quarta-feira, 2 de março de 2011

O CARDEAL MEZZOFANTI - Notas Biográficas

Com a devida licença, lhes apresento o Cardeal Gaspare Mezzofanti, um dos  maiores poliglotas de todos os tempos.
Gaspare nasceu em 19 de setembro de 1774. Filho de um pobre carpinteiro de Bolonha. Ainda menino, se entregou ao conhecimento do idioma. Com a idade de 12 anos fez os três anos do curso filosofia. Quando terminou seus estudos teológicos ainda não tinha idade para ser ordenado. Aos vinte e três anos de idade, há pouco ordenado, já era professor de árabe da Universidade de Bolonha, sua cidade natal. Pouco tempo depois, estendeu suas atividades ao ensino do grego e línguas orientais.
Sua vocação para o estudo das línguas foi tanta, que o astrônomo Zach - de passagem para Genebra, aonde se dirigia para observar um eclipse - ao conhecê-lo, registrou em seu bloco de notas: "Ia observar um milagre no céu, e a terra me forneceu outro fenômeno não menos admirável". E não foi esta a única referência elogiosa a capacidade de Gaspare para assimilar idiomas; Byron já havia dito: "Devia ter vivido no tempo da torre de Babel como intérprete universal". Sua memória era tão privilegiada que uma única leitura lhe bastava para reproduzir, de cor, uma página inteira de São João Crisóstomo.
Certa vez, satisfez a curiosidade do conselheiro de Estado russo, Muravief, remetendo-lhe o nome de Deus escrito em cinqüenta e seis idiomas. Três anos depois, em 1846, já dominava a soma de setenta e oito línguas, excluídos os dialetos. É algo, realmente admirável, principalmente se atentarmos para o fato de que, para ele "dominar uma língua significava falá-la com ótima pronúncia, lê-la, escrevê-la e até compor poesias nela".
Não foi a sede de aventuras espirituais que o motivou a desenvolver essa capacidade - era excessivamente modesto - e sim, a necessidade de dar vazão, num terreno bastante extenso, a uma capacidade prodigiosa, da qual não sabia o que fazer. O domínio sobre os idiomas era tão grande, que notava solecismos (imperfeição) no polaco que o czar Nicolau usava para conversações entre ambos. Ou ainda "palestrar em grego com Byron, em provençal com Manavit, em croata com o imperador Francisco I". Alimentava também uma vaidade natural: passear no pátio do Colégio Propaganda, em Roma, saudando na língua de cada um de seus alunos, procedentes de todos os recantos da Terra, além de sustentar uma conversação em várias línguas com muitos interlocutores ao mesmo tempo.
De acordo com Russell, o Cardeal Mezzofanti falava perfeitamente trinta e oito línguas, e trinta outras línguas, menos perfeitamente. Cinquenta dialetos das línguas acima mencionadas. Eis algumas: Hebraico, Árabe, Caldeu, Armênio (antigo e moderno), Persa, Turco, Albanês, Maltês, Grego (antigo e moderno), Latim, Italiano, Espanhol, Português, Francês, Alemão, Inglês, Russo, Polonês, Chinês, Sírio, Basco, Hindu, para só citar essas. Ele não deixou trabalhos científicos, embora alguns estudos comparativos em Lingüística encontram-se entre os seus manuscritos, que deixou, em parte, à biblioteca municipal e, em parte, à biblioteca da Universidade de Bolonha. ®Sérgio.
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Fonte: Arsênio, Arnaldo; Aspecto da nossa Língua; CERN, 1983.

POR SER PANTANEIRO...

Tenho grande afinidade com a natureza; talvez por ser de uma família de camponeses. Para mim, a natureza é expressiva...
Pelos campos vaguear
sentir o vento, respirando a vida
E livre suspirar
[...] (Álvares de Azevedo)
Por ser pantaneiro, meus sentidos se abrem para a mata, para o riacho e para sentir na mais íntima fibra do meu eu, um dos mais belos poemas descritivos de nossa língua:
A tarde morria! Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia vigia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.
A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das ervas, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos.
A tarde morria! Mais funda nas águas
Lavava-se a gralha do escuro ingazeiro,
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo rangia o coqueiro.
Somente por vezes, dos jungles da borda
Dos golfos enormes daquela paragem,
Erguia a cabeça surpreso, inquieto,
Coberto de limos – um touro selvagem.
(Crepúsculo Sertanejo - fragmento- Castro Alves)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

AS MUSAS INSPIRADORAS

Clio, segundo Mignard
As musas são figuras mitológicas, deusas irmãs inspiradoras da criação artística. Inicialmente, eram as inspiradoras dos poetas. Na literatura, por exemplo, inspiradoras da poesia e dos poetas. Daí, serem eles (os poetas) quem mais as citaram em seus poemas. Mais tarde sua influência se estendeu a todas as artes e ciência.
Na Grécia, eram nove as musas; todas filhas de Mnemosine (Memória) e Zeus (Júpiter). As musas tinham a incumbência de perpetuar vitórias e glórias do Olimpo; por isso cantavam o presente, o passado e o futuro, acompanhadas pela lira de Apolo, para o prazer das divindades gregas. Atenas consagrou-lhes um templo o Museion (que deu origem à palavra museu); e Roma muitos templos. Estátuas das musas eram muito usadas em decoração. Os escultores representavam-nas sempre com algum objeto, como a lira ou o pergaminho.
Apesar das Musas terem se consagrado como o ente que inspira o poeta, nos tempos modernos, muitas vezes, elas são confundidas com a amada do poeta. No arcadismo e no Romantismo, os poetas sempre invocaram as musas, não mais numa atitude de pedir proteção, mas como recurso literário.
Segundo Hesíodo as musas são em número de nove, a saber:
 Calíope (musa do poema épico) – a mais velha das musas; representada pelos escultores com ar majestoso, ornada de grinaldas e fronte cingida de uma coroa de ouro; com uma mão segura uma trombeta e com a outra, um pergaminho contendo um poema épico.
 Clio (musa da História) – representada pelos escultores coroada de louros, tendo na mão direita uma trombeta e na esquerda um livro intitulado Tucídide (historiador grego, autor de A Guerra do Peloponeso). Descansa sobre o globo terrestre para mostrar que a história alcança todos os lugares e todas as épocas.
●  Érato (musa da poesia lírica) - tinha por símbolo a flauta, sua invenção. Representada coroada de flores, tocando a flauta. Ao seu lado estão papéis de música, oboés e outros instrumentos. Essa imagem simbolizava o quanto as letras encantam àqueles que as cultivam.
●  Tália (musa da comédia) - vestia-se com uma máscara cômica e portava ramos de hera.
●  Melpômene (musa da tragédia) - ricamente vestida, usa máscara trágica, folhas de videira e coturnos. O seu aspecto é sempre grave e sério.
●  Terpsícore (musa da dança) - regia também o canto coral. Representada pelos escultores coroada de grinaldas, tocando uma lira, ao som da qual dirige a cadência dos seus passos.
●  Euterpe (musa do verso erótico) - coroada de mirto e rosas, a jovem musa segura na mão direita uma lira e na esquerda um arco. Ao seu lado está um pequeno cupido que lhe beija os pés.
●  Polímnia (musa da retórica) - vestida de branco e de véu, apresenta-se em atitude pensativa, meditativa.
●  Urânia (a musa da astronomia) – era a entidade a que os astrônomos e/ou astrólogos pediam inspiração. Vestida de azul-celeste e coroada de estrelas, segura um compasso e um globo celeste.
Na mitologia greco-romana existem outros grupos de musas, de cunho mais regional, como o das musas Méleta, da meditação; Mnema, da memória; e Aede, protetora do canto e da música.
Platão, certa vez escreveu: "Dizem que há nove musas, que falta de memória! Esqueceram a décima, Safo de Lesbos." ®Sérgio.
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Para maiores informações a restpeito deste assunto ver: Portal Graecia Antiqua. Disponível em: http://greciantiga.org/lit/lit03b.asp. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

NOIVAS FANTASMAS - Negócios da China

A polícia chinesa prendeu cinco homens acusados de matar mulheres jovens para vendê-las como “noivas fantasmas”. Segundo a tradição de camponeses do norte do país, homens que morrem solteiros têm a linhagem comprometida na próxima vida. Para evitar o mau agouro na eternidade e para quebrar o galho do solteirão, os familiares tentam arranjar um minghun, “casamento após a morte”, enterrando uma noiva fantasma ao lado do solteirão. Segundo a polícia, o preço dos corpos varia, geralmente, de acordo com a idade da noiva: as mais jovens chegam a ultrapassar dois mil dólares.
Fique agora você sabendo o porquê do velho clichê: “Nem morto eu me caso”.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

JUSTIÇA SEJA FEITA - Recontando Contos Populares

Seu Antenor, mineirinho da gema, pensou melhor e decidiu que os ferimentos sofridos no acidente de trânsito há três semanas eram sérios o suficiente para levar o dono do outro carro ao tribunal.
No tribunal, o advogado do réu começou a inquirir seu Antenor:
— Não foi o Senhor que disse na hora do acidente: "Estou muito bem"?
E seu Antenor:
— Bão, vou lhe contá o que aconteceu. Eu tinha acabado di colocá minha mula favorita na caminhonete...
— Eu não pedi detalhes! - interrompeu o advogado. Só responda à pergunta! O senhor não disse na cena do acidente: "Estou muito bem"?
— Bão, eu coloquei a mula na caminhonete e tava deceno a rodovia...
O advogado interrompe novamente:
— Meritíssimo, estou tentando estabelecer os fatos aqui. Na cena do acidente este homem disse ao patrulheiro rodoviário que estava bem. Agora, várias semanas após o acidente ele está tentando processar meu cliente, e isso é uma fraude. Por favor, poderia dizer a ele que simplesmente responda à pergunta?
Mas, a essa altura, o Juiz estava muito interessado na resposta de seu Antenor e disse ao advogado:
— Eu gostaria de ouvir o que ele tem a dizer.
Seu Antenor agradeceu ao Juiz e prosseguiu:
— Como eu tava dizendo, coloquei a mula na caminhonete e tava descendo a rodovia quando uma picapi atravessô o sinar vermeio e bateu na minha caminhonete bem na laterar. Eu fui jogado fora do carro prum lado da rodovia e a mula foi jogada pro ôtro lado. Eu tava muito firido e num podia mi movê. De quarqué forma, eu pudia orvi a mula zurrano e grunhino e, pelo baruio, eu pude percebê que o estado dela era muito ruim.
E continuou:
— Logo dispois do acidente, o patruiero rodoviário chegô no locar. Ele orviu a mula gritano e zurrano e foi até onde ela tava. Depois de dá uma oiada nela, ele pegô a arma e atirô bem nos óio do animar. Então, o policiar atravessô a estrada com sua arma na mão, oiô pra mim e disse:
— Sua mula estava muito mal e eu tive que atirar nela. Como o senhor está se sentindo?
E olhando para o Juiz, o Seu Antenor perguntou:
— E o sinhô, o quê que falaria meritisso?!
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História retirada e adaptada de Ponte Preta, Stanislaw. Choro, Vela e Cachaça. In: Garoto Linha Dura. 4ª ed. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1975. p. 154-55.

NEGÓCIO DA CHINA – Notas à Toa

Descobri que um bar na região leste da China está oferecendo um novo serviço contra os estresses da vida moderna. Os clientes do Bar da Liberação de Raiva  podem pagar para bater à vontade nos garçons. Além disso, é permitido quebrar copos e berrar no estabelecimento. Os garçons e as garçonetes são treinados e equipados com material de proteção para receber golpes sem se machucar.
Se nada disso combater o estresse, os frequentadores têm direito a atendimento psicológico no lugar.
O interessante é que a maior parte dos clientes do Bar da Liberação de Raiva são mulheres.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

CUIDADO COM O "E NEM"

Nem é a soma de e + não. Assim, "e nem" é redundante quando, na frase, há uma negativa antes.  Nesse caso, o nem rejeita o [e]:
    Não foi nem ficou. / Não faço nem quero.
    Não se anda nem se corre. / Nunca o viu nem verá.
Podemos usar e nem apenas quando não há negativa antes ou quando a expressão equivale a: e nem mesmo, e nem sequer, e muito menos, como reforço ou ênfase:
 Estudavam o dia todo e nem (mesmo, sequer, e muito menos) se lembravam de comer.
 Meu irmão chegou ontem e nem (mesmo, sequer, e muito menos) me telefonou ainda.
 E nem (mesmo, sequer, e muito menos) da própria vida estou seguro. ®Sérgio.

PESADELOS RECORRENTES

Tarsila Maciel nos revelou que sofria de pesadelos recorrentes. Na maioria dos sonhos, ela morria de diversas formas, em diversos tipos de acidentes, sendo  mais comum o de carro. De modo que, viu o velório (dela) incontáveis vezes.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O ARTÍFICE DO VERSO

A habilidade, a engenhosidade e a veia satírica de Gregório de Matos, deixam-me, sobremaneira, desconcertado. Com que facilidade, esse artífice do verso, trabalhava seus poemas. Veja:
Certa vez, um conde pediu a Gregório de Matos que fizesse um soneto em seu louvor. O poeta baiano, porém, não achou nele nada que pudesse ser louvado. Não querendo desagradar o nobre conde, compôs assim mesmo o soneto que você vai ler abaixo:
Um soneto começo em vosso gabo¹             (¹ louvor)
Contemos essa regra por primeiro,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo²                (² no fim)
Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
Na sexta entro já com a grã³ canseira          (³ grande)
E saio dos quartetos muito brabo.
Agora nos tercetos que direi?
Direi que vós senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.
Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.
Com que maestria Gregório compôs este soneto: usando apenas a forma do soneto, esvaziou o conteúdo e não se comprometeu com elogios falsos. É por coisas assim que tenho de admirar esse poeta. ®Sérgio.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O CAÇADOR E O URSO

Por diversas vezes resisti à tentação de compartilhar com vocês esta Fábula de Millôr Fernandes¹. Entretanto, a tentação, acabou por vencer-me:
Vestido como caçador o homem caçava. Estava metido no mais negro da floresta e caçava. Mas, não procurava qualquer caça não. Procurava uma caça determinada capaz de lhe dar uma pele que aquecesse suas noites hibernais.
E procurava. Procura que procura, eis, senão, quando numa volta da floresta depara nada mais nada menos que com um urso. Os dois se defrontam. O caçador apavorado pela selvageria do animal. O animal pela civilização em forma de rifle do caçador. Mas foi o urso quem falou primeiro:
— Que é que você está procurando
— Eu – disse o caçador – procuro uma boa pele com a qual possa abrigar-me no inverno. E você?
— Eu – disse o urso – procuro algo que jantar, porque faz três dias que não como.
E os dois se puseram a pensar. E foi de novo o urso que falou primeiro:
— Olha caçador, vamos entrar na toca e conversar lá dentro, que é melhor!
Entraram. E dentro de meia hora o urso tinha o seu almoço e consequentemente o caçador tinha o seu capote.
Moral: Falando a gente se entende. ®Sérgio.
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1 - O Encontro, in Fabulas Fabulosas. Editora Nórdica: São Paulo, 1973, p.65.
Imagem: http://conversadatreta.com/wp-content/woo_uploads/65-ca%C3%A7a_grossa.gif

O CORVO E A ÁGUIA¹

Certo dia, a águia perguntou ao corvo:
— Diz-me, corvo, por que vives sob o sol trezentos anos e eu apenas trinta e três?
– Porque tu, meu caro, respondeu o corvo, bebes sangue fresco, enquanto eu me alimento de carne podre.
A águia pôs-se a pensar: “E se me alimentasse da mesma coisa?” Pois bem. A águia e o corvo levantaram voo. E eis que descobriram um cavalo morto. Desceram e pousaram nele. O corvo começou a dar bicadas e louvar a carniça. A águia deu uma bicada, outra, bateu as asas e disse ao corvo:
— Não, irmão corvo: prefiro saciar-me uma só vez com sangue fresco, do que me sustentar durante trezentos anos de carne podre. E seja o que Deus quiser! ®Sérgio.
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1 - Fábula Russa. 

domingo, 13 de fevereiro de 2011

ENTALHADOR CHATEADO

O Entalhe para mim já foi muito mais do que uma distração, um passatempo, ou seja, um hobby. Houve época que tive um atelier ou ateliê, comercialmente bem localizado, onde além dos artísticos, aceitávamos encomendas de entalhes, principalmente portas.
Às vezes, pessoas que iam observar meus trabalhos na sala de exposição, diziam-me, diante de alguns deles em que havia figuras humanas:
— Mas uma pessoa não é assim!
Eu ficava sem saber o que responder e um tanto chateado com isso, até que, certo dia, li uma máxima de Matisse:
Conta-se que uma vez Matisse mostrou a uma senhora um quadro em que havia pintado uma mulher nua; sua visitante, indignada, retrucou:
— Mas uma mulher nua não é assim!
 E Matisse:
— Não é uma mulher, minha senhora, é uma pintura!
Era a resposta aos meus anseios. ®Sérgio.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O POTE DE BALAS

Na sala de espera do dentista (de um amigo) havia na mesinha de centro um pote cheio de balas e um convite impresso, ao lado dele: "Porque esperar? Comece novas cáries hoje mesmo"!

Será que alguém, algum dia, pegou uma ou algumas daquelas balinhas? ®Sérgio.

TRISTE SOMBRA


“Ah! Não me roubou tudo a negra sorte:
Ainda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.”
(Cantando a vida, como o cisne a morte, Bocage, 1765-1805)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O DESPERTAR DE POETA

Arrastava-me para o ermo um sentimento íntimo, o sentimento de haver acordado, vivo, ainda, deste sonho febril chamado vida, e que hoje ninguém acorda, senão depois de morrer.
Sabeis o que é esse despertar de poeta?
É o ter entrado na existência com o coração que transborda de amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajuntarem-se os homens e laçarem-lhe dentro do seu vaso de inocência lodo, fel e peçonha e, depois, rirem.
É ter dado as palavras – virtude, amor, pátria e glória – uma significação profunda e, depois de haver buscado por anos a realidade delas neste mundo, só encontrar hipocrisia, egoísmo e infâmia:
É o perceber a custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se, e a esperança nas coisas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo tênue que ondeia em horizonte aquém do qual esta assentada à sepultura. (Fragmento de Eurico, O Presbítero de Alexandre Herculano¹) ®Sérgio.
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 (1) Alexandre Herculano. Eurico, O Presbítero São Paulo, Ática, 1991. p. 21.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

ÉRAMOS INFINITAMENTE FELIZES

Declina o sol no horizonte;
Alongam-se as sombras;
Perde-se na penumbra o contorno das coisas...
O vento rodopia pelas árvores;
Caem as folhas murchas;
Paira no espaço uma paz imensa...
Anoitece.
A solidão é quase completa.
Aprendi com meu pai a saborear, sobremaneira, a solidão e o silêncio que reinam na natureza quando o sol se põe. Nessas horas de mistério e calma, sentávamos debaixo de nosso arvoredo, e surpreendíamos os segredos da noite; os amores das árvores; os gemidos do vento. E éramos infinitamente felizes! ®Sérgio.

OS PALIMPSESTOS DE ARQUIMEDES

Primeiramente denominados códices rescripti (códices reescritos), os palimpsestos (do grego palímpsestos = riscar de novo) são obras cujos textos manuscritos (científicos e filosóficos da Antiguidade Clássica) foram apagados - para o reaproveitamento dos pergaminhos em que tinham sido escritos – a fim de receber outro manuscrito; geralmente orações ou literatura litúrgica. Esta prática era comum na Idade Média, sobretudo entre os séculos VII e XII, devido ao elevado custo do pergaminho. A princípio, a eliminação do texto era feita por meio de lavagem, mais tarde, de raspagem com pedra-pomes.
Na Renascença, os palimpsestos começaram a ser estudados, e no século XVIII se aperfeiçoaram processos de reconstituir, por meios químicos, o manuscrito originário ou o que dele restava. Assim, vários textos antigos foram recompostos, por exemplo: a República, de Cícero, descoberto sob o palimpsesto um Comentário de Santo Agostinho aos Salmos; fragmentos de Eurípides, Plauto e outros. Às vezes, porém, o reagente químico danificava para sempre os pergaminhos.
Um dos mais famosos palimpsestos é o de Arquimedes. Trata-se de uma cópia em 170 páginas, manuscrita em fina pelica de carneiro, da obra O Método, de Arquimedes de Siracusa, feito por um escriba bizantino do século X, e raspado no final do século XII ou princípio do século XIII para dar lugar a um livro de orações. A obra foi desmontada por um monge de Jerusalém, em 1229. Ele raspou o texto, cortou as folhas ao meio e as encadernou novamente, escrevendo orações e pintando iluminuras sobre o delicado pergaminho. Veja a ilustração acima: do lado esquerdo à iluminura e do direito o texto de Arquimedes.
A existência do Palimpsesto de Arquimedes era conhecida, mas o livro sumiu na confusão da I Guerra e só reapareceu em 1998, quando foi leiloado por 2,2 milhões de dólares na Christie’s de Nova York. A primeira tentativa de desvendar o manuscrito foi realizada por um pesquisador dinamarquês em 1906. Ele estudou o livro com lente de aumento e publicou uma versão incompleta com o que conseguira decifrar.
Desta vez, o palimpsesto acaba de ser inteiramente decifrado depois de oito anos de trabalho executado por um grupo de pesquisadores convocados pelo Museu de Arte Walters, em Baltimore, nos Estados Unidos. Os cientistas consumiram quatro anos só para desmontar o livro sem danificá-lo.  As páginas frágeis foram submetidas a duas técnicas de imagens. Uma delas consistia em examinar o material com raios-X especial, de modo a registrar o ferro contido na tinta usada pelo escriba do século X. Reorganizado - o resultado das técnicas - no computador, os cientistas extraíram, na íntegra, o texto perdido de sete ensaios de Arquimedes.
Por derivação de sentido, entende-se também por palimpsesto toda obra derivada de uma obra anterior, por transformação ou por imitação; ou seja, o mesmo que hipertexto. ®Sérgio.
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Imagem: Roger Viollet Collection / Getty Images

A MISSA DAS ALMAS DO PURGATÓRIO

Oláia era uma velha e solteirona lavadeira que vivia sozinha num pequeno cômodo na esquina da Rua José Antônio com a Rua Paraná. Não se conheciam parentes ou amigos dela. Diziam uns, que quando jovem, amara perdidamente e fora traída pela sua melhor amiga, que lhe roubou o noivo. Outros, que essa história, é uma história imaginada. Verdade mesmo, é que Oláia vivia santamente; pois, todas as manhãs, antes de ir para o rio lavar roupa, ia ouvir a primeira missa do dia.
Uma noite, dormia em seu pequeno quarto, quando foi despertada por toques de sinos; viu no quarto uma tênue claridade (não atinou que era o luar), levantou mais que depressa, certa de estar amanhecendo e os sinos anunciando a primeira missa. Vestiu-se, pôs à cabeça a bacia cheia de roupa e desceu à rua. Reinava tamanho silêncio que nem mesmo um cão ladrava ao longe. Ao chegar à igreja, notou que, ao contrário do que era natural, nessa manhã, muita gente entrava para ouvir a missa. Como de costume, arriou a bacia à porta da igreja e entrou para fazer suas orações.
A igreja estava cheia de devotos. Ela, porém, não reconhecia nenhum dos presentes, e estava surpresa ao ver todas aquelas fisionomias estranhas e silenciosas que pareciam imobilizadas no mesmo pensamento. Homens e mulheres continuavam a chegar e iam colocar-se a um lugar, ainda vazio, e não se ouvia enquanto andavam, nem o som dos passos, nem o roçar dos tecidos.
  Ajoelhada em seu lugar costumeiro, Oláia viu o sacerdote caminhar para altar, precedido por dois sacristãos. Não reconheceu nem o sacerdote, nem os ajudantes. Começa a missa. Estavam todos atentos. Porém, Oláia, por mais que tentasse, não conseguia ouvir o som dos lábios do sacerdote, nem o rumor da sineta, inutilmente, agitada.
A missa já ia pela metade, quando um cônego muito velho passou a recolher as esmolas, apresentando uma bandeja de cobre aos presentes, que ali deixavam cair sucessivamente moedas antigas. O velho cônego parou em frente de Oláia que procurou em um saquinho grosseiro de couro, uma moeda, sem nele encontrar. A lavadeira sentiu um frio que a fazia tremer sem saber por quê. O cônego vendo que ela nada possuía prosseguiu a coleta.
Quando acabou o ofício da missa, Oláia benzeu-se e saiu. Ao erguer a bacia para colocá-la na cabeça, tremia tanto que o peso era por demais e não conseguiu erguê-la. Os devotos saiam, uns atrás dos outros. Ela pediu a um deles que a ajudasse a levantar a bacia. Ele, porém, lhe respondeu com uma voz débil, muito fora do comum:
— Não posso, porque morri de tuberculose...
Pediu a outro, que lhe respondeu:
— Não posso, porque morri de enfarte...
E, ainda, a outro:
— Não posso, porque não tenho mais sangue...
No próximo ela não mais pede ajuda, porém, completamente assustada, pergunta:
— Meu bom amigo, diga-me quem são as pessoas que assistiam a essa missa silenciosa?
— Esses homens e essas mulheres são almas do purgatório, que ofenderam a Deus, pecando, mas sem maldade. Somos tão infelizes que um anjo se apiedou de nosso martírio. Com o consentimento de Deus, nos reúne todos os anos, à meia-noite, em nossas igrejas paroquiais; onde nos é permitido, durante uma hora, realizar uma missa...
O relógio da matriz dá uma pancada e os cabelos da lavadeira arrepiaram-se de medo. Então ela compreendeu que tinha assistido a uma missa de mortos e que o luar a tinha enganado. Fez o sinal-da-cruz e, em seguida, voltando-se para a alma penada, diz:
— Finado amigo, Deus vos tenha em sua graça!
E saiu a correr, assombrada. Trancou-se em seu quarto e não mais saiu. Enclausurada, emagreceu, definhou e entregou a alma a Deus. ®Sérgio.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

DEVER DE MORRER

Quando o doutor Osvaldo examinou as tomografias de sua nova paciente, uma mulher de cinquenta anos, percebeu que lhe restava pouco tempo de vida. O câncer de mama espalhara-se para o fígado, ossos e pulmões.
Com muito cuidado, o Doutor explicou à paciente o que tinha visto na tomografia, e que as dores que sentia podiam ser aliviadas com medicamentos. No entanto, tais medicamentos, por terem seu uso restrito e sua aplicação estar sob rígido controle, ela teria de ser internada. Ofereceu-lhe, então, uma vaga no hospital público em que realizava os procedimentos médicos. Entretanto, o Doutor percebeu o temor de sua paciente quanto à internação; e só obteve o consentimento depois de lhe garantir que a cuidaria pessoalmente.
Após 24 horas de tratamento com morfina, Ângela se livrou da dor. Embora consciente de que a morte não lhe tardaria, estava calma e em condições de ver o marido e a família. E assim, passaram-se os dias.
No início da noite de uma quinta-feira, a enfermeira liga para a casa do Doutor com notícias nada agradáveis. Conta-lhe que depois que ele deixara o hospital, outro médico entrou no quarto de Ângela e pediu ao marido e à irmã dela que se retirassem, pois iria realizar procedimentos médicos na paciente. Logo após, ordenou à enfermeira, que o acompanhava, que aumentasse a dose de morfina; ordem que ela atendeu prontamente. Porém, quando a enfermeira lhe pediu que confirmasse a ordem por escrito, o médico recusou-se. Minutos depois a paciente estava morta.
O doutor Osvaldo dirigiu-se imediatamente para o hospital. Lá chegando, pediu ao médico uma explicação:
— Poderia levar mais uma semana até que ela morresse - disse-lhe o colega - Eu precisava do leito.
Osvaldo tomado de perplexidade, não conseguiu pronunciar uma palavra sequer. Ainda atônito, foi até a sala de espera do hospital onde encontrou os familiares de sua paciente. Explicava-lhes o motivo que a levou ao óbito, para que tomassem as devidas providências, quando foi interrompido pelo marido de Ângela que lhe exclamou:
— Ela não aguentava mais! Nenhum de nós aguentava!
O doutor Osvaldo Santana abandonou o trabalho no hospital e a carreira médica para se dedicar à outra opção. ®Sérgio.
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Nota Sobre o Texto: Essa história é baseada em fatos reais.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

AO MEU VER ou A MEU VER?

A meu ver é uma locução que indica opinião, conceito. Ela se inicia pela preposição [a] e, segundo a norma gramatical, não devemos usar a meu ver com o artigo definido [o], isto é, [ao meu ver]:
    Meu nome foi excluído, a meu ver, injustamente.
    A meu ver sua candidatura é passível de anulação.
    A meu ver o filme é péssimo.
Entretanto...
Há filólogos e dicionaristas que afirmam, com fundadas razões, que, em nosso idioma, temos a opção de usar, ou não, o artigo definido antes do pronome possessivo. De modo que, não faz sentido, então, proibir o uso da locução com o artigo definido. Daí considerarem, também, correto o uso de [ao meu ver].  
Para dar razão ao que foi dito, nas locuções similares a essa, é correto o emprego com os dois modos: Em/No meu modo de ver; A/Ao meu modo de entender:
    No meu modo de ver, não tenho culpa nisso.
    Em meu modo de ver, não tenho culpa nisso.
    A meu modo de entender, o gol era passível de anulação.
    Ao meu modo de entender, o gol era passível de anulação.
    A meu modo de ver o filme é péssimo.
    Ao meu modo de ver o filme é péssimo.
Mas Atenção: nos concursos, vestibulares e textos formais dê preferência à locução [a meu ver]. Fora isso, elege entre as duas formas, a que achar mais conveniente. ®Sérgio.

A ORIGEM DOS CONCEITOS DE SUJEITO E PREDICADO

A origem dos conceitos de sujeito e predicado remonta as escolas filosóficas clássicas da Antiguidade Grega. Portanto, há mais de dois mil e quinhentos anos.
Os filósofos gregos se baseavam no juízo de que o pensamento humano apresenta duas características básicas: conceber a existência dos seres na sua individualidade e enunciar juízos sobre o modo de existência desses seres. Essas duas capacidades do pensamento humano, gramaticalmente, se estampam nos dois termos básicos da oração: o sujeito e o predicado. O sujeito nos dá a percepção dos seres; o predicado o juízo que deles emitimos.
Fica explícito, portanto, que a concepção filosófica dos gregos sobre o pensamento humano deu origem à ideia gramatical de que as orações apresentam um "tema" - aquilo sobre o qual se diz alguma coisa - a que chamamos de "sujeito" e um "comentário" – o que dizemos sobre o tema – que chamamos de "predicado". ®Sérgio.
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Referência: Sistema Positivo Semi Extensivo. V. I, 2007.