segunda-feira, 11 de maio de 2009

AMOR E ÓDIO - Notas Biográficas

Rudolph Binion (psicohistoriador), em seu livro Hitler Entre os Alemães (1984)¹, considera que o ódio de Hitler pelos judeus teria sido motivado por um incidente ocorrido em sua infância: a morte de sua mãe.

Hitler era o quarto filho de Klara, que perdera os três primeiros, ainda pequenos, pela difteria. Cinco anos depois de Adolf, nascia Edmund, que também morreria (de sarampo), e, finalmente Paula, que cresceria junto com Adolf. Em vista da má sorte com os filhos homens, Klara agarrou-se tremendamente ao pequeno Adolf, que também temia perder. Mãe e filho viviam numa intrínseca associação afetiva associação afetiva.

Quando Klara desenvolveu câncer de seio, a aflição tomou conta da vida de Adolf. Desesperado, ele decidiu contratar o Dr. Edmund Bloch, famoso médico judeu, de honorários elevados. O Dr. Edmund deixou-nos, como testemunho, jamais ter visto um jovem tão transtornado com a já esperada morte de sua mãe. Bloch propõe a Adolf, usar como única medida para tentar minorar o terrível sofrimento de Klara, a aplicação de gaze embebida em iodo sobre as feridas cancerosas; deixando bem claro que tal medida poderia envenenar a paciente. O jovem Hitler, talvez esperançoso que tal tratamento trouxesse a cura de Klara, insistiu em que o procedimento fosse realizado e, de fato, Klara morreu da intoxicação provocada pelo iodo.

Na verdade, o iodo apenas abreviou o curso da morte de Klara, muito próxima e inevitável. Hitler sentiu-se culpado pela morte de sua mãe, e por ter permitido o tratamento. Desde então, passou a nutrir um tremendo rancor pelo médico, e, evidentemente, pelos judeus. ®Sérgio.

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1- BINION, Rudolph. Hitler Entre os Alemães. Northern Illinois University Press, 1984. Northern Illinois University Press, 1984.

QUANDO EU A VER ou VIR?

O verbo [ver] quando usado no futuro do subjuntivo precedido de [se] ou de [quando], assume a forma [vir]:
Quando eu vir, quando tu vires, quando ele vir, quando nós virmos, quando vós virdes, quando eles virem.
Se eu vir, se tu vires, se ele vir, se nós virmos, se vós virdes, se eles virem.
Exemplos:
• Quando eles me virem (não verem), ficarão alegres.
 Se vires (não veres) o menino, chama-o.
• Quando eu a vir (não ver) dar-lhe-ei o recado.
 Se nos virmos (não vermos) novamente, contaremos a mãe.
 Quando mamãe vir (não ver) ficará contente.
 Se virdes (não verdesque Joana está errada oriente-a.
Os derivados de o verbo [ver] (antever, precaver, rever etc.) seguem o verbo ver.
Mas atenção: Prover não segue essa norma: Quando (ou: se) eu prover, proveres, prover, provermos, proverdes, proverem.
O futuro do subjuntivo do verbo [vir] é [vier]:
Quando (se) eu vier, quando tu vieres, quando ele vier, quando nós viermos, quando vós vierdes, quando eles vierem. ®Sérgio.

domingo, 10 de maio de 2009

CHORANDO - Seleta de Poemas

Seleta de Poemas representa as poesias que li e me emocionaram. Assim, posso compartilhar com vocês as minhas preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
CHORANDO (à Júlia)
(Tradução Ary de Mesquita)
Se alguma dor te atormenta,
E por isso choras tanto,
Vem a mim, experimenta,
Eu farei cessar teu pranto.
Mas se choras mesmo quando
Risonha a vida te apraz...
És tão bela assim chorando...
Pedirei que chores mais.
       • Thomas Moore, poeta inglês (1779-1852) –. ®Sérgio.

SAUDADES E DESALENTO - Fragmentos Poéticos

SAUDADES (fragmento)

Pálida sombra dos amores santos!

Passa quando eu morrer no meu jazigo,

Ajoelha ao luar e entoa um canto...

Que lá na morte eu sonharei contigo.

DESALENTO (fragmento)

Feliz daquele que no livro d’alma

Não tem folhas escritas

E nem saudade amarga, arrependida,

Nem lágrimas malditas!

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (São Paulo, 1831 — Rio de Janeiro, 1852) poeta da segunda geração romântica (Ultra Romântica, Byroniana ou Mal do Século), contista, dramaturgo, escritor e ensaísta brasileiro. ®Sérgio.

SELETA DE PENSAMENTOS

"Raros são os homens dotados de bastante caráter para se regozijarem com os sucessos de um amigo sem uma sombra de inveja." (Esquilo)
"Qualquer um de nós pode compadecer-se do sofrimento de um amigo, mas é preciso uma 'natureza muito elevada' para compartilhar do seu sucesso." (Oscar Wilde)

A CAÇADA - Recontando Contos Populares

Havia em Rio Negro, um caboclo muito trabalhador que, nos dias de folga, gostava de uma boa caçada.
Foi então que esse caboclo convidou seu amigo, que era muito medroso, para uma caçada em um lugar onde diziam haver onças.
— Nessa eu não caio – respondeu o convidado. Dizem que por lá há cada pintada que é mesmo um perigo...
— Que perigo nada! Não aparece onça nenhuma! É tudo conversa fiada!...
— E se aparecesse uma onça macha e viesse para nosso lado? Onça é bicho doido; mal percebe no caçador qualquer sinal de vacilação, ela vem feito gato querendo pegar passarinho: deitada, escorregando, devagarzinho, com a barriga no chão, numa maciota, só com o rabo balançando... Os olhos alumiando verde e as presas enormes começando a brotar dos cantos da boca...
— Se ela aparecesse, bicho doido ou não, fosse o que fosse, engatilhava minha espingarda de dois canos, e esperava... Quando a onça apanhasse certa distância, tacava-lhe fogo, e ela já era...
— E se o tiro falhasse?
— Disparava o outro cano.
— E se negasse fogo?
— Então, ora essa! Num pronto arrancava meu facão de mato, e esperava a "bicha", e não tinha talvez...
— E se o facão não estivesse na bainha? Como às vezes acontece à gente perder na mata ou esquecer em casa, com a pressa de sair...
— Ah! Mano velho! Vou lhe dizer, nesse caso, não há outro remédio: pernas para que te quero...
— E se a onça, vai que vai, estivesse quase nos apanhando?
— Sem mais demora, ia para perto de um angico novo, trepava mais que depressa e ali ficava, chamando a onça de todo o nome feio que tem, até ver que a pintada alisasse a cara e fosse embora. Onça não sobe em árvore fina – se diz – porque ela não tem poder de abraçar com as munhecas.
— E me deixava no perigo, não é?! O que eu estou vendo é que você é mais "amigo da onça" do que meu! Nada de caçada! ®Sérgio.

A ARTE DE VIAJAR NO TEMPO E NO ESPAÇO

“Depois de ter mergulhado com Dafne no lago que Narciso mirou-se; depois de ter chamuscado os pés em Pompéia; depois de ter corrido no vácuo com os átomos de Epicuro; depois de haver calculado números com Pitágoras e ouvido sua música; depois de ter percorrido as muralhas da China e de ter passado por algumas regiões da metafísica e da loucura; quis, enfim, adormecer”.

Condenados a uma existência que nunca está à altura de nossos sonhos, tivemos de inventar um subterfúgio para escapar do nosso confinamento: a «ficção». Ela nos permite viver mais e melhor, sermos outros sem deixar de sermos o que somos; deslocarmos-nos no espaço e no tempo sem sairmos do nosso lugar nem da nossa hora, e vivermos as mais ousadas aventuras do corpo, da mente e das paixões, sem perdermos o juízo ou trairmos o coração.

Depois de haver vivido, nem que seja de modo fugaz, a outra vida (a fictícia, criada pela nossa imaginação à medida de nossos desejos), você irá compreender que ela é a compensação e consolo pelas muitas limitações e frustrações que fazem parte de todo destino individual. ®Sérgio.

"O Sonho nos dá o que a realidade nos nega."

sexta-feira, 8 de maio de 2009

AS LENDAS POLITICAMENTE INCORRETAS

O Branco e o Negro
Deus fez o homem perfeito à sua imagem e semelhança.
O diabo entendeu que podia conseguir obra igual ou ainda melhor.
Tomou um pouco de barro como vira Deus fazer, e começou a trabalhar. Quando terminou a figura, reparou que estava toda ela enegrecida, porque feita pelas mãos dele que são de fogo, saíra cor de carvão e com o cabelo todo chamuscado.
O diabo ficou indignado por não ter podido conseguir uma figura tão perfeita como a que saíra das mãos de Deus e, contemplando enfurecido o boneco, deu-lhe tamanho murro no nariz que o esborrachou.
Deus tinha feito o branco e o diabo fizera o negro, preto como carvão, de cabelo encarapinhado e nariz esborrachado.
O Branco, o Índio e o Negro
Deus criou o branco, o índio e o negro. Quis depois testar as qualidades de inteligência, coragem e destreza de cada um.
Atirou-os a um poço de certa profundidade.
O branco vendo-se em perigo pensou logo no que devia fazer e, aproveitando-se das fendas da terra, agarrou-se as paredes do buraco e, assim, saiu do poço; salvando-se.
O índio, que lhe observara todos os movimentos e expedientes, procurou imitá-lo, mas só pode conseguir o que desejava, subindo as costas do negro.
Mas este, indolente, nada tentou para salvar-se, e deixou-se ficar inativo, sem pedir socorro, sem procurar qualquer recurso, até que veio morrer.
E aí está como Deus, na sua grande sabedoria, fez o negro inferior ao índio e o índio inferior ao branco.
Não menos digna de observação, esta quadrinha popular que pode, também, ser julgada como politicamente incorreta:
Deus quando fez o negro
Começou no calcanhar,
Quando chegou ao nariz
Deu ao diabo para acabar.
O diabo tinha preguiça,
Não queria trabalhar;
Deu um soco no nariz
E o acabou de esborrachar. ®Sérgio.

AFORISMO: O LIVRO DE UMA LINHA

 Há, em Grego, duas palavras muito semelhantes: aphórisma = "posto à parte", e aphorismós que, entre outras acepções, significa "definição curta, sentença", que deu ao Latim o vocábulo aphorismu, que por sua vez, originou o "aforismo" na língua portuguesa.
O filósofo alemão Friedrich Von Schlegel, um dos grandes teóricos do romantismo, definiu-o como "a maior quantidade de pensamento no menor espaço". O americano Mark Twain chegou a uma definição parecida: "Um mínimo de som para um máximo de sentido". O aforista Karl Kraus em uma definição mais inspirada: "O aforismo jamais coincide com a verdade: ou é meia verdade ou verdade e meia". Por fim, Leonid S. Sukhorukov: "Um aforismo é um romance de uma linha".
O termo foi empregado inicialmente por Hipócrates (século V a. C.) em sua obra Aforismos, que reúne 413 máximas agrupadas em sete seções, resumindo todos os conhecimentos da medicina, baseadas na experiência e observação da época. O termo significava toda proposta ou sugestão sucinta, ou seja, encerrava um saber medicinal baseado na experiência e que pode ser considerada norma ou verdade dogmática (com caráter de certeza absoluta).
A obra de Hipócrates inicia com um aforismo que se tornou célebre e exemplar: "ars longa, vita brevis". Esta é mais uma daquelas raras frases em que o significado é mais do que discutido. O que geralmente é entendido por "ars longa, vita brevis" é algo na linha de: "a arte é longa, a vida breve”; ou "a arte dura eternamente, mas os artistas morrem e são esquecidos".
Com o tempo o termo se estendeu para outros ramos do conhecimento, como as Leis, as Políticas e as Artes; geralmente relacionadas a uma reflexão de natureza prática ou moral.
Desse alargamento de sentido resultou uma relação de significado muito próxima e quase completa entre os vocábulos aforismo e máxima. Além da máxima, tem suas fronteiras pouco definidas com o aforismo, o provérbio, o dito, o ditado, o adágio, a sentença e o apotegma.
Thomas Jefferson, famoso presidente americano, manteve por décadas um caderno para anotar suas máximas favoritas. O francês Michel de Montaigne gravou pensamentos de autores antigos, como Sócrates, Sófocles e São Paulo, no teto de seu quarto. Obras de ficção também contêm sua cota de aforismo; Machado de Assis incluiu um capítulo de aforismo em Memórias Póstumas de Brás Cubas onde se lê o célebre "antes cair das nuvens que de um 3º andar".
Alguns aforismos famosos:
"A Sociedade se compõem de duas grandes classes: aqueles que têm mais refeições do que apetite e aqueles que têm mais apetite do que refeições." (Nicolas Chamfort)
"A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude." (Rochefoucauld)
"O patriotismo é o último refúgio do canalha." (Samuel Johnson)
"A maioria dos colecionadores de versos e provérbios age como se estivesse comendo cerejas ou ostras, escolhendo primeiro as melhores e acabando por comer todas." (Nicolas Chamfort) ®Sérgio.

COISAS DA VIDA CONJUGAL

Não inventei o que vou lhes contar, nem inventou o amigo que me contou o fato com todas as circunstâncias e um dia em conversa, fez resumidamente a narração que me ficou na memória e aqui vai tal qual.

Na noite da véspera de Natal, meu amigo ganhou duas belas camisas de sua sogra.

No dia seguinte, Natal, o almoço era na casa da sogra. Para agradá-la, ele resolveu vestir uma das camisas que ganhara.

Vestia a camisa quando sua mulher entrou no quarto e observou:

— Por que você está usando essa camisa, não gostou da outra?

Lembrei-me do Caco Antibes, em “Sai de Baixo”:

— Cala a boca, Magda!!!

Depois de ouvir o relato de meu amigo disse-lhe:

— Se lhe servir de consolo, também passei por coisa semelhante.

Certa ocasião, tentava consertar, sem sucesso, o vazamento do cano de escoamento da pia da cozinha - aquele cano que fica naquele cubículo embaixo da pia. Pois então, estava eu, lá, naquele cubículo, com parte do corpo espremido, molhado e minha mulher a assistir o trabalho, quando soltou este conselho:

— É melhor arrumarmos um homem para esse serviço!

Salve-se quem puder!!!

Em Tempo: Se você já passou por situação parecida, não é o único, console-se. ®Sérgio.

EM DEUS MEU CRIADOR

Em Deus, meu Criador (fragmentos)
[...]
Não há coisa segura.
Tudo quanto se se vai passando.
A vida não tem dura.
O bem se vai gastando.
Toda a criatura passa voando.
[...]
Contente assim minh'alma,
do doce amor de Deus toda ferida,
o mundo deixa em calma,
buscando a outra vida,
no qual deseja ser absorvida.
[...]
• José de Anchieta (1534-1597), no poema "Em Deus, meu Criador", traduz a sua visão do mundo arredia em relação aos bens terrenos. ®Sérgio.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

ENTRAR DE FÉRIAS ou EM FÉRIAS?

Tanto faz. Existem as duas formas, "em férias e de férias".
    Entrarei de férias ou Entrarei em férias.
    O mecânico está em férias (ou de férias)
Mas atenção: se você acrescentar um adjetivo às férias, só deve usar a preposição [em]:
   Entrarei em férias merecidas amanhã.
   Entraremos em férias coletivas na sexta-feira.
   Sairei em férias na próxima semana.
Por isso, recomendam os estudiosos, darmos sempre preferência a "entrar em férias". ®Sérgio.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

SOBRE UM DEPRIMIDO

É bem difícil julgar vultos do passado. Existiram homens estranhos, paradoxais que provocaram opiniões apaixonadas e, ainda hoje, continuam a ser bastante discutidos. O fator tempo, nossas simpatias, idiossincrasias, influem de modo decisivo em nossos julgamentos.

Na História da Humanidade também iremos encontrar muitos homens célebres que sofreram das mais variadas doenças. Veja-se Alexandre da Macedônia, que depois de derrotar Dario - rei dos Persas, de conquistar todas as fortalezas, de vencer todos os reis da terra e avançado até os confins do globo; caiu enfermo e compreendeu que ia morrer.

Dentre essas doenças muitos sofriam de depressão. Porém, destes, raros foram os que nunca se renderam totalmente ao seu desespero de deprimido.

Falo de um homem singular, Paulo VI, Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini (1897 - 1978), foi Papa da Igreja Católica Romana do dia 21 de junho de 1963 até a data da sua morte, em 06 de agosto de 1978.

Um heróico deprimido, que como poucos, teve do mundo e dos homens uma visão tão angustiada e ao mesmo tempo cheia de esperança. Não muito antes que a morte o levasse, no final de uma tarde de verão, fez sua última anotação:

“Esta vida mortal, apesar das suas preocupações, dos seus mistérios obscuros, dos seus sofrimentos e da sua caducidade fatal, é um fato belíssimo, um prodígio sempre original e comovente, um acontecimento digno de ser cantado em [prosa e verso¹].”

Quando li suas últimas palavras diante deste mundo de Deus, recordei-me de um trecho do poema "Em Deus, meu Criador" de José de Anchieta, que, a bem da verdade, poderia ter sido o “adeus” de Paulo VI:

Contente assim minh'alma,

Do doce amor de Deus,

Toda ferida,

O mundo deixa em calma,

Buscando a outra vida,

No qual deseja ser

Absorvida.²

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1- Inserção feita por mim. No original está escrito: “em alegria e glória”.

2 - No poema "Em Deus, meu Criador", Anchieta traduz a sua visão do mundo arredia em relação aos bens terrenos.

A MÁXIMA DE LEONARDO DA VINCI

Há um episódio na vida de Leonardo da Vinci, que ele registrou no seu bloco de notas:

Era um sábado, feriado santo, e um padre fazia a ronda de sua paróquia abençoando as casas com água benta. Ao entrar na sala do pintor, o padre foi logo espalhando água benta sobre algumas obras de Leonardo.

— Por que o senhor está molhando as minhas pinturas?

Perguntou Leonardo aborrecido.

— Esse é o meu dever! Disse o padre.

Depois explica:

— Segundo a promessa divina, quem pratica o bem na terra recebe o dobro no céu.

Leonardo esperou o padre terminar a bênção e subiu para o andar de cima de sua casa e se postou na janela que ficava bem acima da porta por onde o padre sairia. Quando este saía, despejou uma bacia de água sobre a cabeça do padre e disse-lhe:

— Eis o dobro que está vindo de cima em retribuição ao bem que acabou de me fazer com a água benta, arruinando metade de minhas obras.

Leonardo di ser Piero da Vinci (1452 —1519) foi pintor, escultor, arquiteto, engenheiro, matemático, fisiólogo, químico, botânico, geólogo, cartógrafo, físico, mecânico, escritor, poeta e músico do Renascimento italiano. É considerado um dos maiores gênios da história da Humanidade. Não tinha propriamente um sobrenome, sendo "di ser Piero" uma relação ao seu pai, "Messer Piero" (algo como Sr. Pedro), e "da Vinci", uma relação ao lugar de origem de sua família, significando "vindo de Vinci". Leonardo era filho ilegítimo de Piero da Vinci com uma camponesa. Assinava seus trabalhos apenas como Leonardo sem o da Vinci. Calcula-se que assim fazia por ser filho ilegítimo. ®Sérgio.

A INVEJA É O DIABO...

O coronel José Lourenço era um fazendeiro corpulento quase um obeso, com olhos de uma brabeza que só com o olhar mandava um boi se ir de castigo. Naquelas redondezas ninguém era homem de acertar contas com o excomungado do coronel. Era dono de usinas, plantações, gado e uma enorme fazenda: dois mil alqueires de terra, toda em pastos; coisa para se perder de vista. Tanto pasto assim, necessita de muita gente para cuidar do gado; portanto, para comandar toda essa peonada, o coronel tinha dois bons capatazes, que eram na fazenda, seu braço direito e esquerdo.
Vai daí, que um dos capatazes, o Teodoro, tinha inveja do outro, o Francisco, braço direito do coronel por ser muito valente e excelente boiadeiro. Motivo pelo qual deixava Teodoro tomado de inveja e ódio.
Certo dia, o coronel resolveu apartar umas vacas no pasto. Partiu bem cedo, levando para lhe auxiliar o Teodoro, pois Francisco tinha de marcar uns bois comprados recentemente.
No caminho, quando os cavalos pegaram na marchinha costumeira, o Teodoro disse ao coronel:
— Tem uma coisa que careço de dar parte ao senhor.
— Que é que é, Teodoro?
— O que é? É que eu sei no certo, mas no certo mesmo, que o Francisco tá apaixonado pela Dona Alice (mulher do coronel).
— Eh, baio!... Eh-ê-ê-eh, baio!...
O Coronel puxa o freio do seu cavalo e as ancas do animal param de balançar; acende um cigarro de palha, cuspe grosso, como é de costume, e diz ao capataz:
— Ora, essa é boa. Esse bedamerda de capataz me querendo fazê de besta. Vou mostrar presse malagradecido que a mim José Lourenço Soares, filho do senador Agripino Soares ninguém logra!
Riu seu riso grosso, de dentes de ouro. Riso de quando irado. E num repelão, por riba dos ombros decretou:
— Escuta Teodoro: vá até ao alojamento da fazenda e diz pros dois soldados lá arranchados, que eu estou esperando por eles lá no engenho velho.
— Estou indo, seô Coronel...
— E vá a galope! – resmungou o coronel.
Na mesma hora os ferros das esporas do capataz tiniram, os arreios do cavalo rangeram e o animal arrancou, na carreira, jogando touceiras de pasto para trás.
Esses dois soldados, cedidos pelo delegado da cidade, eram soldados e, também, jagunços do coronel. Serviam para fazer o serviço "corretivo" da fazenda.
Quando os soldados chegaram ao engenho, imediatamente o coronel explicou a situação e combinou com eles de que, naquela tarde, o capataz viria ao engenho pegar umas rapaduras; quando então eles deveriam dar-lhe um fim e depois jogá-lo ao forno do engenho.
Chegando a fazenda o coronel Lourenço mandou chamar Francisco - vítima inocente da intriga de Teodoro - e lhe pediu par ir, no meio da tarde, até ao engenho buscar umas rapaduras. Em seguida, foi ter com Teodoro e lhe explicou o que ia suceder e que, algum tempo depois que o Francisco saísse para o engenho, lá fosse para certificar-se de que o serviço havia sido feito.
Beirando aí às três da tarde, Francisco encilhou o cavalo, montou-o e partiu a galope para a morte. Para chegar mais rápido ao destino, o capataz resolveu pegar um atalho pelo pasto donde estava parte de uma boiada. Foi quando um boizão bufou na orelha do seu cavalo, que refugou, arrancou para trás, para a esquerda e para a direita, entortando o pescoço. Francisco balançou, pendeu por meio segundo e veio sela abaixo, batendo com a cabeça no casco do cavalo; tonteou, desmaiou, e assim ficou, coberto pelo capim duro do cerrado, por um bom tempo.
Teodoro, ansiando por saber se as ordens do Coronel foram fielmente cumpridas, meteu galope em direção ao engenho. Ao chegar, não deu nem para perguntar, os jagunços o agarraram e... babau. Forno com ele. Assim morreu Teodoro, o invejoso, o intriguista.
É... seu Doutor! A inveja é o diabo, quem deve a Deus paga ao diabo! ®Sérgio.

À TOA ou À-TOA?

À Toa (sem hífen) - é uma locução adverbial de modo, com o sentido de "sem fazer nada":
    Andava à toa (sem fazer nada) na vida.
    Sempre viveu à toa (sem fazer nada).
    Continuava à toa, sem nenhum trabalho a vista.
À-Toa (com hífen) - é um adjetivo (deve acompanhar um substantivo), com o sentido de "desocupado, inútil":
    Ela, sem dúvida, é uma mulher à-toa (desocupada).
    Foi um gesto à-toa (inútil) e precipitado.
    Não passava de um sujeitinho à-toa.
Atenção: A Reforma Ortográfica extinguiu o hífen na locução à-toa; entretanto, até o ano 2012 considera-se correto o uso de: à toa e à-toa. ®Sérgio.

UM MISTO ESTRANHO DE MALDADE E BONDADE

"Há em toda a criatura humana um misto estranho de bondade e maldade, de infâmia e perversidade. As proporções dessa mistura é que variam. Desde o tipo bom, completo, que sufoca perfeitamente o que há de mal dentro de si mesmo, porque a lucidez e a largueza de sua consciência lhe permitem reconhecer e dominar a própria tendência perversa; até o malvado arrematado, cuja consciência estreita e sensibilidade moral embotada não lhe permite reconhecer o mal que vive dentro dele."
(Amadeu Amaral, Psicologia do Boato)

terça-feira, 5 de maio de 2009

A ALMA QUE NÃO NASCEU - Recontando Contos Populares

Era uma vez um advogado muito velhaco e sabido como não havia outro. Ninguém o enganava e ele gabava-se de haver "engazopado" toda a gente com quem tinha negócios.

Era já sabido, naquela época, que alma de advogado não entrava no céu. Mas como o causídico era fino como um rato e não havia notícia de jamais haver perdido uma demanda, quando morreu foi bater à porta de S. Pedro.

O santo mal abriu à porta e deu de cara com ele, recuou espantado da tamanha ousadia.

— Não se espante, meu Santo, quero entrar no céu. Estou arrependido, venho suplicar a sua misericórdia.

— Impossível, respondeu São Pedro. Siga o teu destino, já que foi o maior velhaco de tua região.

Mas, o advogado tanto fez e aconteceu que o santo lhe dirigiu a seguinte proposta:

— Permito que entre no "quarto" das almas, às escuras, e da lá me traga a alma de Adão. Se conseguir, visto que é esperto, entrara no céu.

Assim se fez. E daí a pouco voltou o advogado com a alma de Adão.

São Pedro que queria apenas brincar com ele, ficou muito admirado daquele feito, e exclamou:

— Mas como conseguiu descobrir essa alma em meio de milhões de outras!?

O bacharel respondeu:

— É que não sou tolo, meu Santo. Estando todas as almas nuas, fui apalpando e quando encontrei a que não tinha umbigo, já sabia ser de Adão que, como reza a Sagrada Escritura, não nasceu. Não podia, por isso, ter umbigo.

São Pedro, nada tendo de responder, deixou o advogado entrar no céu. E foi assim que, pela primeira vez, entrou no céu uma alma de advogado (¹).

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(1) Este conto foi parafraseado de uma lenda que corre em variantes na França, na Espanha, em Portugal e, em outros países da Europa.

A MÁXIMA DE SALVADOR DALI

Em 1936, Salvador Dali foi com um amigo, Maurício Heine, a uma exposição de pintura abstrata. Enquanto estavam na galeria, Dali não tirava os olhos de um canto da sala onde não havia nada exposto.
— Você parece estar evitando olhar para as telas – comentou seu amigo – parece estar atraído por algo invisível.
— É verdade, mas não tem nada de invisível. Não consigo afastar os olhos daquela porta. É de longe o objeto mais bem pintado desta galeria – respondeu-lhe Salvador Dali.
Maurice, visivelmente interessado nas obras expostas, não a tinha reparado. Mas agora, ao notá-la, viu que não tinha como negar a observação de Dali.
— Nenhum dos pintores — continuou Dali – que estão expondo nessa mostra seria capaz de pintar aquela porta; por outro lado, o pintor de paredes que lhe aplicou a tinta poderia melhorar qualquer dos quadros expostos que quisesse copiar.¹
Nada mais coerente com esse pequeno acontecimento do que o próprio conceito de Dali sobre o artista plástico: "O verdadeiro pintor é aquele capaz de pintar cenas extraordinárias em meio a um deserto. O verdadeiro pintor é aquele capaz de pintar uma pera, rodeado dos tumultos da história".
Assim foi Salvador Felipe Jacinto Dali; excêntrico e possuidor de uma aguçada visão artística que conferiu a sua obra o reconhecimento de uma das mais apuradas e audaciosas da pintura surrealista. ®Sérgio.
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1 – Essa passagem da vida artística de Dali foi traduzida e adaptada a narrativa em terceira pessoa de Pensées et Anecdotes, Lê Cherche Mide, Paris.

A TRANSCENDÊNCIA DO PONTO VERMELHO

A minha obsessão artística é o entalhe em madeira; gosto que comecei a desenvolver quando, aos sete anos, ganhei de natal uma pequena bancada de carpinteiro, acompanhada de um kit de ferramentas para iniciantes (meninos). Comecei entalhando nomes próprios em plaquetas de madeira, que depois de prontas, presenteava amigos e "amigas".
Como aconteceu com Michelangelo - não que queira me comparar, Deus me livre! – o entalhe deu-me habilidade e visão suficiente para enveredar-me, amadoristicamente, pela pintura. Então, para adquirir conhecimento nas artes plásticas, passei a frequentar todas as exposições que me foram possíveis.
Numa dessas exposições, despertou-me a atenção, um quadro, que captava uma bela paisagem. Ao me aproximar para melhor estudá-lo, percebi uma mancha vermelha, que parecia ferir toda a sua harmonia. Conjecturando sobre a finalidade da mancha, permaneci por algum tempo diante da obra a ponto de ouvir outro admirador fazer o seguinte comentário:
Essa mancha prova que o artista não é só um pintor, mas também um filósofo.
E a moça que o acompanhava acrescentou:
Apesar da grande simplicidade que o quadro apresenta, o pintor parece estar consciente da transcendência que este ponto vermelho significa nesta paisagem encantada.
Fiquei estupefato com os comentários, porque, para mim, aquela mancha vermelha desarmonizava-se, completamente, com a bela paisagem. Ou será que minha visão artística estava “cega” a ponto de não enxergar a “transcendência do ponto vermelho”?
Graças a Deus, mais tarde, vim a conhecer o artista; e após suas explicações das técnicas empregadas na pintura, não resisti, e perguntei a ele qual era o significado da mancha vermelha na paisagem. Ele espiou a um lado e a outro do corredor, para verificar se estávamos, realmente, a sós, e disse-me:
Não diga nada a ninguém, mas quando acabei de pintar o quadro, meu filho de quatro anos entrou no atelier e cismou também de pintá-lo. Bem... a insistência foi tanta que dei a ele um pincel... e o resultado foi a mancha vermelha. Meu filho ficou tão feliz que não tive coragem de encobri-la.
Salve-se quem puder!!! ®Sérgio.