sexta-feira, 18 de maio de 2012
quinta-feira, 17 de maio de 2012
A CASA ASSOMBRADA - Causos de Assombração
Numa noite fui surpreendido, em minha casa,
por portas que se abriam e se fechavam sozinhas. Em outras noites, eram as luzes
que se acendiam como que por magia, além de copos que voavam da pia para o
chão. Até pedras caíam no telhado. Apesar desses acontecimentos, felizmente,
ninguém se feria.
Tivesse um raio caído aos meus pés, não me
mostraria eu tão aturdido com esses acontecimentos. Envolto em fria mortalha de medo, decidi recorrer ao padre
capelão. Pedi-lhe que fosse a minha casa, fizesse umas rezas e expulsasse os
espíritos. O capelão bebeu uma grande taça de
vinho, ficou um instante a refletir e, então, pediu ao sacristão para lhe trazer
a grande cruz de madeira, a bíblia e o vaso de água benta. Colocou a estola e
julgando-se armado para afugentar aquelas almas demoníacas, seguiu comigo para
a casa assombrada.
Não queria acreditar,
quando assistiu, ele próprio o que lhe tinha relatado na sacristia. Aquelas
coisas estranhas aconteciam mesmo. Todos, em casa, lhe rogaram para que
benzesse o lar e, mais, que fizesse um exorcismo e terminasse com aquela aflição.
Entoando os sete salmos
e orações (o sacristão, por ordem do padre, à frente com a cruz erguida) o
capelão ia espalhando água benta por todos os cantos gritando: “Vai-te embora
satanás, vai-te embora...”.
Mesmo na presença
capelão, os espíritos não se
aniquilaram. Choveram pedras, portas e janelas abriram e fecharam-se
sozinhas e até alguns peças de roupa começaram a arder.
Não se deixando
convencer, ainda que tenha presenciado tão estranhos eventos, sem solução, o
capelão recorreu a uns amigos ligados à parapsicologia.
Um dos parapsicólogos
perguntou-me, pela idade de todos que frequentavam a casa, na esperança de que
o causador fosse algum adolescente dado a brincadeiras. Segundo os estudos de
parapsicologia, são eles os responsáveis por 90% destes casos. Respondi que
adolescente na minha casa só o meu neto, um rapaz de 15 anos, que viera passar
as férias. Por sugestão do parapsicólogo afastamos meu neto de casa por alguns
dias e, tal como se supunha, não houve mais nenhum objeto voador. Ele confessou
ao parapsicólogo que seus pais tiveram de viajar, a trabalho, e deixaram-no na
casa dos avós, cuja cidadezinha detestava. ®Sérgio.
terça-feira, 15 de maio de 2012
A SINÉDOQUE
Não é costume, hoje, estabelecer
grande diferença ente a metonímia e
a sinédoque, pois esta é um caso especial de metonímia, onde, ora se exprime o
mais restrito (a parte) pelo mais extenso (o todo), ora o todo pela parte: chaminé
pela fábrica, o telhado pela casa, o singular pelo plural, a substância pelo produto, a nação pelo
governo, o gênero pela espécie, etc.
Observe:
•
As chaminés
forjam a grandeza de São Paulo.
(a parte: chaminé, pelo todo: fábrica).
•
O homem é mortal (a espécie pelo gênero).
•
A vela singrou
os mares (a parte: vela, pelo todo: navio).
•
O índio é valente (o singular:
índio, pelo plural: índios).
•
Não dá
para viver sem um teto. (a parte pelo todo)
•
Lento o
bronze (o sino) soa. (a
matéria pelo objeto que dela é feito)
Fica explicito, portanto, que na sinédoque
há uma relação de extensão. Isto é, um termo de extensão menor substitui outro de
extensão maior, e vice-versa.
Convém ter-se presente que a metonímia e a
sinédoque nem sempre são percebidas como uma figura de estilo, pois algumas de
suas construções já pertencem à linguagem comum: o pão de cada dia, ter bocas
para alimentar, dizem as más línguas, os sem-teto, etc. ®Sérgio.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
A HOMOSSEXUALIDADE DE FARAÓS
Um
papiro com 5000 anos de idade, pertencente ao Museu Rosa-Cruz de San Jose, na
Califórnia, mostra que os antigos egípcios tinham tendência a bisbilhotarem
sobre a vida alheia. No papiro especulam a homossexualidade de faraós, entre
outras coisas. O documento fala de um rei não identificado que visita à noite,
frequentemente, a casa de um de seus generais. O uso da frase em cuja casa não
existe esposa sugere que o faraó estava tendo um relacionamento gay. Isso,
entretanto, não significa necessariamente que os egípcios fossem contra tal
tipo de relacionamento. A desaprovação implícita parece estar mais focada no
fato de que dessa maneira não haveria herdeiro para o trono. ®Sérgio.
________________________________________
Fonte: O Fascínio do Antigo Egito.
Disponível em: http://www.fascinioegito.sh06.com/index.html
quarta-feira, 9 de maio de 2012
A ESTÂNCIA
Serve para dar nome às
estrofes regulares, isto é, a seqüência de grupos de versos organizados segundo
um único padrão. O que a difere a estância da estrofe é a repetição do mesmo
dispositivo estrófico em todo o poema, ou seja, agrupamentos com número de
versos fixos, sujeitos a mesma medida e igual arranjo de rima. Os Lusíadas, por exemplo, tem 1 102
estâncias, quer dizer que suas unidades métricas apresentam estrutura uniforme:
a oitava heróica. No soneto, entretanto, o termo válido é estrofe, visto que se
compõe de modo irregular: duas quadras e dois tercetos. Cabe ressaltar que os
estudiosos nem sempre estão de acordo com tal consideração. ®Sérgio.
DÉCIMA
É
o poema ou a estrofe de dez versos. Podemos distinguir dois tipos de décima:
A medieval: encontrada com freqüência desde o Trovadorismo até o século XVI.
Segundo alguns estudiosos, era uma falsa décima, pois, compunha-se de duas
quintilhas independentes pela rima e separadas por uma pausa.
A clássica, também chamada de espinela
(em homenagem ao seu presumido inventor, o poeta espanhol do século XVI,
Vicente Espinel), consta de uma quadra e uma sextilha, geralmente formada por
versos heptassílabos (de sete sílabas) e com o seguinte esquema de rimas: ABBA
ACCDDC. A ideia apresentada na
quadra é desenvolvida na sextilha:
Soltai-me,
Amor enganado, [a]
Que
enganado me prendeis; [b]
Que
em meu poder não tereis [b]
Seguro o vosso cuidado. [a]
Sou
um pastor desprezado, [a]
Que
numa aspereza vivo, [c]
A
toda brandura esquivo, [c]
Sujeito
a todo rigor, [d]
Não
posso servir a Amor, [d]
Que
estou de sorte cativo. [c]
Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622), poeta português.
Também
chamada de pequeno soneto a décima
foi vastamente empregada, sobretudo como estrofe. O poeta Gregório de Matos,
entretanto, a cultivou como poema isolado:
Décima
Se
Pica-flor me chamais, [a]
Pica-flor
aceito ser, [b]
mas
resta agora saber, [b]
se
no nome que me dais, [a]
meteis
a flor, que guardais [a]
no
passarinho melhor! [c]
Se
me dais este favor, [c]
Sendo
só de mim o Pica, [d]
e
o mais vosso, claro fica, [d]
que fica então Pica-flor. [c]
Os
românticos não a apreciaram muito. Mas os parnasianos a repuseram em
circulação. Os nossos cantadores nordestinos utilizam-na com freqüência. ®Sergio.
terça-feira, 8 de maio de 2012
COMIC-STRIPS
Comic-Strips é uma expressão em língua
inglesa que significa: tiras cômicas
e pela qual são conhecidas as histórias de quadrinhos publicadas ao longo do
século 20 e no 21, em jornais diários (as tiras diárias), as tiras de
domingo (em sequências mais longas) e em revistas que se especializaram
nisso.
As tiras diárias normalmente são impressas
em preto e branco, e as tiras de domingo são normalmente de cor. No entanto,
alguns jornais publicam tiras diárias coloridas, e alguns jornais publicam as
tiras de domingo em preto e branco.
A finalidade do comic-strips é contar
histórias através da imagem com o mínimo de texto, passando os episódios a se
explicarem por si mesmo, através da ação, dos balões que contém as falas,
reduzidas sempre à expressão mais sintética, geralmente, baseadas em expressões
onomatopaicas.
A ideia, entretanto, vem da Antiguidade.
Arqueólogos encontraram no Egito frisos que continham desenhos narrando
aspectos da vida de importantes personalidades. Os pintores sacros da
Renascença fizeram a mesma coisa com episódios bíblicos, chamados de o Pauperum Bíblia (Indigente
Bíblia). Foi nos Estados Unidos, porém, que as histórias em quadrinhos chegaram
ao apogeu. Na Itália também fizeram sucesso. Quando desenhadas são ali chamadas
fumetti e quando fotografadas foto
filmes. O Brasil tem também criado as suas comic-strips. ®Sérgio.
A BAILADA OU BAILIA
Do Latim; ballare = dançar - Poema medieval, acompanhado de
movimentos coreográficos, do tipo das cantigas de amigo, originário da
Provença. Composta geralmente em estrofes com repetições de versos, pressupunha
a existência de um grupo de moças com funções diferenciadas: uma delas, dotada
de melhor voz, a cantadeira, entoaria as principais cobras (estrofes), e as
demais, em coro, o estribilho ou refrão. Se o número de estrofes correspondesse
ao número de figurantes, cada uma delas se encobriria de uma estrofe, e todas
se reuniriam para dizer o estribilho ou refrão. Geralmente, a bailada abordava
temas e situações alegres e festivos. O vocábulo bailada e balada tem a mesma
origem: ballare. ®Sérgio.
O APOTEGMA
O Apotegma - do Grego apóphthegma = sentença - diferencia-se
do aforismo por encerrar de modo primoroso e claro, um saber baseado em sentenças
de figuras ilustres antigas, dignas de lembrança e imitação. Ao passo que, o
aforismo pode abrigar sentenças de autoria popular.
Plutarco (século I a. C.)
foi o primeiro nome na Antiguidade greco-latina a reunir ditos memoráveis de
reis, políticos e soldados eminentes, de várias regiões e épocas, em sua Apophthegmata Lacônica.
A Nova Floresta (1706 –1728), do Padre Manuel Bernardes, é um dos
mais significativos, pela quantidade e qualidade dos apotegmas que coleciona e
comenta.
O Marquês de Maricá
ficou célebre por suas Máximas, Pensamentos
e Reflexões (1837-43), de onde se registra este apotegma: A vaidade de muita ciência é prova de pouco
saber. ®Sérgio.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
LIMA BARRETO: ABSOLUTO ANIQUILAMENTO
O carioca Afonso
Henriques de Lima Barreto (1881 – 1922), uma das figuras mais fascinantes e
controvertidas da literatura brasileira, entregou-se à bebida o que o levou a
constantes crises de depressão, de modo, que teve de internar-se por duas vezes no Hospício Nacional (em 1943
em 1919). Na segunda estadia, obrigado a varrer, em público, o pátio do
manicômio, confessa:
"Veio-me repentinamente,
um horror à sociedade e à vida; uma vontade de absoluto aniquilamento, mais
daquele que a morte traz; um desejo de perecimento total da minha memória na
terra; um desespero por ter sonhado e terem me acenado tanta grandeza, e ver
agora, de uma hora para outra, sem ter perdido de fato a minha situação, cair
tão, tão baixo, que quase me pus a chorar que nem uma criança." ®Sérgio.
RETRATO DO PARADOXO
Miguel de Cervantes Saavedra é o retrato do paradoxo. É pobre e rico,
nobre e plebeu. É síntese de seu tempo, de seu país, intolerante e libertário,
poeta e louco. E paradoxal é também (o herói de sua obra principal) Dom Quixote
da Mancha. Ambos vivem e meditam, descompassados, ora sonhos altos e nobres de
almas generosas, ora mesquinhas realidades de vida agarrada e ridícula. Cervantes
é o repórter de Quixote, diz Lourenço.
Professor José Lourenço de
Oliveira (1904 – 1984), humanista, filólogo, linguista e filósofo da linguagem.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
VENDER SÓ FARELO
Não
sei se Geoffrey Chaucer gostaria de ver
sua poesia exposta assim em meu blog, mas não posso deixar de postar meus poemas
preferidos de vez em quando...
Seleta de Poemas representa as poesias que
li e tocaram-me a alma. Assim, posso compartilhar com vocês as minhas
preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
Vender
Só Farelo
Meu Jesus Cristo! Quando me recordo
Da minha juventude da alegria,
Arrepia-me a raiz do coração.
Até hoje ao coração me faz um bem
Ter tido o meu mundo no meu tempo.
Mas a idade – ai de mim – que tudo estraga
Roubou-me a beleza e o vigor.
Pois que se vá, adeus! Para o diabo!
Acabou-se a farinha, já não há:
Resta-me, então, vender só o farelo.
Geoffrey
Chaucer (1343 - 1400), escritor, filósofo e diplomata inglês. Embora
tenha escrito muitas obras, é mais lembrado pela sua obra narrativa inacabada,
Os Contos da Cantuária (The Canterbury
Tales), uma das mais importantes da literatura inglesa medieval.
terça-feira, 24 de abril de 2012
MARCO PÓLO: O LIVRO DAS MARAVILHAS
O explorador Marco Pólo (1254 – 1324)
se tornou prisioneiro durante um ano, ao comandar uma esquadra na guerra entre
Veneza e Gênova. No período em que esteve encarcerado na torre fortificada de
Gênova (1928), conheceu Rustichello da Pisa companheiro de cela de nome
Rusticiano, que não apenas se interessou apaixonadamente por suas histórias,
mas se propôs a escrevê-las. Rustichello era um homem de letras que escrevia em
langue d'oil, ou seja, em francês provençal, língua mais falada por aqueles que
não empregavam o latim. A Rusticiano, Marco Pólo ditou os capítulos da obra o Livro
das Maravilhas – A Descrição do Mundo. Entretanto, Rustichello era um
"romancista", autor de belas histórias lendárias, o que criou em seus
leitores dúvidas sobre a veracidade de seus relatos. Marco Polo ao sair da prisão,
volta para Veneza, onde fica até a morte. No decorrer dos séculos, o Livro
das Maravilhas transforma-se num clássico traduzido para inúmeras línguas.
®Sérgio.
JOHN MILTON E O PARAÍSO PERDIDO
John Milton (1608 - 1674) escritor inglês foi político, dramaturgo
e estudioso de religião, além de um dos principais representantes do classicismo
de seu país. John Milton é autor do célebre livro em 10 cantos, O Paraíso Perdido (Paradise Lost),
um dos mais importantes poemas épicos da literatura universal. Em setembro de
1643 a visão do poeta começa a declinar. Em outubro de 1659 o poeta foi preso permanecendo
encarcerado até 1664. Enquanto cumpria sua pena, teria ficado cego, vítima de
glaucoma. Na prisão, ditou o Paraíso Perdido (sua obra-prima), um oráculo de sua vida interior publicado
originalmente em 1667, e ampliado a
doze cantos (em memória à Eneida de Virgílio), na segunda edição
de 1674. A obra conta a
história da criação de Adão e Eva a queda de Lúcifer e a sua expulsão do
paraíso. Mistura paganismo, mitologia clássica e cristianismo no mesmo
caldeirão. A um leitor novato, leigo e carente de conhecimento de Literatura
Clássica convém ler Paraíso Perdido como
uma espetacular obra de ficção científica.
nesta obra, o poeta ficou consagrado por estilizar o verso branco (possuem métrica, mas não rimam) com admirável perícia e amplo domínio de
técnica. Em 1671, Milton publica o livro Paraíso Recuperado (Paradise Regained) baseado no Evangelho de Lucas,
que conta a vinda de Cristo à Terra reconquistar o que Adão teria perdido. Entre
oito e 10 de novembro de 1674, John
Milton faleceu. ®Sérgio.
JEAN GENET: O ESCRITOR MALDITO
Filho de pai desconhecido e abandonado
pela mãe na infância, Jean Genet (1910 -
1986), o escritor e dramaturgo maldito, entrou cedo no mundo dos crimes,
indo parar em um reformatório aos 10 anos de idade. Fugiu logo em seguida e
mudou de nome, continuando na vida bandida como garoto de programa (batia nos
clientes velhos para limpar-lhes a carteira) e ladrão. Foi para a prisão
novamente e lá permaneceu por 13 anos, período em que iniciou sua carreira
literária. Condenado, por crime de morte, à prisão perpétua, obteve o perdão em
1948 graças aos esforços de Jean Cocteau e Jean-Paul Sartre, rendidos a seu
talento literário; embora só tenha estudado até os 13 anos, deu um banho de
cultura e erudição, devorando e assimilando Mallarmé, Rimbaud, Dostoiévski e
Baudelaire, e ainda aprendeu vários idiomas na prática (alemão, espanhol,
italiano, árabe e inglês). Em 1983 foi-lhe concedido o mais importante prêmio
literário francês, o Grande Prêmio Nacional. Em seus romances e peças de
teatro, cujos protagonistas são quase sempre delinquentes e marginais, Genet
abala a consciência social e a fragilidade do sistema de valores da sociedade
burguesa. Jean Genet usou a literatura autobiográfica para se inventar como
mito, mas a maior parte era mentira. Descrevia-se
como alguém mais perigoso do que realmente era para se valorizar. Foi
bem-sucedido.
Dentre suas obras destacam-se Nossa Senhora das Flores (1940); Querelle – Amar e Matar (1947); publicou
suas memórias em Diário de Um Ladrão
(1949); Um Cativo Apaixonado, originalmente publicado um mês após
sua morte, em 1986, de câncer na garganta. As peças de teatro Haute Surveillance (1949), O Balcão (1956), Os Negros (1958) e Les
Paravents (1961). ®Sérgio.
domingo, 22 de abril de 2012
A TRAGÉDIA DA CAMA
"O homem sobrevive a terremotos, epidemias,
aos horrores da doença e a agonia da alma, mas em todos os tempos, a sua maior
tragédia tem sido, e sempre será, a tragédia da cama."
Leon Tolstoi (1828 – 1910), um dos maiores escritores de todos os tempos.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
A LIÇÃO DO FILHO - Versão dum Conto Popular
O povo conta esta história como
acontecida. Eu não sei se é ou não é. Mas assim ou assado, eu lhe conto:
Era uma vez uma mãe que tinha um filho
muito do mimado e sem educação de espécie nenhuma. Por isso se tornou um garoto "levado da breca". Pior ainda, tinha uma grande inclinação para o furto. Um dia furtou uma
agulha da vizinha.
A mãe do menino soube
do caso e não tomou nenhuma providência.
Uma agulha! Que vale
uma agulha?! Coitado do meu filho!
Não passou muito tempo,
apareceram queixas de outros furtos de objetos de mais valor. Tantos foram os
furtos que o agora rapaz tornara-se um perfeito ladrão. E, quando lhe veio a
idade de ter juízo, não teve emenda. Foi muitas vezes parar na cadeia, e até
cumpriu penas.
A mãe chorava o destino
do filho e lamentava-se de não o ter castigado, nem educado quando pequeno, por
que diz o ditado: De pequenino é que se
torce o pepino.
Uma noite o rapaz
penetrou em uma mercearia para roubar. No meio do serviço foi surpreendido.
Estava armado e, para não ser preso, atirou no dono da mercearia. Matou-o, mas
não consegui escapar. Foi seguro por populares, lavado para a cadeia e, pouco
tempo depois, condenado a morte.
Na hora de ser
enforcado, já do alto da forca, avistou a mãe no meio do povo, a chorar. Pediu,
então, como última vontade, que a deixassem subir onde ele estava. Queria
abraçá-la pela última vez.
A licença foi concedia
e a velha, em pranto, subiu até onde estava o condenado e abraçando-se a ele,
exclamou:
— Meu filho!
— Minha mãe, respondeu
o rapaz, morro enforcado e criminoso por sua culpa. Se a senhora me houvesse
castigado, quando furtei aquela agulha, eu me havia de corrigir a tempo de não
ser um ladrão e assassino. Levo como última recordação do mundo e do ensino que
recebi o nariz de minha mãe, causadora desse destino de desgraça.
E apertando-a mais
entre os braços, deu-lhe uma forte dentada no nariz, arrancando-o.
Nesse mesmo instante o
carrasco abriu o alçapão e a laçada apertou o pescoço do rapaz. ®Sérgio.
______________________________________________________________
Nota: Segundo Lindolfo Gomes, esta história é tida como
acontecida, no Brasil, mas corre em Portugal.
A LIÇÃO DA MÃE - Versão dum Conto Popular
Havia, por esses
cafundós do sertão, em tempos que já se foram, uma mãe que tinha onze filhos,
cada qual mais arteiro que o outro.
Um dia, um deles, o
Pedrinho, cortou o limoeiro de estimação de sua mãe.
Ela não sabia qual dos
onze havia feito à travessura, pois todos negavam de "pés juntos".
Foi então que se
lembrou de uma artimanha que poderia dar certo.
Arranjou onze
pauzinhos, todos de igual tamanho, colocou os meninos perfilados e entregou os
pauzinhos, um a um, a cada filho, recomendando que os mantivessem bem
escondidos, fechando-os na mão. E disse-lhes:
— Agora vou saber quem
cortou o meu limoeiro de estimação. Aquele de vocês que o cortou não poderá negar,
porque o pauzinho que tem na mão há de crescer e não será do tamanho dos
outros: um, dois e... três!
Pedrinho, tremendo, com
medo de ser descoberto, quebrou o pauzinho que lhe tocara, certo de que sendo o
seu menor, não seria desmascarada a sua travessura.
— Abram as mãos!
O de Pedrinho era
menor.
Com sua sabia
estratégia, a mãe ficou sabendo quem lhe cortou o limoeiro de estimação.
Pedrinho levou uma
surra, não fez mais artes e a lição serviu de exemplo para os outros. ®Sérgio.
terça-feira, 17 de abril de 2012
COMO PESSOAS ACORDADAS
" Às vezes sinto necessidade de morrer, como
pessoas acordadas sentem necessidade de dormir."
Mme. Du Deffand (1697 – 1870)
O FIM DE UMA VIAGEM...
"O
fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi
visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão,
ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía,
ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que
aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e
para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem.
Sempre."
José Saramago (1922 –
2010), escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista,
dramaturgo, contista, romancista e poeta português.
VELHAS ÁRVORES
Não sei se Olavo Bilac gostaria de ver sua poesia exposta assim em meu
blog, mas não posso deixar de postar meus poemas preferidos de vez em quando...
Seleta de Poemas
representa as poesias que li e tocaram-me a alma. Assim, posso compartilhar com
vocês as minhas preferências poéticas e homenagear os autores que admiro.
Velhas Árvores
Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e
das procelas...
O homem, a fera, e o inseto, à sombra
delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves
tagarelas.
Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! Envelheçamos
Como as árvores fortes
envelhecem:
Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem.
Olavo Bilac (1865 – 1918), artífice do
verso.
A LENDA SIOUX - Versão da Lenda Americana
Há
uma lenda dos índios Sioux que, com a devida licença, não poderia deixar de
contar-lhes. Mas vou avisando que apesar da narrativa ser minha, a essência da
lenda não foi modificada.
Conta-se
que, certa vez, os jovens índios Sioux Touro Bravo e Nuvem Azul, foram à tenda
do velho feiticeiro fazer um pedido:
—
Sábio senhor, eu amo Nuvem Azul e ela a mim e vamos nos casar. Nosso amor é
tanto que viemos lhe pedir um conselho: há algo que possamos fazer que nos
garanta ficarmos para sempre juntos, um ao lado do outro até a morte?
O velho feiticeiro,
ao ver aqueles jovens, tão apaixonados e
tão ansiosos por uma palavra, disse emocionado:
— Há uma coisa que podem fazer, porém é uma tarefa muito
difícil e exige muito sacrifício. Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte, ao
norte da aldeia, levando consigo apenas uma rede, caçar o falcão mais vigoroso
e trazê-lo aqui, com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia. E tu, Touro
Bravo, deves escalar a montanha do trono e também levar apenas uma rede; quando
chegares lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias. Deves
apanhá-la e trazê-la para mim, viva!
Touro Bravo e Nuvem Azul abraçaram-se com ternura,
agradeceram o velho feiticeiro e partiram para cumprir a missão.
No dia estabelecido, os jovens, com as aves, voltaram à
tenda do feiticeiro. O velho tirou as aves dos sacos de couro e constatou que
eram verdadeiramente os exemplares dos formosos animais que ele tinha pedido.
— E agora, o que faremos? Perguntaram os jovens, tomados de
expectativa.
— Peguem as aves e amarrem uma à outra pelos pés com essas
fitas de couro. Quando estiverem amarradas, soltem-nas para que voem livres.
Touro Bravo e Nuvem Azul fizeram o que lhes foi ordenado e
soltaram os pássaros. A águia e o falcão tentaram voar, mas, o que conseguiram foi
apenas saltar pelo terreno. Após várias tentativas, as aves, irritadas pela
impossibilidade de voarem, arremessaram-se uma contra a outra, bicando-se até
se machucarem. Então o velho disse:
— Jamais esqueçam o que estão vendo, esse é o meu conselho.
Vocês são como a águia e o falcão. Se, um ao outro, estiverem amarrados, ainda
que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde,
começarão a machucarem-se. Se quiserem que o amor entre vocês perdure, voem
juntos, porém, jamais amarrados. Libere a pessoa que você ama para que ela
possa voar com as próprias asas.
“A
única verdadeira segurança não se encontra em ter ou possuir, nem em exigir ou
prever; e sim na fluidez, na libertação.” ®Sérgio.
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