quarta-feira, 3 de março de 2010

MUNDO ESTRANHO

Este mundo é mesmo estranho. Imagine: mulheres esvaziando fossas sépticas e carregando os excrementos humanos numa cesta sobre a cabeça; mesmo nos dias de chuva quando a água dilui as fezes que inevitavelmente escorrem pelos rostos dessas mulheres.
Pense em homens abrindo bueiros donde saem baratas e ratos. Quando o movimento de fuga dos pestilentos diminui, esses homens, só de tangas fio-dental, entrando nesses bueiros para desobstruir as tubulações. Sem luvas ou máscaras (no máximo pás, baldes e carriolas), para amontoar do lado de fora a massa escura, mistura de fezes e tudo o mais que você possa imaginar.
Pois é; esse é o trabalho de 650 mil indianos, os chamados "scavengers", termo inglês que significa, mais ou menos, animais que se alimentam de carniça.
Scavengers são dalits, a mais baixa casta indiana e hereditária, ou seja, nascem para trabalhar nas fossas. Muitos morrem envenenados pelo gás metano (fermentação das fezes) que se acumulam nas galerias ou afogados nos excrementos.
Pior; na sociedade indiana, ninguém se incomoda com isso. Tanto que essas mulheres e esses homens são contratados por empresas a serviço do poder público, em cidades como Mumbai e Nova Délhi.
E ainda tem gente que diz: "Meu emprego é uma merda". ®Sérgio.

O ESTILO - Reflexões Literárias

"O estilo é o sol da escrita. Dá-lhe eterna palpitação, eterna vida. Cada palavra é como que um tecido do organismo do período. No estilo há todas as gradações da luz, todas as escalas dos sons.

O escritor é psicólogo, é miniaturista, é pintor – gradua a luz, tonaliza, esbate e esfuminha os longes da paisagem.

O princípio fundamental da Arte vem da Natureza, porque um artista faz-se da Natureza. Toda a força e toda a profundidade do estilo esta em saber apertar a frase no pulso, domá-la, não a deixar disparar pelos meandros da escrita.

O vocábulo pode ser música ou pode ser trovão, conforme o caso. A palavra tem a sua anatomia; e é preciso uma rara percepção estética, uma nitidez visual, olfativa, palatal e acústica, apuradíssima, para a exatidão da cor, da forma e para a sensação do som e do sabor da palavra." (Cruz e Souza. Outras Evocações. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1961, p. 677-8)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A JANELA - Recontando Contos Populares

Conta-se que em uma região do interior, muito afastada dos centros mais civilizados, morava um velho e excêntrico fazendeiro que jamais deixara o lugar onde nascera. Certo dia, o fazendeiro passou mal e, seriamente doente, teve de ser levado, às pressas, para o modesto arraial da região. Como lá não havia recurso para seu tratamento, foi transferido para o hospital da capital.
Por falta de leitos no hospital, o fazendeiro teve de dividir o quarto com outro doente, desenganado pelos médicos. O cômodo era bastante pequeno, e nele havia uma janela que durante o dia permanecia aberta para arejar o quarto. A cama do paciente desenganado ficava ao lado dessa janela e ele tinha permissão para sentar-se, próximo a ela, por uma hora durante as tardes. O fazendeiro, contudo, tinha de passar todo o seu tempo deitado, devido aos problemas cardíacos que sofrera.
 Todas as tardes, quando o homem cuja cama ficava ao lado da janela era colocado na posição sentada; passava sua hora, descrevendo ao fazendeiro o que via lá fora. A janela aparentemente dava para o jardim de entrada do hospital, onde havia um pequeno lago.
Havia patos e cisnes no lago, e as crianças iam atirar-lhes pão. Jovens namorados sentavam nos bancos colocados em volta do lago, debaixo de árvores. Havia gramados e flores no jardim. E ao fundo, por trás da fileira de árvores, avistava-se o belo contorno de alguns prédios da cidade.
O fazendeiro ouvia-o descrever tudo isso, apreciando cada detalhe. Ouviu como uma criança quase caiu no lago, e como as pessoas estavam bonitas em seus trajes de verão. As descrições do seu amigo eram tão bem feitas, que o fazendeiro tinha a sensação de estar vendo o que acontecia lá fora.
Passaram-se os dias e o fazendeiro começou a lamentar sua situação: Por que só o homem que ficava perto da janela deveria ter todo o prazer de ver o que estava acontecendo? Por que ele não podia ter essa chance?
Sentia-se envergonhado de pensar assim, mas desejava, sonhava com uma mudança. 
Numa manhã, ao acordar, notou que a cama ao lado da janela estava vazia. Perguntou a enfermeira o que acontecera com seu amigo: “Morreu nessa noite, silenciosamente; levamos o seu corpo para o necrotério”, respondeu a enfermeira.
O fazendeiro, que sonhava com a janela, perguntou-lhe se poderia ser colocado na cama perto da janela. Para a enfermeira pareceu apropriado e, então, o colocaram lá; bem ao lado da janela. Seu sonho estava realizado.
Minutos após saírem os enfermeiros, ele apoiou-se sobre os cotovelos e, com dificuldade, sentou-se na cama. Tomado de enorme expectativa e emoção, olhou para fora da janela. Viu apenas um muro... ®Sérgio.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

FRASES QUE SE DESTACARAM PELOS ENGANOS

Da antologia feita, em caráter didático, pela Folha de São Paulo, destaco algumas frases que ficaram famosas pelos seus erros (com suas respectivas correções):
CRISTO ENFORCADO?
Diferentemente do que foi publicado no texto "Artistas periféricos passam despercebidos", à pág. 5-3 da edição de ontem da Ilustrada, Jesus não foi enforcado, mas crucificado. (7/12/94)
MENINA SEXUALMENTE RETARDADA?
No artigo "A nova guerra civil", publicado à pág. 5-7 de 1°/10, onde se lê "uma menina sexualmente retardada...", leia-se "uma menina mentalmente retardada...". (8.dez.95)
IDADE
Está errada a idade do engenheiro mecânico Claudinei de Oliveira, publicada à pág. 3-11 (São Paulo) de 14/4. O texto dizia que: Oliveira tem 54 anos e sua mãe, Edna Cecconello de Oliveira, 52. A idade correta do engenheiro é 34. (19.abr.97) ®Sérgio.
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Fonte: www1. uol.com. br/folha/circulo/antologia_erramos.htm

SELETA DE PENSAMENTOS (2)

"A mais amarga das amarguras é a que nos proporcionam os nossos 'amigos'. Os outros dissabores nos ferem, por assim dizer, de fora, ao passo que este nos atinge de dentro e penetra as mais íntimas fibras do nosso ser."
"O homem só é grande e só educa para a grandeza a seus semelhantes, quando tem a coragem de viver suas ideias e morrer pelos seus ideais."
"O homem de caráter baixo sente como ofensa pessoal e como ofuscamento de seu ego toda a glória que recaia sobre alguns de seus semelhantes. Não admite coisa alguma acima de sua mediocridade, que julga sublime e inigualável."
(Humberto Rohden¹)
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(1) Humberto Rohden nasceu em Tubarão, Santa Catarina. Formou-se em Ciências, Filosofia e Teologia em Universidades da Europa. Trabalhou como professor, conferencista e escritor com mais de sessenta obras sobre ciência, filosofia e religião. Não está filiado a nenhuma igreja, seita ou partido político. Fundou o movimento mundial “Alvorada”, com sede em São Paulo. Empreendeu viagens de estudo espirituais pela Palestina, Egito, Índia e Nepal.

A ESCRITA

Platão em Diálogos expõe a seu amigo Freudo, o inconveniente da escrita:

"A escrita apresenta meu caro Freudo, um grave inconveniente que se encontra de resto na pintura. Com efeito, os seres que esta produz têm a aparência, mas se lhe pusermos uma questão eles guardam dignamente silêncio. O mesmo se passa com os discursos escritos. Poder-se-ia acreditar que falam como seres sensatos, mas se o interrogarmos com a intenção de compreendermos o que dizem; limitam-se a significar uma só coisa, sempre a mesma. Uma vez escrito qualquer discurso chegará a todos os lados, e passa indiferentemente por aqueles que nada têm a fazer com ele. Ignora a quem deva ou não dirigir-se. Se fazem ouvir vozes discordantes a seu respeito, se é injuriado injustamente, tem sempre a necessidade de socorro do seu pai. Só por si, com efeito, é incapaz de repelir um ataque e de se defender a si mesmo". ®Sérgio.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O ENCONTRO COM A MORTE - Recontando Contos Populares

Certa vez, um rico fazendeiro mandou o seu capataz a cidade, a fim de comprar provisões. Pouco tempo depois, o capataz retornou a fazenda, pálido e trêmulo, balbuciando palavras sem nexos, muito assustado.
— Patrão, ainda há pouco, quando eu atravessava a praça do mercado, fui abordado por uma mulher! Quando me voltei para ver de quem se tratava, vi que era a morte! Ela me fitou com um gesto ameaçador. Por piedade patrão, empreste-me seu cavalo para eu fugir desta fazenda! Irei para aquela que tem uma cabana na beira do rio, onde a morte não me encontrará!
O fazendeiro, penalizado com a situação, cedeu-lhe o cavalo e o capataz, mais que depressa, montou; fincou as esporas nos flancos do animal e partiu a todo galope.
Naquele mesmo dia, o fazendeiro, curioso, partiu para a cidade em direção a praça do mercado. Mal chegou, deparou-se com a morte no meio do povo. Sem medo, chegou-se a ela e disse:
— Porque motivo ameaçou meu capataz quando o viste hoje de manhã?
— Eu? Eu não o ameacei – respondeu a morte – Foi apenas um gesto de surpresa de minha parte. Fiquei atônita ao vê-lo aqui na cidade, pois tenho um encontro com ele, esta noite, numa cabana a beira de um rio. ®Sérgio.
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domingo, 7 de fevereiro de 2010

A LENDA DE PIGMALIÃO E GALATEIA

A história de Pigmalião e Galateia (sua estátua favorita) é uma das lendas de amor mais inverosímeis e estranhas da mitologia grega. Vou contá-la aqui, segundo ouvi da tradição popular.
Pigmalião era rei de Chipre e um hábil escultor. Seus namoros com as mulheres cipriotas só acumularam problemas, pois sempre acolhia as mulheres erradas. Via tantos defeitos e indecências nessas mulheres que começou a abominá-las. Se sentindo deprimido decidiu que nunca iria se casar com qualquer moça e optou por viver isolado e imerso em seu trabalho de escultor. Passou a dedicar todo o seu tempo livre a talhar; e, como não era insensível à beleza feminina, usando habilidades requintadas, ele esculpiu uma figura feminina em marfim, a mulher ideal, para fazer-lhe companhia. A figura esculpida era de uma beleza tão grande e parecia tão viva, que Pigmalião apaixonou-se por sua criação.
Ele a adornou com roupas, colocou anéis em seus dedos e um colar de pérolas no pescoço. Ficava horas com a estátua, beijava-a, apalpava-a para verificar se estava viva (não conseguia acreditar que se tratasse apenas de marfim) e dava-lhe presentes com os quais toda mulher sonha. Passava o tempo e Pigmaleão sentia-se cada vez mais atraído por aquela figura que considerava a sua obra prima.
Realizava-se, com grande pompa, em Palea (onde havia um importante santuário dedicado a Afrodite), um festival a essa deusa da beleza e do amor. Após Pigmalião ter executado sua parte nas solenidades, parou diante do altar e invocou a deusa pedindo-lhe que lhe permitisse encontrar uma mulher igual à estátua de marfim.
A deusa Afrodite, apiedando-se dele e atendendo ao pedido, e não encontrando na ilha uma mulher que chegasse aos pés da que Pigmaleão esculpira, em beleza e pudor, transformou a estátua numa mulher de carne e osso e a nomeou de Galatea. Quando voltou para casa, Pigmalião beijou Galatea como era seu costume. No calor do seu beijo, ele apertou seus lábios a lábios tão reais, que, surpreso, teme estar enganado; Ele a beijou novamente e colocou a mão sobre a perna de Galateia e o que fora marfim agora era pele macia que se rendeu a seus dedos. Sentindo os beijos Galateia corou, e abrindo seus tímidos olhos à luz, fixa-os no mesmo instante em Pigmalião, que a envolveu em seus braços sentiu um coração que pulsava como o dele.
Com a benção de Afrodite, Pigmalião e Galateia se casaram; tiveram uma filha, Metarme (era tão bela que até o próprio Apolo a pretendeu), e um filho, Pafos, que deu seu nome a cidade cipriota de Pafos. E viveram felizes. ®Sérgio.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

SOFISTA?

A palavra sofista vem do grego, sophos, que significa sábio, isto é, professor de sabedoria. Porém há um significado pejorativo para sophos: o homem que se vale de sofismas, ou melhor, alguém que usa de má fé para enganar o ouvinte, convencê-lo de alguma coisa que não condiz com a verdade. Atualmente a técnica valer-se de sofisma é à base da propaganda e da política, cujo lema é: um discurso bem feito vale mais do que a verdade.

Os mais famosos sofistas foram: Protágoras (485 a 411 a.C.); Górgias (485 a 380 a.C.); Híppias (460 e 399 a.C.); Trasímaco (459 a.C. a ?); Pródico (450 a 399 a.C.); entre outros. Pitágoras (570 a 596) foi o maior deles. ®Sérgio.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

MARIA DIAMBA - Seleta de Poemas

Seleta de Poemas representa as poesias que li e tocaram-me a alma. Assim, posso compartilhar com vocês as minhas preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
MARIA DIAMBA
Para não apanhar mais
falou que sabia fazer bolos:
virou cozinha.
Foi outras coisas para que tinha jeito.
Não falou mais.
Viram que sabia fazer tudo,
até molecas para a Casa-Grande.
Depois falou só,
só diante da ventania
que vinha do Sudão;
falou que queria fugir
dos senhores e das judiarias deste mundo
para o sumidouro.
• Jorge de Lima (1893-1953), in Poemas Negros. Foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. ®Sérgio.

domingo, 31 de janeiro de 2010

PÉS DISFORMES - Notas Biográficas


Cândido Torquato Portinari (1903-1962), o pintor brasileiro a alcançar maior projeção internacional. Pintou desde pequenos esboços a gigantescos murais, construindo um acervo de mais de cinco mil obras.
Por outro lado, Portinari foi muito criticado por de formar suas figuras humanas. No início da década de 1940, sob o Estado Novo de Getúlio Vargas, era acusado de antinacionalista por retratar os trabalhadores com braços e pernas desproporcionais, como se sofresse de elefantíase. Na verdade, as telas de Portinari são enaltecimentos àqueles trabalhadores, como nos explica o pintor:
"Impressionavam-me os pés dos trabalhadores das fazendas de café. Pés disformes. Pés que podem contar uma história. Confundiam-se com as pedras e os espinhos. Pés sofridos com muito e muitos quilômetros de marcha. Pés que só os santos têm. Sobre a terra, difícil era distingui-los. Os pés e a terra tinham a mesma moldagem variada. Raros tinham dez dedos, pelo menos dez unhas. Pés que inspiravam piedade e respeito. Agarrados ao solo eram como os alicerces, muitas vezes suportavam apenas um corpo franzino e doente. Pés cheio de nós que expressavam alguma coisa de força, terríveis e pacientes." ®Sérgio

O TEATRO DE GIL VICENTE

O teatro vicentino tem como característica principal a sátira. Por meio dela Gil Vicente criticou todas as camadas sociais: a nobreza, o clero e o povo. Apesar de sua extrema religiosidade o alvo das sátiras de Gil era o frade que se entregava enlouquecidamente aos amores proibidos, a venda de indulgências, ao misticismo, ao mundanismo, à depravação dos costumes.
Gil não fez exceção na hierarquia clerical; criticou desde o frade de aldeia até o papa. No âmbito dos fiéis, criticou aqueles que rezavam mecanicamente; os que solicitavam, a Deus, favores pessoais e os que assistiam às missas por obrigação social:
Sapateiro: Quantas missas eu ouvi, / nom me hão elas de prestar?
Diabo: Ouvir missa, então roubar – / é caminho para aqui.
(diálogo entre um sapateiro e o Diabo; enxerto do Auto da Barca do Inferno)
Digno de observação é que, no teatro de Gil Vicente, o diabo nunca força ninguém ao pecado. As próprias pessoas o cometem por si só. Por exemplo: na peça Auto da Feira, o Diabo, do mesmo modo que um camelô, monta sua banca para oferecer os pecados, quando é interpelado por um anjo e assim argumenta o Diabo:
[...]
Mas cada um veja o que faz,
porque eu não forço ninguém.
Se me vem comprar
qualquer clérigo, ou leigo, ou frade
falsas manhas de viver,
muito por sua vontade,
senhor, que lhe hei-de-fazer?
Outra classe social muito criticada por Gil foi a baixa nobreza, representada pelo fidalgo decadente. Por outro lado, ele tinha especial carinho pelo "lavrador", que considerava o "verdadeiro povo", vítima da exploração de toda a estrutura social.
Sempre é morto quem do arado
há-de viver.
Nos somos a vida das gentes,
E morte de nossas;
A tiranos – pacientes
Que a unhas e a dentes
nos tem as almas roídas.
[...] (excerto do Auto da Barca do Purgatório)
Dos outros tipos humanos que povoaram os textos de Gil Vicente temos: O judeu ganancioso; a velha beata, o médico incompetente, a mulher adultera, o padre corrupto, o sapateiro que rouba o povo, a alcoviteira, o velho apaixonado que se deixa roubar. Gil Vicente não tem a preocupação de fixar tipos psicológicos, e sim sociais. A maior parte dos personagens de seu teatro não tem nome de batismo, sendo designados pela profissão ou pelo tipo humano que representam.
Quanto a forma (cenários e montagens) o teatro de Gil é extremamente simples. O texto apresenta estrutura poética, com predomínio da redondilha maior, havendo varias cantigas no corpo de sua peça.
A produção completa de Gil Vicente constitui-se de 44 peças, sendo 17 escritas em português, 11 em castelhano e 16 bilíngues.
A quem interessar, você pode baixar neste link o Auto da Barca do Inferno. ®Sérgio.
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Os excertos foram extraídos de: Vicente, Gil. Teatro de Gil Vicente. 5ª Ed. Lisboa, Portugália.
Algumas informações foram extraídas e adaptadas ao texto de: Nicola, José, Literatura. São Paulo, Scipione, 1998.

O FICCIONISTA NÃO É O NARRADOR DA FICÇÃO

É comum, numa narrativa de ficção, o leitor confundir o ficcionista, autor da narrativa, com o narrador da história.

Autor e narrador são seres diferentes. O autor (contista, novelista, romancista) é um uma pessoa de carne e osso, que se utiliza de uma voz, ou seja, de uma personagem fictíciao narrador - para nos contar aquilo que ele cria, imagina, inventa. Portanto, o narrador só existe no texto. O autor pode, então, ser entendido como a pessoa que se oculta atrás de uns narradores para relatar de uma determinada maneira, determinados fatos. Assim sendo, cada autor cria um narrador diferente para cada obra.

Essa diferença nem sempre é percebida porque, não raro, autores e narradores se utilizam das mesmas categorias pronominais, nas narrativas em primeira pessoa, para se identificarem: "Eu". Da mesma maneira que dizemos: Eu tinha 12 anos quando...

No entanto, mesmo quando uma história é narrada na primeira pessoa, não podemos dizer que é o autor que fala. Pois, no mais das vezes, o escritor pode criar narradores completamente avessos a sua maneira de ser e de pensar. Mais ainda, pode colocá-los em outro espaço e num outro tempo, em tudo diferente do seu tempo e espaço.

Tomemos como exemplo o personagem-narrador Brás Cubas (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis) que, apesar de estar morto, narra suas memórias:

"Algum tempo hesitei se deveria começar estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor [...]."

Portanto, não há nenhuma relação entre Machado de Assis e Brás Cuba. Daí, podemos concluir claramente, que Brás Cubas (narrador) é pura obra de ficção. No romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, o narrador Honório "vê" o mundo à sua volta através dos valores de um capitalismo primitivo; ponto de vista totalmente contrário ao de Graciliano. ®Sérgio.

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A Narrativa de Ficção.

O Tempo na Narrativa de Ficção.

A Personagem na Narrativa de Ficção.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O ESCRITOR DOS LIVROS PROIBIDOS - Notas Biográficas

"Crê nos que buscam a verdade, duvida dos que a encontraram." (Gide)
Filho de uma austera família protestante, André Paul Guillaume Gide (1869-1951), cresceu num ambiente em que a religião era imposta com rigidez. Em 1877, é admitido na École Alsacienne, um internato, iniciando uma péssima escolaridade. Logo, é suspenso por três meses por se deixar levar pelo seu "mau hábito" (leia-se masturbação), o que levou um médico a sugerir a castração. Nos três meses que passou em casa cura-se do "mau hábito", motivado pelas ameaças de castração e pela tristeza de seus pais. Pouco depois de seu regresso à escola, o "mau hábito" reincide e torna-se um de seus hábitos (sem deixar de sentir-se um pecador) até aos 23 anos, quando escreveu que viveu até essa idade "completamente virgem, mas depravado".
Nas Elégies Romaines, Gide descobre a legitimidade do prazer - em oposição ao puritanismo que sempre havia conhecido - que resulta para ele numa "tentação de viver". A iniciação de Gide no "amor que não ousa dizer seu nome" deu-se numa viagem pela Tunísia, Argélia e Itália (na época rota do turismo gay). Em Sousse (situada na costa leste da Tunísia) Gide encontra a libertação moral e sexual, que sempre ansiara, no prazer que um jovem rapaz lhe proporcionou.
Liberto, deixa sua literatura sair do armário com Córidon¹ (Corydon), um ensaio que tem por objetivo combater os preconceitos sobre a homossexualidade e a pederastia. Adota, nesse ensaio, a concepção grega da pederastia, que tem por base o amor entre um homem mais velho e um jovem – um amor que seria ao mesmo tempo físico e "pedagógico", com o amante maduro no papel de mestre. Os amigos, a quem Gide mostrou os rascunhos, assustaram-se com a possibilidade de um grande escândalo. Eles advertiram-no em relação ao impacto que poderia ter tanto em sua vida pública quanto privada. De maneira que em 1910, Gide manda, discretamente, imprimir apenas os dois primeiros capítulos, anonimamente. Só em 1924 (dez anos depois) publica-o na íntegra e em seu nome.
Em outra faceta de seus romances: o tratamento sarcástico da religião, temos Os Porões do Vaticano² (Les Caves Du Vatican – 1914), um romance burlesco de teor satírico e trama intricada, na qual uma dupla de golpistas convence uma condessa de que o papa foi raptado e um impostor está em seu lugar. Pela sátira irreverente, essa narrativa coloca o autor na linha de Rebelais e Voltaire.
A Sinfonia Pastoral³ (La Simphonie Pastorale - 1919), escrito em forma de diário, explorou a hipocrisia que se disfarça de piedade cristã e dever. É a história de um pastor protestante que adota Gertrude uma menina cega. Com medo de que Gertrude o ame menos do que seu filho, o pastor seduz a menina às vésperas de uma operação, que pode restaurar sua visão. Após a operação bem-sucedida, Gertrude compreende a verdade sobre as pessoas ao seu redor e comete suicídio.
No romance Os Moedeiros Falsos4 (Les Faux Monnayeurs -1925), Gide traz três personagens envoltos em relações atormentadas – dois jovens estudantes, Oliver e Bernard e o escritor Édouard, tio de Oliver. O protagonista, Édouard, se apaixona por seu sobrinho, desenvolvendo o que Gide considerou uma construtiva relação homossexual que termina com o suicídio de um dos personagens.
O inédito Diário dos Moedeiros Falsos (Journal Des Faux-Monnayeurs - 1927) - lançado agora no Brasil pela editora Estação Liberdade e tradução de Mario Laranjeira – trata-se do diário que o escritor manteve durante a composição do romance Os Moedeiros Falsos. Representa uma incursão no processo criativo de Gide, que dialoga com os personagens e dá conselhos, a si próprio.
O Pombo-Torcaz, também inédito e lançado agora no Brasil pela Estação Liberdade, tradução de Mauro Pinheiro; é um conto autobiográfico publicado em 1907. Descreve a noite que o escritor passou com o jovem Ferdinand em Bagnols-de-Grenade, perto de Toulouse (pombo-torcaz, é uma espécie de pombo muito comum na Europa, é o apelido dado pelo escritor ao amante adolescente, porque Ferdinand "arrulhava" ao fazer sexo). O relato esteve guardado nos arquivos de Gide até recentemente, quando Catherine Gide, sua única filha, autorizou a publicação.
Em 1947, Gide recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, e no mesmo ano tornou-se doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford.
Morre no dia 19 de Fevereiro de 1951.
Outros livros publicados em língua portuguesa: A Escola das Mulheres, 1944; A Porta Estreita, 1984; A Volta Do Filho Pródigo, 1984; De Volta da U.R.S.S, 1937; Isabel, 1985; O Imoralista, 1991; O Processo de Franz Kafka, 1962; Os Frutos da Terra, 1982; O Pensamento Vivo de Montaigne, 1975; Paludes, 1988.
Em 1952, a sua obra foi incluída no Índex de livros proibidos pelo Vaticano. ®Sérgio.

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1 - Córidon. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1985.
2- Os Subterrâneos do Vaticano. Sao Paulo: Abril Cultural. 1982.
3 - A Sinfonia Pastoral. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1985.
4 - Os Moedeiros Falsos. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1983.

SÍNDROMES BIZARRAS

Se eu lhe dissesse que há pessoas do sexo feminino que desenvolvem aversão e medo irracional, mórbido, desproporcional, persistente ao sexo masculino, você acreditaria? Pois, pode ir acreditando. Trata-se de uma fobia (entre as muitas possíveis) chamada "androfobia". Tal aversão e medo podem desencadear-se a partir de uma experiência traumática.
Mas essa fobia é, entre as doenças psiquiátricas, a menos bizarra, veja estas outras que selecionei:
A Celebriphilia é um distúrbio em que a pessoa sente um desejo anormal e intenso de fazer sexo ou manter uma relação romântica com uma celebridade, ânsia que consome suas atividades diárias. Que o digam as "Marias-chuteiras".
A Síndrome do Sotaque Estrangeiro faz com que a pessoa fale sua língua nativa com sotaque estrangeiro. Por exemplo: uma pessoa nascida no Ceará, falando com sotaque francês. Conheço uma pessoa que "amaria" ter essa síndrome (o sotaque, francês).
A Síndrome de Tourette é um distúrbio genético que começa geralmente na infância e se caracteriza por tiques motores (piscar, fazer caretas, entortar o pescoço, etc.) e sonoros (falar palavrões, pigarrear, tossir, etc.).
A Síndrome de Munchausen é um transtorno em que as pessoas afetadas, deliberadamente induzem os outros a acreditarem que elas (ou seus filhos) têm sérios problemas médicos ou psicológicos. De modo que, por exemplo, chegam até falsificar resultado de exames.
A Síndrome de Capgras é de uma bizarrice sem par. Trata-se de um quadro delirante raro, em que o paciente não reconhece seus familiares como tal, agindo como se fossem impostores. Geralmente o alvo da desconfiança é uma pessoa bem próxima (um filho ou os pais).
A Síndrome do Dr. Strangelove é uma doença neurológica na qual a mão da pessoa parece adquirir vida própria, pois passa a realizar movimentos involuntários, executando tarefas complexas, como abrir botões e retirar roupas, muitas vezes sem perceber.
Tem muito marmanjão que usa essa síndrome como desculpa para a conhecida "mão-boba"; principalmente em coletivos e metrôs lotados. É ou Noé? ®Sérgio.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

UM CASO DE HIGIENE

Você acreditaria que o papel higiênico quando foi inventado encontrou resistência para ser aceito? É um detalhe sórdido, porém verdadeiro. Pois a higiene pessoal, tal como a concebemos hoje, só começou a se estabelecer no século XIX, antes disso, as pessoas não só toleravam a sujeira como também, muitas vezes, nutriam certo deleite pessoal com ela.
Pesquisadores famosos contam que praticamente todas as civilizações da Antiguidade deram grande valor à higiene pessoal e ao bem-estar físico. No entanto, alguns fizeram uma constatação chocante e polêmica: o cristianismo representou um retrocesso na história da higiene. Será?
Eles argumentam que na Antiguidade os egípcios já fabricavam sabão; na Grécia o banho era uma instituição cotidiana. Os romanos criaram aquedutos para abastecer suas principais cidades e frequentavam diariamente banhos públicos, onde o corpo era lavado e esfregado vigorosamente (não se usava sabão) para tirar a sujeira. Mas, que tudo isso desapareceu com a queda do império e a ascensão dos cristãos. É claro que o banho não desapareceu, assim, da noite para o dia. Porém, aos poucos, esses locais de banhos, foram associados a costumes pagãos e, consequentemente, ao pecado. Neste caso, vários registros históricos comprovam o fato. Por exemplo, no século VI era regra da vida monástica a determinação de São Bento de que só os monges doentes ou muitos velhos fossem autorizados a se banhar. Na maioria dos monastérios da Europa medieval o banho era praticado três vezes, no máximo, ao ano. E como a Igreja tinha grande influência entre a população que vivia fora do claustro, supõe-se que o costume não fosse muito superior a esses três dias.
Por muitos séculos a higiene pessoal do cristão europeu não passou de lavar as mãos antes das refeições e esfregar seus dentes com paninhos, até que a prática de lavar o corpo todo retornou ao seu cotidiano.
Anotei alguns fatos que comprovam esse enunciado. Veja:
No palácio de Versalhes, um decreto de 1715, estipulava que as fezes seriam retiradas dos corredores uma vez por semana. Ora bem, se decretaram uma vez por semana; eu suponho que o recolhimento antes do decreto demorava muito mais.
Atribuíam-se perigos ao banho: lavar o corpo todo abriria os poros facilitando a infiltração de doenças. Além disso, acreditava-se que a roupa absorvia a sujeira do corpo. Portanto, era só trocar de roupa todos os dias para manter-se limpinho. No entanto, Dom João VI, não acreditava muito nesse conceito. Ele detestava banho e costumava a vestir a mesma roupa até que apodrecesse.
Relatos de palacianos contam que a rainha espanhola Isabel (1451 – 1504) só tomou, em toda a sua vida, dois banhos de corpo inteiro.
Hoje a higiene pessoal parece ter chegado a extremos, especialmente entre os americanos. Alguns cientistas já alertaram que essa superproteção higiênica está debilitando a resistência imunológica das crianças e aumentando a incidência de doenças.
Pois bem, mas... e o papel higiênico? Ainda, segundo os historiadores, o papel higiênico só surgiu nos Estados Unidos, em 1857; e o produto demorou a vencer a resistência do mercado pela palha de milho, pela esponja, entre outros. Certo mesmo é que antes do papel higiênico, cada um se virava como podia. ®Sérgio.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

MORREU MESMO - Recontando Contos Populares

Um dia, foi um jovem empregar-se na prefeitura de uma cidadezinha do interior. No seu primeiro dia de trabalho lhe mandaram podar as árvores da prefeitura. Como não tinha prática desse serviço e era um tanto tapado, apoiou a escada num dos galhos e pôs-se a serrá-lo. Deu de acontecer que passava por ali, numa mulinha avermelhada e troncha; breviário na mão e guarda-sol aberto, o vigário da freguesia. Ao ver o jovem, advertiu-o:

— Menino, serrando desse modo, vai cair daí!

O novato que era, além de estúpido, teimoso; fingiu não ter escutado o padre, e continuou o trabalho.

O vigário, então, prosseguiu seu caminho. Não passou muito tempo... zás! Vem ao chão tanto a escada, como o jovem podador, que ficou com um braço em petição de miséria. Quando voltou do desmaio e retomou os sentidos, ficou muito admirado do certo que saiu o conselho do reverendo; pensou lá consigo que o padre era um adivinhão e como tinha profetizado sua queda, podia acertar o dia de sua morte.

Foi ter com ele:

— A bença, seu vigário.

— Deus te abençoe.

— Vossa Reverendíssima me falhou que eu havia de cair da árvore e, dito e feito, caí mesmo. Bem... queria que agora adivinhasse o dia de minha morte.

Bonachão, o padre achou muita graça no pedido que o jovem lhe fazia e resolveu zombar um pouco dele.

— Olhe, sei quando você há de morrer. Será na hora em que, indo para sua casa, montado em sua mula, a ouça dar três zurros seguidos.

O jovem podador agradeceu muito e foi-se embora.

Toda vez, que voltava para casa, montado em sua mula, ia muito atento a fim de ouvir quando ela dava os tais zurros. E foi que, certo dia, ao chegar numa volta do caminho, a mula preparou-se toda e soltou um, dois, três zurros.

O jovem, que os havia contado com o coração aos pulos e crente na previsão do reverendo, julgou chegada sua hora. De imediato, atirou-se da sela abaixo e soltou um grito:

— Morri!

Não se moveu mais, certo de que estava morto. Vai daí que, logo depois, passaram por ali uns trabalhadores e deram, de cara, com ele estendido no meio do caminho. Acreditando-o morto, foram buscar uma rede no vizinho mais próximo, puseram-no dentro e o conduziram para sua casa, rezando um terço.

Não muito adiante, havia duas encruzilhadas. Os trabalhadores ficaram bestando: qual delas seria o caminho mais curto para chegarem à casa do morto.

Começaram a teimar entre si, até que o defunto ergueu a cabeça do fundo da rede e lhes disse:

— Olhem, amigos, no tempo em que eu era vivo o caminho mais curto era à esquerda.

Assombrados, os trabalhadores atiraram a rede ao chão, com o defunto dentro, e fugiram a toda disparada.

Com a queda o moço veio a morrer mesmo. E a adivinhação do padre saiu certa. ®Sérgio.

AS FIGURAS FONÉTICAS

Onomatopeia do grego onomatopoiía (= ação de inventar nomes) é a criação de uma palavra a partir da imitação ou reprodução aproximada (nunca exata) de um som natural a ela associado. A onomatopeia transforma-se, assim, num processo de formação de palavras. As onomatopeias têm sua carga significativa na sonoridade e não no conceito, ou seja, velem apenas pelo que significam. Fazem parte do universo da onomatopeia: ruídos, gritos, canto de animais, som de instrumentos musicais ou o barulho que acompanha os fenômenos da natureza:

=> Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever. (F. Pessoa)

Numa leitura em voz alta, você perceberia, facilmente, os estalos do [t] e [q].

As Onomatopeias Puras - serão puras quando procuram - com os recursos que a língua dispõe - reproduzir, imitar o mais aproximado possível os sons que representam; por exemplo: bip, clic, toc-toc, brrr, atchim, etc. Estas onomatopeias não representam palavras, apenas imitam os sons que representam. São, muitas vezes, formadas apenas por consoantes (zzzz), facilmente pronunciadas, porém difícil de serem representadas ortograficamente. Muitos dos ruídos e sons representados por onomatopeias acabam por se incorporar à língua. Algumas vão até motivar a criação, por derivação, de novas palavras.

As Onomatopeias Vocalizadas estão no campo da gramática e da linguística e constituem palavras como outras quaisquer. Seguem as regras de construção ortográficas e possuem uma classificação sintática e morfológica, como é o caso de roncar e mugir (verbos), que correspondem às onomatopeias puras “ronc e muuu”, respectivamente. Quase todas as onomatopeias puras são passíveis de lexicalização, bastando para tal antepor-se um artigo, por exemplo: o tic-tac, um toc-toc.

Neste fragmento do poema Vozes dos Animais de Pedro Dinis, temos uma boa ilustração das onomatopeias vocalizadas:

Muge a vaca, berra o touro

Grasna a rã, ruge o leão,

O gato mia, uiva o lobo

Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo

Os elefantes dão urros,

A tímida ovelha bala,

Zurrar é próprio dos burros.

É de se esperar que as formações nitidamente onomatopaicas fossem, em geral, de caráter universal. Contudo, têm poucas semelhanças nos diferentes idiomas quando se traduzem graficamente. Cada língua convencionou a onomatopeia de uma maneira própria. Por exemplo: auuu (latido de cães) em francês é wou, ou, ouuuu; em russo vau, ou, oouu; beee (ovelhas) é baa em inglês e bäh em alemão.

A onomatopeia é um dos recursos expressivos mais comuns usados na prosa e na poesia para produzir um efeito especial e reforçar a capacidade comunicativa do texto Na poesia tem grande importância estilística e poética, pois nela se concentram a melodia, a harmonia e o ritmo da frase. Os valores sonoros da onomatopeia podem ser reforçados pela aliteração (repetição do mesmo som). Daí a sensível aproximação da poesia a esta figura fonética, como se pode verificar neste fragmento de Vicente de Carvalho:

Ouves acaso quando entardece

Vago murmúrio que vem do mar,

Vago murmúrio que mais parece

Voz de uma prece

Morrendo no ar?

Nestes versos há um conteúdo onomatopaico criado pelo termo murmúrio e reforçado pela aliteração (repetição do termo).

A onomatopeia tornou-se moda durante o Simbolismo, a ponto de atribuir-se a cada vogal uma carga sonora, correspondente a um instrumento: A > órgão — E > harpa — I > violino — O > metais — U > flauta.

Nas histórias em quadrinhos, podemos encontrar inúmeros exemplos de onomatopeias. ®Sérgio.

Neste link há uma lista de onomatopeias puras para o seu texto:

http://recantodasletras.uol.com.br/teorialiteraria/1186781

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Ajudaram na elaboração deste texto:

Helio Seixas Guimarães, Ana Cecília Lessa - Figuras de Linguagem – Atual Editora

Rocha Lima – Gramática Normativa da Língua Portuguesa – José Olympio.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

CASOS DE “PULIÇA” (2)

O segundo caso de "puliça" vem lá da China. Se você acha que somos campeões dos crimes hediondos, veja este:
A polícia chinesa prendeu cinco homens acusados de matar mulheres jovens para vendê-las como “noivas fantasmas”. Segundo a tradição de camponeses do norte do país, homens que morrem solteiros têm a linhagem comprometida na próxima vida. Para evitar o mau agouro na eternidade e para quebrar o galho do solteirão, os familiares tentam arranjar um minghun, “casamento após a morte”, enterrando uma noiva fantasma ao lado do solteirão. Segundo a polícia, o preço dos corpos varia, geralmente, de acordo com a idade da noiva: as mais jovens chegam a ultrapassar dois mil dólares.
Fique agora você sabendo o porquê do velho clichê: “Nem morto eu me caso”.

Salve-se... quem puder! ®Sérgio.

CASOS DE “PULIÇA” (1)

Nestes últimos dias, descobri, através da leitura de periódicos, alguns acontecimentos inusitados. Dois deles me deixaram surpreso. O primeiro se passou aqui, na minha terrinha.
No meu bairro, ou em qualquer outro da cidade, se você sair a passear, em cada cinco casas que passar, quatro tem um pit bull, a outra um cãozinho qualquer. As autoridades no assunto dizem que tal fato se deve a incidência de assaltos a residências. Tá certo. Os pit bulls seriam, além das cercas elétricas e outras parafernálias, mais uma forma de proteção, e, diga-se, pelos sustos que se toma nos passeios, bem barulhenta.
Foi com o intuito de se proteger dos amigos do alheio que dona Adelina Correia da Silva comprou aquele cachorrinho, que se transformou num enorme pit bull, guardião da casa.
Não dizem os estudiosos que para cada regra há uma exceção. Pois é! O pit bull de dona Adelina é a exceção. Explico:
No início desta semana, dona Adelina compareceu a uma delegacia para registrar uma ocorrência: o furto do enorme pit bull dela. Segundo o boletim de ocorrência, ela saiu de casa para umas compras no supermercado e quando retornou notou que a casa tinha sido invadida e que seu enorme pit bull, de pelagem caramelo, fora roubado; levado embora, no mínimo, por um ladrão conquistador.
Pois é, hoje em dia, não dá mais para se confiar nem nos pit bulls! É ou Noé, dona Adelina?
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

O AMIGO DA ONÇA - Recontando Contos Populares

A Onça estava quietinha no seu canto quando lhe apareceu o compadre Lobo, que logo foi lhe dizendo:

— Comadre Onça, com o perdão da palavra, você não é o bicho mais valente e destemido que existe neste mundo, nem o Leão, com toda a sua prosa dos reis dos animais.

— Como assim? Berrou a Onça enfurecida. Quem é esse bicho mais valente e poderoso que eu?

O Lobo amaciando a voz respondeu:

— Ó comadre, me perdoe. Já estou arrependido de dizer tal coisa... Mas minha intenção era apenas preveni-la de um bicho terrível que apareceu nesta paragem.

— Bem... Você não deixa de ter alguma razão, retrucou a Onça, mais sossegada. Mas quero saber o nome desse bicho. Como se chama?

— Esse bicho, comadre, chama-se homem, conforme me disse o papagaio. Em toda a minha vida, nunca vi um bicho mais valente. Ele sim e mais ninguém é o rei dos animais. Basta dizer, que de longe, o vi matar, com dois espirros, nada menos do que um jacaré dos grandes. Ih! Comadre, com o estrondo dos espirros parecia que tudo ia pelos ares. Deus me livre!

— Oh! Compadre, não me diga!

— É como lhe conto. E o que mais me deixa admirado é o bicho-homem ser tão baixinho que parece ser fraco; além disso, é mal servido de unhas e dentes.

— Pois bem, compadre, fiquei curiosa. Quero que me leve, sem demora, ao lugar onde se encontra tal animal.

— Ah, comadre, peça-me tudo menos isso. Você nem imagina os estragos que ele fez com seus malditos espirros. Não me atreveria a tal aventura.

— Pois queira ou não queira, vai me mostrar o bicho, ou então não sairá daqui com vida.

— Está certo, disse o Lobo amedrontado. Iremos. Mas temos de tomar todo o cuidado possível. Eu — com sua licença — posso correr mais que a senhora. Assim, levaremos um cipó, daqueles que não arrebentam nunca. Amarro uma das pontas no pescoço da comadre e a outra em minha cintura. Em caso de perigo, se for preciso fugir, a comadre e eu corremos...

— Fugir! Veja lá o que diz! Você já viu, seu “cagão”, alguma vez onça fugir?

— Não me expliquei bem. Eu é que fugirei. A comadre será apenas arrastada por mim. Isso não é fugir. Está certo?

— Está bem. Faremos como quer.

Partiram. A Onça com o cipó atado no pescoço, e o Lobo muito respeitoso e tímido, a puxá-la.

Quando chegaram ao destino, o “bicho-homem”, surpreendido, ao avistá-los, tirou da cinta a garrucha e lascou fogo, isto é, espirrou, uma, duas vezes, foi um estrondo dos diabos.

O Lobo, então, mais que depressa, disparou numa corrida desabalada, empenhando um enorme esforço para arrastar a Onça pelo cipó “que tinha atado no pescoço dela”.

De repente, já muito distante, sentiu que a Onça estava mais pesada. Então parou, e contemplou a companheira estendida no chão, com os dentes arreganhados, sem o mais leve movimento.

O Lobo sem perceber que a Onça tinha morrido enforcada no laço do cipó, mas pensando que apenas estivesse cansada, disse-lhe tremendo que nem vara verde:

— Eh, comadre! Não ri, não, que o negócio é sério. ®Sérgio.

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• Esse é um causo com inúmeras variantes em diversos Estados. Em alguns deles, em vez de Lobo figuram outros animais. Lindolfo Gomes, em Contos Populares Brasileiros, já o havia registrado em 1931. É provável que deste conto, advenha à frase: “Amigo da Onça”. Quanto à origem do conto, prevê Lindolfo, ser de uma antiga historieta que tinha como título a expressão: “Não ri, não, que o negócio é sério”.