sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A LITERATURA ANÔNIMA

Em todas as literaturas, iremos, sem dúvida, encontrar um número considerável de obras anônimas, ou seja, cujo autor se desconhece. Especialmente as originárias de tempos muito remotos, por terem um caráter oral e pertencerem culturalmente a toda comunidade, e, por isso mesmo, não se atribuía importância à ideia de uma autoria individual.
Não se conhece os nomes dos autores das grandes epopeias populares da Idade Média, como, por exemplo, as que relatam as lendas da mitologia germânica. Per Abbat, cujo nome aparece no fim do Cantar de mio Cid, poema épico espanhol, não é o autor da obra, mas sim copista dos manuscritos. Tampouco se conhecem, nas literaturas orientais, os autores dos textos védicos (Sânscritos vedas) ou de As Mil e Uma Noites e, nas literaturas ocidentais, os de numerosos hinos.
A partir do século XVI, o anonimato visava não tornar conhecido o nome do autor; a intenção deliberada era a de ocultar a origem da obra. O mesmo objetivo podia ser alcançado pela atribuição da obra a um autor de nome livremente inventado - o pseudônimo.
Geralmente, um autor principiante prefere o anonimato ou usa o pseudônimo, quando ainda não tem coragem de se expor ao julgamento do público e da crítica, ou, então, quando inicia novo estilo ou gênero, de cujo sucesso, ainda, não está seguro. Foi esse o caso de Waverley, publicado anonimamente por Sir Walter Scott (1771-1832), em 1814, dando origem a um novo gênero de romance: o romance histórico.
Casos mais frequentes de anonimato em literatura é a pressão da censura, da qual o autor espera severas medidas. Um dos primeiros e mais famoso caso de anonimato por medo de censura são as Letters of Junius (Cartas de Junius), que, publicadas entre 1769 e 1772 no jornal londrino The Public Advertiser, atacavam fortemente as tendências absolutistas do rei Jorge III. Tais cartas são uma obra-prima de jornalismo político e um monumento da prosa inglesa em sua fase classicista, do século XVIII. A identidade de Junius até hoje não é conhecida e poderá nunca ser esclarecida, a menos que sejam encontrados documentos que a estabeleçam de forma inequívoca. No entanto, acredita-se que o autor das Cartas de Junius possa ter sido o político inglês Sir Philip Francis (1740 – 1818).
Outra famosa obra anônima é o Lazarillo de Tormes, primeiro exemplo de romance picaresco, caracterizado por Benedetto Croce como uma espécie de epopeia da fome. ®Sérgio.

A RAPOSA E A ONÇA

Certa vez, uma raposa caiu nas garras duma onça; mas, espertíssima como era, a raposa disse-lhe com toda a tranquilidade:
— Dona Onça deve certamente estar ciente de que Deus acaba de me nomear rainha desta floresta, com a missão de governar todos os animais... E quer a senhora comer-me?! Que ousadia! Quer desrespeitar o Todo-Poderoso?
A Onça não acreditou nessa conversa. Como é que animalzinho tão fraco e tão magro como a raposa poderia ser a rainha da floresta?
Percebendo a hesitação da Onça, disse então a raposa:
— Não acredita? Mas a ignorância não é crime, por isso não vou puni-la. Esta sua rainha sempre se fez respeitar pela sua generosidade. Vamos fazer o seguinte: vou passar revista aos meus súditos, e a senhora vai seguir-me e observar como eles me temem.
A Onça aceitou a proposta, e lá foram os dois - a raposa à frente, toda arrogante, e a onça atrás.
Vendo a onça, os outros animais puseram-se em fuga, foi um "salve-se quem puder".
Mas a onça, sem desconfiar de nada, acreditou no poder da raposa, pensando que todos fugiam com medo da "rainha".
De modo que foi assim que a raposa conseguiu livrar-se das garras da onça, e salvar-se da morte. ®Sérgio.

domingo, 4 de setembro de 2011

O HOMEM QUE AMPUTOU O TEMPO

Na noite de quatro de outubro de 1582, os romanos foram dormir como sempre faziam, porém, na manhã seguinte, acordaram em quinze de outubro, onze dias depois.
Entenda bem, os romanos não dormiram "onze dias"; eles dormiram apenas uma noite e acordaram onze dias depois.
É complicado não é?! Não dá nem para acreditar! Porém aconteceu, mesmo. Quer saber como aconteceu?!
Pois bem, vamos à cidade de Roma no ano de 46 a.C. Por essa época, o calendário romano estava na maior bagunça. Tanto estava que a primavera romana começava em novembro. Daí, o ditador romano Júlio César, resolveu consertar a bagunça. Para começar, decidiu que o ano 46 teria 90 dias a mais, criando um ano excepcional de 446 dias, numa tentativa de pôr as estações em sincronia. Criou o ano bissexto - onde fevereiro, a cada quatro anos, teria 30 dias, em vez de 29.
Tudo teria funcionado muito bem, se os sacerdotes, interpretando incorretamente as determinações de César, não tivessem resolvido criar um ano bissexto a cada três, em vez de a cada quatro. Resultado: o calendário começou, novamente, a acumular uma distorção de onze minutos a cada ano em relação ao ano solar.
Daí, por volta do século XVI, como era de se esperar, o débito era de dez dias. A bagunça no calendário era total. O início da primavera já estava quase coincidindo com o Natal.
Isso incomodou demais a Igreja Católica, pois a Páscoa (comemorada sempre no início da primavera que no hemisfério norte começa a 21 de março) estava sendo empurrada no calendário, porque, segundo as Escrituras, Cristo teria sido crucificado por volta de 21 de março, e não próximo ao Natal. Alguém tinha que fazer alguma coisa!
É nesse ponto, que entra em cena o papa Gregório XIII. Na ambiciosa tentativa de controlar o tempo e o Dia da Páscoa, reuniu uma comissão, da qual fazia parte o renomado matemático e astrônomo Cristóvão Clávio, e editou a bula papal que criou o atual calendário cristão gregoriano.
Resumindo a história: além das medias anunciadas, como por exemplo, a mudança do Ano-Novo de 25 de março para 1º de janeiro, o papa simplesmente amputou 11 dias do mês de outubro de 1582.
Assim, quem dormiu em quatro de outubro acordou em 15 de outubro.
Não vá pensando você, que o tempo foi controlado. Ainda há uma pequena diferença em relação ao ano solar, de modo, que o início das estações continua a se afastar, lentamente, das datas ideais. Até que alguém resolva nos envelhecer outros 15 dias. ®Sérgio.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

SEM PALAVRAS


A QUADRILHA

A denúncia afirmava que, todas as sextas-feiras, no edifício Minas Gerais, aptº. 99, por volta das 10 horas da noite, várias pessoas de apa­rência suspeita entravam no apartamento e ficavam até de madrugada. Que os sons que vinham de dentro do apartamento, eram os mais discretos possíveis. As conversas eram quase murmuradas. Tudo era muito suspeito.
Tendo em mente, apanhar a possível quadrilha em fragrante, a polícia - em uma viatura - chegou de mansinho e encostou a uma quadra do prédio, para não ser identificada; os componentes da patrulha desceram da viatura, adentraram o edifício e seguiram para o apartamento suspeito.
Foi tudo muito fácil. A tropa de ataque, protegida pelas suas metralhadoras, subiu ao andar onde ficava o apartamento; o chefe da patrulha bateu a porta, devagarzinho, para que não desconfiassem. Abriram a porta e lá dentro estavam alguns casais jogando biriba (buraco).
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

MUITO OBRIGADOS / OBRIGADAS?

O homem deve agradecer dizendo "obrigado", e a mulher, "obrigada". Isto porque "obrigado/a" varia de acordo com o sexo da pessoa que agradece e não de acordo com a pessoa a quem dirigimos o agradecimento. Se o agradecimento partir de vários homens ou de várias mulheres, usamos o plural:
   Ficamos-lhe obrigados / obrigadas por tanta gentileza.
   Vamos bem obrigados / obrigadas.
O plural de obrigado/a (registrado, inclusive, no Houaiss) segue a norma de qualquer substantivo terminado em [o/a]: obrigados / as.
Apesar do uso correto de obrigado/a no plural, seu uso fica, realmente, estranho porque raramente empregamos "obrigados/as". Para sair dessa estranheza, a solução é empregarmos outras fórmulas, por exemplo:
   Ficamos-lhe gratos / gratas por tanta gentileza.
   Ficamos-lhe agradecidos / agradecidas por tanta gentileza.
   Estamos reconhecidos / reconhecidas por tanta gentileza.
Outra maneira de evitarmos obrigados/as é substantivar o adjetivo, neste caso, "obrigado" fica apenas no masculino e no singular (homem e mulher, homens ou mulheres): o meu obrigado, o meu muito obrigado, o nosso muito obrigado.
   O nosso muito obrigado por tanta gentileza.
   A todos, o nosso muito obrigado.
   O meu muito obrigado, a todos. ®Sérgio.

sábado, 27 de agosto de 2011

FUGINDO DA CIDADE

Ausentei-me da cidade porque não sei mais viver nela sem ficar contrariado. Aqui vivo em paz comigo. Aqui os dias não passam, porque o tempo fugitivo por ver a minha solidão, para em meio do caminho.
Graças Deus, que não vejo neste tão doce retiro, hipócritas embusteiros,  velhacos intrometidos. Não me entram nesta palhoça visitadores que falam demais, políticos enfadonhos e cerimoniosos vadios. Esse povo maldito... (Fugindo da Bahia, Gregório de Matos).

EM FAVOR DA TECNOLOGIA DIVINA


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A GRADAÇÃO - Figuras de Linguagem

A gradação consiste em dispor as ideias em ordem crescente ou decrescente. Quando o encadeamento das ideias se faz na ordem crescente temos o "clímax", ou seja, o encadeamento caminha em direção ao "clímax"; quando em ordem decrescente, ao "anticlímax". A técnica pode ser aplicada em diversas situações:

Na construção de um poema:
"Ó não guardes, que a madura idade
te converta essa flor, essa beleza,
em terra, em cinzas, em pó, em sombra, em nada." (G. de Matos)
Na construção de uma narrativa, quando as sequências narrativas evoluem até um clímax ou caminham, retrospectivamente, para um anticlímax. No início do romance Quincas Borba, de Machado de Assis, o autor trabalha a gradação crescente para passar a ideia da meteórica ascensão de Rubião:
[...]. Cotejava o passado com o presente. Quem era há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Tunis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, [...].
Num texto argumentativo, quando é necessário ir aumentando a carga emotiva ou a força dos argumentos, como o faz António Vieira nos seus sermões, para conduzir a atenção dos seus ouvintes até um ponto alto e decisivo das suas conjecturas:
"Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba." (Vieira)
"O trigo... nasceu, cresceu, espinhou, amadureceu, colheu-se, mediu-se." (Vieira)
O discurso político, tentando convencer a totalidade dos ouvintes, frequentemente lança mão do recurso da gradação.
No aforismo:
"O primeiro milhão possuído excita, acirra, assanha a gula do milionário." (Olavo Bilac)
"Nada fazes, nada tramas, nada pensas que eu não saiba, que eu não veja, que eu não conheça a fundo." (Cícero)
Na música Mar e Lua, Chico Buarque de Holanda, faz uso de uma gradação decrescente:
[...] / Carregando flores / E a se desmanchar / E forma virando peixes,
Virando conchas / Virando seixos /Virando areia / [...] ®Sérgio.

QUEM EU?

Você é daqueles/as que confundem dor de cabeça com tumor cerebral? Que rima tosse com tuberculose?
Você é daqueles/as que quando sente uma dor no peito lembra-se de um amigo próximo que morreu de enfarto?
Você é daqueles/as que mesmo diante de um diagnóstico que o isenta de qualquer doença não se convence?
Então, bem vindo/a ao clube, você é um Hipocondríaco/a.
Sabe por quê?
Cerca de 80% dos casos de dor no peito não tem relação com problemas cardíacos. Pode ser um refluxo gástrico a ansiedade e dores musculares.
Ah! Mas a sensação de pontada no peito?
Essa, em geral tem origem muscular. A dor típica de um infarto é um aperto no peito, na região do coração e migra para os braços, mandíbula e costas.
E aquela dor de cabeça que não passa?
Essa jamais levantará no médico a suspeita de tumor cerebral. O mais comum e que sejam uma sinusite ou enxaqueca. O tumor, além da dor de cabeça, compromete a visão, a fala, a audição, além da perda de sensibilidade em regiões do corpo.
Sobrou a tosse. Essa em geral, é um resquício de uma gripe ou resfriado. Sinusite é outra razão para o sintoma. A tuberculose, por sua vez, provoca, além da tosse (com sangue), febre, suor excessivo e emagrecimento.
Está vendo, não adianta negar, você é um hipocondríaco/a. ®Sérgio.
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Fontes: Antônio Carlos Carvalho - Cardiologista da UFSP. / Elias Knobel - Cardiologista dfo Hospital Israelita Albert Einstein. / Sérgio Daniel Simon - Coordenado do departamento de oncologia do HIAE.

sábado, 13 de agosto de 2011

SEM PALAVRAS

Desenho João Bosco - http://jboscocartuns.blogspot.com/

sexta-feira, 29 de julho de 2011

AGOSTO MÊS DO DESGOSTO

Aqui, mal começa agosto o Sol já aparece amarelo e fosco, num mormaço sufocante. Logo vem as "fumaradas", deixando o ar parado e denso, num calor de febre. Pois é agosto, como diz o provérbio, mês do desgosto.
Deixando escapar, por agora, essa questão do clima, descobri que a expressão - "agosto mês de desgosto" - não é nossa, herdamos dos nossos colonizadores portugueses.
No século XVI - época das grandes navegações - as caravelas portuguesas iam ao mar no mês de agosto. De modo que, as namoradas dos navegadores nunca casavam nesse mês. Primeiro, porque não poderiam desfrutar da lua de mel; e, segundo, porque poderiam passar rapidamente da condição de recém-casadas para a de viúvas.
Segundo o escritor português Mário Souto Maior, ficou, então, consagrada essa tradição com a frase: "casar em agosto traz desgosto". Ora bem, quando ela (a frase) chegou aqui, fizemos o que mais gostamos de fazer com nomes e expressões: abreviar, reduzir.  E, assim, agosto virou "mês do desgosto".
Mais ainda, a má fama do agosto agourento, já existia bem antes das grandes navegações portuguesas. Os romanos, no século I, acreditavam que um dragão passeava pelo céu noturno em agosto (mês batizado em homenagem ao imperador Augusto). O monstro nada mais era do que a constelação de Leão, mais visível nessa época do ano.
Pois aí está, agosto do desgosto veio de lá, mas agosto "fumarado" é mais que nosso. É ou Noé? ®Sérgio.

domingo, 24 de julho de 2011

SANGUE LIMPO

— Sou filho de um escravo, e que tem isso? Onde está a mancha indelével?… O Brasil é uma terra de cativeiro. Sim todos aqui são escravos. O negro que trabalha seminu, cantando aos raios do sol; o índio que por um miserável salário é empregado na feitura de estradas e capelas; o selvagem, que, fugindo a colonização, vaga de mata em mata; o pardo a quem apenas se reconhece o direito de viver esquecido; o branco, enfim, o branco, que sofre de má cara a insolência dos mais ricos e o desdém do governo. Oh! Quando caírem todas essas cadeias, quando esses cativos todos se resgatarem, há de ser um belo e glorioso dia! (Ato II, cena 12, da peça Sangue Limpo de Paulo Eiró¹)
Sangue Limpo é um drama que tem por cenário São Paulo nos dias da Independência e situa um caso de amor entre um jovem da burguesia e uma jovem parda. O preconceito é vencido pelo rapaz que se rebela contra o pai, ao mesmo tempo em que este é assassinado por Rafael, um negro que jurara nunca mais "ajoelhar-se aos pés de um senhor".
   Na cena 12 do ato II, temos a fala em que Rafael, irmão da jovem mestiça, responde ao "Senhor" que lhe perguntara se corria sangue escravo em suas veias. ®Sérgio.
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1 - Paulo Eiró (1836-1871), foi poeta e dramaturgo.

sábado, 16 de julho de 2011

AS REGÊNCIAS DO VERBO AGRADECER

Nós aprendemos a regência naturalmente, intuitivamente, no dia-a-dia. Ninguém precisou ensinar para nós que quem gosta, gosta de alguém. Ou que quem concorda, concorda com alguma coisa. Ou que quem confia, confia em algo. E assim por diante. Só que a gramática, muitas vezes, estabelece formas diferentes das que utilizamos na linguagem cotidiana, como as que veremos abaixo:
1ª. Com o sentido de mostrar-se grato por alguma coisa, é transitivo direto. Use-o sem preposição:
   Agradeceu o favor recebido.
   Agradeço o favor que me prestou.
   Agradeço a audiência recebida.
   Agradeço as flores que me enviou.
   Agradecemos o bom atendimento.
2ª. Com sentido de demonstrar gratidão a alguém, é transitivo indireto. Use-o com a preposição [a]:
   Agradeço aos ouvintes.
   Já agradeci aos que me ajudaram.
   Recebi o livro e ainda não lhe agradeci. (lhe = a você)
   A empresa agradece aos funcionários.
3ª. Com o sentido de demonstrar gratidão "a alguém" por "alguma coisa", é transitivo direto e indireto:
   Agradecemos a V.S.ª (indireto) / o convite (direto).
   Agradecemos ao Senhor (indireto) / as bênçãos (direto) recebidas.
   Agradeço ao chefe / a carta de recomendação.
   Agradeceu-lhe (= a ele) o convite.
   Agradeceu-lhes (= a eles) a gentileza.
   Agradeceu a Deus (indireto) a graça alcançada (direto).
Observação: Como se agradece sempre a alguém, não existe a forma "agradecê-lo", mas apenas agradecer-lhe. ®Sérgio.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O SOL DA MEIA-NOITE

O poeta e diplomata João Cabral de Mello Neto (1920-1999), estava sempre a dizer que uma de suas grandes frustrações era não ter sido jornalista. Aos 16 anos foi rejeitado por um jornal. A rejeição lhe afetou tanto que, segundo ele, uma enxaqueca do lado esquerdo passou a lhe incomodar por 50 anos. Dor que médico nenhum foi capaz de detê-la.
Ouviu muitas recomendações de simpatias. Entretanto, atendeu a sugestão de um parente, que lhe recomendou um sanatório. "Foi uma internação que durou cerca de seis meses. Mas apesar disso – dizia – não produziu qualquer resultado positivo. Só deixou más lembranças".
Sem esperança de cura, o poeta apelou para a aspirina. Passou a tomar 10 comprimidos por dia; um a cada 4 horas, regularmente; o que o impedia de ter uma noite de sono inteira. Contudo, vivia agradecido a pírula, que passou a chamar de "sol artificial" e a homenageou no inusitado poema Num Momento a Aspirina:
Claramente, o mais prático dos sois,
O sol de um comprimido de aspirina;
De emprego fácil, portátil e barato,
Compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente por que, sol artificial,
Que nada limita a funcionar de dia,
Que a noite, não expulsa, cada noite,
Sol imune às leis de meteorologia,
A toda hora em que se necessita dele
Levanta e vem (sempre num claro dia):
Acende, para secar a aniagem da alma,
Quará-la, em linhos de meio-dia.
Convergem: a aparência e os efeitos
Da lente do comprimido de aspirina:
O acabamento esmerado desse cristal,
Polido a esmeril e repolido a lima,
Prefigura o clima onde ele faz viver
E o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
De uso interno, por detrás da retina,
Não serve exclusivamente para o olho
A lente, ou o comprimido de aspirina:
Ela reenfoca, para o corpo inteiro,
O borroso de ao redor, e o reafina.
Mas, 10 comprimidos ingeridos ao longo de 50 anos, só podia causar, ao trato digestivo, úlceras. Então chegou o dia que o poeta pernambucano necessitou de uma cirurgia emergencial. Mas, como há coisas que não tem explicação, João após a cirurgia, aos 66 anos, pode comemorar o desaparecimento da dor de cabeça. ®Sérgio.

terça-feira, 5 de julho de 2011

ALFINETADAS LITERÁRIAS

Harold Bloom (1930), autor de Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes de Todas as Idades, em uma entrevista pública, provoca abertamente Joanne Kathleen Rowling (1965), conhecida como J. K. Rowling e autora dos sete livros da famosa e premiada série Harry Potter: "Como ler Harry Potter e a Pedra Filosofal? Rapidamente, para começar, e talvez também para acabar logo. Por que ler esse livro? Presumivelmente, se você não pode ser convencido a ler nenhuma outra obra, Rowling vai ter que servir".
Oscar Wilde também não deixou por menos; perguntado sobre Alexander Pope (1688-1744) um dos maiores poetas britânicos do século XVIII, disparou: "Existem duas formas de se odiar poesia: uma delas é não gostar, a outra é ler Pope". ®Sérgio.
Salve-se quem puder!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A COLHEITA DO DIABO - Recontando Contos Populares

São Pedro morava ao lado da casa do diabo. Quando chegou o tempo da colheita de batatas doces na chácara de São Pedro, este chamou o diabo e perguntou-lhe:
— Quer ajudar-me a colher as batatas? Eu lhe darei metade da produção.
O diabo pensou um pouco e achando que era bom negócio, respondeu:
— Está bem. Vamos fazer a colheita.
Saíram com o sol saindo, e, ao chegarem à horta onde estavam plantadas as batatas doces, São Pedro perguntou ao diabo:
— Agora, você tem de escolher: quer ficar com a metade de cima da terra, ou com a metade debaixo?
O diabo respondeu:
— Ora essa! Quero ficar com a metade de cima da terra!
Sem mais delongas, São Pedro aceitou o acordo:
— Está bem; pode colher sua parte; quando terminar, virei colher a minha!
De daí, depois que o diabo cortou todas as ramas de batata doce e as levou para a casa dele, São Pedro voltou ao terreno e arrancou as batatas que tinham ficado debaixo da terra. Satisfeito com a colheita, ofereceu um grande almoço e até convidou o diabo para à sua mesa. O diabo, que não conseguiu comer as ramas colhidas, ficou alumiando de raiva e com muita inveja do santo, prometendo a si mesmo que se vingaria.
Passados alguns dias, São Pedro encontrou-se novamente com o diabo e perguntou-lhe se queria ajudá-lo a colher repolhos de sua horta. O diabo aceitou imediatamente, mas foi logo dizendo que dessa vez seria ele a ficar com a parte debaixo da terra. São Pedro que não é bobo - concordou. Então, o seguinte é esse: irei colher minha parte e deixarei a sua no terreno.
E, São Pedro colheu todas as bonitas cabeças de repolho, deixando para o diabo somente as raízes.
O diabo, se sentido logrado outra vez, redobrou a vontade de vingar-se do santo e aceitava todos os convites que este lhe fazia para colher os produtos de sua chácara, mas nunca acertava na escolha: quando a planta dava em cima da terra, ele preferia a parte debaixo; quando dava embaixo, ele preferia a parte de cima. E assim, fez as colheitas de mandioca, de alface, de amendoim, de tomates e outras tantas.
Todos os dias, depois que passaram esses, o diabo está pelejando para ver se engana São Pedro - sem conseguir. ®Sérgio.

O TERMO BARDO

Atualmente o termo "bardo" é usado como sinônimo de "poeta". Entretanto, originalmente, esse vocábulo significava – entre galeses, irlandeses e escoceses – a espécie de poetas e cantores, que empregavam o talento para elogiar os príncipes e reis, celebrar feitos de guerra e conservar a memória das classes aristocráticas. Alem disso, elaboravam, às vezes, poesia de cunho satírico. Não seria sem razão dizer que o "bardo" correspondia ao "trovador" da poesia trovadoresca.
Lá pelo século VI, alguns brados emigraram para a Betranha francesa, levando seus poemas e canções. Ora prestigiados, ora em desgraça, conseguiram se mantiver até o século XVIII, então reduzidos a condição de vagabundos ou mendigos. ®Sérgio.

sábado, 25 de junho de 2011

VOU FAZER UMA COLOCAÇÃO

O termo colocação é um modismo da linguagem popular muito usado atualmente em assembleias, reuniões e debates de agremiações não científicas. Não faz parte da linguagem culta. Portanto, se em uma reunião alguém pede a palavra e diz: "Gostaria de fazer uma colocação bastante polêmica". Ele está usando um modismo não recomendado pela gramática, principalmente para os textos formais. A terceira edição do dicionário Aurélio¹ já registra colocação como brasileirismo popular.
As palavras colocar e colocação devem ser usadas no sentido de arrumação, disposição, lugar. Elas não equivalem à observação, sugestão ou ideia:
   Ficou na segunda colocação.
   Não gostei da colocação do quadro acima do sofá.
   Conseguiu uma colocação na farmácia de um parente.
   Arranjou uma boa colocação no banco.
   Colocou a bola na marca do pênalti.
   Vou colocar o livro na estante.
No caso do vou fazer uma colocação, use termos mais precisos, como: exposição, argumentação, opinião, observação, afirmação...
   Posso fazer uma observação [e não: colocação] sobre este assunto
 Gostaria de fazer uma observação / afirmação / exposição [e não: colocação] bastante polêmica.
   Ele fez uma observação / afirmação [e não: colocação].
  Era uma observação / afirmação / exposição [e não: colocação] equivocada. ®Sérgio.
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1 - Novo Aurélio Século XXI: o Dicionário da Língua Portuguesa. 3a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1999.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O TERMO ADÁGIO

Adágio é o mesmo que os conhecidos ditos, provérbios, sentenças ou máximas, que segundo o filósofo alemão Friedrich Von Schlegel, um dos grandes teóricos do romantismo, é "a maior quantidade de pensamento no menor espaço". Não raro, o adágio registra a experiência culta dos Antigos, universalmente difundida. Quando o adágio tem origem não literária, diz-se adágio popular.
Um dos adagiários mais famoso é o Adágios (1500-1506) escrito por Erasmo de Roterdã (1466-1536), que compila mais de quatro mil sentenças colhidos nos autores da Antiguidade Greco-latina.
O termo adágio também é usado (ainda) na linguagem musical, para indicar um movimento vagaroso e gracioso. ®Sérgio.

sábado, 18 de junho de 2011

UMA JANELA PARA O MUNDO

"Tenho muitas deficiências físicas, mas no jogo Star Wars Galaxies posso pilotar uma moto voadora, enfrentar monstros ou, simplesmente, encontrar os amigos em um bar. Minha vida real é bem mais limitada. Como os movimentos de minhas mãos são restritos, não consigo pressionar as teclas de um teclado normal. Por isso uso um teclado virtual que me permite conversar on-line com outros jogadores. A tela do computador é a minha janela para o mundo. Online, não importa a aparência. Os mundos virtuais reúnem as pessoas – e todos estão na mesma situação (é uma pena que nem todos pensem assim) [opinião minha]. No mundo real, elas podem se sentir desconfortáveis perto de mim antes de me conhecer e descobrir que, sem levar em conta a aparência, eu sou como elas. Aí está uma vantagem da internet: é possível interagir com alguém antes de conhecê-lo fisicamente. Assim, uma pessoa é conhecida por suas ideias e personalidade, não pela aparência física. Num encontro de jogadores em 2002, a Ultimate Online Fan Faire, em Austin, percebi que as pessoas ficaram intrigadas, mas agiam como se eu fosse uma delas. Elas me trataram como igual, como se eu não fosse do jeito que sou – quer dizer, deficiente e em uma cadeira de rodas. Éramos todos apenas jogadores."
(Jason Rowe, 32 anos, Texas, Estados Unidos)
Em nossas leituras, de repente, “damos de cara”, com pequenas coisas que nos atinge de dentro e penetra as íntimas fibras do nosso ser e nos deixa envergonhados por acharmos que a vida, ás vezes, nos é injusta.
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Fonte e imagem:

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O CÉREBRO INIMITÁVEL

"A consciência baseada em silício, se ela algum dia surgir, certamente se manifestará de formas muito distintas daquelas exibidas pela versão humana. [...] Nossa peculiar história evolutiva não pode ser comprimida em nenhum algoritmo computacional, um fato que elimina qualquer esperança de que máquinas, simulações computacionais ou formas artificiais de vida poderiam ser sujeitas a uma lista idêntica de pressões evolutivas, geradas por qualquer código de computador ou outra máquina criada pelo homem. [...] Por carregar o legado de sua própria história impresso dentro de seus circuitos, o cérebro recebeu como recompensa a imunidade mais poderosa contra possíveis tentativas de copiar seus mais íntimos segredos e arte."
Trecho do livro Muito Além do Nosso Eu, do neurocientista Miguel Nicolelis. 

domingo, 12 de junho de 2011

O ENTERRO DO BOIADEIRO - Recontando Contos Populares

Certo dia, lá pros lados do sertão de Minas, morreu Bastião Boiadeiro. Caboclo novo ainda. Os parentes se debulharam em lágrimas. Houve muita tristeza entre os amigos boiadeiros. Mas Bastião tinha que ser enterrado. Chico do Laço, seu amigão do peito, arrumou mais cinco caboclo para carregar o corpo do defunto até o cemitério de Rio Claro. Caminho longo de quase quatro léguas. Botaram Bastião numa rede, onde passaram uma vara bem grossa e, dois a dois, foram carregando o amigo até a cidade dos "pés juntos". Vencida obra de duas léguas, o cansaço era muito. Por isso, diminuíram um pouco a marcha, porém continuaram a andar. O dia também andava. Chegou à tardezinha. O sol se some. À noite veem; não dá para chegar a Rio Claro antes do fechamento do cemitério. O negócio é descansar e continuar no rompante da manhã.
Colocaram o morto num canto, e cada qual se ajeitou como podia. Logo, puxavam um ronco danado. Cansaço dos diabos. Só o Chico Boiadeiro, pesaroso com a morte do amigo e medroso como ele só, não consegue pegar no sono e fica apreciando a lua cheia que alumiava até passeio de pulga no chão. Lá pelas tantas, com os olhos ainda arregalados, vê uma coisa que o deixou de cabelos em pé. O morto se levanta e meio no ar vem em direção ao grupo de amigos, no rumo dele. Passa por cima de um. Passa pelo outro e mais outro, até passar pelo quinto. Tudo muito vagaroso, como deve de ser um fantasma. Quando Bastião vai passar por cima do Chico, este não se contém e apronta o maior berreiro, soltando guinchos como os de boneca rapidamente apertada na barriga.
— Por amor de Deus, Bastião! Vai pro seu corpo, diabo! Cruz credo!... Avemaria!... Será possível, meu senhor?!
Com a gritaria do Chico Boiadeiro, os companheiros acordam querendo saber o que foi...
Chico explica bem explicadinho. Alguns acharam graça e outros ficaram com a pulga atrás da orelha, preocupados. Um deles foi o Italívio:
— Óia, gente! Isso é castigo de Deus. O morto num discansô até agora porque a gente num interrô ele. Bastião deve tá devera puto da vida com a gente!
E o diacho é que ele passô inriba de nóis, né sô? Tocou no crucifixo que no peito trazia... e continuou. Isso é mau siná. Queira Deus que certas coisa que o povo fala seja só boataria...
Foi o que conseguiu completar Manuel, todo cismado, o primeiro que o espírito do Bastião passou por cima. Daquela hora pra frente ninguém mais dormiu. Só o Deodoro que, de madrugadinha, conseguiu tirar uma pestana. Afinal, ele não acreditava nas lorotas que o povo contava.
— Deixa de bobage, gente! Larga de mão disso! Quem morreu, morreu! Num vorta mais. O Chico tava era com sonhação!
Saíram com o sol saindo, e, na metade da manhã chegaram com o corpo frio e duro do Bastião no cemitério. Enterraram o amigo. Passaram num boteco para molhar a goela e se mandaram de novo, estrada a fora, rumo do sertão, cada qual pro seu canto.
É crença no sertão de que, quando se vai levar um defunto para enterrar, não se pode parar. Pra nada. Parar é desgraça na certa para os carregadores.
Dê daí, ô gente... o Chico Boiadeiro, naquele ano, teve que fazer o mesmo trajeto de carregamento de defunto mais cinco vezes. ®Sérgio.