segunda-feira, 26 de agosto de 2013

UM CASO DE HIGIENE

Você acreditaria que o papel higiênico quando foi inventado encontrou resistência para ser aceito? É um detalhe sórdido, porém verdadeiro. Pois a higiene pessoal, tal como a concebemos hoje, só começou a se estabelecer no século XIX, antes disso, as pessoas não só toleravam a sujeira como também, muitas vezes, nutriam certo deleite pessoal com ela.
Pesquisadores famosos contam que praticamente todas as civilizações da Antiguidade deram grande valor à higiene pessoal e ao bem-estar físico. No entanto, alguns fizeram uma constatação chocante e polêmica: o cristianismo representou um retrocesso na história da higiene. Será?
Eles argumentam que na Antiguidade os egípcios já fabricavam sabão; na Grécia o banho era uma instituição cotidiana. Os romanos criaram aquedutos para abastecer suas principais cidades e frequentavam diariamente banhos públicos, onde o corpo era lavado e esfregado vigorosamente (não se usava sabão) para tirar a sujeira. Mas, que tudo isso desapareceu com a queda do império e a ascensão dos cristãos. É claro que o banho não desapareceu, assim, da noite para o dia. Porém, aos poucos, esses locais de banhos, foram associados a costumes pagãos e, consequentemente, ao pecado. Neste caso, vários registros históricos comprovam o fato. Por exemplo, no século VI era regra da vida monástica a determinação de São Bento de que só os monges doentes ou muitos velhos fossem autorizados a se banhar. Na maioria dos monastérios da Europa medieval o banho era praticado três vezes, no máximo, ao ano. E como a Igreja tinha grande influência entre a população que vivia fora do claustro, supõe-se que o costume não fosse muito superior a esses três dias.
Por muitos séculos a higiene pessoal do cristão europeu não passou de lavar as mãos antes das refeições e esfregar seus dentes com paninhos, até que a           prática de lavar o corpo todo, retorna-se ao seu cotidiano.
Anotei alguns fatos que comprovam esse enunciado. Veja:
No palácio de Versalhes, um decreto de 1715, estipulava que as fezes seriam retiradas dos corredores uma vez por semana. Ora bem, se decretaram uma vez por semana; eu suponho que o recolhimento antes do decreto demorava muito mais.
Atribuíam-se perigos ao banho: lavar o corpo todo abriria os poros facilitando a infiltração de doenças. Além disso, acreditava-se que a roupa absorvia a sujeira do corpo. Portanto, era só trocar de roupa todos os dias para manter-se limpinho. No entanto, Dom João VI, não acreditava muito nesse conceito. Ele detestava banho e costumava a vestir a mesma roupa até que apodrecesse.
Relatos de palacianos contam que a rainha espanhola Isabel (1451 – 1504) só tomou, em toda a sua vida, dois banhos de corpo inteiro.
Hoje a higiene pessoal parece ter chegado a extremos, especialmente entre os americanos. Alguns cientistas já alertaram que essa superproteção higiênica está debilitando a resistência imunológica das crianças e aumentando a incidência de doenças.
Pois bem, mas... e o papel higiênico? Ainda, segundo os historiadores, o papel higiênico só surgiu nos Estados Unidos, em 1857; e o produto demorou a vencer a resistência do mercado pela palha de milho, pela esponja, entre outros. Certo mesmo é que antes do papel higiênico, cada um se virava como podia. ®Sérgio.

IMPRESSO OU IMPRIMIDO?

Os dois termos são de uso corrente em nossa língua. Porém, não devemos usá-los de maneira aleatória.
O verbo [imprimir] apresenta mais de uma forma para a flexão do particípio (verbos abundantes). Com o significado de [publicar], de [impressão gráfica], ele possui duas formas de particípio: a regular e a irregular. Portanto:
1. Impresso (pertence à forma irregular) - use com os verbos [ser e estar]: foi impresso o edital de convocação.
   Os convites já estão impressos.
   Os cartazes ainda não foram impressos.
2. Imprimido (pertence à forma regular) – use com os verbos [ter e haver]: Esta gráfica tem imprimido muitos jornais.
   A gráfica não havia imprimido as notas.
   Os alunos tinham imprimido o jornal sem nenhuma ajuda.
Observação: As formas regulares estão caindo em desuso, em virtude da preferência pela forma mais curta: impresso em vez de imprimido. Muitos estudiosos já aceitam as formas irregulares até com os verbos [ter e haver].
3. O Verbo Imprimir, no sentido de [produzir movimento], não é abundante, isto é, só tem o particípio em [–ido]. Portanto, pode ser usado com qualquer auxiliar:
   O motorista havia imprimido grande velocidade ao veículo.
   Foi imprimida grande velocidade ao veículo.
   A gráfica tem imprimido pouca velocidade à impressão.
   Tenho imprimido alta velocidade a meu carro. ®Sérgio.

CONSIGO ou COM VOCÊ?

Consigo é um pronome reflexivo – significa com si mesmo - ou seja, é aplicado quando o sujeito e o objeto da oração são a mesma pessoa. Quando tratamos as pessoas em 3ª pessoa (você, Vossa Senhoria, Vossa Excelência, senhor, doutor, etc.) não devemos usar consigo, e sim, com você.
Portanto, é errado o uso de "consigo" como equivalente de "com você" em frases como:
   Querem falar consigo. Nesta frase, se afirma que eles querem falar com eles próprios.
   O pessoal está magoado consigo. Aqui, o pessoal está magoado com eles próprios.
As formas corretas são:
   Querem falar com você. (com o senhor, com Vossa Senhoria, etc.)
   O pessoal está magoado com você.  Ele vai sair com você.
   Ele irá entender-se com o senhor.
Consigo só deve ser utilizado com o sentido reflexivo:
   Ele fala consigo mesmo. Ele trouxe as mercadorias consigo.
   Os homens carregam consigo as suas penas.
   Vive lá consigo, sem ninguém que dele cuide.
É comum o uso das palavras próprio (a), mesmo (a) juntamente com consigo para reforçar a ideia reflexiva.
Contigo só deve ser usado quando tratamos as pessoas em 2ª pessoa (tu, teu, tua, te, ti, etc), ou seja, o pronome do caso oblíquo "contigo" refere-se ao pronome [tu]:
   Ele te disse isso, porque deseja viajar contigo. (com + ti, tu)
   Espera que ele já vem falar contigo. (com + ti, tu) ®Sérgio.

SEM PALAVRAS


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

ESMERALDA - Seleta de Poemas

Seleta de Poemas representa as poesias que li e me emocionaram. Por isso, não quero que esses versos fiquem esquecidos. Estou certo de que pelo menos um leitor[a], amigo[a] da poesia, me há de agradecer a lembrança.
Esmeralda
Esmeralda, onde estão teus noivos?
Teus irmãos, teus primos, onde estão?
Onde está teu velho Amor, teu namorado,
Aquele de antigamente, que vagava nas ruas?
Onde estão teus sonhos, Esmeralda?
Augusto Frederico Schmidt (1906 – 1965)

TERESA - Seleta de Poemas

Seleta de Poemas representa as poesias que li e me emocionaram ou me agradaram no conteúdo. Assim, posso compartilhar com vocês as minhas preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
TERESA
Teresa, se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA.
        • Manuel Bandeira (1886–1968) poeta, crítico literário e de arte, e professor de literatura. ®Sérgio.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A LENDA DO HOMEM CHUVA

Begorotire era um índio cabelos negros e muito forte. Certo dia, porém, na divisão da caça, foi "passado para trás". Injustiçado ficou furioso e, por causa disso, decidiu que sairia à procura de outro lugar para viver. Pintou toda a família com uma tintura preta que havia retirado do fruto do jenipapo. Pegou um pedaço de madeira pesada e resistente, da qual fez uma borduna Caiapó (grupo indígena habitante da Amazônia brasileira), com o cabo trançado em preto e a ponta tingida com sangue da caça. Chegou então ao alto de uma montanha, levando sua borduna, e começou a gritar. Seus gritos soaram como fortes trovões. Girou fortemente sua arma no ar e de suas pontas saíram relâmpagos. Em meio ao barulho e às luzes, Begorotire, com os olhos alumiados, subiu aos céus. Os índios assustados atiraram suas flechas, mas não conseguiram impedir que Begorotire desaparecesse no firmamento.
As nuvens, também assustadas, derramaram chuva que parecia que o mundo vinha abaixo. Por isso Begorotire tornou-se o homem chuva. Tempos depois, levou toda a família para o céu, onde nada lhes faltava, e de lá muito fez para ajudar os que na terra ficaram. Juntou sementes de suas fartas roças, secou-as sobre o girau e entregou a uma de filhas para trazê-las a terra.
A pequena índia desceu dentro de uma cabaça enorme amarrada a uma longa corda, tecida com as próprias ramas do vegetal. Caminhando pela floresta, um jovem encontrou a cabaça, amarrou-a com os cipós e pedaços de madeira e, com ajuda dos amigos levou-a para a aldeia. A mãe, abrindo a cabaça, encontrou a índia, a filha da chuva, que estava magra e com longos cabelos, por lá haver permanecido muito tempo.
A jovem foi retirada e alimentada, e teve seus cabelos aparados. Ao ser indagada, a filha da chuva explicou por que viera, entregando-lhes as sementes enviadas por seu pai e deixando a todos muito felizes. O jovem que encontrou a cabaça casou-se com a moça, passando esta a morar novamente na terra. Com o tempo, resolveu visitar os pais. Pediu ao esposo vergasse um pé de Pindaíba, trazendo a copa até o chão. Sentou-se sobre ela e, ao soltarem a árvore, a índia foi lançada ao céu. Ao retornar, trouxe consigo toda a família e cestos repletos de bananas e outros frutos silvestres. Begorotire ensinou a todos como cultivar as sementes e cuidar das roças, regressando depois ao seu novo lar. Ate hoje, quando as plantas necessitam de água, o homem chuva provoca trovões, fazendo-a cair sobre as roças para mantê-las sempre verdes e fartas. ®Sérgio.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O SONETO DO SEU GREGÓRIO

A capacidade, a habilidade e o ardil satírico de Gregório de Matos, deixam- me, sobremaneira, desconcertado. Com que facilidade, esse artífice do verso, trabalhava seus poemas. Veja:
De acordo com fontes históricas, certa vez, um conde pediu a Gregório de Matos que fizesse um soneto em seu louvor. O poeta, porém, não achou nele nada que pudesse ser enaltecido. Não querendo desagradar o nobre conde, compôs assim mesmo o soneto que vai abaixo:

   Um soneto começo em vosso gabo¹              (¹ louvor)
Contemos essa regra por primeiro,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo²                  (² no fim)
Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
Na sexta entro já com a grã³ canseira           (³ grande)
E saio dos quartetos muito brabo.
Agora nos tercetos que direi?
Direi que vós senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.
Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.
Com que maestria Gregório compôs este soneto. O poeta obedecendo à estrutura do soneto e a ela referindo-se com palavras bebidas aqui e ali, ele esvaziou o conteúdo e não se comprometeu em falsos elogios. É por coisas assim que tenho de admirar a qualidade saborosa desse poeta. ®Sérgio.

CRUCIFICA-O, CRUCIFICA-O!

Por diversas vezes, questionei o porquê de no julgamento de Jesus Cristo, a multidão de Jerusalém ter escolhido que Barrabás (era costume, naquela época, libertar um prisioneiro na Festa da Páscoa) fosse solto, em vez de Jesus. Pois, em Mateus 21/8-11, Jesus entrou triunfalmente em Jerusalém com a multidão espalhando roupas pelo chão para Cristo passar. Ser trocado por Barrabás é uma cena tão ultrajante que nos faz questionar o motivo.
Pilatos queria soltar Jesus (Lucas 23/20). Teve até o impulso emocional da esposa, que reconheceu que Jesus era justo e disse ao marido que não se envolvesse naquilo. Depois Pilatos perguntou à multidão: "Que mal este fez?" (Lucas 23/22). Pilatos começa afirmando que Jesus é inocente, mas acaba concedendo a sentença de morte que a multidão exigiu (fico imaginando o barulho ensurdecedor da multidão gritando naquele lugar, em favor de Barrabás, a cada indagação de Pilatos). Diz-nos o estudioso H. Brownlee Reaves, que a multidão foi incitada pelos sacerdotes para o crucificarem.
Em livros e filmes, Barrabás é geralmente descrito como um homem mal, um criminoso. Mas ele pode realmente ter sido um combatente da liberdade na resistência judaica aos romanos, pois era integrante de um partido judeu que lutava contra a dominação romana. Foi preso após um ataque a um grupo de soldados romanos na cidade de Cafarnaum, onde possivelmente um soldado foi morto. Daí a teoria de que Barrabás foi escolhido porque era um tipo de “sicário”, ou seja, judeus que saiam armados de punhais para matar romanos na calada da noite como uma forma de vingança pela destruição do templo pelo imperador romano Vespasiano. Por isso, os sicários eram assassinos amados pela população. Evidência para isso pode ser encontrada em Marcos 15/07, que nos diz que ele estava na prisão porque tinha tomado parte em um levantamento recente. De fato, alguns estudiosos bíblicos acham que ele foi um líder rebelde importante. Se assim for, isso explicaria por que a multidão gritava por sua libertação.
Então, quando ocorreu o inimaginável, o que fez Barrabás? Será que ele decidiu dedicar a vida a Deus porque tinha recebido a liberdade? Será que ele se arrependeu e fez boas obras o resto da vida, tentando ser digno de seu bom nome, ou será que voltou à vida de crimes e degradação? ®Sérgio.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O EUFEMISMO - Figuras de Linguagem

O eufemismo é uma espécie de perífrase, ou seja, é atenuação, a substituição - por motivos religiosos, éticos, supersticiosos ou emocionais - de uma palavra ou expressão de sentido rude, desagradável, por outra de sentido agradável ou menos chocante. Por exemplo, a infinidade de eufemismo popular para dissimular o nome do Diabo: Arrenegado, Cão, Coisa-ruim, Tinhoso, etc.
[...] pelo menos ele descansou.
A utilização do verbo descansar atenua o impacto da ideia de "morrer". A morte, na nossa cultura, ê considerada algo desagradável, assustador, daí a grande quantidade de eufemismos criados e utilizados para designar essa ideia - falecer, passar desta para a melhor, ganhar a vida, etc.:
  Depois de muito sofrimento, entregou a alma ao senhor.
  Quando a indesejada da gente chegar. (Manuel Bandeira)
  Era uma estrela divina que ao firmamento voou! (A. de Azevedo)
Expressões populares como: Ir para a terra dos pés juntos; Comer capim pela raiz; Vestir o paletó de madeira; são exemplos de eufemismo, porém o caráter cômico dessas expressões em situações de grande impacto como a morte, subtrai a função do eufemismo.
Outros exemplos:
  Ele faltou com a verdade. (= mentiu)
  [...] trata-se de um usurpador do bem alheio. (= ladrão)
  Vivia de caridade pública. (= esmolas) (Machado de Assis)
  O aluno foi convidado a sair da escola. (= expulso da escola)
  Paulo não foi feliz nos exames. (= foi reprovado)
  Enriqueceu por meios ilícitos. (= roubou)
  Querida, ao pé do leito derradeiro. (= túmulo) (A. de Azevedo)

Como se vê, no eufemismo, existe uma intenção, por parte do falante ou do escritor, de não chocar o seu interlocutor ou leitor. ®Sérgio.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O DILÚVIO SEGUNDO A MITOLOGIA GREGA

A mitologia grega desde a sua criação conheceu várias épocas, que a história batizou de Idades. Na primeira delas, a Idade do Ouro, todos eram felizes. Reinavam a verdade e a justiça, não havia juízes para ameaçar ou punir. A velhice não existia, tampouco as doenças. Reinava uma primavera permanente, os alimentos brotavam da terra por si só.
Depois dessa idade feliz seguiu-se a Idade da Prata, nela Zeus (Júpiter) reduziu a primavera e dividiu o ano em estações. Pela primeira vez o homem teve de sofrer os rigores do calor e do frio. Tornou-se necessário plantar para colher.
Veio a Idade do Cobre na qual começaram as disputas entre os homens, até que se chegou, finalmente, à Idade do Ferro. Nessa idade a violência propagou-se pela Terra. O hospede não se sentia em segurança na casa em que se hospedara; os genros e sogros, os irmãos e irmãs, os maridos e as mulheres não podiam confiar um nos outros. Os filhos desejavam a morte dos pais, a fim de lhes herdar a riqueza. A paz abandonou definitivamente a Terra.
Vendo então o estado das coisas, Zeus indignou-se e convocou os deuses para um conselho. Convocado o conselho dos deuses, todos obedeceram e tomaram o caminho do palácio do céu. Esse caminho pode ser visto no céu em todas as noites claras, a chamada Via Láctea, e ao longo dela fica os palácios dos deuses ilustres; a plebe celestial vive à parte, de um lado ou do outro.
O Dilúvio de Deucalião.
Dirigindo-se à assembléia, Zeus expôs as terríveis condições que reinavam na terra e encerrou suas palavras anunciando a intenção de destruir todos os seus habitantes e fazer surgir uma nova raça diferente da primeira, que seria mais digna de viver e saberia melhor cultivar os deuses. Tomou o seu raio, e já ia despedi-lo contra o mundo, destruindo-o pelo fogo, quando percebeu o perigo que um incêndio teria para os próprios deuses. Decidiu então inundar a Terra. O vento norte que espalha as nuvens foi aprisionado; o vento sul foi solto e em breve cobriu todo céu com escuridão profunda, torrentes de chuva caíram; as plantações inundaram-se. Não satisfeito com suas próprias águas, Zeus pediu ajuda de seu irmão Poseidon (Netuno). Este soltou os rios e lançou-os sobre a Terra. Ao mesmo tempo sacudiu-a com um terremoto e lançou o refluxo dos oceanos sobre as praias. Rebanhos, animais, homens, casas e templos foram tragados pelas águas. De todas as montanhas, apenas a do Parnaso ultrapassava as águas. No entanto, Zeus resolveu poupar da destruição um homem e sua esposa, que considerava os únicos justos sobre a face da Terra. Deucalião e Pirra eram seus nomes.
Avisado do dilúvio, Deucalião construiu um barco de madeira para salvar sua esposa e levar mantimentos. Ao verem que tudo naufragava sob as ondas impetuosas, Deucalião abraçou-se à esposa, e foram ambos refugiar-se no barco. Durante nove dias e nove noites o casal vagou pela água dentro do barco. No décimo dia, o barco encalhou no Monte Parnasos. Quando Zeus viu que apenas eles haviam sobrevivido ao dilúvio, cessou a tempestade e Poseidon retirou as suas águas. ®Sérgio.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

DIZER “O QUÊ” ou “O QUE”...?

Diz a regra que escreve-se o "que" com acento para indicá-lo como monossílabo tônico, da mesma forma que se faz com dê, lê, sê. Essa tonicidade ocorre com o "que" quando interjeição ou substantivo e quando pronome no final da frase.
Por outro lado, há um caso que deixa o escrevedor em dúvida. É o que se pode ver, por exemplo, quando o "que" soa como tônico, mas não vem no fim da frase de sentido completo que se conclui com um ponto final, de exclamação ou de interrogação. É para destacar essa tonicidade que alguns escrevedores usam o "que" acentuado no meio da frase, ou antes, de acabado o período:
  Dizer o quê, Fernando?
  Está pensando em quê, Maria?
Convém ter-se presente que, nesses casos, não se pode considerar o acento gráfico um erro. Entretanto, em termos práticos, não é uma boa opção ignorar a gramática e acentuar o "que" situado no meio da frase:
  Por que, professor?
  Vamos fazer o que, Carlos? ®Sérgio. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

sábado, 15 de junho de 2013

A ARMADILHA DE ZEUS

Para punir o titã Prometeu e seu irmão Epimeteu pela ousadia de furtar o fogo divino, Zeus armou uma armadilha: Ordenou que Hefesto, o deus-ferreiro do mundo subterrâneo, fizesse a mulher.
Hefesto fez uma mulher belíssima, fascinante e cada um dos deuses do olimpo contribuiu com algum atributo para aperfeiçoá-la. Recebeu de Atena a arte da tecelagem, de Venus a beleza e o poder de sedução, de Hermes as artimanhas e assim por diante. Por fim, batizou-a como Pandora (pan = todos, dora = presente) e mandou-a à Terra ao atrapalhado Epimeteu, que, despeito da advertência de seu irmão para ter cuidado com Zeus e seus presentes, ingenuamente a aceitou.
A vingança planejada por Zeus estava contida numa grande e belíssima caixa de marfim, que foi levada como presente de núpcias para Epimeteu com a seguinte instrução: jamais, em hipótese alguma, deveria abrir aquela caixa.
Pandora, levada pela curiosidade feminina, Resolveu abri-la. Ao fazê-lo descobriu que a caixa continha todas as desgraça da humanidade, ou seja, nossos vícios: egoísmo, crueldade, inveja, ciúme, ódio, intriga, ambição, desespero, tristeza, violência e todas as outras coisas que causam miséria e infelicidade. Rapidamente a fechou, mas todas as desgraças e calamidades já haviam escapado, restando apenas à Esperança.
Com a liberação de todos nossos vícios, o paraíso terrestre acabou; o homem e a mulher antes imortais tornam-se mortais, e assim, conhecem a dor e o sofrimento que antes não existiam. O Fogo Olímpico que ardia no interior do homem quase apagou. Restou apenas uma centelha que é a própria Esperança de um dia regressar ao Paraíso Perdido. ®Sérgio.

domingo, 9 de junho de 2013

O COVEIRO E O BÊBADO

Por diversas vezes resisti à tentação de compartilhar com vocês esta Fábula de Millôr Fernandes¹, a tentação, porém, acabou vencendo-me:
Ele foi cavando, cavando, pois sua profissão – coveiro – era cavar. Mas, de repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavara demais. Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que sozinho não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enrouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardias. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouvia um som humano, embora o cemitério estivesse cheio de pipilos e coaxares naturais do mato. Só pouco depois da meia-noite é que lá vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: “O que é que há?”
 O coveiro então gritou desesperado: “Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível!” – “Mas, coitado!” – condoeu-se o bêbado. – “Tem toda a razão de estar com frio. Alguém tirou a terra de cima de você, meu pobre mortinho!” E, pegando a pá, encheu-a de terra e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.
Moral: Nos momentos graves é preciso verificar muito bem para quem apela. ®Sérgio.
____________________
¹ - Fernandes, Millôr, Socorro. Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro, Nórdica, 1977. p.13.

O GATO E O RATO

Contaram-me esta fábula moderna, que achei "pra lá de ótima". Com a devida licença, conto para vocês. Mas vou logo explicando que o amigo que me contou essa história, não se lembra quem lhe contou, e que não inventei nada, vou escrevê-la da maneira que ouvi.
O ratinho na toca e do lado de fora o gato:
— Miau, miau, miau...
O tempo passava e do lado de fora o gato continuava:
— Miau, miau, miau...
Depois de passadas muitas horas e já com muita fome o rato ouviu:
— Au! Au! Au!
Então deduziu: "Se tem cachorro lá fora, o gato foi embora". Mal terminou sua dedução, saiu disparado em busca de comida.
Nem bem saiu da toca, o gato, Crau!
Inconformado, já na boca do gato, perguntou:
— Pô gato! Que sacanagem e essa????
E o gato respondeu:
— Meu filho, hoje, nesse mundo "globalizado", quem não fala, pelo menos, dois idiomas... morre de fome... ®Sérgio.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

OS ANIMAIS E A PESTE

Em certo ano terrível de peste entre os animais, o leão, mais apreensivo, consultou um macaco de barbas brancas.
— Esta peste é um castigo do céu – respondeu o macaco – e o remédio é aplacarmos a cólera divina sacrificando aos deuses um de nós.
— Qual? – perguntou o leão.
— O mais carregado de crimes.
O leão fechou os olhos, concentrou-se e, depois duma pausa, disse aos súditos reunidos em redor:
— Amigos! É fora de dúvida que quem deve sacrificar-se sou eu. Cometi grandes crimes, matei centenas de veados, devorei inúmeras ovelhas e até vários pastores. Ofereço-me, pois, para o sacrifício necessário ao bem comum.
A raposa adiantou-se e disse:
— Acho conveniente ouvir a confissão das outras feras. Porque, para mim, nada do que Vossa Majestade alegou constitui crime. São coisas que até que honram o nosso virtuosíssimo rei Leão.
Grandes aplausos abafaram as últimas palavras da bajuladora e o leão foi posto de lado como impróprio para o sacrifício.
Apresentou-se em seguida o tigre e repete-se a cena. Acusa-se de mil crimes, mas a raposa mostra que também ele era um anjo de inocência.
E o mesmo aconteceu com todas as outras feras.
Nisto chega à vez do burro. Adianta-se o pobre animal e diz:
— A consciência só me acusa de haver comido uma folha de couve da horta do senhor vigário.
Os animais entreolharam-se. Era muito sério aquilo. A raposa toma a palavra:
— Eis amigos, o grande criminoso! Tão horrível o que ele nos conta, que é inútil prosseguirmos na investigação. A vítima a sacrificar-se aos deuses não pode ser outra porque não pode haver crime maior do que furtar a sacratíssima couve do senhor vigário.
Toda a bicharada concordou e o triste burro foi unanimemente eleito para o sacrifício. (Monteiro Lobato, Fábulas.)
Moral da Estória: Aos poderosos, tudo se desculpa… Aos miseráveis, nada se perdoa. ®Sérgio.

terça-feira, 28 de maio de 2013

A FELICIDADE E A DEPRESSÃO

“Há uma perpétua distância entre mim e minha alegria e quanto mais procuro vivê-la mais me parece que ela se afasta de mim: como se os esforços que faço para conquistar a luz só servissem para tornar mais espessa e impenetrável à cortina que me separa dela.” (Jacques Lavigne)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A LENDA DO OVO

Vivia num belo país um casal humilde e feliz. O casal tinha tudo o que necessitava para viver em alegria. Um belo casebre, embora pequeno, com um bonito jardim, um rio que passava perto e um belo conjunto de árvores de diversos tipos. Sol brilhava radiante.
Mas um dia a tristeza começou a cobrir a casa. Havia uma coisa que o casal não tinha e desejava muito: filhos. Faltava-lhes o riso e as brincadeiras das crianças. Todos os dias acordavam com o mesmo desejo no coração.
Ora, numa bela noite estrelada, um raio de luz intenso entrou pela janela do quarto. Na sua cauda vinha sentada uma fada.
O casal ficou muito espantado, mas não se assustou porque sabia que a fada era boa. Então a fadinha começou a falar:
— Eu conheço os seus desejos, e já estava à espera que um dia isto lhes acontecesse. Fiz todo o possível para felicidade de suas vidas, mas calculei que não seria o suficiente. Pois bem, vou dar-lhes duas filhas, com dois anos de diferença. Terão de fazer com que elas sejam muito unidas, para que continuem a ser uma família feliz.
— Oh, sim! Nós prometemos boa fada. Isto foi tudo o que sempre desejamos - replicou o casal.
— Aviso-lhes que a tarefa não é fácil. Se o desejarem conseguirão cumpri-la, senão eu voltarei com melhor solução. E com estas palavras a fada desapareceu.
O casal ficou muito feliz e esperou ansiosamente pela chegada da primeira filha.
Um dia, finalmente chegou. Era uma linda menina. Tinha uma pele muito rosada, uns olhos claros e brilhantes e um belo cabelo muito louro, que mais tarde se tornou numa cabeleira loura. A esta filha, o casal deu o nome de Gema.
Tinham desejado tanto esta filha que lhe dedicaram todo o seu amor e acabaram por mimá-la demais.
Gema tornou-se indolente, vaidosa e preguiçosa, mas os seus pais não a achavam assim.
Passaram-se dois anos e a outra filha nasceu. Esta, ao contrário de Gema, não era tão bonita. O cabelo era muito claro, quase transparente como a água, a pele era muito branca - os olhos, esses, eram claros, cintilantes, a única semelhança com Gema. Os pais deram-lhe o nome de Clara.
As duas crianças cresceram felizes e muito brincalhonas, apesar das brincadeiras que Gema fazia a Clara. Elas pareciam gostar muito uma da outra. Gema era muito mais viva e brincalhona que Clara e muito mais forte também. Clara era mais séria e trabalhadora. Gema irritava-se com Clara, pois esta, nem sempre queria brincar, e por isso passava a vida a apoquentá-la.
O tempo foi passando e as maldades crescendo, assim como as arrelias que faziam uma à outra. Quando os pais repararam, já era tarde demais para que conseguissem mudar alguma coisa. A felicidade nunca mais voltou a reinar naquela casa. O tempo passou e a situação mantinha-se.
Um dia a fada voltou:
— Eu avisei-os, a tarefa não era fácil, não quiseram ouvir-me e deixaram que a alegria desaparecesse. Infelizmente, terei que agir e como castigo ordeno que Clara e Gema se unam num só alimento, rico e completo. As duas partes serão indispensáveis e assim vivam em conjunto para sempre.
Dizendo isto, apontou a varinha para Clara e Gema, apareceu uma luz muito forte e quando desapareceu no lugar das duas estava um ovo. E assim, Clara e Gema viveram juntas para sempre, tornando-se úteis para nós. O casal aprendeu bem a lição e a partir daí tiveram muitos filhos e filhas. ®Sérgio.
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Nota sobre o Texto: Alguns contos conseguiram manter suas autorias, outros, porém, como este, pularam das fronteiras do livro e do registro autoral e caíram na memória do povo, em tantas feições e línguas, que acabaram por passar ao domínio de ninguém, isto é, ao uso de todos.