sábado, 18 de maio de 2013

ANTÍTESE - Figuras de Linguagem

A língua latina, posteriormente, adotou a grafia de antithese, designando oposição, contraste. Antítese é uma figura de pensamento que consiste na aproximação de dois pensamentos de sentido antagônicos, contrários. O contraste pode realizar-se entre palavras, frases ou orações; geralmente ligadas por coordenação:
       Nesta cidade habitam o amor e o ódio.
   Você se preocupa com o passado; eu, com o presente.
   O esforço é grande e o homem é pequeno. (Fernando Pessoa)
   Amigos e inimigos estão, amiúde em posições trocadas. Uns nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos trazem o mal. (Rui Barbosa)
A antítese, em outras palavras, harmoniza dois conceitos contraditórios numa só expressão, formando assim um terceiro. Este recurso expressivo veio a ter extraordinário desenvolvimento no Barroco; foi apreciado por poetas e prosadores, em particular, por Gregório de Mattos, Por exemplo, no poema A Instabilidade das Cousas do Mundo:
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, (antítese: nascer / morrer)
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura, (antítese: feio / belo)
Em contínuas tristezas a alegria. (...)
A antítese realça, dá ênfase a dualidade de sentimentos do poeta. Por isso eles a empregam com frequência. ®Sérgio.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O TROVADOR

Trovador (trouvère em francês) designava na lírica trovadoresca, o poeta completo, que compunha a letra e a melodia das cantigas e também as executava acompanhado de instrumento musical.
O mais das vezes, o trovador pertencia à aristocracia ou era um fidalgo decaído. É precisamente sua condição de nobre que lhe explica a múltipla capacidade, pois ao talento individual acrescentava o estudo apurado das regras da Retórica, da Poética e da Música. Era igualmente de nobres, na sua grande maioria, o público ouvinte. Reis e outros membros da família real partilhavam esse dom da composição poética: tal foi o caso de D. Dinis (chamado o Rei-trovador) a quem se creditam umas cento e trinta e nove canções.
Os trovadores de maior destaque na lírica galego-portuguesa são: Dom Duarte, Dom Dinis, Paio Soares de Taveirós, João Garcia de Guilhade, Aires Nunes e Meendinho.®Sérgio.

A FRITADA DO JOÃO

Era uma vez um fazendeiro que resolveu fazer uma grande criação de galinhas num rancho que tinha lá nas suas terras.
O fazendeiro tinha como capataz um preto velho chamado João e entendeu de encarregá-lo desse serviço, pois, com a idade que tinha, devia ter uma boa prática de criações. Entretanto, receando que João lhe passasse a perna e fosse um gambá de galinheiro, embora morasse há tanto tempo na fazenda, o fazendeiro usou de manha para ver se ele gostava de ovos. Perguntou-lhe:
— João, você gosta de ovos cozidos?
— Eh! Eh! João não gosta nem um pouquinho disso não!
— E de ovos assados na brasa?
— Não sinhô.
— E de ovos estrelados?
— Não, não, sinhô. Eh! Eh!
— E de ovos crus, você gosta João.
— Não, não. Antão João é gambá pra modo de gostá de comê zovo cru?!
Depois dessas respostas do velho, o fazendeiro cegou a conclusão de que João não gostava de ovos de modo nenhum; assim, achou que ele estava no ponto para cuidar do rancho das galinhas e deu-lhe a empreitada.
O velho João tratava muito bem das galinhas e a criação prosperava que dava gosto.
O fazendeiro aparecia por lá de vez em quando e ficava para lá de satisfeito.
Certa vez, João que era um perfeito gambá de galinheiro, estava fritando ovos para o seu almoço quando, de repente, o fazendeiro apontou na porteira que rangeu: rim... ri... im... Depois, dobrou e deu o baque de aviso: blaaaam...
João ficou todo atrapalhado e não tendo mais tempo, nem onde esconder os ovos, que estralavam na frigideira, e vendo que o senhor chegava, despejo-os dentro do chapéu de couro que logo pôs na cabeça.
Muito vexado, correu ao encontro do fazendeiro, que olhando para ele, viu a gordura da fritada escorrendo pela cara abaixo de João. Além do mais, era a primeira vez que o velho lhe falava de chapéu na cabeça. Desconfiado o fazendeiro gritou:
— João, que é isso! Falando de chapéu na cabeça?! Tire o chapéu, João!
O nego velho abobou.
— Vamos tire o chapéu!
João não teve outro remédio senão tirá-lo. Em cima do cabelo da cabeça apareceu a fritada.
— Então, João, que é isso. Mentiu para mim? Pois não me disse que não gostava de ovos?
— Eh! Eh! Senhor! João disse que não gostava di zovo cuzido, di zovo assado, di zovo estrelado, di zovo cru; mas não disse que não gostava di zovo fritangado. João não minte! ®Sérgio.

NA ÉPOCA DAS CAVERNAS


segunda-feira, 13 de maio de 2013

BATEU A OU À PORTA?

Se você bateu a porta, significa que você fechou a porta (a porta é objeto direto do verbo bater):
    ●   Furiosa, Sandra entrou no quarto e bateu a porta.
    ●   Tive de bater a porta com força.
Se você bateu à porta, quer dizer que bateu na porta (à porta = adjunto adverbial de lugar):
    ●   De manhã cedo, bateram à porta de dona Joana.
    ●    Bati à porta, mas ninguém me atendeu.
Belo exemplo do assunto abordado no dá o poeta Cineas Santos: "Quando o amor bate à porta, tudo é festa / Quando o amor bate a porta, nada resta". ®Sérgio.

AULA NO CAMPO

O professor de geografia chamou-me, à porta de minha sala de aula. Interrompi a exposição que fazia aos alunos e fui atendê-lo.
— Pois não!
— Ricardo! Vou levar meus alunos para uma aula de campo na chácara do diretor; escalei você para me ajudar a controlar a meninada no mato! - Explicou o professor.
Luís Carlos, professor de geografia, era um dos bons amigos que fiz naquela escola; não havia como não aceitar o pedido. Concordei com um, OK!
Retornei ao centro da sala, notifiquei e dispensei os alunos, que levaram menos de um minuto para arrumarem suas mochilas, e fui reunir-me com Luís, que já me aguardava no ônibus que levaria a molecada para o campo. Antes, porém, fui até a sala dos professores e guardei no meu armário todos os objetos que porventura poderia perder na mata.
Seguíamos, vagarosamente, por uma trilha, com o professor Luís explicando aqui e ali os acontecimentos geográficos, quando nos deparamos com um riacho e uma ponte estreita feita com dois troncos de árvore, presos ao solo em cada uma das margens. Tipo de ponte que aqui se dá o nome de pinguela.
— Ricardo!... Temos de atravessar!... Vou atravessar primeiro e você só depois que o último aluno atravessar! - Grita-me Luís em meio à algazarra da meninada.
Fiz-lhe um positivo e ele partiu, não sem antes advertir os alunos para tomarem cuidado com os objetos pessoais e, principalmente, com as mochilas. Caso elas caíssem no riacho, seria difícil de recuperá-las, devido à correnteza.
Logo após os primeiros passos na pinguela, o professor Luís, perde o equilíbrio e, se não se agarra a um dos troncos, cairia, inteiro, no riacho. Depois desse incidente, atravessamos a garotada normalmente.
Eu, sem noção do tempo, ali no meio da mata, pois tinha deixado meu relógio na escola, perguntei ao professor Luís quanto tempo faltava para retornamos:
— Não sei mesmo – respondeu-me, constrangido, olhando para a ponte – deixei cair meu relógio, no riacho, ao atravessá-la.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

AS VEZES OU ÀS VEZES?

Usamos o acento grave em às vezes somente quando for uma locução adverbial de tempo (=de vez em quando, em algumas vezes):
  ●   Às vezes (=algumas vezes) ela chora, às vezes ri.
  ●   Costumo ir, às vezes (=de vez em quando), em encontros culturais.
  ●   Às vezes (=algumas vezes), conto para todos.
  ●   Às vezes os alunos acertam esta questão.
   O Flamengo às vezes ganha do Fluminense.
Quando não houver a idéia de [de vez em quando], não devemos usar o acento grave:
   Foram raras as vezes em que ele veio aqui. (as vezes = sujeito)
   Em todas as vezes, ele criou problemas. 

EXTREMA-DIREITA ou EXTREMA DIREITA?

Com hífen, designa o jogador ou a posição no futebol. Nesse caso, o termo extrema é cada uma das zonas laterais do campo, à direita e à esquerda, por onde atuam os extremas (o extrema-direita e o extrema-esquerda) ou pontas (o ponta-direita e o ponta-esquerda).
Sem hífen, é a tendência política.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA E TIRADENTES

Durante os interrogatórios feitos pelo governo português para descobrir "os cabeças" da malograda conspiração mineira, todos os envolvidos procuraram diminuir sua culpa e responsabilizar Tiradentes, o único participante pobre e popular do movimento. Tomás Antônio Gonzaga, por exemplo, que nunca se dera bem com Tiradentes, chega a chamá-lo numa de suas liras escritas na prisão, de «pobre, sem respeito e louco». Gonzaga foi o inconfidente que melhor se deu bem no exterior, tornando-se um verdadeiro magnata no exílio. Casou-se com Juliana de Souza Mascarenhas, herdeira de uma das maiores fortunas de Moçambique, filha de um riquíssimo "traficante de escravos". Quando morreu em janeiro ou fevereiro de 1810, Gonzaga era juiz de alfândega de Moçambique. ®Sérgio.

sábado, 30 de março de 2013

DOCE LEMBRANÇA


A AFLIÇÃO DE ADOLF HITLER - Notas Biográficas

Rudolph Binion (psicohistoriador) em seu livro Hitler Entre os Alemães (1984)¹, considera que o ódio de Hitler pelos judeus teria sido motivado por um incidente ocorrido em sua infância: a morte de sua mãe. Nascido em Braunau, na Áustria, Hitler era o quarto filho de Klara, que perdera os três primeiros, pequeninos ainda, pela difteria. Cinco anos depois de Adolf nascia Edmund, que também morreria (de sarampo), e finalmente Paula, que cresceria junto com Adolf. Klara, em vista da má sorte com os filhos homens, agarrou-se tremendamente ao pequeno Adolf, que ela, também, temia perder. Mãe e filho viviam numa associação afetiva.
Quando Klara desenvolveu câncer de seio, a aflição tomou conta da vida de Adolf. Desesperado, ele decidiu contratar o Dr. Edmund Bloch, famoso médico judeu, de honorários elevados. Este médico deixou como testemunho jamais ter visto um jovem tão transtornado com a já esperada morte de sua mãe. Bloch propõe usar, como única medida para tentar minorar o terrível sofrimento de Klara, a aplicação de gaze embebida em iodo sobre as feridas cancerosas; deixando bem claro que tal medida poderia envenenar a paciente. O jovem Hitler insistiu em que tal tratamento fosse realizado e, de fato, Klara morreu da intoxicação provocada pelo iodo; na verdade, o iodo apenas abreviou o curso de sua morte, muito próxima e inevitável. Hitler sentia-se culpado desta morte e por ter permitido o tratamento. Desde então, passou a nutrir um tremendo rancor pelo médico e, evidentemente pelos judeus. ®Sérgio.
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1- BINION, Rudolph. Hitler Entre os Alemães. Northern Illinois University Press, 1984. Northern Illinois University Press, 1984.

sexta-feira, 29 de março de 2013

A HERESIA GREGA

Em 500 a. C., o filósofo grego Anaxágoras concebeu a teoria de que o Sol é uma massa de pedra ardente, do tamanho pouco maior que o território da Grécia.
Foi preso, acusado de heresia. Para os gregos o Sol era resultado do passeio do Deus Hélio pelo céu, a bordo de uma carruagem com cavalos que soltavam fogo pelas narinas. ®Sérgio.
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Fonte: A Luz da Ciência e da Fé, Revista Veja, 9 de março de 211; p. 84.

quarta-feira, 27 de março de 2013

DANTE E VIRGÍLIO NO INFERNO

A cada dia entro em meu estúdio cheio de alegria; à noite, quando a escuridão me obriga a deixá-lo, mal posso esperar pelo dia seguinte. Se eu não pudesse devotar-me à minha amada pintura eu seria um pobre coitado.
Este quadro representando Dante e Virgílio no Inferno (1850), pintado por William-Adolphe Bouguereau, pintor francês, (1825–1905), foi inspirado em uma cena de A Divina Comédia de Dante Alighieri, situado no oitavo círculo do Inferno (o círculo de falsificadores e falsários), onde Dante, acompanhado por Virgílio, assiste a uma luta entre duas almas condenadas: Capocchio, um herege e alquimista, é atacado e mordido no pescoço por Gianni Schicchi que tinha usurpado a identidade de um homem morto, a fim de reivindicar sua herança de forma fraudulenta. Gianni Schicchi se joga em Capocchio, seu rival, com fúria através de músculos, nervos, tendões e dentes. Ao fundo, vê-se um demônio sorrindo para Dante e Virgílio, contemplando-os, parece deliciar-se com todo o cenário de eterna angústia, sofrimento e terror. Em redor deles, os que sofrem as respectivas consequências de suas existências materiais voltadas todas para a violência. Há amargura e força nesta tela. ®Sérgio.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A PARÓDIA

A crítica literária moderna reconhece em Don Quixote de La Mancha a maior paródia (grego, paróidía) de todos os tempos. Ao parodiar as peripécias do romance de cavalaria, Cervantes criticou a vaidade, a presunção do gênero e criou a nova linguagem da ficção. De caráter lúdico (divertido) ou ideológico e conteúdo crítico mais ou menos explícito, mas, sempre presente, a paródia é a recriação cômica ou imitação burlesca (cômica) de uma obra. Um dos livros do escritor Mário de Andrade, por exemplo, recebeu o título de A Escrava que não era Isaura, numa referência cômica ao romance de Bernardo Guimarães, A Escrava Isaura.
A paródia é, geralmente, confundida com a sátira, a paráfrase e a alusão. Entretanto, é possível estabelecer uma distinção entre esses gêneros:
A sátira , por exemplo, censura um texto preexistente, mas não o deforma. A paráfrase desenvolve, ou seja, reescreve um texto preexistente, sem censurá-lo, não imita. A alusão faz, somente, uma referência indireta a um texto preexistente.
Observe, a seguir, o fragmento do poema Canção do Exílio (à esquerda), e a paródia (fragmento) escrita pelo poeta Murilo Mendes:
Nossos céus têm mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Nossas flores são mais bonitas,
Nossas frutas mais gostosas,
Mas custam cem mil réis a dúzia.
Aí quem me dera chupar uma carambola de verdade.
Embora conserve o tema de Gonçalves Dias, Murilo Mendes corrompe e modifica o conteúdo, transformando a exaltação de Gonçalves em ironia-crítica, criando, assim, uma paródia. ®Sérgio.

sábado, 9 de março de 2013

A PERSONAGEM OU O PERSONAGEM?

Em português, quase todas as palavras terminadas em [-agem] são do gênero feminino: a ramagem, a abordagem, a folhagem, a aparelhagem. Entretanto, no caso da palavra personagem, atualmente, você tem três opções de uso. Vejamos:
1. Como Sobrecomum Masculino - serve para ambos os sexos, mas só tem a forma masculina. Portanto, se optar por esse tipo de substantivo uniforme, você deve usar sempre a forma masculina, ou seja, o personagem, independente de ser homem ou mulher: o personagem Jeca Tatu, o personagem Bentinho, o personagem Iracema, o personagem Capitu: João e Maria são os personagens de um conto de carochinha.
2. Como Sobrecomum Feminino — serve para ambos os sexos, mas só tem a forma feminina. Se a opção for esta, deve usar sempre a forma feminina a personagem, também, independente de ser homem ou mulher: a personagem Jeca Tatu, a personagem Bentinho, a personagem Iracema, a personagem Peri.
   João e Maria são as personagens de um conto de carochinha.
3. Como Comum-de-Dois — quando distinguimos o masculino e o feminino pelo termo que o antecede: [o], [a], [teu], [tua], [esse], [essa] personagem. Assim, vamos usar a personagem quando mulher e o personagem quando homem: o personagem Hamlet, a personagem Aída.
   O personagem Visconde povoa o imaginário das crianças.
   A personagem Narizinho povoa o imaginário das crianças.
Observações:
1ª. Quando usar o termo personagem sem a definição de gênero, isto é, de forma abstrata, coloque-o no masculino (o personagem): Como ficarão os personagens (homens e mulheres) da oposição?
2ª. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa e o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, consideram personagem um substantivo de dois gêneros. ®Sérgio.

quarta-feira, 6 de março de 2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

O TERRÍVEL CRONOS

Os titãs nasceram da união entre Urano, que representava o Céu, e Gaia, que seria a Terra. O poeta grego Hesíodo, que viveu no século sete a. C., narra o surgimento dos titãs, numa obra clássica chamada Teogonia:
Urano irritou-se, certa feita, com as injúrias que imaginava receber de seus filhos. Por isso decidiu encerrá-los no ventre de Gaia, a mediada que iam nascendo. Tendo de segurar em suas entranhas os turbulentos titãs e suportar ao mesmo tempo, o assédio insaciável e ininterrupto do marido, Gaia incentivou um de seus filhos, Cronos - o mais importante dos titãs e o mais jovem também - a decepar os órgãos genitais de Urano, fazendo com que este se afastasse dela. Gaia erguendo uma enorme foice de diamante entregou-a ao filho para que mutilasse os órgãos genitais do pai.
Cronos apanhou a foice e dirigiu-se para o local onde seu velho pai descansava. Ao chegar empunhou a foice e a fez descer abaixo da cintura do pobre Urano. Seus testículos, arrancados pelo golpe certeiro da foice, voaram longe e foram cair no oceano. Imediatamente foram soltos todos os outros titãs, irmãos de Cronos, que era agora o senhor de todo o universo. A partir de então, o mundo foi governado pela linhagem dos Titãs que, segundo Hesíodo, constituía a segunda geração divina.
Cronos se uniu a uma de suas irmãs, Réia, com quem teve seis filhos (os Crónidas): três mulheres, Héstia, Deméter e Hera e três rapazes, Hades, Poseidon e Zeus. Como tinha medo de que os descendentes desafiassem seu poder sobre o mundo, ele engolia todos os seus filhos. Esse medo era oriundo da praga que seu pai lhe lançara no dia em que o mutilara com a foice: "Do mesmo modo que usurpou o meu mando supremo, irá também perdê-lo pela mão de um dos seus filhos". Comeu todos exceto Zeus, que Réia, depois de entregá-lo aos cuidados das ninfas da floresta, enganou Cronos enrolando uma pedra em um pano, a qual ele engoliu sem perceber a troca.
Após crescer e se tornar forte, Zeus resolveu vingar-se de seu pai, solicitando para esse feito o apoio de Métis - a Prudência - filha do Titã Oceano. Esta ofereceu a Cronos uma poção mágica, que o fez vomitar os filhos que havia devorado.
Com a ajuda dos irmãos, Zeus derrotou Cronos e outros titãs numa grande batalha chamada Titanomaquia, e passou a ser o grande chefe de todos os deuses gregos. Cronos e seus aliados foram presos para sempre no Tártaro, o mundo subterrâneo para onde iam os mortos. O abismo de Tártaro é tão profundo que seus recessos estavam tão abaixo de seus pés quanto o céu estava acima de suas cabeças. ®Sérgio.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

MARTÍRIO

Seleta de Poemas representa as poesias que li e tocaram-me a alma. Assim, posso compartilhar com vocês as minhas preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
MARTÍRIO
Beijar-te a fronte linda
Beijar-te o aspecto altivo
Beijar-te a tez morena
Beijar-te o rir lascivo
Beijar o ar que aspiras
Beijar o pó que pisas
Beijar a voz que soltas
Beijar a luz que visas
Sentir teus modos frios,
Sentir tua apatia,
Sentir até repúdio,
Sentir essa ironia,
Sentir que me resguardas,
Sentir que me arreceias,
Sentir que me repugnas,
Sentir que até me odeias,
Eis a descrença e a crença,
Eis o absinto e a flor,
Eis o amor e o ódio,
Eis o prazer e a dor!
Eis o estertor de morte,
Eis o martírio eterno,
Eis o ranger dos dentes,
Eis o penar do inferno!
• Luís José Junqueira Freire (1832 —1855 ) ®Sérgio.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A FARSA

A farsa - principal forma de teatro cômico medieval -, despontou no crepúsculo da Idade Média francesa, por volta do século XVI. A princípio consistia numa breve peça cômica, apresentada, a modo de intervalo, no meio dos mistérios (peça de longa duração sobre a história da religião); mais tarde passou a desenvolver existência autônoma. Por sua origem cômica, a farsa tende para a comédia de costumes e de caracteres.
Dentre todas as peças curtas do teatro profano, este tipo pretende provocar o riso sem intenção didática ou moralizante; mas sim, a partir de exageros tirados da observação da vida quotidiana. A farsa depende mais da ação do que do diálogo; mais dos aspectos externos (cenários, roupas, gestos, etc.) do que do conflito dramático. É simples (não usa alegorias), é maliciosa, grosseira e direta (vai diretamente as coisas). Mostra gente do povo em seu ambiente familiar. Seus personagens, em número restrito, são tirados da vida urbana em desenvolvimento. Não estão investidos de requintes psicológicos, mas representam "condições" (marido, mulher, amante, patrão, empregado), ou tipos facilmente reconhecíveis tomados à burguesia (o comerciante, o advogado, o louco, o médico, o tolo, etc.). Seu esquema repousa no trapalhão, enganado por alguém mais esperto.
A farsa se distingue da comédia propriamente dita por não observar regras de verossimilhança e difere da sátira ou da paródia por não pretender questionar valores. Também é possível definir a farsa como o oposto da fábula, na medida em que a farsa, ao contrário da fábula, apresenta o que se pode denominar de uma falso moral.
Dentre os numerosos exemplares desse gênero (mais de cento e cinquenta) produzidos entre 1440 e 1560, época de seu florescimento, destaca-se La Farce de Maîte Pathélin,  composta entre 1460 e 1470. Após exercer notável influência sobre o teatro seiscentista (Molière, Shakespeare, Commedia Dell'arte) a farsa continou até nossos dias com Labiche, Tristan Bernard, para citar apenas dois nomes. A comédia romântica, não raro, utilizou expedientes peculiares a farsa. ®Sérgio.

O BURLESCO

Termo proveniente do latim burrula = gracejo, brincadeira, farsa; em italiano burla e em francês burlesque.
O Burlesco rotula as obras literárias ou teatrais que visam à comédia de obras clássicas de assunto sério como as epopeias, por meio do ridículo, da zombaria ou da paródia; quer dizer, transveste o nobre em vulgar. Tomemos como exemplo a obra Virgile Travesti (1648) do autor francês (século XVII) Paul Scarron, uma paródia ao poema épico de Virgílio. Scarron foi o primeiro autor a empregar o termo burlesco (1643) e adotá-lo como rótulo de sua paródia. Do mesmo autor, destaca-se: Le Roman Comique (1651), em que satiriza a vida e os costumes provincianos da época. Na frança o burlesco perdurou até 1660.  
O Burlesco acabou por migrar para outras formas de exposição pública, como a rádio e a televisão, sendo que hoje muitos espetáculos musicais e humorísticos da televisão e do teatro devem seu sucesso ao burlesco. ®Sérgio.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A ONÇA, O BURRO E A RAPOSA - Recontando Contos Populares

No tempo em que os animais falavam a Onça, o Burro e a Raposa, se juntaram para uma caçada. Os três conseguiram abater um animal muito grande, e a Onça pediu ao Burro que repartisse a caça, para cada um ter a sua porção.
O Burro partiu o animal em três porções iguais, e disse a Onça e à Raposa que escolhessem suas partes.
A Onça zangou-se por não receber uma porção maior, e atirando-se ao Burro, comeu-o. Depois, disse para a Raposa:
— Agora pegue a sua porção!
A Raposa pegou para ela só um bocadinho da caça; juntou o resto e disse a Onça:
— Pegue o resto. Para mim chega essa porçãozinha!
Diz a Onça:
— Beleza! Quem te ensinou a repartir assim?
Responde a Raposa:
Quem foi?! Foi a desgraça do pobre Burrico.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O ANIMISMO OU PERSONIFICAÇÃO

Também chamada de prosopopeia. A personificação atribui vida ou qualidades humanas a seres inanimados, irracionais, ausentes, mortos ou abstratos. A humanização ou animismo pode dar-se de vários modos, a saber:
a) Quando se conferem a objetos inanimados e a abstrações qualificativos próprios do ser humano, por exemplo: O dia amanheceu enfurecido.
b) Ao emprestar às coisas inanimadas poder de ação peculiar aos seres humanos: A chuva semeou um pouco de esperança no solo calcinado.
c) Quando nas apóstrofes, nos dirigimos aos seres inanimados como se fossem capazes de inteligência ou compreensão: E tu, nobre Lisboa, que no mundo [...]. (Camões)
d) Quando a matéria inerte e os seres abstratos adquirem [voz], como, por exemplo, no Criton, diálogo acerca de Sócrates na prisão, em que Platão põe as Leis a falar.
A mais genialmente arrojada prosopopeia da língua portuguesa é, sem dúvida, a personificação do Cabo das Tormentas na figura do Gigante Adamastor. (Camões, Os Lusíadas, V, 39-59.)
Há, todavia, quem estabeleça distinção entre Prosopopeia, Personificação e Animismo, reservando os dois primeiros para referir a atribuição de qualidades ou comportamentos humanos a seres que não o são e o último para a expressão de sinais ou comportamentos vitais atribuídos a coisas inanimadas, como as rochas, os metais, os objetos, etc.; mas sem os elevar à categoria de humanos. Exemplificando:
   As árvores torciam-se e gemiam, vergastadas pelo vento. (Prosopopéia e personificação)
   Chegada à noite, os cumes das montanhas e os picos das serras deixavam-se adormecer no travesseiro celeste. (animismo) ®Sérgio.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

AS DUAS MÃES

Seleta de Poemas representa as poesias que li e me tocaram a alma. Assim, posso compartilhar com vocês as minhas preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
AS DUAS MÃES
Numa igreja se encontraram
Duas mães em certo dia;
Uma entrava, e nesse instante,
Toda cheia de alegria,
Orgulhosa e triunfante,
Levava, chegando ao peito,
Um filhinho a batizar.
Outra, a infeliz que saía
Levava um filho também...
Oh! Mas essa pobre mãe
Levava um filho a enterrar!
Cruzaram-se, a poucos passos,
A que trazia nos braços
Cheio de vida e conforto,
O filho dos seus encantos,
E a triste, lavada em prantos,
Que seguia o filho morto!
Trocaram ambas o olhar...
Nisto a mãe afortunada
Foi que rompeu a chorar;
Enquanto a desventurada
Que o filho tinha perdido
— Oh! Maravilha do amor –
No meio de sua dor
Sorriu ao recém-nascido!
Soulary (1815-1891), poeta francês (tradução de Bulhão Pato). ®Sérgio.

O ENTERRO DA CIGARRA

Seleta de Poemas representa as poesias que li e tocaram-me a alma. Assim, posso compartilhar com vocês as minhas preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
O ENTERRO DA CIGARRA
As formigas levaram-na... Chovia...
Era o fim... Triste outono fumarento!
Perto uma fonte, em suave movimento,
Cantigas de água trêmula fazia.
Quando eu a conheci, ela trazia
na voz um triste e doloroso canto.
Era a cigarra de maior talento,
Mais cantadeira desta freguesia.
Passa o cortejo entre árvores amigas...
Que tristeza nas folhas... Que tristeza!
Que alegria nos olhos das formigas!
Pobre cigarra! Quando te levavam,
Enquanto te chorava a natureza,
Tuas irmãs e tua mãe cantavam...
• Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 - 1958). ®Sérgio.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013