quinta-feira, 3 de setembro de 2009

DONA MARIA, A LOUCA

Cícero escreveu, certa vez, que "viver na ignorância do que aconteceu antes de nascermos é ficar para sempre na infância. Pois qual é o valor da vida humana se não a relacionarmos com os eventos do passado que a história guardou para nós”?
Depois que tomei conhecimento desse aforismo de Cícero, acatei seu conselho. Daí por diante, leio qualquer evento do passado, que me caia as mãos. E foi assim que li, numa recente brochura, alguns fatos, ainda não detalhados, de nossa História Colonial, relacionados, mais precisamente, a família real. Achei o assunto interessante e tenho certeza de que também o achará. De modo que vou repassá-lo.
O Livro reconstitui em detalhes a história da loucura da rainha D. Maria I, de Portugal, também chamada de Dona Maria, a Louca. Não vou, é claro, transcrever todos os detalhes, somente alguns pontos deles que achei interessante a nós.
A depressão e a loucura tinham raízes na família de Dona Maria. Seu tio Fernando VI, depressivo, trocava o dia pela noite e obrigava toda a corte a fazer o mesmo. Certa ocasião chegou a ficar sem mudar de roupa por um ano. Fernando era, realmente, uma vergonha para a depressão; não acha?
Além das raízes, a vida de Dona Maria foi marcada por tragédias que provavelmente contribuíram para sua doença. Como seu pai não teve filhos homens, a dinastia dos Bragança ficava, desse modo, em risco. A solução foi casá-la com um tio, Dom Pedro III. Casamento entre parentes, você já sabe, só traz problemas. Dona Maria perdeu cinco de seus seis filhos, três deles ainda criança. Num espaço de dois anos ela viu morrer o marido, o filho primogênito - de varíola, pois ela se recusou a vaciná-lo por motivos religiosos - e uma filha.
Em fevereiro de 1792, quando voltava do teatro, Dona Maria - aos 57 anos - "surtou" em público. Ela gritava, pedia ajuda divina e dizia ter visões do inferno, mais exatamente com as penas eternas que o pai estaria sofrendo no inferno, por ter permitido a Pombal perseguir os jesuítas. Depois desse surto, delírios constantes passaram a atormentá-la. Documentos da época demonstram que já fazia cinco meses que a rainha vinha alternando momentos de melancolia e agitação. Olha a bipolaridade aí gente.
A rainha foi examinada por 21 especialistas, que tentaram banhos frios, sangrias e evacuações forçadas. Não era mole ser bipolar naquela época. Banho frio ainda vai, mas o resto... Francis Willis, um famoso médico inglês diagnosticou que o caso da rainha, era um caso perdido. Com isso Portugal entrou num período de luto. Os espetáculos públicos foram proibidos e a família real se enclausurou no palácio. Ela só voltou a aparecer em publico quando a família real se mudou para o Brasil. Foi embarcada a força.
Dona Maria (a Louca), apesar de tudo, tinha berço esplêndido o que amenizou um pouquinho o sofrimento dela. Se não tivesse, se fosse povo; naquela época seria jogada num asilo para loucos e isolada do mundo, numa pocilga, para sempre. ®Sérgio.

ENTRE RISADAS E GRACEJOS

Disse, certa vez, Inês Pedrosa que “só aos amigos é dado o espetáculo da nossa miséria”. Portanto, sou bipolar, hiperativo nuns dias, depressivo noutros; talvez um pouco neurótico; esquizofrênico não, mas já cheguei a pensar que era. Passei por duas depressões brabas que exigiram internação. Mas, agora, os remédios controlam eficazmente a situação.
Na época das internações, o que as minhas visitas mais me perguntavam, era: como são as pessoas aqui? Respondia-lhes: como em todo o lugar! Mas... não eram como em todo o lugar. Eram pessoas trôpegas, enfraquecidas, deformadas pelas sequelas da insanidade, algumas saídas das pocilgas da rua, onde vagueavam dias após dias, carregando seus delírios.
Na clínica, elas continuavam caminhando dia após dia, só que de um canto a outro do pátio, sempre numa única direção, perfazendo um curso de quilômetros em um só dia.
Mas, lá acontecia algo inacreditável: essas pessoas tinham a coragem de rirem. Trocavam dizeres zombeteiros. Apelidavam-se, ridicularizando suas próprias desgraças. Riam da própria infelicidade.
Diziam, entre risadas e gracejos, "que lá o diabo não entrava para não ficar com complexo de inferioridade do inferno". ®Sérgio.

O TEATRO MELODRAMÁTICO

No princípio do século XVI, o melodrama indicava a tentativa de reproduzir as características do teatro greco-latino, ou seja, buscava a união da ação teatral e a música. Dessa tentativa, no final do mesmo século, o melodrama passou a ser considerado sinônimo de «ópera»; e assim permaneceu até meados do século XVIII. A seguir, passou a designar a declamação de qualquer texto com acompanhamento musical. De 1790 em diante, finalmente o melodrama perde o suporte musical e passa a ser um tipo de peça autônoma, em prosa e de caráter eminentemente popular, visto que o intelectualismo das classes mais elevadas deixa as pessoas muito racionais e menos emocionáveis.

Para ser mais preciso, o melodrama teatral surge oficialmente como gênero em 1800 com a obra «Coeline» de René-Charles Guilbert de Pixérécourt (1773-1844), autor de sessenta e três melodramas, definindo um tipo de espetáculo cênico em torno de ingredientes fáceis, explorados ilimitadamente: o sentimentalismo (não raro beirando o patético), o suspense, assassínios, mistérios, incêndios, cenas de medo, equívocos que se desfazem por milagre, ritmo ofegante, sem obediência à verossimilhança, epílogos felizes, linguagem despojada e de imediato entendimento. Daí seu caráter popular; é a oportunidade de purificação (catarse) dos mais pobres, menos intelectualizados, pois esse era o objetivo do melodrama: impressionar e comover cada espectador.

O melodrama teatral surgiu com grande sucesso de público em temporadas que, pela primeira vez na história do teatro, ultrapassaram as mil representações, isto o fez o primeiro gênero teatral de características internacionais do século XIX; e, posteriormente, fez com que o melodrama teatral fosse absorvendo e exportando elementos a todos os estilos, formas e gêneros artísticos que surgiram durante este período, como o Drama Romântico e, principalmente, o Folhetim.

Uma das vertentes do melodrama foi o gótico, onde o autor apresentava como personagens, espíritos que retornavam de outra dimensão para exigir justiça, fantasmas, acontecimentos sobrenaturais.

Ao final do século XIX, as novas propostas estéticas que surgiam, passaram a considerar as formas de interpretação do melodrama antinaturais, ou melhor, sinônimo de uma interpretação exagerada, de apelo fácil à platéia.

Não obstante, ter sido substituído pelo drama romântico, o melodrama deixou marcas permanentes no teatro e na própria ficção, e chegou até nossos dias. Além de eventuais representações que lembram o velho estilo, é visível a sua presença nas novelas, mini-séries, seriados, tele-comédias, programas de auditórios, entre outros. Todos buscando uma linguagem popular para um o telespectador comum. ®Sérgio.

Tópicos Relacionados: (clique no link)

O Teatro Elisabetano.

O Teatro dos Mistérios.

O Teatro das Moralidades.

O Teatro dos Milagres.

Comédia Dell' Arte.

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Informações foram extraídas e adaptadas ao texto de:

BERTHOLD, Margot. História Mundial do Teatro. Editora Perspectiva, São Paulo, 2001.

VASCONCELLOS, Luiz Paulo. Dicionário de Teatro. Porto Alegre: L&PM, 2001.

DESCONTEI O CHEQUE JUNTO AO BANCO OU COM O BANCO?

As locuções junto a, junto de são sinônimas, invariáveis e significam perto de, ao lado de:
    A bola passou junto à trave (perto, ao lado da trave).
    A loja fica junto ao viaduto (perto, ao lado do viaduto).
    Jorge comprou chácara junto (perto, ao lado) à minha.
    Esperei o socorro junto (perto, ao lado) do carro.
No entanto, ninguém desconta cheques junto ao (ao lado do) banco. Nem pede providências junto à (perto da) prefeitura. Descontamos cheques com o Banco. Pedimos providências para a prefeitura.
O português falado no Brasil está sempre sendo modificado, moldado pelas necessidades dos usuários. Assim, junto a, junto de ganhou novos significados. Passou a substituir as preposições [com, para, em, de].  Cometer erros de na fala do cotidiano é muito comum, mas no texto formal é necessário que observemos as regras gramaticais. Por isso, ao escrever evite o uso de junto a, junto de com outro sentido que não seja [perto de]. Fora isso, use a preposição que o verbo exigir (com, para, em, de, etc.). Será mais simples e mais claro você dizer ou escrever:
    Estava em negociações com o Banco. (em vez de: junto ao Banco)
    Adquiriu do Santos o passe do jogador. (e não: junto ao)
    Ele levará a notícia para a associação de bairro. (e não: junto a)
    A decisão repercutiu mal entre os brasileiros. (e não: junto aos)
    Conseguimos autorização da prefeitura. (e não: junto à)
    O vereador levará a notícia para associação de bairro.
Junto a, no entanto, pode equivaler a: adido a. Veja:
    O embaixador brasileiro junto (adido) ao Vaticano deixa o cargo.
  O ex-presidente foi nomeado embaixador junto (adido) ao governo italiano.
Junto com é redundância, pois equivale a juntamente com. Melhor usar apenas [com]:
    Os empresários participaram da festa com os sindicalistas. (e não: junto com)
    Saiu com o diretor. (e não: junto com) ®Sérgio.

domingo, 30 de agosto de 2009

ESTRANHA ILUSÃO

"Todo o homem quando não devidamente espiritualizado, vive na estranha ilusão de que a sua influência sobre os outros homens provenha das suas palavras ou dos seus atos externos; acha que é o seu saber, a sua perícia, a sua eloqüência que conduz as almas do erro à verdade, das trevas à luz. É dificílimo tirá-lo dessa ilusão [...]. O que influi sobre os outros, o que os comove, abala, arrasta, ilumina, converte, santifica, é, em última análise, a nossa espiritualidade e não a nossa ardente e espalhafatosa atividade."
(Humberto Rohden, filósofo e educador)

KHALIL GIBRAN: NA CIDADE DOS POBRES - Seleta de Prosa

Gibran Khalil Gibran, assim assinava em Árabe. Nasceu em 6 de dezembro na cidade de Bicharre, no Líbano. Gibran publica entre 1905 e 1920 sete livros em árabe (após sua morte é publicado o oitavo). Entre 1918 e 1931, produz mais oito livros, todos publicados em língua inglesa (após sua morte publicou-se mais dois). Morreu em Nova Iorque a 10 de abril. Foi enterrado em sua terra natal na vertente de uma colina, num velho convento cavado na rocha, onde sonhara ir viver seus últimos anos. Em cima do seu túmulo, esta simples inscrição: “Aqui, entre nós, dorme Gibran”.

O texto selecionado pertence ao seu sétimo livro Uma lágrima e um Sorriso, cujo original foi publicado em Árabe (1914). É composto pelos primeiros escritos árabes de Gibran (meditações, contos e parábolas) que foram publicados em um jornal local entre 1903 e 1908, quando tinha de 20 a 25 anos. O texto foi traduzido por Mansour Challita.

NA CIDADE DOS POBRES

Ontem, libertei-me do barulho da cidade e saí a caminhar por arredores mais tranqüilos até atingir um cume elevado que a natureza havia enfeitado com suas jóias mais belas. Diante de mim, estendia-se a cidade com seus arranha-céus e suas mansões, sob as densas nuvens de fumaça dos veículos e das indústrias.

Ante aquele lugar bucólico, me ponho a meditar sobre as atividades humanas. Achei-as, na sua maioria, mera agitação e fadiga. Esquecendo o homem, desviei o olhar para o campo, sede da glória divina e, não muito distante, vi uma necrópole, com seus túmulos de mármore rodeados por pinheiros.

Frente à cidade dos vivos e à dos mortos continuei a pensar. Pensava no movimento permanente e na luta incansável da primeira, e na quietude e paz que dominam na outra. Na primeira, lutam a esperança e o desespero, o amor e o ódio, a pobreza e a opulência, a fé e o ceticismo. Na outra a natureza acumula pó sobre pó, e neles ela cria, tranqüilamente, árvores e flores.

Enquanto me entregava a essas meditações, chamou-me a atenção uma multidão que avançava, vagarosamente, precedida por um elegante carro fúnebre engalanado por coroas de flores de muitas cores. No cortejo havia majestade, poder e homens de todas as classes. Era o funeral de alguém rico e poderoso: um cadáver que os vivos levavam para sua nova morada entre choros e lágrimas. Quando o cortejo atingiu o mausoléu e o ataúde era retirado de sua condução, consegui distingui-lo. Estava recoberto de elaboradas inscrições, desenhos e cercado por suntuosas coroas de flores. Agruparam-se todos a sua volta; um sacerdote tomou a frente de todos para orar, salmodiar e queimar incenso. Depois, sucederam-se os oradores e os poetas com suas elegias. Enfim, dispersou-se a multidão; voltou o cortejo à cidade, enquanto eu continuava a observá-lo de longe e a meditar.

Logo, o sol começou a descer para o poente, prolongando cada vez mais a sombra das árvores, e a natureza despiu pouco a pouco seu vestido de ouro. A um ruído, me virei e vi dois homens carregando um caixão de madeira comum, seguido por uma mulher em farrapos que segurava uma criança no colo e por um vira-lata miserável que olhava ora para a mulher, ora para o caixão. Era o enterro de um pobre. A mulher era sua esposa, que vertia as lágrimas da dor; a criança era seu filho, que chorava quando via a mãe chorar; o cachorro era seu amigo fiel, que pressentia o que se passava e andava com tristeza.

Chegou o pequeno cortejo ao cemitério; e logo foram enterrar o morto num canto distante, longe dos túmulos de mármore. Depois, afastaram-se num silêncio comovente. Observei-os, até desaparecerem por detrás das árvores.

Olhei, então, para a cidade dos vivos, e disse a mim mesmo: Ela pertence aos ricos e poderosos. Olhei então para a cidade dos mortos, e disse a mim mesmo: Ela também pertence aos ricos e poderosos. Onde está, ó Deus, a cidade dos pobres e humildes?

Ao fazer a pergunta, fitei as densas nuvens coloridas pelos últimos raios de sol e ouvi uma voz no meu interior responder: “Lá!”. ®Sérgio.

EM NOME DE DEUS - Notas Biográficas

Vocês estão lembrados da escritora americana Anne Rice (64 anos) que entrou para o rol da fama com o livro “Entrevista com Vampiro”, transformado em película de grande sucesso, principalmente nas bilheterias dos cinemas pelo mundo afora?

Dizer que entre o céu e a terra há mais mistérios do que sonha nossa vã filosofia, vocês certamente diriam que a frase é do tempo em que «omo-sexual» era sabão em pó para as partes íntimas, porém quem explicaria os últimos acontecimentos da vida de Anne Rice?

Primeiro, ela perde uma filha para a leucemia; depois o marido para o câncer no cérebro e, por último, ela própria esteve duas vezes à beira da morte. Não é algo «pra lá» de misterioso, tipo a maldição do faraó?

Certo é que a própria autora atribui todos esses sofrimentos a sua visão sombria do mundo e à saga estrelada pelo "Lestat" (protagonista de sua ficção), o vampiro mais famoso da literatura depois de Drácula.

Castigo ou pura fatalidade? Eu de mim não saberia dizê-los, porém Ana não pensou em questionar o assunto e mudou radicalmente seus conceitos religiosos e literários. Reconciliou-se com a religião católica e do ponto de vista literário, diz que fez a promessa de, de agora em diante, só escrever para, ou em nome de Deus.

De maneira, que o seu novo livro, Cristt the Lord — Out of Egypt, foi uma decepção para o público viciado naquele habitual enredo de bruxas e bebedores de sangue. Este tem o próprio Jesus, aos sete anos, narrando sua história com a linguagem e do ponto de vista de uma criança. Pelo visto, ela só não mudou a mania pelas sagas: já publicou o segundo volume da narrativa e pretende escrever no mínimo mais dois. ®Sérgio.

NOTURNO - Seleta de Poemas

Seleta de Poemas representa as poesias que li e tocaram-me a alma. Assim, posso compartilhar com vocês as minhas preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
NOTURNO
O apito do trem perfura a noite.
As paredes do quarto se encolhem.
O mundo fica mais vasto.
Tantos livros para ler
tantas ruas por andar
tantas mulheres a possuir...
Quando chega a madrugada
O adolescente adormece por fim
Certo do que o dia vai nascer especialmente para ele.
• José Paulo Paes (1926-1998), poeta e escritor paulista.®Sérgio.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

MORREU, MAS NÃO PAGOU

O sofrimento está por toda a parte. Mas há pessoas que poderíamos dizer mais infelizes do que outras, e que têm sempre de enfrentar doenças, desgraças e provações de todo o gênero. Esse é o caso do aposentado Calos Bonfim que morreu de enfarte.
Durante seu velório, na cidade baiana de Ilhéus, Carlos e a família receberam uma visita inesperada, que deixou a todos consternados.
Silvado de Jesus, da funerária Árvore da Vida, alegando não ter recebido a primeira das três prestações de 210 reais pelo caixão que Carlos ocupava, não titubeou: Jesus tirou Bonfim da “urna funerária”, colocou-a sobre a cabeça e foi-se embora, lamuriando-se: “Ele esta morto, mas eu estou vivo, pô!”
— Tá certo, dívida não morre! - Diz-me um amigo. ®Sérgio.

O CASO DO PÃO DORMIDO - Recontando Contos Populares

Seu Otacílio, capataz da fazenda, relatou-me diversos causos, todos acontecidos lá pelas bandas de Minas Gerais, donde ele é natural. E, dos que em mente guardei, o melhor é este que vou recontar. Foi o seguinte:

Havia numa cidade do sertão mineiro, um português, seu Baltasar, que tocava uma padaria. De domingo a domingo, nas primeiras horas da madrugada, ele saía a entregar os pães para a freguesia de caderneta.

Numa manhã cinzentas, ameaçando uma trabuzana d’água, e o vento assobiando danado de brabo... murmurando na folhagem, seu Baltasar, sem mais esperar, pôs as costas o cesto cheinho de pães ainda quentinhos e tratou de ir entregá-los. O vialarejo ainda dormia, nenhuma alma viva pela redondeza, que se pudesse contar. Por isso mesmo, é que o velho português, para acordar a freguesia, gritava: — Padeeeiro! E na casa seguinte: — Padeeeiro! E assim ia de casa em casa.

Para alcançar a moradia de mais um freguês, passava seu Baltazar ao lado do cemitério, que parecia devastado por falta de cuidado, muros caindo, o capim alto... Numa madrugada noiteira como aquela, sem sol, seu Baltazar arrepiou-se todo; arrepiou-se mais ainda quando teve a impressão de ter sido chamado lá de dentro. "Ao pé dos cruzeiros há sempre uma alma", pensou. Ia saindo de fininho, jurando nunca mais ali passar, quando ouviu uma voz fraquinha, perguntar de dentro do cemitério:

— Tem pão dormido?...

Você calcule, o velho padeiro ficou aturdido, deu-lhe um passamento pelo corpo, tonteou, escureceu-lhe a vista; queria sair dali avoando que nem um corisco, sem olhar pra lá nem pra acolá, mas não conseguia. E paralisado ficou por uns minutos.

Mal acabara de colocar a cabeça em ordem e trocar uns passos, quando ouviu, novamente, a mesma vozinha:

— Tem pão dormido?...

Ixe! Foi a conta. Baltazar tacou longe a cesta de pães e..., agora sim, saiu avoando que nem um corisco, rua abaixo, numa correria despinguelada.

Enquanto isso, lá no cemitério, ouvia-se as gargalhadas da alma, porém de uma alma viva. O coveiro que acordara de madrugada para trabalhar, estava com fome e apenas queria comer, da freguesia do Baltazar, um pãozinho quentinho. ®Sérgio.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

RETRATO - Seleta de Poemas

Os anos de contato com a literatura desenvolveram-me a capacidade de observar e de intimamente prezar o que nossos poetas têm de mais fino. Por isso, transcrevo na íntegra, o poema Retrato de Cecília Meireles. Para mim é um retrato não só de sua autora como de sua poesia e arte.
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro.
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha essas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por essa mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
A minha face?
Cecília Meireles (1901-1964), professora, jornalista e poeta brasileira. ®Sérgio.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

RECEITA PARA UMA VIDA FELIZ

INGREDIENTES

4 XÍCARAS DE LEALDADE, ISENTA DE DISSIMULAÇÃO.

5 XÍCARAS DE AMOR VERDADEIRO.

3 XÍCARAS DE AMIZADE, SEM OPORTUNISMO.

9 COLHERES (CHÁ) DE ESPERANÇA, SEM FALSIDADE.

8 COLHERES (CHÁ) DE TERNURA.

2 XÍCARAS DE PERDÃO SINCERO.

4 PARTES DE TODO O TIPO DE FÉ, MENOS A CEGA.

1 QUILO DE ALEGRIA.

MODO DE FAZER

Coloque no fundo da alma o amor e a lealdade, misture com a fé até incorporar. Acrescente a ternura e o perdão, a amizade e a esperança; misture tudo delicadamente até ficar homogêneo. Depois polvilhe com alegria. Cozinhe com a luz do sol e sirva a vontade, nos dias quentes ou frios, em grandes quantidades. ®Sérgio.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

POR QUE TANTO PESSIMISMO?

A coisa, realmente, está feia, mas não cabe em você tanto pessimismo. Quê, qué isso? O Millôr já deu a receita, temos de evitar apenas os políticos corruptos, os atos secretos, a democracia do Senado, manobras suspeitas em Brasília, doutores do oculto, a violência crescente, os maníaco-depressivos armados, os batedores de carteira, menores sedutoras, sedutores de menores, menores delinquentes, caixas eletrônicas depois das 22 horas, seqüestro por telefone, os empréstimos consignados, telemarketing, Companhias de Seguro, juros bancários, dicas de investimentos, o caos do trânsito, motoristas cegos, buracos nas rodovias, a dengue, a gripe suína, a febre amarela, a malária, a epidemia de tiques nervosos, a macumba, a poluição do ar, a poluição da água, ostras e peixes contaminados, a devastação da Amazônia, a Extinção Sistemática da Flora e da Fauna, enchentes, a chatice organizada, estranhos movimentos na vizinhança, os missionários santimoniosos, a falta de sono, trocadilhistas, overdose de comunicação, golpes pela Internet, vírus de PC, violação de e-mails, PPEses de auto-ajuda, PPEses de auto de fé, PPEses de psicologismos, correntes virtuais, velhotas topless, divorciadas doidonas, ateus, hereges, cursilhos, psicologismos, o caminho das índias, imposto de renda, No Limite, terapia de grupo..., e pronto, cara. ®Sérgio.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA E OS LADRÕES

Padre Antônio Vieira (1608 – 1697) escreveu muitos sermões, dentre os quais se destacam: Sermão da Sexagésima, sobre a arte de pregar; Sermão de Santo Antônio aos Peixes, em que trata da escravidão do indígena; Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contras as de Holanda, que proferiu por ocasião do cerco dos holandeses à cidade da Bahia; Sermão do Bom Ladrão, que escolhi para retirar alguns trechos, pois apresenta uma visão crítica sobre a corrupção e o comportamento imoral da nobreza da época, e nos leva a refletir sobre a atual corrupção no Brasil.

Navegava Alexandre Magno em uma poderosa armada pelo Mar Vermelho, com o intuito de conquistar a Índia, quando em uma das aldeias conquistadas, trouxeram à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores. Alexandre o repreendeu com severidade por andar em tão mau ofício; porém, o pirata, que não era medroso, nem lerdo, assim respondeu:

— Basta, Senhor! Porque eu roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?

Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza. O roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Se o Rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu falo, são outros ladrões de maior calibre e da mais alta esfera; os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo calibre distingue muito bem São Basílio Magno. Não só são ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas, ou espreitam os que vão se banhar para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem lhes é dado o governo dos estados, ou a administração das cidades, ou ainda a representação do povo; os quais, com astúcia e malícia, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam países e cidades; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo; os outros se furtam são enforcados; estes furtam e enforcam.

Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu uma grande tropa de políticos e ministros da justiça levar uns ladrões para a forca, e começou a bradar: Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos! Afortunada Grécia que tinha tal pregador! E mais afortunadas as outras nações, se nelas não sofre a justiça as mesmas afrontas. Quantas vezes se viu em Roma, enforcarem um ladrão por ter roubado um carneiro; e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado um país. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar:

— Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em fazê-los. — Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.

Embora a época do Barroco tenha passado, a produção de textos críticos e religiosos não parou. Escritores contemporâneos têm se ocupado com os dilemas do ser humano quanto à existência ou não de Deus, quanto ao destino do homem depois da morte e quanto ao comportamento ético-político e ético-religioso. ®Sérgio.

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Nota: Fiz algumas adaptações no original, para melhor situá-lo no vernáculo de nossos dias.

PINTAR COMO UM CIENTISTA

O Realismo surgiu na segunda metade do século XIX, na França a princípio nas artes plásticas. Os pintores, antes que os literatos, reagiram duramente contra o Romantismo. Os pintores realistas desejavam registrar com realismo o mundo moderno, principalmente a partir de suas experiências pessoais.

A francesa Rosa Bonheur (1822-1889) destacou-se na pintura de animais, cujas imagens de um realismo impressionante, revelavam não só a paixão dela pelo reino animal, como também o trabalho de uma pesquisa quase científica sobre a vida animal. Para pintar a Feira de Cavalos, a artista se disfarçou de homem e, durante um ano e meio rabiscou esboços no mercado de cavalos em Paris, além de trabalhar em um matadouro a fim de melhorar seus conhecimentos de anatomia.

Outro realista radical foi Thomas Eakins (1844-1916), embora hoje ele seja considerado um dos mais importantes pintores norte-americanos do século XIX, seus métodos na época, foram criticados. De modo semelhante ao que ocorreu na literatura do período, sua pintura era o resultado de um verdadeiro estudo científico, como mostra o quadro (estampado no início do texto) A Clínica Agnew, de 1889, no qual está retratado o cirurgião Agnew em uma verdadeira cirurgia de câncer da mama. Chamado pelos críticos de "açougueiro", Eakins até mesmo dissecou cadáveres para aprender anatomia. ®Sérgio.

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Fonte: Guidin, Maria Lígia; Expressões Culturais no Tempo e no Espaço; São Paulo: Escolas Associadas, (sd).

segunda-feira, 27 de julho de 2009

REFLEXÕES SOBRE A VIDA E A MORTE

"Existe outra escuridão, a escuridão da morte, a noite que nos pega a todos no final, a noite que nenhuma quantidade de luz elétrica poderá jamais iluminar." (Álvares de Azevedo)
"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina." (Charles Chaplin)
"Morrer... dormir... não mais! Termina a vida e com ela terminam nossas dores: Um punhado de terra, algumas flores, e, às vezes, uma lágrima fingida!" (Francisco Otaviano)
“A vida e a morte é tudo um breve sonho que se apaga no túmulo medonho.” (Bernardo Guimarães)
“Como as folhas que caem ressequidas quando entre os ramos sopra a aragem leve, vamos nós, um por um, na vida breve, caindo, folhas mortas, esquecidas...” (Mário de Alencar)
Tudo na criação definha e morre: Perecem as nações, também impérios, e a vida para os homens fulge rápida como o luzir de súbito relâmpago.(Rui Barbosa – A Humanidade)
“Morte, em teus sete palmos, se termina uma dor, outra começa.” (Belmiro Braga)
"Ninguém pode fugir ao amor e à morte." (Públio Siro)
"Nos seus últimos momentos, as pessoas que encaram a morte não pensam nos diplomas que conseguiram, nem nos cargos que ocuparam, nem na riqueza que acomularam. No final, o que realmente importa é quem você amou e quem amou você." (Bernadine Healy, médica)
"A morte deve ser como anestesia geral. Estamos aqui um dia e de repente apagamos. That’s all folks." (Paulo Francis)
"Prosperidade na terra é sonho que pouco dura: Tudo definha e fenece na lousa da sepultura." (Fagundes Varela) ®Sérgio.

sábado, 25 de julho de 2009

A REGÊNCIA DO VERBO ATENDER

Atender no sentido de dar atenção ou levar em consideração o que alguém nos diz, considerar, é transitivo indireto . Use-o com a preposição [a]:
Eles atenderam aos nossos conselhos.
O diretor não atendeu aos pedidos dos pais.
Não atendera aos amigos.
Atenda bem ao que lhe digo.
Vou atender ao que me pede.
Atender no sentido de acolher, receber, recepcionar é transitivo direto. Use-o sem preposição:
A professora atendeu os alunos.
Ela sempre os atende.
As meninas estão atendendo os visitantes.
O político não atendeu o repórter. ®Sérgio.

MENINA! NÃO TE RECONHECI!

Não dá para negar que estamos vivendo numa era de culto ao corpo. Não só no que diz respeito à saúde, mas, principalmente, a estética corporal. Os mais jovens e, por isso mesmo, buscam o corpo escultural nas academias e são muito comedidos, pela circunstância já observada, nas cirurgias estéticas. Mas..., quem já passou dos quarentas, ou dos cinquentas, a cirurgia estática é a solução, mais ainda, para quem tem a síndrome de Peter Pan. E assim, dá-lhe silicone ali e lá; botox no rosto, na boca, nas axilas; lipoaspiração; cirurgia corretiva do que dá, e até do que não dá, para corrigir.
Pois bem, conversava com um amigo a esse respeito quando ele me veio com uma historinha que é uma bem humorada sátira ao culto do corpo. Disse-me que donde a tirou não havia menção de autoria. Conto para vocês, porque vale a pena. Mas, vou logo explicando que não inventei nada, só estou contando do meu jeito e com minhas palavras.
Uma mulher foi levada às pressas para o CTI de um hospital. Lá chegando, verificou-se que ela já apresentava um quadro de pré-coma. Pois, foi neste estado que ela teve um encontro com Deus:
- Que é isso? Eu morri? - perguntou ao Criador.
- Não, ainda, não! Pelos meus cálculos, você morrerá daqui a 43 anos, 8 meses, 9 dias e 16 horas - respondeu o Eterno.
Saindo do pré-coma, nossa amiga passou a refletir no quanto tempo ainda iria viver e resolveu, no mesmo hospital, fazer uma lipoaspiração, uma plástica de restauração dos seios, plástica no rosto, cirurgia corretiva no nariz, na barriga, tirou as rugas e tudo o mais que podia lhe deixar linda e jovial. Após alguns dias de sua alta médica, ao atravessar uma rua, veio um veículo em alta velocidade e a atropelou, matando-a.
Ao encontrar-se de novo com Deus, ela lhe perguntou irritada:
- Pô, Senhor, sacanagem, você me disse que eu tinha mais 43 anos de vida! E agora eu morro, depois de toda aquela despesa com cirurgias plásticas!!??
Deus aproximou-se bem dela e, examinando-a melhor, respondeu-lhe:
— Menina! Não te reconheci!!!
Salve-se... quem puder! ®Sérgio.

A CORDINHA

— Sadija, não é preciso ficar segurando a cordinha; deixe-a solta. Entendeu?
— Entendi.
— No momento certo é só puxá-la.
— Entendi.
— Então, podemos ir.
Sadija Mubara e seu marido Ali Hussein deram os últimos retoques em suas roupas, e adentraram o Hotel Radisson, um dos mais elegantes de Amã, a capital da Jordânia. No salão de festas do hotel, onde se realizava uma festa de casamento, separaram-se. Sadija foi para um lado e seu marido para outro.
Enquanto caminhava, lentamente entre os convidados, Sadija repetia em pensamento: “A cordinha... é só puxar a cordinha... é só puxar...“ De repente, uma tremenda explosão irrompeu num dos lados do salão. O marido de Sadija havia puxado a cordinha dele e a bomba atada em sua cintura explodira junto com ele.
Hussein, o homem bomba, já era. O atentado havia se consumado!
A confusão no salão é total. Pessoas correm para um lado e outro, gritando, apavoradas, procurando sair, o mais rápido possível, do salão. Em meio às pessoas que fogem, apavoradas, quem se vê, também fugindo? Sadija, a esposa que jurou a Hussein ser fiel até na morte.
Ela havia entendido "tudinho" sobre a tal cordinha, porém, na hora de trocar sua santa "vidinha" aqui na terra pelo prometido paraíso celeste, ela resolveu ignorar o espírito da coisa e "deu no pé".
Com o poderoso explosivo, amarrado a cintura, por baixo de sua roupa, intacto, Sadija corria agora para sua casa quando foi presa. Na polícia ao ser interrogada, declarou, sem denotar arrependimento: "Meu marido se explodiu. Ele me ensinou como lidar com a cordinha para detonar o cinturão e me explodir como ele se explodiu, mas, talvez, eu tenha feito algo errado (amarelou) e a bomba não explodiu. Paciência. Todo mundo fugiu, e eu saí correndo também".
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

REFLEXÕES DE LLOSA SOBRE LITERATURA

"Literatura é mais de que passatempo. É um meio indispensável para formar cidadãos críticos e livres."

"Nenhuma disciplina substitui a literatura na formação da linguagem."

"Uma sociedade sem uma literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuances, clareza, correção e profundidade do que a que cultivou textos literários."

"A pessoa que nunca lê, lê pouco, ou lê apenas lixo pode falar muito, mas vai sempre dizer pouco porque dispõem de um repertório mínimo de palavras para se expressar. Não se trata de uma limitação somente verbal, mas também intelectual, uma indigência de idéias e conhecimento, [...]."

"Sem a literatura, a mente crítica – verdadeiro motor das mudanças históricas e melhor escudo da liberdade – sofreria uma perda irreparável."

"A literatura apazigua a insatisfação existencial apenas por um momento, mas nesse instante milagroso, nessa suspensão temporária da vida, somos diferentes: mais ricos, mais felizes, mais complexos e mais lúcidos."

"A literatura nos permite viver num mundo onde as regras inflexíveis da vida real podem ser quebradas, onde nos libertamos do cárcere do tempo e do espaço, onde podemos cometer excessos sem castigo e desfrutar de uma soberania sem limites."

"Como não nos sentirmos enganados depois de ler Guerra e Paz ou Em busca do tempo perdido e voltar a este mundo de detalhes insignificantes, obstáculos, limitações, barreiras e proibições que nos espreitam de todo o canto e em cada esquina corrompem nossas ilusões?"

"A vida imaginada dos romances é melhor: mais bonita e diversa, mais compreensível e perfeita. Talvez seja esta a maior contribuição da literatura ao progresso: lembrar que o mundo é malfeito e que poderia ser melhor, mais parecido com o que a imaginação é capaz de criar."

"Sem a insatisfação e a rebeldia, ainda viveríamos em estado primitivo, a história teria parado, o indivíduo não teria nascido, a ciência não teria alçado voo, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos e a liberdade não existiria. Tudo isso nasce dos atos de desafio a uma vida que se mostra insuficiente ou intolerável."

"A literatura, por sua vez, foi e, enquanto existir continuará sendo um denominador comum da experiência humana. Aquele de nós que leram Cervantes, Shakespeare, Dante ou Tolstoi entendem uns aos outros e se sentem indivíduos da mesma espécie porque, nas obras desses escritores, aprenderam o que partilhamos como seres humanos, independentemente de posição social, geografia, situação financeira e período histórico."

"O elo fraternal que a literatura estabelece entre os seres humanos transcendem todas as barreiras temporais. A sensação de ser parte da experiência coletiva através do tempo e do espaço é a maior conquista da cultura, e nada contribui mais para renová-la a cada geração do que a literatura."

"A literatura é a própria fonte que estimula a imaginação e a insatisfação, que refina a nossa sensibilidade e nos ensina a falar com eloqüência e precisão, que nos torna livres e nos garante uma vida mais rica e intensa, então devemos agir. Precisamos ler bons livros e incitar à leitura aos que vem depois de nós."

Mario Vargas Llosa (nascido Jorge Mario Vargas Llosa) ( Arequipa, Peru, 28 de março de 1936), é um dos maiores escritores de língua espanhola, reconhecido, em nível mundial, como romancista, jornalista, ensaista e político. ®Sérgio.

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O AFILIADO DO DIABO - Recontando Contos Populares

Conta-se que em um sítio do interior brasileiro, havia um pobre sitiante que tinha tantos filhos, que quando nasceu seu caçula, ele nem sabia mais quem convidar para ser padrinho do menino. Poucos dias antes do batizado, desesperado, o caboclo disse à mulher:
— Vou ver se acho alguém que queira ser padrinho de nosso filho.
Montou o cavalo, fincou as esporas e partiu a todo o galope para a cidade. Enquanto galopava pensava: “Arranjar padrinho para o quinto filho já tinha sido difícil, quem ia querer ser compadre de um pé-rapado como ele?” E quanto mais pensava mais inconformado e triste ficava.
O dia passou, e ele ainda não tinha encontrado ninguém que aceitasse ser padrinho do seu filho. Voltava para casa desanimado, quando num entroncamento, deu de cara com uma figura muito bem vestida, montada num belo cavalo.
— Se quiser, posso ser padrinho de seu filho – ofereceu-se a figura, com uma voz estranha.
Um tanto espantado com o cavaleiro que lhe adivinhara o pensamento, mas necessitando de um padrinho para o filho, o caboclo nem cogitou de fazer pensamento do caso:
— Aceito. Você me parece ser rico e culto, que seja meu compadre, padrinho de meu filho!
O cavaleiro abriu um estranho sorriso e respondeu:
— Então faço questão de dar uma festa enorme para celebrar o batizado!
E assim foi. Festa farta e alegre. No final, o estranho homem disse ao compadre:
- Meu compadre, quero lhe fazer um pedido. Quando o menino crescer, vou levá-lo comigo para lhe dar uma boa educação.
O caboclo não gostou da idéia, mas acabou concordando, afinal tratava-se de um homem importante e talvez isso fosse bom para seu menino.
Quando o garoto completou quinze anos, o compadre apareceu e o levou para uma casa imensa, isolada no interior duma floresta. Como passava grande parte do tempo sozinho, o jovem resolveu distrair-se lendo os muitos livros do padrinho. Descobriu então que eram todos livros de magia e bruxaria. Assustado, decidiu fugir antes que o pior acontecesse. Antes, porém, estudou alguns feitiços e aprendeu como poderia transformar-se em animais.
Assim, virou um cavalo e saiu de lá galopando. Mas o padrinho, que era o diabo, foi atrás dele montado em seu cavalo e logo o encontrou no pasto. A perseguição foi longa, e no fim o diabo conseguiu alcançá-lo. Porém, quando o diabo estava para pôr-lhe os arreios, o rapaz disse bem rápido:
— Quero, agora, ser um passarinho!
Imediatamente ele virou um passarinho e voou pelos céus.
E o diabo disse:
— Quero, agora, ser um gavião!
Transformou-se num gavião e saiu outra vez em perseguição ao afilhado. Foi então que, do alto do céu, o garoto viu uma linda jovem sentada na varanda de uma casa. E disse:
— Quero, agora, ser um anel!
Transformou-se num anel e foi parar no dedo da moça. Logo em seguida, virou o belo jovem que de fato era, e pediu à garota:
— Por favor, nunca se separe deste anel em que vou me transformar. Se você o tirar do dedo, eu morrerei. Se alguém quiser comprá-lo, não o venda, atire o anel rapidamente no chão.
Em seguida, virou anel de novo.
Nesse instante apareceu o diabo para comprar o anel. Mas a garota atendeu ao pedido do rapaz e atirou o anel no chão. O anel se transformou no rapaz, e este disse:
— Quero virar grão de milho.
O jovem transformou-se em vários grãos de milho, e o diabo virou um galo para comê-los. Esperta, a jovem pisou nos grãos e espantou o galo. Nisso, o rapaz disse:
— Quero, agora, virar uma raposa.
Transformou-se numa raposa e mordeu o galo. O galo saiu correndo, depois virou um cavalo e sumiu no pasto. A garota deu um beijo na raposa, a raposa virou um rapaz, os dois jovens se casaram e viveram felizes para sempre. ®Sérgio.
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