terça-feira, 7 de dezembro de 2010

OS CHIFRES DE MOISÉS

Tenho em meu arquivo de imagens, a famosa escultura representando Moisés, esculpida por Michelangelo. Como meu hobby é o entalhe, não raro, estou a admirá-la, até mesmo para retirar detalhes anatômicos.
Sempre que a visualizava, intrigava-me o porquê de Michelangelo ter esculpido o Moisés ornado com dois corninhos, ou melhor, com dois chifres. 
Dias atrás, lendo um artigo de José Francisco Botelho, intitulado “Quem Escreveu a Bíblia?”, e vinculado à revista Super Interessante (dezembro de 08), descobri a verdadeira razão dos dois chifrinhos. Você já sabia? Maravilha!... Mas para quem não havia reparado, ou para quem nunca apreciou a obra de Michelangelo, ou ainda para quem desconhece o motivo, vou, com sua permissão, repassar, a meu modo, o que li e descobri.
Após a conversão do imperador Constantino o eixo do cristianismo se deslocou do Oriente Médio para Roma; porém para completar a romanização da fé, faltava traduzir o Antigo e Novo Testamento para o latim. Coube ao teólogo Eusebius Hyeronimus, que mais tarde viria a ser canonizado São Jerônimo, esta missão. Sob ordens do papa Damasco, ele viajou a Jerusalém para aprender hebraico e realizar a tradução, que duraram 17 anos.
Daí saiu a Vulgata, a Bíblia latina. Ela se tornou tão influente, mas tão influente, que até seus erros de tradução se tornaram clássicos. São Jerônimo, ao traduzir uma passagem do Êxodo que descreve o semblante do profeta Moisés escreveu em latim: cornuta esse fácies sua, isto é, sua face tinha chifres. Esse esquisito detalhe foi levado a sério por artistas como Michelangelo. Tudo porque Jerônimo tropeçou na palavra hebraica Karan, que pode significar tanto chifre quanto raios de luz. Portanto, a tradução correta seria: sua face tinha raios de luz e não chifres, ou melhor, tinha o rosto iluminado.
Aí está a resposta do que me intrigava: um erro na tradução bíblica levada a sério pelo mestre Michelangelo. Não seria este mais um caso da chamada fé cega? Afinal, Miguelangelo devia ter-se questionado, pois quem tem chifres é o demônio. É ou Noé? ®Sérgio.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

OS HINOS HOMÉRICOS - Estudos Literários

Atribui-se ao poeta Homero a coletânea de uma série de poemas - de diferentes autores (devido às diversidades entre os poemas), épocas e regiões da Grécia - dedicados a várias divindades. Daí o tradicional título de Hinos Homéricos. Chegaram até nós por meio de muitos manuscritos. Entretanto, nenhum deles contém todos os hinos e a maioria está em más condições.
Esses hinos eram compostos com o mais antigo tipo de metro: o hexâmetro.   O mesmo hexâmetro que formavam os versos da Ilíada, da Odisseia, dos poemas de Hesíodo e de outros poemas épicos. Apesar dos hinos apresentarem diferenças no número de versos, todos tinham a estrutura dividida em três partes:
Inuocatio (invocação) - apóstrofe ao deus homenageado.
Pars Epica (parte épica) - descrição dos atributos divinos, eventualmente acompanhada do relato de um ou mais episódios de seu mito.
Precatio (súplica) - contém uma saudação final, uma prece e, muitas vezes, uma referência a outro hino ou poema cantado no festival.
De acordo com o historiador grego Tucídides (460-400 a. C.), eles eram recitados pelos rapsodos (declamadores ambulantes, que iam de cidade em cidade propagando a Ilíada e a Odisseia) a título de introdução, prelúdio ou proêmio (canto introdutório) de solenidades religiosas ou de festivais religiosos. A finalidade era, logicamente, a de invocar a divindade solenizada ou enaltecida na ocasião.
Os hinos não possuem a mesma extensão e, no que tange a qualidade, são desiguais. O mais extenso deles é o dedicado a Hermes (580 versos); o mais curto a Demeter (três versos). Os mais importantes são, naturalmente, os mais longos: a Demeter, a Apolo, a Hermes e a Afrodite. Entretanto, entre os curtos, há hinos notáveis como: a Dionísio (quando capturado pelos piratas); a Pã (sobre as atividades nos campos e nos bosques); a Gaia, a Helio e a Selene.
De todos os hinos da antologia apenas dois tem autoria reconhecida: o do mais longo hino dedicado a Apolo (um rapsodo chamado Cineto de Quios) e a Ares (o filósofo neoplatônio Proclo). Os demais são anônimos.
A antologia é formada por 33 hinos para 22 divindades:
Afrodite
Apolo
Ares
Ártemis
Asclépio
Atena
Deméter
Dioniso
Dióscuros
Gaia
Hélio
Hefesto
Héracles
Hera
Hermes
Héstia
Musa
Réia
Posídon
Selene
Zeus
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®Sérgio.
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Informações foram retiradas e adaptadas ao texto de: RIBEIRO JR., W.A. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em www.greciantiga.org. / Bernabé Pajares, Alberto (ed.). Fragmentos de épica griega arcaica. Biblioteca Clássica Gredos, 20. Madrid: Gredos, 1999.

A FESTA NO CÉU - Recontando Contos Populares

Espalhou-se entre a bicharada que haveria uma festa no céu e só compareceriam as aves porque podiam voar. Isso começou a fazer inveja aos animais e outros bichos incapazes de voar. Mas, teve um que não se deu por satisfeito, e dizia a todos que também ia à festa... Imagine quem? O sapo! Isso mesmo, o sapo! Logo ele, gorducho, que nem uma carreira era capaz de arriscar, achando-se capaz de aparecer naquelas alturas. Pois, afirmava que fora convidado e que ia, chovesse ou fizesse sol. Os bichos só faltavam morrer de rir. Calcule os pássaros.
Entretanto, o seu sapo tinha um plano. Na véspera, foi até a casa do urubu para uma boa prosa, depois de prosearem bastante, disse:
— Bem, amigo urubu, quem é coxo, parte cedo; vou indo porque o caminho é comprido.
O urubu respondeu:
— Você vai mesmo?
— É claro que vou! Inté lá, sem falta!
Entretanto, em vez de sair, o sapo deu uma volta, entrou no quarto do urubu e, vendo a viola em cima da cama, meteu-se dentro dela, e ali ficou, todo encolhido.
Chegando a hora de partir para a festa, o urubu, pegou na viola, amarrou-a a tiracolo e bateu asas para o céu, rru-rru-rru...
Cegando ao céu, o urubu arriou a viola num canto e foi tagarelar com as outras aves. O sapo botou um olho de fora e, vendo que estava sozinho, num pulo ganhou o chão, todo satisfeito.
Vocês não imaginam o espanto que as aves tiveram ao verem o sapo, todo cheio de razão, pulando no céu. Queriam todas, saberem, como ele conseguiu chegar ali. Porém o sapo desconversava, e pulava pra frente. A festa começou e o seu sapo tomou parte com grande animação. Lá pela madrugada, tendo ciência que só podia voltar do modo que veio, foi se esgueirando para fora do salão e correu para o lugar onde o urubu havia deixado a viola.
O sal saindo, acabou-se a festa, e os convidados foram deixando o céu, voando para suas casas. O urubu, não fez por menos, agarrou a viola e tocou para casa, rru-rru-rru...
Ia pelo meio do caminho quando numa curva, o sapo deu uma esticada de perna e o urubu, espiando para dentro da viola, viu o amigo sapo lá no escuro, todo curvado, feito uma bola.
— Ah! Amigo sapo! É assim que você vai à festa no céu? Deixe de ser confiado...
E naquelas alturas emborcou a viola e o sapo despencou-se para baixo, zunindo que nem fecha. E dizia na queda:
— Béu-béu, se eu desta escapar, nunca mais festa no céu...!
Bateu em cima das pedras, como uma jaca madura, espatifando-se todo. Ficou em pedaços. Nossa Senhora, com pena de seu sapo, juntou os pedaços, e o sapo viveu de novo.
Por isso o sapo tem o couro todo cheio de remendos. ®Sérgio.

MESTRE GALO E A COMADRE ONÇA - Recontando Contos Populares

Certo dia, a comadre Onça resolveu dar uma festa e convidou todos os bichos da região. O pagode devia começar ao primeiro sinal da manhã, e nessa hora, todos os convidados deveriam estar presentes.
Entre a bicharada o comentário é de que a festa seria de arromba, a melhor de que havia notícia até aquela data.
Chegando o dia do evento, a mata estava no maior burburinho. Nenhum dos bichos queria faltar ao convite, nem perder a hora.
A primeira luz do dia a casa da comadre Onça estava tão entupida de bicho que até parecia um formigueiro. Ninguém faltara, a não ser Mestre Galo. Tinha esquecido completamente do convite.
Não demorou muito para que a ausência do galo fosse notada. A Comadre se enfureceu, achou que aquilo era pouco caso sem desculpa, além de que, poderia arruinar sua majestade. Então, chamou a raposa e o gambá e lhes ordenou que fossem buscar o galo a sua presença.
Quando a escolta chegou ao galinheiro, pôs a galinhada em polvorosa e o Mestre Galo despertou sobressaltado, no poleiro.
— Vimos lhe buscar seu galo tratante - disse a raposa - da ordem da comadre Onça.  Ela lhe dá a honra de um convite para a maior festa da mata e você fica a dormir!
— Ah! É verdade! Responde o galo ainda espreguiçando. Tinha-me esquecido...
— Pois, é por isso, que a Comadre está furiosa com você.
— Perdão pessoal, perdão! O que ela quererá fazer de mim?...
— Ainda pergunta? Vai devorá-lo, se der a você essa honra, caso contrário deixará darmos cabo de você.
E dizendo isso, a raposa ameaçou destroçar todo o galinheiro de Mestre Galo caso ele se negasse a acompanhá-la, e ordenou-lhe:
— Vamos! Marcha! A comadre está a sua espera; e furiosa!
Mestre Galo não teve outro remédio senão acompanhar, muito do jururu, a escolta.
Chegando a casa da Comadre, a escolta e o preso compareceram diante de sua majestade comadre onça, que soltou um urro de raiva.
— Seu patife! Galo duma figa. Como então ousou desobedecer meu decreto, não se apresentado à hora marcada à minha festa? Vai pagar esse atrevimento.
— Saiba V. Comadre Onça que não foi por querer, mas por esquecimento. Perdão, perdão! Rogo-lhe o perdão ajoelhado aos seus pés.
— Você é um cabeça de vento!... Ia dar-lhe a morte, mas como se humilha, e, para não perturbar a alegria de minha festa, terá, de agora em diante como castigo de seu esquecimento, de não dormir além da meia-noite. Dormirá ao pôr do sol, mas a meia-noite cantará até as duas. E ao vir o dia cantará novamente, dando sempre sinal que está alerta. Se dormir e não cantar, você e sua família correm o risco de serem destroçados pelo gambá e pela raposa. Assim ficará punida tua vil memória.
Mestre Galo ficou muito contente com a solução achada pela comadre Onça e para não esquecer de que havia de cantar à meia-noite, cantou também ao meio-dia. E dessa data em diante começou a cumprir sua condenação, cantando pela madrugada fora.
Mestre Galo quando canta fecha os olhinhos para não esquecer de que tem de cantar outra vez e canta de dia para se lembrar de que tem da cantar de madrugada. ®Sérgio.
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Nota Sobre o Texto: Há duas variantes deste conto: a primeira, em que me baseei, em vez da onça é o leão que dá a festa; e, uma segunda, onde em vez do leão é o sol que dá a festa.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O ENTERRO DE SEVERINO

Lá pelos lados de Pernambuco, mais precisamente na zona canavieira; havia (não sei se ainda há) um costume bem interessante: quando morria algum morador do engenho, os parentes, quase sempre gente pobre, se dirigiam ao delegado de polícia e pediam licença para rezar num "quarto de defunto". Com a licença concedida pelo delegado, eles vão até um boteco, ou bodega, ou ainda, bolicho, e compram de oito a dez garrafas de aguardente, das piores, e um ou dois quilos de bolacha comum, marca popular. Passam então a noite toda cantando ladainhas e ofícios; tomando aguardente e comendo bolacha.
Pois bem, morreu lá, um tal de Severino, e os parentes pediram licença para rezar num "quarto de defunto", compraram o caixão, dez garrafas de aguardente e dois quilos de bolacha, levando tudo para o velório. Passaram a noite velando o morto, entornando a cachaça, comendo a bolacha e cantando ladainhas. Lá pelas tantas da noite, homens e mulheres um tanto embebedados, já não sabiam mais o que estavam cantando. A viúva nem tempo tinha de chorar; atendendo um aqui, outro ali, outro acolá, que chegava até a esquecer do finado.
De manhã, na hora do enterro, fecharam o caixão e foram para o cemitério, num cortejo ziguezagueado que dava dó de se ver. Mais mal do que bem, chegaram ao cemitério; abriram a cova e enterraram o caixão. Depois voltaram até a casa do morto, na esperança de ter sobrado alguma cachacinha no fundo da garrafa. Levaram, então, a maior descompostura de um parente do falecido Severino. É que, o pessoal mais bêbado do que "embolachado", fecharam o caixão, foram ao cemitério fazer o enterro, mas esqueceram do falecido em cima da mesa.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

sábado, 20 de novembro de 2010

A ANTONOMÁSIA - Figuras de Linguagem

É uma variante da metonímia, ou seja, uma substituição de um nome por outro que com ele tenha relação, isto é, designamos uma pessoa pelos seus atributos ou por uma qualidade, ou ainda por uma característica (ou fato) que a distingue. A antonomásia é muito utilizada nos textos escritos e falados. Veja alguns exemplos:

• O Divino Mestre passou pela vida praticando o bem.
• O Poeta dos Escravos morreu na flor dos anos.
Eis uma pequena lista de antonomásias:
- O Poeta dos Escravos - Castro Alves.
- O Patriarca da Independência - José Bonifácio.
- O Águia de Haia - Rui Barbosa.
- O Salvador, o Nazareno, o Redentor, O Divino Mestre - Jesus Cristo.
- O Herói de Tróia - Aquiles.
- O Berço dos Faraós - Egito.
- O Herói das Termópilas - Leônidas.
- O Pai da Medicina - Hipócrates.
Na linguagem popular, o apelido, a alcunha é uma forma de antonomásia. ®Sérgio.

ACIMA DO PESO

Maria Moura, nossa vizinha de Cuiabá (MT), nos contou que estava preocupada com seu pai, que se achava acima do peso e não conseguia fazer regime. Então, disse a ele que parasse de jantar e comesse apenas uma fruta à noite. Na noite seguinte ele apareceu com uma melancia e a comeu inteirinha!
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

A EPÍSTROFE - Figuras de Linguagem

Consiste na repetição de uma ou mais palavras no fim de sucessivos versos ou no fim de cada um dos membros da frase:
• "Parece que eles vieram ao mundo para ser ladrões: nascem de pais ladrões, criam-se em meio a ladrões, morrem como ladrões." (Heitor)
• "Os animais não são criaturas? As árvores não são criaturas? As pedras não são criaturas?" (A. Vieira)
 "Não sou nada
    Nunca serei nada
    Não posso querer ser nada" (Álvaro de Campos) ®Sérgio.

domingo, 7 de novembro de 2010

UMA ATIVIDADE SINTÁTICA E RECREATIVA

Esta atividade é muito importante para o desenvolvimento da memória, excelente para a compreensão dos termos acessórios da oração e para a composição frasal, além de uma boa diversão.
Os participantes podem ser divididos em grupos ou participarem individualmente. A disposição deles no espaço físico dependerá do professor ou professora. A sugestão é sentarem-se em círculo.
A atividade consiste em acrescentar palavras que se relacionem a frase: O Homem da Perna de Pau. Outras frases podem ser utilizadas, esta é apenas uma sugestão.
Cada participante, ou os participantes de cada grupo, devem agregar a frase proposta uma palavra (somente uma) sempre que chegue sua vez, ou a vez do grupo. Por exemplo: o primeiro participante começará dizendo:
"Sou o homem da perna de pau."
O que lhe segue dirá:
"Eu sou o homem da perna de pau."
O outro falará:
"Eu sou o sapato do homem da perna de pau."
E mais outro:
"Eu sou o buraco do cordão do sapato do homem da perna de pau."
E assim sucessivamente.
A dicção das palavras deve ser bem clara; quem se equivocar ou titubear será excluído do jogo. Vencerá aquele, ou o grupo, que no final, entre dois, não cometer erro.
Cabe lembrar que o sucesso de uma atividade pedagógica recreativa se deve, em sua maior parte, a quem a dirige. ®Sérgio.
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Fonte: N. Pithan. Recreação. Cia Brasil Editora: São Paulo, s.d.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O ENCONTRO

Por diversas vezes resisti à tentação de compartilhar com vocês esta Fábula de Millôr Fernandes¹. Entretanto, a tentação, acabou por vencer-me:
Vestido como caçador o homem caçava. Estava metido no mais negro da floresta e caçava. Mas, não procurava qualquer caça não. Procurava uma caça determinada capaz de lhe dar uma pele que aquecesse suas noites hibernais.
E procurava. Procura que procura, eis, senão, quando numa volta da floresta depara nada mais nada menos que com um urso. Os dois se defrontam. O caçador apavorado pela selvageria do animal. O animal pela civilização em forma de rifle do caçador. Mas foi o urso quem falou primeiro:
— Que é que você está procurando
— Eu – disse o caçador – procuro uma boa pele com a qual possa abrigar-me no inverno. E você?
— Eu – disse o urso – procuro algo que jantar, porque faz três dias que não como.
E os dois se puseram a pensar. E foi de novo o urso que falou primeiro:
— Olha caçador, vamos entrar na toca e conversar lá dentro, que é melhor!
Entraram. E dentro de meia hora o urso tinha o seu almoço e consequentemente o caçador tinha o seu capote.
Moral: Falando a gente se entende. ®Sérgio.
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1 - Fabulas Fabulosas. Editora Nórdica: São Paulo, 1973, p.65.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

OS TRÊS IRMÃOS E A PRIMA RICA - Recontando Contos Populares

Conta-se que, certa vez, uma moça muito bonita, filha de um rico fazendeiro, foi hospedar-se em casa de um tio pobre, pai de três garotões solteiros.
No fim de poucos dias, a moça entendeu que estava sendo paquerada pelos três primos, sendo que cada um, guardava em segredo, essa paixão.
Depois de três semanas, a prima marca sua partida para o dia seguinte. Foi então, que cada um dos primos resolveu confessar-lhe seu amor, pedindo-a em casamento. O mais velho que se chamava Everaldo, tomado de coragem, foi o primeiro a lhe falar. A moça ouviu-lhe o pedido, mas como não sentia nada por ele, e sendo um tanto espirituosa lhe propôs o seguinte:
— Só me casarei com o homem que me der provas de sua coragem. Aceitarei seu pedido se hoje, à meia noite, vestido de preto e levando um lençol branco, você penetrar no cemitério e deitar-se sobre o túmulo que estiver de frente ao portão de entrada, cobrindo-se com o lençol como se este fosse uma mortalha. Mas antes deve acender velas em volta do túmulo e não pode sair dele antes de clarear o dia, hora que lá irei para confirmar tua coragem.
Everaldo, apaixonado, não teve dúvidas em aceitar a proposta.
Mal Everaldo deixa a moça, apresenta-se Arnaldo. Feita a declaração, obteve a mesma resposta, porém com proposta diferente:
— Serei tua esposa se esta noite, à uma hora da madrugada, você penetrar no cemitério, mascarado, vestido de preto e levando consigo uma banqueta; deve sentar-se junto ao túmulo que encontrar iluminado por velas, tendo um defunto deitado sobre ele. Ao raiar do dia irei ver se é corajoso.
Arnaldo, também apaixonado, aceitou de imediato a proposta.
Clodoaldo, o mais moço, levou mais tempo para tomar coragem, e só foi ter com a moça, no cair da tarde. Esta lhe respondeu como já fizera aos outros:
Caso-me contigo, se está noite, às duas da madrugada, você penetrar no cemitério, vestido de diabo, com uma sineta numa mão e uma tocha na outra. Entrará pela porta principal e irá até o túmulo bem em frente, que estará iluminado por velas, de onde me trará certo objeto que está sobre ele.
Clodoaldo, mais apaixonado ainda, jurou cumprir o acordo.
A moça, depois disso, correu até a casa do coveiro, guardião do cemitério, e propôs-lhe, por uma boa gorjeta, deixar o portão do cemitério sem tranca durante a noite e manter absoluto segredo do que lhe contara. Dito e feito.
Antes da meia-noite, Everaldo vestiu a roupa preta e com o lençol embrulhado debaixo do braço, partiu para o cemitério. Experimentou o portão principal; encontrando-o destrancado, agradeceu a sorte, e entrou. Lá estava o túmulo, aproximou-se vagarosamente, olhou para um lado e para o outro, embora sentisse arrepios de medo, acendeu as velas em volta, subiu para o túmulo e nele deitou-se, cobrindo-se com o lençol; justamente quando o relógio da matriz dava as badaladas da meia-noite.
Ali se deixou ficar, tremendo que nem vara verde. Passada uma hora, ouviu rumor no portão de entrada. Sentiu que alguém, passo a passo, se aproximava. Percebeu que o visitante arrastara uma banqueta e sentou-se junto do túmulo, se borrando de medo.
Everaldo, sem saber de que elementos de coragem e força dispunha, segurava-se para não estremecer e denunciar o pavor que sentia. A vontade era pular daquele túmulo e fugir.
Por outro lado, Arnaldo, de cabelo em pé, tremia mais do que gelatina. O silêncio no cemitério era profundo, só interrompido, de vez em quando, pelo canto das corujas e o voo dos morcegos. E para piorar as coisas para o suposto defunto, Arnaldo começou a cochichar, numa voz cavernosa, padre-nossos, ave-marias, Credo em cruz e o que mais podia se lembrar de rezas.
A coisa já ia de mal a pior, quando se ouviu um badalar de sineta. No portão aberto do cemitério apareceu a figura diabólica de Clodoaldo. Era o que faltava; diante daquela encarnação de essência diabólica, Arnaldo ergue-se da banqueta e Everaldo, arrancando lençol do corpo, pula do túmulo. Ambos sem se reconhecerem, puseram-se em desnorteada carreira.
Clodoaldo, por ver um defunto pular do túmulo, assombrado, treme, e quanto mais tremia mais badalava a sineta. As aves adormecidas nos galhos das árvores fugiam espavoridas, ao ranger frenético da sineta. Ao ver os dois passarem por ele, feito flechas, não se deu por rogado e disparou atrás... E lá se foram os três, correndo na mesma direção: a da casa deles.
A prima, que não era nada boba, já os esperava na janela e, ao vê-los chegar ao mesmo tempo, naquela situação, não se conteve e caiu na gargalhada, exclamando: "Perderam a aposta! Não é culpa minha que não tivessem coragem!"
Os irmãos então caíram em si e perceberam o papelão que tinham representado. Pediram à prima que não revelasse o acontecido, que foi prontamente prometido. Assim, fizeram as pazes; podendo, no outro dia, a moça retirar-se para sua fazenda.
O caso veio a conhecimento do arraial pelo coveiro. Com a sobra do dinheiro recebido, encheu a cara no boteco e contou todo o acontecido.®Sérgio.
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Nota Sobre o Texto: Em contato com pessoas pela internet, interei-me que este causo já correu o Brasil, em versões mais ou menos diferenciadas. Lindolfo Gomes em Contos Populares (1931) já o havia ouvido em Mata de Minas. Aqui, contou-me o senhor Otacílio, por três vezes. Qualquer um que pegue de prosa com ele, vai ouvi-lo na primeira oportunidade, principalmente, se ele já tiver tomado umas.

sábado, 30 de outubro de 2010

COMO PRENDER UM DIABINHO NA GARRAFA

Muito antes de me aposentar, desenvolvi com meus alunos um projeto de pesquisa cuja finalidade era o resgate de contos, mitos e lendas da nossa terra, recontados ao longo de nossa história pela tradição oral. A ideia era registrarmos o material colhido em uma brochura.
Hoje, revendo algumas das crendices "pescadas" na oralidade, não consegui conter o desejo de lhes contar um episódio que me foi narrado por um senhor da Mata de Minas, residindo há muito anos em minha cidade.
Segundo seu Joaquim, "a gente" que vivia na região mineira do Vale de São Francisco, chamava de "famaliá" um diabinho, que se conservava preso dentro de uma garrafa. Quem estivesse precisando de dinheiro era só pedir a ele que o dinheiro aparecia na hora.
Se, por acaso, você estiver necessitando de um dinheirinho e quiser aprisionar um famaliá, seu Joaquim tem a receita de como apanhá-los. Isso mesmo, apanhá-los: não um, mas dois deles e colocá-los dentro de uma garrafa. É assim:
Mate um gato preto e tire-lhe os dois olhos.
Ponha cada olho dentro de um ovo de galinha preta.
Enfie os ovos dentro de esterco de cavalo, que ainda esteja quente.
Todo dia, vá até perto do monte e diga: Ó, diabão! Eu te entrego estes dois olhos de gato preto para que me sejas favorável nesta apelação: "Que deles nasçam dois diabinhos para eu cria-los dentro de uma garrafa e me darem dinheiro na hora da precisão".
Diga isso durante trinta dias. Ao fim desse tempo, nascem dois diabinhos no corpo de uma lagartixa. Coloque-os dentro da garrafa e os alimente com pó de ferro ou aço moído (Bombril). Depois é só pedir dinheiro, que aparece na hora.
Mas, nem por sombras, poderíamos imaginar o que iria suceder aos gatos pretos se esta receita chegasse a Brasília. Ou poderíamos?
Salve-se o gato que puder! ®Sérgio.

O DRAMA NA PROSA FICCIONAL

A palavra Drama originou-se na Grécia Antiga (drâma) e designava simplesmente a ação. E como ação representava uma forma exclusiva do teatro.
Como a ação envolve o choque entre personagens, a palavra drama assumiu também o sentido de conflito, e o adjetivo dramático, o de conflitivo. Assim é que, no âmbito da prosa de ficção (conto, novela romance), é valido usarmos o termo drama para rotular a característica mais importante da prosa ficcional: o conflito.
Portanto, drama, dramático, no âmbito da prosa, deve ser entendido como conflito, ação conflituosa. Pois, o drama nasce quando se dá o choque de duas ou mais personagens; seja por contato com o mundo sobrenatural, seja por questões sociais, políticas, familiares, de caráter, ou mesmo com o próprio mundo íntimo duma personagem com suas ambições e desejos contraditórios. Você já se sentiu dividido, sem conseguir optar, querendo e não querendo uma coisa, com medo e com vontade de fazer algo? Então você entende o que é um conflito, um drama.
Se não há drama, não há conflito e, portanto nem história. E mesmo que houvesse uma história, sem drama, sem conflito, não despertaria interesse nenhum.
Os primeiros dramas registrados na literatura podem ser encontrados em Ilíada e Odisséia — são confrontos entre o homem e a natureza, entre o homem e os deuses, entre o herói e seus inimigos militares - todos esses confrontos são explorados nos poemas épicos de Homero.
A solução de um conflito depende das circunstâncias que o iniciaram. Na tragédia clássica, ele deveria ser resolvido dentro do próprio drama, segundo uma regra que assegurava ao espectador sair do espetáculo sem dúvidas sobre o destino e o caráter das personagens. Na dramaturgia e na ficção pós-moderna, por exemplo, explora-se a situação sem saída, o eterno conflito, o mais das vezes, nunca resolvido, ou apenas subentendido ou sugerido. Compete, muitas vezes, ao leitor tirar às conclusões necessárias a solução do conflito da história narrada.
Da Palavra Drama Derivou:
Dramalhão, termo pejorativo de drama, em relação às características desenvolvidas pelo drama após o século XVIII.
Dramaturgia e Dramatologia, sinônimo de arte dramática.
Dramaturgo, autor de dramas, ou seja, de peças teatrais.
De modo geral, podemos dizer que os conflitos envolvendo os protagonistas da ficção se estruturam de três modos:
1º. Conflito do protagonista com outro personagem: o mais tradicional exemplo deste modo de conflito está nas histórias de mocinho e bandido, de herói e vilão.
2º. Conflito do protagonista com um grupo de personagens: um bom exemplo deste caso é aquele investigador que combate sozinho ou com pouca ajuda, a máfia das drogas, crimes cometidos por gangues, etc.
3º Conflito do protagonista com ele mesmo: é o caso das narrativas de forte apelo psicológico, em que o personagem principal vive, com suas ambições e desejos contraditórios, um drama interior. ®Sérgio.
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Ajudaram na elaboração deste texto: PEACOCK, Ronald.  Formas da literatura dramática.  Rio de Janeiro: Zahar, 1968. / O. B. Hardison Jr., Christian Rite and Christian Drama in the Middle Ages – Essays in the Origin and Early History of Modern Drama (1965). / Brasil, Assis. Vocabulário Técnico de Literatura. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s.d.

domingo, 24 de outubro de 2010

A REALIDADE E A FICÇÃO EM O GLADIADOR

Sempre que assisto a um bom filme, procuro trocar ideias com amigos e conhecidos a respeito do enredo do filme. O Gladiador, além de arrematar cinco Oscar(es), levou ao cinema, no mundo todo, um grande público. Aqui não foi diferente.
Para a maioria das pessoas com quem tive a oportunidade de conversar, ficou uma indagação: o que era ficção e o que era História. Isso é, exatamente, o que Hollywood não quer dizer. Se disser o entretenimento acaba. Envolvido, também, por esse questionamento, fui pesquisar; e descobri que:
Se você achou que os gladiadores eram mesmo, como aqueles heróis do filme, altos e musculosos, é melhor ficar com Hollywood. Na realidade, a maioria dos gladiadores tinha menos de 1,70m, gordura sobrando e, frequentemente, eram executados nos fundos da arena, com golpes de martelo na cabeça.
Máximo, o Gladiador, protagonista do filme, é pura ficção. Foi inventado.
Do filme Spartacus (1960) foram emprestados três personagens fictícios:
a) Draba, o negro africano que se torna amigo de Spartacus; foi Juba em Gladiador. Também, se torna amigo de Máximo.
b) Batiato senhor de Spartacus; um governante de bom coração. Rebatizado de Próximo, em Gladiador, senhor de Máximo.
c) O cínico Senador Graco que enxerga Roma como ela realmente é: bela e corrupta; foi totalmente emprestado de Spartacus, até seu nome foi mantido.
Spartacus realmente existiu, e foi executado pelos romanos em 71 a.C.
A ideia para ascensão de Cômodo, filho do Imperador, veio do filme Calígula (1980). Demente e apaixonado por sua irmã Drusila (como Cômodo era por sua irmã), Calígula mata o tio (no Gladiador, Cômodo o pai) para se tornar Imperador.
César Marco Aurélio Antonino Augusto - Marco Aurélio para os íntimos, que eram bem poucos - pai de Cômodo, foi, realmente, Imperador Romano durante 19 anos. Além de estar presente nas batalhas, ele achava tempo para escrever sobre filosofia - no que foi bem sucedido, uma de suas obras, Meditações, resistiu ao tempo e chegou ate nós. Marco Aurélio morreu em 180 a.C., vitimado por uma daquelas pestes que eram comuns há 2.000 anos. A epidemia foi propagada pelos próprios soldados do imperador, no regresso de uma campanha militar («higiene» não era exatamente uma das prioridades dos soldados).
Cômodo, na realidade, não assassinou o pai, como na ficção. Por que o faria, se aos cinco anos já tinha recebido o título de César, o que equivalia a uma pré-nomeação para governar o Império Romano. Aos 17 anos foi empossado co-imperador e reinou em conjunto com o pai, Marco Aurélio, durante três anos. Com a morte do pai assumiu o poder e pelos 12 anos seguintes (bem mais que no filme), mandou e desmandou em Roma. Foi um melomaníaco. Tentou mudar o nome de Roma para Comodônia e, substituir os nomes dos meses do ano, pelos seus próprios (ele se chamava César Marco Aurélio Cômodo Antonino Augusto) e pelos títulos honoríficos que recebia do Senado Romano, como Invicto, Félix e Pio. Cômodo, também era um pervertido sexual (hobby de muitos imperadores romanos). Morreu em 192 a.C., estrangulado por um dos seus protegidos, um atleta chamado Narciso Mérida. Aliás, no primeiro rascunho do filme, o protagonista (Máximo) era chamado de Narciso. A preferência por Máximo Décimo Merídio veio a calhar, quem iria torcer por um herói chamado Narciso Mérida? 
O que parecia mais improvável no filme é mesmo verdade: Cômodo fazia suas estripulias na arena do Coliseu, matando feras e enfrentando gladiadores, embora haja sérias dúvidas quanto à qualidade e a motivação dos oponentes que eram escalados para medir forças com o imperador. As más línguas dizem que Cômodo era filho ilegítimo. Havia o boato de que a rainha Faustina teve uma aventura com um gladiador. Esse detalhe, omitido no filme, talvez explicasse a fascinação que os jogos de gladiadores exerciam sobre Cômodo.
Lucila, a irmã mais velha de Cômodo, realmente o detestava. No segundo ano de mandato do irmão armou uma conspiração para assassiná-lo. Mas a Lucila real não teve a mesma sorte que a da ficção: Cômodo a deportou para a ilha italiana de Capri, perto de Nápoles e, logo após, ordenou sua execução.
A reconstituição arquitetônica do Coliseu, no filme é exemplar; alojava algo em torno de 50000 pessoas. A carnificina não era somente diária, mas durava de sol a sol, isto é, a qualquer dia, e a qualquer hora, quem fosse ao Coliseu veria algum espetáculo. Essa era a teoria dos organizadores: enquanto o povo estivesse ocupado vendo combates sangrentos não se preocuparia com outras coisas, como uma revolução (será por isso que temos tantos e enormes estádios de futebol e poucos hospitais?). Daí vem à famosa frase: pão e circo!
O nome Coliseu, entretanto, só aparecerá 1.000 anos depois da época do filme. Na época de Marco Aurélio e Cômodo, o estádio era chamado de Anfiteatro Flaviano.
SPQR - a sigla tatuada que Máximo raspa do braço quando decide levar a sério a carreira de Gladiador -, significa: "para o Senado e o Povo de Roma" (Senatus Popules Que Romanus). Tinha a tatuagem porque pertencia a uma classe inferior, a dos soldados. Gente fina não se tatuava no tempo dos Romanos, só a ralé. É daí que surgiu uma expressão usada até hoje, «ele carrega um estigma». A palavra latina para tatuagem era estigma. ®Sérgio.

ESCRAVOS DE NOSSAS IDEIAS E AÇÕES

Certa vez, ouvi numa roda de prosa, o seguinte comentário: fulano tem umas manias esquisitas... Até certo ponto, é um comentário bem comum nas conversas informais. Se formos raciocinar sem preconceitos, chegaremos à conclusão que todo mundo tem lá suas manias, principalmente, se já somam uma boa quantidade de anos vividos. Eu tenho minhas manias e, certamente, você tem as suas. No entanto, devemos tomar cuidado para que essas manias não se extrapolem. Por diversos motivos, ainda não totalmente esclarecidos pela ciência, as manias podem se transformar em doenças chamadas cientificamente de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), transformando-nos "em escravos de nossas próprias ideias e ações". Santo Inácio de Loyola (1491-1556), antes de se converter, era um soldado extremamente vaidoso e tinha uma vida fútil. Depois de convertido, o fundador da Companhia de Jesus, passou a carregar uma enorme culpa pelo seu passado e como não conseguia livrar-se desta culpa, pois estava sempre presente em sua mente desenvolveu a mania de confessar sempre os mesmos pecados. "Ele começava a recordar seus pecados e, como num rosário, ia pensando de pecado em pecado, e lhe parecia de novo que estava obrigado a confessá-los outra vez."¹
Pior ainda, são as manias da professora Denisse (44 anos). Veja o relato: "O tormento começou aos 12 anos, quando minha avó morreu e eu me culpei por não estar ao lado dela. Minha primeira mania: toda vez que passava pela imagem de um santo que tinha em casa, tinha de tocá-lo e me benzer. Se eu não cumprisse esse ritual, tinha certeza de que, quando eu completasse quinze anos, minha mãe morreria. Todos os anos, como nada de ruim acontecia, eu estipulava uma nova idade para a suposta catástrofe. Foi assim até o 38º aniversário. Logo depois que minha avó morreu, vi um filme de terror em que os filhos do diabo tinham o número seis tatuado no braço. Desde então tenho pavor do número seis. Eu sou compelida a realizar uma tarefa inúmeras vezes. Do contrário sinto que as pessoas que amo podem sofrer algum mal. Todas as noites antes de dormir, tenho de cumprir um ritual que leva até três horas. Eu deito; imediatamente me levanto, e vou ao banheiro. Na volta para o quarto, tenho de tocar na imagem de Jesus Cristo pendurada no corredor. Antes de me deitar novamente, encosto-me a cada um dos santos que tenho no quarto. Ao todo são quase trinta imagens. Deito e pego “o santinho” que guardo debaixo do travesseiro e me benzo três vezes. Já aconteceu de eu repetir esse ritual 21 vezes. É como uma avalanche. Quando começa, é impossível parar. A angústia de não fazer o que minha mente pede – por mais ilógico que seja – é pior do que repetir as ações sem parar".
Não seria sem razão dizer que Denisse é como Sísifo, personagem de Odisseia, poema épico de Homero. Como castigo por ter enganado Zeus, Sísifo foi condenado a levar uma pedra enorme até o topo de uma montanha e deixar rolá-la até o sopé para começar tudo de novo. ®Sérgio.
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1- Relato do biógrafo de Santo Inácio, sobre confissão feita no mosteiro beneditino de Montserrat, em meados do século XVI.