois de minha chegada, fui surpreendido por uma delas.
Na noite da véspera do dia de finados, entre onze horas e meia-noite, os sinos da matriz principiaram a repicar enchendo o ar de vibrações... Aos primeiros repiques, os residentes da cidade e das terras mais próximas, começaram a se reunir diante da igreja. Olhava-se para a banda do mato, vinha gente. Olhava-se para o lado da igreja, vinha gente. Para onde quer que se olhasse, estava gente chegando. Gente a cavalo, de carro de bois e de a pé, todos vestindo túnicas brancas que cobriam até a cabeça.
Por volta da meia-noite, o ranger dos sinos cessou de todo e a vila parecia ter retornado a tranquilidade... Não fosse a aglomeração diante da matriz. Nisso o capelão aparece à porta tendo a frente o sacristão com uma grande cruz de madeira. O padre capelão rezou, acompanhado pelos presentes, uns versículos da oração dos mortos e deu início à procissão em rogo das almas do purgatório.
Uns levavam lanternas de velas de sebo, outros um berra-boi (um cordão com peso na ponta e que é girado rápido, provocando forte e sinistro zumbido) ou a matraca; todos, porém, de rosários nas mãos. O desfile, guiado pela grande cruz, tinha o objetivo de fazer orações para as almas sofredoras ou para os que morreram de acidentes (como picadas de cobra) ou de doenças.
Os fiéis, ora rezavam rosários, ora cantavam ladainhas e rogatórias extensas, que tinha por princípio os versos abaixo:
Alerta, alerta pecadores!
Acordai quem está dormindo;
Veja que o sono é irmão da morte
E a cama é a sepultura!
Nas ruas em que a procissão atravessava, as residências estavam hermeticamente fechadas, como era o costume. Em certo ponto da caminhada, uma janela se entreabriu e foi furiosamente alvejada por uma saraivada de pedras. Um caboclo robusto disse-me, de dentro de sua túnica, que o curioso - que conseguisse olhar a procissão - veria apenas um rebanho de ovelhas brancas, conduzido por um frade sem cabeça. Disse-me, ainda, que a procissão não podia parar para nada. Tinha de estar sempre em movimento. Se parasse na frente duma casa, era desgraça na certa para o dito cujo. Até tiro davam se havia ameaça de parar.
Saindo de uma viela estreita, o cortejo pegou, em campo aberto, a estradinha que acabava no velho cemitério da cidade. Lá chegando, todos, rezando orações em voz alta, entraram na morada dos mortos e detiveram-se ao pé do cruzeiro. Ali, embalados por cânticos de ladainhas e rogatórias, alguns fiéis iniciaram a flagelação penitencial (uma mescla de prazer e dor), com chicotes de couro de nove correias, conhecido como gato de nove rabos, porque têm nas pontas unhas de metal, semelhantes a dos felinos, e que causam graves ferimentos, deixando os penitentes em tratamento por vários dias. Os sinistros batidos das matracas e os gemidos dos flagelantes me causaram tremendo mal-estar.
Outras atividades aconteceram ao pé do cruzeiro... porém, me foi proibida a revelação, caso contrário, é desgraça na certa para mim; como não quero ver para crer, vou ficando de bico calado. Inté! ®Sérgio.

quarta-feira, 3 de março de 2010

MUNDO ESTRANHO

Este mundo é mesmo estranho. Imagine: mulheres esvaziando fossas sépticas e carregando os excrementos humanos numa cesta sobre a cabeça; mesmo nos dias de chuva quando a água dilui as fezes que inevitavelmente escorrem pelos rostos dessas mulheres.
Pense em homens abrindo bueiros donde saem baratas e ratos. Quando o movimento de fuga dos pestilentos diminui, esses homens, só de tangas fio-dental, entrando nesses bueiros para desobstruir as tubulações. Sem luvas ou máscaras (no máximo pás, baldes e carriolas), para amontoar do lado de fora a massa escura, mistura de fezes e tudo o mais que você possa imaginar.
Pois é; esse é o trabalho de 650 mil indianos, os chamados "scavengers", termo inglês que significa, mais ou menos, animais que se alimentam de carniça.
Scavengers são dalits, a mais baixa casta indiana e hereditária, ou seja, nascem para trabalhar nas fossas. Muitos morrem envenenados pelo gás metano (fermentação das fezes) que se acumulam nas galerias ou afogados nos excrementos.
Pior; na sociedade indiana, ninguém se incomoda com isso. Tanto que essas mulheres e esses homens são contratados por empresas a serviço do poder público, em cidades como Mumbai e Nova Délhi.
E ainda tem gente que diz: "Meu emprego é uma merda". ®Sérgio.

O ESTILO - Reflexões Literárias

"O estilo é o sol da escrita. Dá-lhe eterna palpitação, eterna vida. Cada palavra é como que um tecido do organismo do período. No estilo há todas as gradações da luz, todas as escalas dos sons.

O escritor é psicólogo, é miniaturista, é pintor – gradua a luz, tonaliza, esbate e esfuminha os longes da paisagem.

O princípio fundamental da Arte vem da Natureza, porque um artista faz-se da Natureza. Toda a força e toda a profundidade do estilo esta em saber apertar a frase no pulso, domá-la, não a deixar disparar pelos meandros da escrita.

O vocábulo pode ser música ou pode ser trovão, conforme o caso. A palavra tem a sua anatomia; e é preciso uma rara percepção estética, uma nitidez visual, olfativa, palatal e acústica, apuradíssima, para a exatidão da cor, da forma e para a sensação do som e do sabor da palavra." (Cruz e Souza. Outras Evocações. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1961, p. 677-8)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A JANELA - Recontando Contos Populares

Conta-se que em uma região do interior, muito afastada dos centros mais civilizados, morava um velho e excêntrico fazendeiro que jamais deixara o lugar onde nascera. Certo dia, o fazendeiro passou mal e, seriamente doente, teve de ser levado, às pressas, para o modesto arraial da região. Como lá não havia recurso para seu tratamento, foi transferido para o hospital da capital.
Por falta de leitos no hospital, o fazendeiro teve de dividir o quarto com outro doente, desenganado pelos médicos. O cômodo era bastante pequeno, e nele havia uma janela que durante o dia permanecia aberta para arejar o quarto. A cama do paciente desenganado ficava ao lado dessa janela e ele tinha permissão para sentar-se, próximo a ela, por uma hora durante as tardes. O fazendeiro, contudo, tinha de passar todo o seu tempo deitado, devido aos problemas cardíacos que sofrera.
 Todas as tardes, quando o homem cuja cama ficava ao lado da janela era colocado na posição sentada; passava sua hora, descrevendo ao fazendeiro o que via lá fora. A janela aparentemente dava para o jardim de entrada do hospital, onde havia um pequeno lago.
Havia patos e cisnes no lago, e as crianças iam atirar-lhes pão. Jovens namorados sentavam nos bancos colocados em volta do lago, debaixo de árvores. Havia gramados e flores no jardim. E ao fundo, por trás da fileira de árvores, avistava-se o belo contorno de alguns prédios da cidade.
O fazendeiro ouvia-o descrever tudo isso, apreciando cada detalhe. Ouviu como uma criança quase caiu no lago, e como as pessoas estavam bonitas em seus trajes de verão. As descrições do seu amigo eram tão bem feitas, que o fazendeiro tinha a sensação de estar vendo o que acontecia lá fora.
Passaram-se os dias e o fazendeiro começou a lamentar sua situação: Por que só o homem que ficava perto da janela deveria ter todo o prazer de ver o que estava acontecendo? Por que ele não podia ter essa chance?
Sentia-se envergonhado de pensar assim, mas desejava, sonhava com uma mudança. 
Numa manhã, ao acordar, notou que a cama ao lado da janela estava vazia. Perguntou a enfermeira o que acontecera com seu amigo: “Morreu nessa noite, silenciosamente; levamos o seu corpo para o necrotério”, respondeu a enfermeira.
O fazendeiro, que sonhava com a janela, perguntou-lhe se poderia ser colocado na cama perto da janela. Para a enfermeira pareceu apropriado e, então, o colocaram lá; bem ao lado da janela. Seu sonho estava realizado.
Minutos após saírem os enfermeiros, ele apoiou-se sobre os cotovelos e, com dificuldade, sentou-se na cama. Tomado de enorme expectativa e emoção, olhou para fora da janela. Viu apenas um muro... ®Sérgio.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

FRASES QUE SE DESTACARAM PELOS ENGANOS

Da antologia feita, em caráter didático, pela Folha de São Paulo, destaco algumas frases que ficaram famosas pelos seus erros (com suas respectivas correções):
CRISTO ENFORCADO?
Diferentemente do que foi publicado no texto "Artistas periféricos passam despercebidos", à pág. 5-3 da edição de ontem da Ilustrada, Jesus não foi enforcado, mas crucificado. (7/12/94)
MENINA SEXUALMENTE RETARDADA?
No artigo "A nova guerra civil", publicado à pág. 5-7 de 1°/10, onde se lê "uma menina sexualmente retardada...", leia-se "uma menina mentalmente retardada...". (8.dez.95)
IDADE
Está errada a idade do engenheiro mecânico Claudinei de Oliveira, publicada à pág. 3-11 (São Paulo) de 14/4. O texto dizia que: Oliveira tem 54 anos e sua mãe, Edna Cecconello de Oliveira, 52. A idade correta do engenheiro é 34. (19.abr.97) ®Sérgio.
____________________
Fonte: www1. uol.com. br/folha/circulo/antologia_erramos.htm

SELETA DE PENSAMENTOS (2)

"A mais amarga das amarguras é a que nos proporcionam os nossos 'amigos'. Os outros dissabores nos ferem, por assim dizer, de fora, ao passo que este nos atinge de dentro e penetra as mais íntimas fibras do nosso ser."
"O homem só é grande e só educa para a grandeza a seus semelhantes, quando tem a coragem de viver suas ideias e morrer pelos seus ideais."
"O homem de caráter baixo sente como ofensa pessoal e como ofuscamento de seu ego toda a glória que recaia sobre alguns de seus semelhantes. Não admite coisa alguma acima de sua mediocridade, que julga sublime e inigualável."
(Humberto Rohden¹)
______________________________
(1) Humberto Rohden nasceu em Tubarão, Santa Catarina. Formou-se em Ciências, Filosofia e Teologia em Universidades da Europa. Trabalhou como professor, conferencista e escritor com mais de sessenta obras sobre ciência, filosofia e religião. Não está filiado a nenhuma igreja, seita ou partido político. Fundou o movimento mundial “Alvorada”, com sede em São Paulo. Empreendeu viagens de estudo espirituais pela Palestina, Egito, Índia e Nepal.

A ESCRITA

Platão em Diálogos expõe a seu amigo Freudo, o inconveniente da escrita:

"A escrita apresenta meu caro Freudo, um grave inconveniente que se encontra de resto na pintura. Com efeito, os seres que esta produz têm a aparência, mas se lhe pusermos uma questão eles guardam dignamente silêncio. O mesmo se passa com os discursos escritos. Poder-se-ia acreditar que falam como seres sensatos, mas se o interrogarmos com a intenção de compreendermos o que dizem; limitam-se a significar uma só coisa, sempre a mesma. Uma vez escrito qualquer discurso chegará a todos os lados, e passa indiferentemente por aqueles que nada têm a fazer com ele. Ignora a quem deva ou não dirigir-se. Se fazem ouvir vozes discordantes a seu respeito, se é injuriado injustamente, tem sempre a necessidade de socorro do seu pai. Só por si, com efeito, é incapaz de repelir um ataque e de se defender a si mesmo". ®Sérgio.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O ENCONTRO COM A MORTE - Recontando Contos Populares

Certa vez, um rico fazendeiro mandou o seu capataz a cidade, a fim de comprar provisões. Pouco tempo depois, o capataz retornou a fazenda, pálido e trêmulo, balbuciando palavras sem nexos, muito assustado.
— Patrão, ainda há pouco, quando eu atravessava a praça do mercado, fui abordado por uma mulher! Quando me voltei para ver de quem se tratava, vi que era a morte! Ela me fitou com um gesto ameaçador. Por piedade patrão, empreste-me seu cavalo para eu fugir desta fazenda! Irei para aquela que tem uma cabana na beira do rio, onde a morte não me encontrará!
O fazendeiro, penalizado com a situação, cedeu-lhe o cavalo e o capataz, mais que depressa, montou; fincou as esporas nos flancos do animal e partiu a todo galope.
Naquele mesmo dia, o fazendeiro, curioso, partiu para a cidade em direção a praça do mercado. Mal chegou, deparou-se com a morte no meio do povo. Sem medo, chegou-se a ela e disse:
— Porque motivo ameaçou meu capataz quando o viste hoje de manhã?
— Eu? Eu não o ameacei – respondeu a morte – Foi apenas um gesto de surpresa de minha parte. Fiquei atônita ao vê-lo aqui na cidade, pois tenho um encontro com ele, esta noite, numa cabana a beira de um rio. ®Sérgio.
Leia Também (clique no link):

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A LENDA DE PIGMALIÃO E GALATEIA

A história de Pigmalião e Galateia (sua estátua favorita) é uma das lendas de amor mais inverosímeis e estranhas da mitologia grega. Vou contá-la aqui, segundo ouvi da tradição popular.
Pigmalião era rei de Chipre e um hábil escultor. Seus namoros com as mulheres cipriotas só acumularam problemas, pois sempre acolhia as mulheres erradas. Via tantos defeitos e indecências nessas mulheres que começou a abominá-las. Se sentindo deprimido decidiu que nunca iria se casar com qualquer moça e optou por viver isolado e imerso em seu trabalho de escultor. Passou a dedicar todo o seu tempo livre a talhar; e, como não era insensível à beleza feminina, usando habilidades requintadas, ele esculpiu uma figura feminina em marfim, a mulher ideal, para fazer-lhe companhia. A figura esculpida era de uma beleza tão grande e parecia tão viva, que Pigmalião apaixonou-se por sua criação.
Ele a adornou com roupas, colocou anéis em seus dedos e um colar de pérolas no pescoço. Ficava horas com a estátua, beijava-a, apalpava-a para verificar se estava viva (não conseguia acreditar que se tratasse apenas de marfim) e dava-lhe presentes com os quais toda mulher sonha. Passava o tempo e Pigmaleão sentia-se cada vez mais atraído por aquela figura que considerava a sua obra prima.
Realizava-se, com grande pompa, em Palea (onde havia um importante santuário dedicado a Afrodite), um festival a essa deusa da beleza e do amor. Após Pigmalião ter executado sua parte nas solenidades, parou diante do altar e invocou a deusa pedindo-lhe que lhe permitisse encontrar uma mulher igual à estátua de marfim.
A deusa Afrodite, apiedando-se dele e atendendo ao pedido, e não encontrando na ilha uma mulher que chegasse aos pés da que Pigmaleão esculpira, em beleza e pudor, transformou a estátua numa mulher de carne e osso e a nomeou de Galatea. Quando voltou para casa, Pigmalião beijou Galatea como era seu costume. No calor do seu beijo, ele apertou seus lábios a lábios tão reais, que, surpreso, teme estar enganado; Ele a beijou novamente e colocou a mão sobre a perna de Galateia e o que fora marfim agora era pele macia que se rendeu a seus dedos. Sentindo os beijos Galateia corou, e abrindo seus tímidos olhos à luz, fixa-os no mesmo instante em Pigmalião, que a envolveu em seus braços sentiu um coração que pulsava como o dele.
Com a benção de Afrodite, Pigmalião e Galateia se casaram; tiveram uma filha, Metarme (era tão bela que até o próprio Apolo a pretendeu), e um filho, Pafos, que deu seu nome a cidade cipriota de Pafos. E viveram felizes. ®Sérgio.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

SOFISTA?

A palavra sofista vem do grego, sophos, que significa sábio, isto é, professor de sabedoria. Porém há um significado pejorativo para sophos: o homem que se vale de sofismas, ou melhor, alguém que usa de má fé para enganar o ouvinte, convencê-lo de alguma coisa que não condiz com a verdade. Atualmente a técnica valer-se de sofisma é à base da propaganda e da política, cujo lema é: um discurso bem feito vale mais do que a verdade.

Os mais famosos sofistas foram: Protágoras (485 a 411 a.C.); Górgias (485 a 380 a.C.); Híppias (460 e 399 a.C.); Trasímaco (459 a.C. a ?); Pródico (450 a 399 a.C.); entre outros. Pitágoras (570 a 596) foi o maior deles. ®Sérgio.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

MARIA DIAMBA - Seleta de Poemas

Seleta de Poemas representa as poesias que li e tocaram-me a alma. Assim, posso compartilhar com vocês as minhas preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
MARIA DIAMBA
Para não apanhar mais
falou que sabia fazer bolos:
virou cozinha.
Foi outras coisas para que tinha jeito.
Não falou mais.
Viram que sabia fazer tudo,
até molecas para a Casa-Grande.
Depois falou só,
só diante da ventania
que vinha do Sudão;
falou que queria fugir
dos senhores e das judiarias deste mundo
para o sumidouro.
• Jorge de Lima (1893-1953), in Poemas Negros. Foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. ®Sérgio.

domingo, 31 de janeiro de 2010

PÉS DISFORMES - Notas Biográficas


Cândido Torquato Portinari (1903-1962), o pintor brasileiro a alcançar maior projeção internacional. Pintou desde pequenos esboços a gigantescos murais, construindo um acervo de mais de cinco mil obras.
Por outro lado, Portinari foi muito criticado por de formar suas figuras humanas. No início da década de 1940, sob o Estado Novo de Getúlio Vargas, era acusado de antinacionalista por retratar os trabalhadores com braços e pernas desproporcionais, como se sofresse de elefantíase. Na verdade, as telas de Portinari são enaltecimentos àqueles trabalhadores, como nos explica o pintor:
"Impressionavam-me os pés dos trabalhadores das fazendas de café. Pés disformes. Pés que podem contar uma história. Confundiam-se com as pedras e os espinhos. Pés sofridos com muito e muitos quilômetros de marcha. Pés que só os santos têm. Sobre a terra, difícil era distingui-los. Os pés e a terra tinham a mesma moldagem variada. Raros tinham dez dedos, pelo menos dez unhas. Pés que inspiravam piedade e respeito. Agarrados ao solo eram como os alicerces, muitas vezes suportavam apenas um corpo franzino e doente. Pés cheio de nós que expressavam alguma coisa de força, terríveis e pacientes." ®Sérgio

O TEATRO DE GIL VICENTE

O teatro vicentino tem como característica principal a sátira. Por meio dela Gil Vicente criticou todas as camadas sociais: a nobreza, o clero e o povo. Apesar de sua extrema religiosidade o alvo das sátiras de Gil era o frade que se entregava enlouquecidamente aos amores proibidos, a venda de indulgências, ao misticismo, ao mundanismo, à depravação dos costumes.
Gil não fez exceção na hierarquia clerical; criticou desde o frade de aldeia até o papa. No âmbito dos fiéis, criticou aqueles que rezavam mecanicamente; os que solicitavam, a Deus, favores pessoais e os que assistiam às missas por obrigação social:
Sapateiro: Quantas missas eu ouvi, / nom me hão elas de prestar?
Diabo: Ouvir missa, então roubar – / é caminho para aqui.
(diálogo entre um sapateiro e o Diabo; enxerto do Auto da Barca do Inferno)
Digno de observação é que, no teatro de Gil Vicente, o diabo nunca força ninguém ao pecado. As próprias pessoas o cometem por si só. Por exemplo: na peça Auto da Feira, o Diabo, do mesmo modo que um camelô, monta sua banca para oferecer os pecados, quando é interpelado por um anjo e assim argumenta o Diabo:
[...]
Mas cada um veja o que faz,
porque eu não forço ninguém.
Se me vem comprar
qualquer clérigo, ou leigo, ou frade
falsas manhas de viver,
muito por sua vontade,
senhor, que lhe hei-de-fazer?
Outra classe social muito criticada por Gil foi a baixa nobreza, representada pelo fidalgo decadente. Por outro lado, ele tinha especial carinho pelo "lavrador", que considerava o "verdadeiro povo", vítima da exploração de toda a estrutura social.
Sempre é morto quem do arado
há-de viver.
Nos somos a vida das gentes,
E morte de nossas;
A tiranos – pacientes
Que a unhas e a dentes
nos tem as almas roídas.
[...] (excerto do Auto da Barca do Purgatório)
Dos outros tipos humanos que povoaram os textos de Gil Vicente temos: O judeu ganancioso; a velha beata, o médico incompetente, a mulher adultera, o padre corrupto, o sapateiro que rouba o povo, a alcoviteira, o velho apaixonado que se deixa roubar. Gil Vicente não tem a preocupação de fixar tipos psicológicos, e sim sociais. A maior parte dos personagens de seu teatro não tem nome de batismo, sendo designados pela profissão ou pelo tipo humano que representam.
Quanto a forma (cenários e montagens) o teatro de Gil é extremamente simples. O texto apresenta estrutura poética, com predomínio da redondilha maior, havendo varias cantigas no corpo de sua peça.
A produção completa de Gil Vicente constitui-se de 44 peças, sendo 17 escritas em português, 11 em castelhano e 16 bilíngues.
A quem interessar, você pode baixar neste link o Auto da Barca do Inferno. ®Sérgio.
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Os excertos foram extraídos de: Vicente, Gil. Teatro de Gil Vicente. 5ª Ed. Lisboa, Portugália.
Algumas informações foram extraídas e adaptadas ao texto de: Nicola, José, Literatura. São Paulo, Scipione, 1998.

O FICCIONISTA NÃO É O NARRADOR DA FICÇÃO

É comum, numa narrativa de ficção, o leitor confundir o ficcionista, autor da narrativa, com o narrador da história.

Autor e narrador são seres diferentes. O autor (contista, novelista, romancista) é um uma pessoa de carne e osso, que se utiliza de uma voz, ou seja, de uma personagem fictíciao narrador - para nos contar aquilo que ele cria, imagina, inventa. Portanto, o narrador só existe no texto. O autor pode, então, ser entendido como a pessoa que se oculta atrás de uns narradores para relatar de uma determinada maneira, determinados fatos. Assim sendo, cada autor cria um narrador diferente para cada obra.

Essa diferença nem sempre é percebida porque, não raro, autores e narradores se utilizam das mesmas categorias pronominais, nas narrativas em primeira pessoa, para se identificarem: "Eu". Da mesma maneira que dizemos: Eu tinha 12 anos quando...

No entanto, mesmo quando uma história é narrada na primeira pessoa, não podemos dizer que é o autor que fala. Pois, no mais das vezes, o escritor pode criar narradores completamente avessos a sua maneira de ser e de pensar. Mais ainda, pode colocá-los em outro espaço e num outro tempo, em tudo diferente do seu tempo e espaço.

Tomemos como exemplo o personagem-narrador Brás Cubas (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis) que, apesar de estar morto, narra suas memórias:

"Algum tempo hesitei se deveria começar estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor [...]."

Portanto, não há nenhuma relação entre Machado de Assis e Brás Cuba. Daí, podemos concluir claramente, que Brás Cubas (narrador) é pura obra de ficção. No romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, o narrador Honório "vê" o mundo à sua volta através dos valores de um capitalismo primitivo; ponto de vista totalmente contrário ao de Graciliano. ®Sérgio.

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A Narrativa de Ficção.

O Tempo na Narrativa de Ficção.

A Personagem na Narrativa de Ficção.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O ESCRITOR DOS LIVROS PROIBIDOS - Notas Biográficas

"Crê nos que buscam a verdade, duvida dos que a encontraram." (Gide)
Filho de uma austera família protestante, André Paul Guillaume Gide (1869-1951), cresceu num ambiente em que a religião era imposta com rigidez. Em 1877, é admitido na École Alsacienne, um internato, iniciando uma péssima escolaridade. Logo, é suspenso por três meses por se deixar levar pelo seu "mau hábito" (leia-se masturbação), o que levou um médico a sugerir a castração. Nos três meses que passou em casa cura-se do "mau hábito", motivado pelas ameaças de castração e pela tristeza de seus pais. Pouco depois de seu regresso à escola, o "mau hábito" reincide e torna-se um de seus hábitos (sem deixar de sentir-se um pecador) até aos 23 anos, quando escreveu que viveu até essa idade "completamente virgem, mas depravado".
Nas Elégies Romaines, Gide descobre a legitimidade do prazer - em oposição ao puritanismo que sempre havia conhecido - que resulta para ele numa "tentação de viver". A iniciação de Gide no "amor que não ousa dizer seu nome" deu-se numa viagem pela Tunísia, Argélia e Itália (na época rota do turismo gay). Em Sousse (situada na costa leste da Tunísia) Gide encontra a libertação moral e sexual, que sempre ansiara, no prazer que um jovem rapaz lhe proporcionou.
Liberto, deixa sua literatura sair do armário com Córidon¹ (Corydon), um ensaio que tem por objetivo combater os preconceitos sobre a homossexualidade e a pederastia. Adota, nesse ensaio, a concepção grega da pederastia, que tem por base o amor entre um homem mais velho e um jovem – um amor que seria ao mesmo tempo físico e "pedagógico", com o amante maduro no papel de mestre. Os amigos, a quem Gide mostrou os rascunhos, assustaram-se com a possibilidade de um grande escândalo. Eles advertiram-no em relação ao impacto que poderia ter tanto em sua vida pública quanto privada. De maneira que em 1910, Gide manda, discretamente, imprimir apenas os dois primeiros capítulos, anonimamente. Só em 1924 (dez anos depois) publica-o na íntegra e em seu nome.
Em outra faceta de seus romances: o tratamento sarcástico da religião, temos Os Porões do Vaticano² (Les Caves Du Vatican – 1914), um romance burlesco de teor satírico e trama intricada, na qual uma dupla de golpistas convence uma condessa de que o papa foi raptado e um impostor está em seu lugar. Pela sátira irreverente, essa narrativa coloca o autor na linha de Rebelais e Voltaire.
A Sinfonia Pastoral³ (La Simphonie Pastorale - 1919), escrito em forma de diário, explorou a hipocrisia que se disfarça de piedade cristã e dever. É a história de um pastor protestante que adota Gertrude uma menina cega. Com medo de que Gertrude o ame menos do que seu filho, o pastor seduz a menina às vésperas de uma operação, que pode restaurar sua visão. Após a operação bem-sucedida, Gertrude compreende a verdade sobre as pessoas ao seu redor e comete suicídio.
No romance Os Moedeiros Falsos4 (Les Faux Monnayeurs -1925), Gide traz três personagens envoltos em relações atormentadas – dois jovens estudantes, Oliver e Bernard e o escritor Édouard, tio de Oliver. O protagonista, Édouard, se apaixona por seu sobrinho, desenvolvendo o que Gide considerou uma construtiva relação homossexual que termina com o suicídio de um dos personagens.
O inédito Diário dos Moedeiros Falsos (Journal Des Faux-Monnayeurs - 1927) - lançado agora no Brasil pela editora Estação Liberdade e tradução de Mario Laranjeira – trata-se do diário que o escritor manteve durante a composição do romance Os Moedeiros Falsos. Representa uma incursão no processo criativo de Gide, que dialoga com os personagens e dá conselhos, a si próprio.
O Pombo-Torcaz, também inédito e lançado agora no Brasil pela Estação Liberdade, tradução de Mauro Pinheiro; é um conto autobiográfico publicado em 1907. Descreve a noite que o escritor passou com o jovem Ferdinand em Bagnols-de-Grenade, perto de Toulouse (pombo-torcaz, é uma espécie de pombo muito comum na Europa, é o apelido dado pelo escritor ao amante adolescente, porque Ferdinand "arrulhava" ao fazer sexo). O relato esteve guardado nos arquivos de Gide até recentemente, quando Catherine Gide, sua única filha, autorizou a publicação.
Em 1947, Gide recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, e no mesmo ano tornou-se doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford.
Morre no dia 19 de Fevereiro de 1951.
Outros livros publicados em língua portuguesa: A Escola das Mulheres, 1944; A Porta Estreita, 1984; A Volta Do Filho Pródigo, 1984; De Volta da U.R.S.S, 1937; Isabel, 1985; O Imoralista, 1991; O Processo de Franz Kafka, 1962; Os Frutos da Terra, 1982; O Pensamento Vivo de Montaigne, 1975; Paludes, 1988.
Em 1952, a sua obra foi incluída no Índex de livros proibidos pelo Vaticano. ®Sérgio.

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1 - Córidon. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1985.
2- Os Subterrâneos do Vaticano. Sao Paulo: Abril Cultural. 1982.
3 - A Sinfonia Pastoral. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1985.
4 - Os Moedeiros Falsos. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1983.