quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

MESTRE GALO E A COMADRE ONÇA - Recontando Contos Populares

Certo dia, a comadre Onça resolveu dar uma festa e convidou todos os bichos da região. O pagode devia começar ao primeiro sinal da manhã, e nessa hora, todos os convidados deveriam estar presentes.
Entre a bicharada o comentário é de que a festa seria de arromba, a melhor de que havia notícia até aquela data.
Chegando o dia do evento, a mata estava no maior burburinho. Nenhum dos bichos queria faltar ao convite, nem perder a hora.
A primeira luz do dia a casa da comadre Onça estava tão entupida de bicho que até parecia um formigueiro. Ninguém faltara, a não ser Mestre Galo. Tinha esquecido completamente do convite.
Não demorou muito para que a ausência do galo fosse notada. A Comadre se enfureceu, achou que aquilo era pouco caso sem desculpa, além de que, poderia arruinar sua majestade. Então, chamou a raposa e o gambá e lhes ordenou que fossem buscar o galo a sua presença.
Quando a escolta chegou ao galinheiro, pôs a galinhada em polvorosa e o Mestre Galo despertou sobressaltado, no poleiro.
— Vimos lhe buscar seu galo tratante - disse a raposa - da ordem da comadre Onça.  Ela lhe dá a honra de um convite para a maior festa da mata e você fica a dormir!
— Ah! É verdade! Responde o galo ainda espreguiçando. Tinha-me esquecido...
— Pois, é por isso, que a Comadre está furiosa com você.
— Perdão pessoal, perdão! O que ela quererá fazer de mim?...
— Ainda pergunta? Vai devorá-lo, se der a você essa honra, caso contrário deixará darmos cabo de você.
E dizendo isso, a raposa ameaçou destroçar todo o galinheiro de Mestre Galo caso ele se negasse a acompanhá-la, e ordenou-lhe:
— Vamos! Marcha! A comadre está a sua espera; e furiosa!
Mestre Galo não teve outro remédio senão acompanhar, muito do jururu, a escolta.
Chegando a casa da Comadre, a escolta e o preso compareceram diante de sua majestade comadre onça, que soltou um urro de raiva.
— Seu patife! Galo duma figa. Como então ousou desobedecer meu decreto, não se apresentado à hora marcada à minha festa? Vai pagar esse atrevimento.
— Saiba V. Comadre Onça que não foi por querer, mas por esquecimento. Perdão, perdão! Rogo-lhe o perdão ajoelhado aos seus pés.
— Você é um cabeça de vento!... Ia dar-lhe a morte, mas como se humilha, e, para não perturbar a alegria de minha festa, terá, de agora em diante como castigo de seu esquecimento, de não dormir além da meia-noite. Dormirá ao pôr do sol, mas a meia-noite cantará até as duas. E ao vir o dia cantará novamente, dando sempre sinal que está alerta. Se dormir e não cantar, você e sua família correm o risco de serem destroçados pelo gambá e pela raposa. Assim ficará punida tua vil memória.
Mestre Galo ficou muito contente com a solução achada pela comadre Onça e para não esquecer de que havia de cantar à meia-noite, cantou também ao meio-dia. E dessa data em diante começou a cumprir sua condenação, cantando pela madrugada fora.
Mestre Galo quando canta fecha os olhinhos para não esquecer de que tem de cantar outra vez e canta de dia para se lembrar de que tem da cantar de madrugada. ®Sérgio.
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Nota Sobre o Texto: Há duas variantes deste conto: a primeira, em que me baseei, em vez da onça é o leão que dá a festa; e, uma segunda, onde em vez do leão é o sol que dá a festa.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O ENTERRO DE SEVERINO

Lá pelos lados de Pernambuco, mais precisamente na zona canavieira; havia (não sei se ainda há) um costume bem interessante: quando morria algum morador do engenho, os parentes, quase sempre gente pobre, se dirigiam ao delegado de polícia e pediam licença para rezar num "quarto de defunto". Com a licença concedida pelo delegado, eles vão até um boteco, ou bodega, ou ainda, bolicho, e compram de oito a dez garrafas de aguardente, das piores, e um ou dois quilos de bolacha comum, marca popular. Passam então a noite toda cantando ladainhas e ofícios; tomando aguardente e comendo bolacha.
Pois bem, morreu lá, um tal de Severino, e os parentes pediram licença para rezar num "quarto de defunto", compraram o caixão, dez garrafas de aguardente e dois quilos de bolacha, levando tudo para o velório. Passaram a noite velando o morto, entornando a cachaça, comendo a bolacha e cantando ladainhas. Lá pelas tantas da noite, homens e mulheres um tanto embebedados, já não sabiam mais o que estavam cantando. A viúva nem tempo tinha de chorar; atendendo um aqui, outro ali, outro acolá, que chegava até a esquecer do finado.
De manhã, na hora do enterro, fecharam o caixão e foram para o cemitério, num cortejo ziguezagueado que dava dó de se ver. Mais mal do que bem, chegaram ao cemitério; abriram a cova e enterraram o caixão. Depois voltaram até a casa do morto, na esperança de ter sobrado alguma cachacinha no fundo da garrafa. Levaram, então, a maior descompostura de um parente do falecido Severino. É que, o pessoal mais bêbado do que "embolachado", fecharam o caixão, foram ao cemitério fazer o enterro, mas esqueceram do falecido em cima da mesa.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

sábado, 20 de novembro de 2010

A ANTONOMÁSIA - Figuras de Linguagem

É uma variante da metonímia, ou seja, uma substituição de um nome por outro que com ele tenha relação, isto é, designamos uma pessoa pelos seus atributos ou por uma qualidade, ou ainda por uma característica (ou fato) que a distingue. A antonomásia é muito utilizada nos textos escritos e falados. Veja alguns exemplos:

• O Divino Mestre passou pela vida praticando o bem.
• O Poeta dos Escravos morreu na flor dos anos.
Eis uma pequena lista de antonomásias:
- O Poeta dos Escravos - Castro Alves.
- O Patriarca da Independência - José Bonifácio.
- O Águia de Haia - Rui Barbosa.
- O Salvador, o Nazareno, o Redentor, O Divino Mestre - Jesus Cristo.
- O Herói de Tróia - Aquiles.
- O Berço dos Faraós - Egito.
- O Herói das Termópilas - Leônidas.
- O Pai da Medicina - Hipócrates.
Na linguagem popular, o apelido, a alcunha é uma forma de antonomásia. ®Sérgio.

ACIMA DO PESO

Maria Moura, nossa vizinha de Cuiabá (MT), nos contou que estava preocupada com seu pai, que se achava acima do peso e não conseguia fazer regime. Então, disse a ele que parasse de jantar e comesse apenas uma fruta à noite. Na noite seguinte ele apareceu com uma melancia e a comeu inteirinha!
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

A EPÍSTROFE - Figuras de Linguagem

Consiste na repetição de uma ou mais palavras no fim de sucessivos versos ou no fim de cada um dos membros da frase:
• "Parece que eles vieram ao mundo para ser ladrões: nascem de pais ladrões, criam-se em meio a ladrões, morrem como ladrões." (Heitor)
• "Os animais não são criaturas? As árvores não são criaturas? As pedras não são criaturas?" (A. Vieira)
 "Não sou nada
    Nunca serei nada
    Não posso querer ser nada" (Álvaro de Campos) ®Sérgio.

domingo, 7 de novembro de 2010

UMA ATIVIDADE SINTÁTICA E RECREATIVA

Esta atividade é muito importante para o desenvolvimento da memória, excelente para a compreensão dos termos acessórios da oração e para a composição frasal, além de uma boa diversão.
Os participantes podem ser divididos em grupos ou participarem individualmente. A disposição deles no espaço físico dependerá do professor ou professora. A sugestão é sentarem-se em círculo.
A atividade consiste em acrescentar palavras que se relacionem a frase: O Homem da Perna de Pau. Outras frases podem ser utilizadas, esta é apenas uma sugestão.
Cada participante, ou os participantes de cada grupo, devem agregar a frase proposta uma palavra (somente uma) sempre que chegue sua vez, ou a vez do grupo. Por exemplo: o primeiro participante começará dizendo:
"Sou o homem da perna de pau."
O que lhe segue dirá:
"Eu sou o homem da perna de pau."
O outro falará:
"Eu sou o sapato do homem da perna de pau."
E mais outro:
"Eu sou o buraco do cordão do sapato do homem da perna de pau."
E assim sucessivamente.
A dicção das palavras deve ser bem clara; quem se equivocar ou titubear será excluído do jogo. Vencerá aquele, ou o grupo, que no final, entre dois, não cometer erro.
Cabe lembrar que o sucesso de uma atividade pedagógica recreativa se deve, em sua maior parte, a quem a dirige. ®Sérgio.
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Fonte: N. Pithan. Recreação. Cia Brasil Editora: São Paulo, s.d.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O ENCONTRO

Por diversas vezes resisti à tentação de compartilhar com vocês esta Fábula de Millôr Fernandes¹. Entretanto, a tentação, acabou por vencer-me:
Vestido como caçador o homem caçava. Estava metido no mais negro da floresta e caçava. Mas, não procurava qualquer caça não. Procurava uma caça determinada capaz de lhe dar uma pele que aquecesse suas noites hibernais.
E procurava. Procura que procura, eis, senão, quando numa volta da floresta depara nada mais nada menos que com um urso. Os dois se defrontam. O caçador apavorado pela selvageria do animal. O animal pela civilização em forma de rifle do caçador. Mas foi o urso quem falou primeiro:
— Que é que você está procurando
— Eu – disse o caçador – procuro uma boa pele com a qual possa abrigar-me no inverno. E você?
— Eu – disse o urso – procuro algo que jantar, porque faz três dias que não como.
E os dois se puseram a pensar. E foi de novo o urso que falou primeiro:
— Olha caçador, vamos entrar na toca e conversar lá dentro, que é melhor!
Entraram. E dentro de meia hora o urso tinha o seu almoço e consequentemente o caçador tinha o seu capote.
Moral: Falando a gente se entende. ®Sérgio.
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1 - Fabulas Fabulosas. Editora Nórdica: São Paulo, 1973, p.65.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

OS TRÊS IRMÃOS E A PRIMA RICA - Recontando Contos Populares

Conta-se que, certa vez, uma moça muito bonita, filha de um rico fazendeiro, foi hospedar-se em casa de um tio pobre, pai de três garotões solteiros.
No fim de poucos dias, a moça entendeu que estava sendo paquerada pelos três primos, sendo que cada um, guardava em segredo, essa paixão.
Depois de três semanas, a prima marca sua partida para o dia seguinte. Foi então, que cada um dos primos resolveu confessar-lhe seu amor, pedindo-a em casamento. O mais velho que se chamava Everaldo, tomado de coragem, foi o primeiro a lhe falar. A moça ouviu-lhe o pedido, mas como não sentia nada por ele, e sendo um tanto espirituosa lhe propôs o seguinte:
— Só me casarei com o homem que me der provas de sua coragem. Aceitarei seu pedido se hoje, à meia noite, vestido de preto e levando um lençol branco, você penetrar no cemitério e deitar-se sobre o túmulo que estiver de frente ao portão de entrada, cobrindo-se com o lençol como se este fosse uma mortalha. Mas antes deve acender velas em volta do túmulo e não pode sair dele antes de clarear o dia, hora que lá irei para confirmar tua coragem.
Everaldo, apaixonado, não teve dúvidas em aceitar a proposta.
Mal Everaldo deixa a moça, apresenta-se Arnaldo. Feita a declaração, obteve a mesma resposta, porém com proposta diferente:
— Serei tua esposa se esta noite, à uma hora da madrugada, você penetrar no cemitério, mascarado, vestido de preto e levando consigo uma banqueta; deve sentar-se junto ao túmulo que encontrar iluminado por velas, tendo um defunto deitado sobre ele. Ao raiar do dia irei ver se é corajoso.
Arnaldo, também apaixonado, aceitou de imediato a proposta.
Clodoaldo, o mais moço, levou mais tempo para tomar coragem, e só foi ter com a moça, no cair da tarde. Esta lhe respondeu como já fizera aos outros:
Caso-me contigo, se está noite, às duas da madrugada, você penetrar no cemitério, vestido de diabo, com uma sineta numa mão e uma tocha na outra. Entrará pela porta principal e irá até o túmulo bem em frente, que estará iluminado por velas, de onde me trará certo objeto que está sobre ele.
Clodoaldo, mais apaixonado ainda, jurou cumprir o acordo.
A moça, depois disso, correu até a casa do coveiro, guardião do cemitério, e propôs-lhe, por uma boa gorjeta, deixar o portão do cemitério sem tranca durante a noite e manter absoluto segredo do que lhe contara. Dito e feito.
Antes da meia-noite, Everaldo vestiu a roupa preta e com o lençol embrulhado debaixo do braço, partiu para o cemitério. Experimentou o portão principal; encontrando-o destrancado, agradeceu a sorte, e entrou. Lá estava o túmulo, aproximou-se vagarosamente, olhou para um lado e para o outro, embora sentisse arrepios de medo, acendeu as velas em volta, subiu para o túmulo e nele deitou-se, cobrindo-se com o lençol; justamente quando o relógio da matriz dava as badaladas da meia-noite.
Ali se deixou ficar, tremendo que nem vara verde. Passada uma hora, ouviu rumor no portão de entrada. Sentiu que alguém, passo a passo, se aproximava. Percebeu que o visitante arrastara uma banqueta e sentou-se junto do túmulo, se borrando de medo.
Everaldo, sem saber de que elementos de coragem e força dispunha, segurava-se para não estremecer e denunciar o pavor que sentia. A vontade era pular daquele túmulo e fugir.
Por outro lado, Arnaldo, de cabelo em pé, tremia mais do que gelatina. O silêncio no cemitério era profundo, só interrompido, de vez em quando, pelo canto das corujas e o voo dos morcegos. E para piorar as coisas para o suposto defunto, Arnaldo começou a cochichar, numa voz cavernosa, padre-nossos, ave-marias, Credo em cruz e o que mais podia se lembrar de rezas.
A coisa já ia de mal a pior, quando se ouviu um badalar de sineta. No portão aberto do cemitério apareceu a figura diabólica de Clodoaldo. Era o que faltava; diante daquela encarnação de essência diabólica, Arnaldo ergue-se da banqueta e Everaldo, arrancando lençol do corpo, pula do túmulo. Ambos sem se reconhecerem, puseram-se em desnorteada carreira.
Clodoaldo, por ver um defunto pular do túmulo, assombrado, treme, e quanto mais tremia mais badalava a sineta. As aves adormecidas nos galhos das árvores fugiam espavoridas, ao ranger frenético da sineta. Ao ver os dois passarem por ele, feito flechas, não se deu por rogado e disparou atrás... E lá se foram os três, correndo na mesma direção: a da casa deles.
A prima, que não era nada boba, já os esperava na janela e, ao vê-los chegar ao mesmo tempo, naquela situação, não se conteve e caiu na gargalhada, exclamando: "Perderam a aposta! Não é culpa minha que não tivessem coragem!"
Os irmãos então caíram em si e perceberam o papelão que tinham representado. Pediram à prima que não revelasse o acontecido, que foi prontamente prometido. Assim, fizeram as pazes; podendo, no outro dia, a moça retirar-se para sua fazenda.
O caso veio a conhecimento do arraial pelo coveiro. Com a sobra do dinheiro recebido, encheu a cara no boteco e contou todo o acontecido.®Sérgio.
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Nota Sobre o Texto: Em contato com pessoas pela internet, interei-me que este causo já correu o Brasil, em versões mais ou menos diferenciadas. Lindolfo Gomes em Contos Populares (1931) já o havia ouvido em Mata de Minas. Aqui, contou-me o senhor Otacílio, por três vezes. Qualquer um que pegue de prosa com ele, vai ouvi-lo na primeira oportunidade, principalmente, se ele já tiver tomado umas.

sábado, 30 de outubro de 2010

COMO PRENDER UM DIABINHO NA GARRAFA

Muito antes de me aposentar, desenvolvi com meus alunos um projeto de pesquisa cuja finalidade era o resgate de contos, mitos e lendas da nossa terra, recontados ao longo de nossa história pela tradição oral. A ideia era registrarmos o material colhido em uma brochura.
Hoje, revendo algumas das crendices "pescadas" na oralidade, não consegui conter o desejo de lhes contar um episódio que me foi narrado por um senhor da Mata de Minas, residindo há muito anos em minha cidade.
Segundo seu Joaquim, "a gente" que vivia na região mineira do Vale de São Francisco, chamava de "famaliá" um diabinho, que se conservava preso dentro de uma garrafa. Quem estivesse precisando de dinheiro era só pedir a ele que o dinheiro aparecia na hora.
Se, por acaso, você estiver necessitando de um dinheirinho e quiser aprisionar um famaliá, seu Joaquim tem a receita de como apanhá-los. Isso mesmo, apanhá-los: não um, mas dois deles e colocá-los dentro de uma garrafa. É assim:
Mate um gato preto e tire-lhe os dois olhos.
Ponha cada olho dentro de um ovo de galinha preta.
Enfie os ovos dentro de esterco de cavalo, que ainda esteja quente.
Todo dia, vá até perto do monte e diga: Ó, diabão! Eu te entrego estes dois olhos de gato preto para que me sejas favorável nesta apelação: "Que deles nasçam dois diabinhos para eu cria-los dentro de uma garrafa e me darem dinheiro na hora da precisão".
Diga isso durante trinta dias. Ao fim desse tempo, nascem dois diabinhos no corpo de uma lagartixa. Coloque-os dentro da garrafa e os alimente com pó de ferro ou aço moído (Bombril). Depois é só pedir dinheiro, que aparece na hora.
Mas, nem por sombras, poderíamos imaginar o que iria suceder aos gatos pretos se esta receita chegasse a Brasília. Ou poderíamos?
Salve-se o gato que puder! ®Sérgio.

O DRAMA NA PROSA FICCIONAL

A palavra Drama originou-se na Grécia Antiga (drâma) e designava simplesmente a ação. E como ação representava uma forma exclusiva do teatro.
Como a ação envolve o choque entre personagens, a palavra drama assumiu também o sentido de conflito, e o adjetivo dramático, o de conflitivo. Assim é que, no âmbito da prosa de ficção (conto, novela romance), é valido usarmos o termo drama para rotular a característica mais importante da prosa ficcional: o conflito.
Portanto, drama, dramático, no âmbito da prosa, deve ser entendido como conflito, ação conflituosa. Pois, o drama nasce quando se dá o choque de duas ou mais personagens; seja por contato com o mundo sobrenatural, seja por questões sociais, políticas, familiares, de caráter, ou mesmo com o próprio mundo íntimo duma personagem com suas ambições e desejos contraditórios. Você já se sentiu dividido, sem conseguir optar, querendo e não querendo uma coisa, com medo e com vontade de fazer algo? Então você entende o que é um conflito, um drama.
Se não há drama, não há conflito e, portanto nem história. E mesmo que houvesse uma história, sem drama, sem conflito, não despertaria interesse nenhum.
Os primeiros dramas registrados na literatura podem ser encontrados em Ilíada e Odisséia — são confrontos entre o homem e a natureza, entre o homem e os deuses, entre o herói e seus inimigos militares - todos esses confrontos são explorados nos poemas épicos de Homero.
A solução de um conflito depende das circunstâncias que o iniciaram. Na tragédia clássica, ele deveria ser resolvido dentro do próprio drama, segundo uma regra que assegurava ao espectador sair do espetáculo sem dúvidas sobre o destino e o caráter das personagens. Na dramaturgia e na ficção pós-moderna, por exemplo, explora-se a situação sem saída, o eterno conflito, o mais das vezes, nunca resolvido, ou apenas subentendido ou sugerido. Compete, muitas vezes, ao leitor tirar às conclusões necessárias a solução do conflito da história narrada.
Da Palavra Drama Derivou:
Dramalhão, termo pejorativo de drama, em relação às características desenvolvidas pelo drama após o século XVIII.
Dramaturgia e Dramatologia, sinônimo de arte dramática.
Dramaturgo, autor de dramas, ou seja, de peças teatrais.
De modo geral, podemos dizer que os conflitos envolvendo os protagonistas da ficção se estruturam de três modos:
1º. Conflito do protagonista com outro personagem: o mais tradicional exemplo deste modo de conflito está nas histórias de mocinho e bandido, de herói e vilão.
2º. Conflito do protagonista com um grupo de personagens: um bom exemplo deste caso é aquele investigador que combate sozinho ou com pouca ajuda, a máfia das drogas, crimes cometidos por gangues, etc.
3º Conflito do protagonista com ele mesmo: é o caso das narrativas de forte apelo psicológico, em que o personagem principal vive, com suas ambições e desejos contraditórios, um drama interior. ®Sérgio.
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Ajudaram na elaboração deste texto: PEACOCK, Ronald.  Formas da literatura dramática.  Rio de Janeiro: Zahar, 1968. / O. B. Hardison Jr., Christian Rite and Christian Drama in the Middle Ages – Essays in the Origin and Early History of Modern Drama (1965). / Brasil, Assis. Vocabulário Técnico de Literatura. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s.d.

domingo, 24 de outubro de 2010

A REALIDADE E A FICÇÃO EM O GLADIADOR

Sempre que assisto a um bom filme, procuro trocar ideias com amigos e conhecidos a respeito do enredo do filme. O Gladiador, além de arrematar cinco Oscar(es), levou ao cinema, no mundo todo, um grande público. Aqui não foi diferente.
Para a maioria das pessoas com quem tive a oportunidade de conversar, ficou uma indagação: o que era ficção e o que era História. Isso é, exatamente, o que Hollywood não quer dizer. Se disser o entretenimento acaba. Envolvido, também, por esse questionamento, fui pesquisar; e descobri que:
Se você achou que os gladiadores eram mesmo, como aqueles heróis do filme, altos e musculosos, é melhor ficar com Hollywood. Na realidade, a maioria dos gladiadores tinha menos de 1,70m, gordura sobrando e, frequentemente, eram executados nos fundos da arena, com golpes de martelo na cabeça.
Máximo, o Gladiador, protagonista do filme, é pura ficção. Foi inventado.
Do filme Spartacus (1960) foram emprestados três personagens fictícios:
a) Draba, o negro africano que se torna amigo de Spartacus; foi Juba em Gladiador. Também, se torna amigo de Máximo.
b) Batiato senhor de Spartacus; um governante de bom coração. Rebatizado de Próximo, em Gladiador, senhor de Máximo.
c) O cínico Senador Graco que enxerga Roma como ela realmente é: bela e corrupta; foi totalmente emprestado de Spartacus, até seu nome foi mantido.
Spartacus realmente existiu, e foi executado pelos romanos em 71 a.C.
A ideia para ascensão de Cômodo, filho do Imperador, veio do filme Calígula (1980). Demente e apaixonado por sua irmã Drusila (como Cômodo era por sua irmã), Calígula mata o tio (no Gladiador, Cômodo o pai) para se tornar Imperador.
César Marco Aurélio Antonino Augusto - Marco Aurélio para os íntimos, que eram bem poucos - pai de Cômodo, foi, realmente, Imperador Romano durante 19 anos. Além de estar presente nas batalhas, ele achava tempo para escrever sobre filosofia - no que foi bem sucedido, uma de suas obras, Meditações, resistiu ao tempo e chegou ate nós. Marco Aurélio morreu em 180 a.C., vitimado por uma daquelas pestes que eram comuns há 2.000 anos. A epidemia foi propagada pelos próprios soldados do imperador, no regresso de uma campanha militar («higiene» não era exatamente uma das prioridades dos soldados).
Cômodo, na realidade, não assassinou o pai, como na ficção. Por que o faria, se aos cinco anos já tinha recebido o título de César, o que equivalia a uma pré-nomeação para governar o Império Romano. Aos 17 anos foi empossado co-imperador e reinou em conjunto com o pai, Marco Aurélio, durante três anos. Com a morte do pai assumiu o poder e pelos 12 anos seguintes (bem mais que no filme), mandou e desmandou em Roma. Foi um melomaníaco. Tentou mudar o nome de Roma para Comodônia e, substituir os nomes dos meses do ano, pelos seus próprios (ele se chamava César Marco Aurélio Cômodo Antonino Augusto) e pelos títulos honoríficos que recebia do Senado Romano, como Invicto, Félix e Pio. Cômodo, também era um pervertido sexual (hobby de muitos imperadores romanos). Morreu em 192 a.C., estrangulado por um dos seus protegidos, um atleta chamado Narciso Mérida. Aliás, no primeiro rascunho do filme, o protagonista (Máximo) era chamado de Narciso. A preferência por Máximo Décimo Merídio veio a calhar, quem iria torcer por um herói chamado Narciso Mérida? 
O que parecia mais improvável no filme é mesmo verdade: Cômodo fazia suas estripulias na arena do Coliseu, matando feras e enfrentando gladiadores, embora haja sérias dúvidas quanto à qualidade e a motivação dos oponentes que eram escalados para medir forças com o imperador. As más línguas dizem que Cômodo era filho ilegítimo. Havia o boato de que a rainha Faustina teve uma aventura com um gladiador. Esse detalhe, omitido no filme, talvez explicasse a fascinação que os jogos de gladiadores exerciam sobre Cômodo.
Lucila, a irmã mais velha de Cômodo, realmente o detestava. No segundo ano de mandato do irmão armou uma conspiração para assassiná-lo. Mas a Lucila real não teve a mesma sorte que a da ficção: Cômodo a deportou para a ilha italiana de Capri, perto de Nápoles e, logo após, ordenou sua execução.
A reconstituição arquitetônica do Coliseu, no filme é exemplar; alojava algo em torno de 50000 pessoas. A carnificina não era somente diária, mas durava de sol a sol, isto é, a qualquer dia, e a qualquer hora, quem fosse ao Coliseu veria algum espetáculo. Essa era a teoria dos organizadores: enquanto o povo estivesse ocupado vendo combates sangrentos não se preocuparia com outras coisas, como uma revolução (será por isso que temos tantos e enormes estádios de futebol e poucos hospitais?). Daí vem à famosa frase: pão e circo!
O nome Coliseu, entretanto, só aparecerá 1.000 anos depois da época do filme. Na época de Marco Aurélio e Cômodo, o estádio era chamado de Anfiteatro Flaviano.
SPQR - a sigla tatuada que Máximo raspa do braço quando decide levar a sério a carreira de Gladiador -, significa: "para o Senado e o Povo de Roma" (Senatus Popules Que Romanus). Tinha a tatuagem porque pertencia a uma classe inferior, a dos soldados. Gente fina não se tatuava no tempo dos Romanos, só a ralé. É daí que surgiu uma expressão usada até hoje, «ele carrega um estigma». A palavra latina para tatuagem era estigma. ®Sérgio.

ESCRAVOS DE NOSSAS IDEIAS E AÇÕES

Certa vez, ouvi numa roda de prosa, o seguinte comentário: fulano tem umas manias esquisitas... Até certo ponto, é um comentário bem comum nas conversas informais. Se formos raciocinar sem preconceitos, chegaremos à conclusão que todo mundo tem lá suas manias, principalmente, se já somam uma boa quantidade de anos vividos. Eu tenho minhas manias e, certamente, você tem as suas. No entanto, devemos tomar cuidado para que essas manias não se extrapolem. Por diversos motivos, ainda não totalmente esclarecidos pela ciência, as manias podem se transformar em doenças chamadas cientificamente de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), transformando-nos "em escravos de nossas próprias ideias e ações". Santo Inácio de Loyola (1491-1556), antes de se converter, era um soldado extremamente vaidoso e tinha uma vida fútil. Depois de convertido, o fundador da Companhia de Jesus, passou a carregar uma enorme culpa pelo seu passado e como não conseguia livrar-se desta culpa, pois estava sempre presente em sua mente desenvolveu a mania de confessar sempre os mesmos pecados. "Ele começava a recordar seus pecados e, como num rosário, ia pensando de pecado em pecado, e lhe parecia de novo que estava obrigado a confessá-los outra vez."¹
Pior ainda, são as manias da professora Denisse (44 anos). Veja o relato: "O tormento começou aos 12 anos, quando minha avó morreu e eu me culpei por não estar ao lado dela. Minha primeira mania: toda vez que passava pela imagem de um santo que tinha em casa, tinha de tocá-lo e me benzer. Se eu não cumprisse esse ritual, tinha certeza de que, quando eu completasse quinze anos, minha mãe morreria. Todos os anos, como nada de ruim acontecia, eu estipulava uma nova idade para a suposta catástrofe. Foi assim até o 38º aniversário. Logo depois que minha avó morreu, vi um filme de terror em que os filhos do diabo tinham o número seis tatuado no braço. Desde então tenho pavor do número seis. Eu sou compelida a realizar uma tarefa inúmeras vezes. Do contrário sinto que as pessoas que amo podem sofrer algum mal. Todas as noites antes de dormir, tenho de cumprir um ritual que leva até três horas. Eu deito; imediatamente me levanto, e vou ao banheiro. Na volta para o quarto, tenho de tocar na imagem de Jesus Cristo pendurada no corredor. Antes de me deitar novamente, encosto-me a cada um dos santos que tenho no quarto. Ao todo são quase trinta imagens. Deito e pego “o santinho” que guardo debaixo do travesseiro e me benzo três vezes. Já aconteceu de eu repetir esse ritual 21 vezes. É como uma avalanche. Quando começa, é impossível parar. A angústia de não fazer o que minha mente pede – por mais ilógico que seja – é pior do que repetir as ações sem parar".
Não seria sem razão dizer que Denisse é como Sísifo, personagem de Odisseia, poema épico de Homero. Como castigo por ter enganado Zeus, Sísifo foi condenado a levar uma pedra enorme até o topo de uma montanha e deixar rolá-la até o sopé para começar tudo de novo. ®Sérgio.
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1- Relato do biógrafo de Santo Inácio, sobre confissão feita no mosteiro beneditino de Montserrat, em meados do século XVI.

sábado, 16 de outubro de 2010

O NOIVO QUE NÃO APARECIA - Recontando Contos Populares

Conta-se que uma jovem, embora linda, vivia a esperar por um noivo que nunca aparecia. O tempo já ia tão longe que a moça, desesperançosa de encontrar casamento, se apegou a Santo Antônio.
 Foi até o mercado da praça, comprou uma imagem do Santo, passou na igreja, pediu ao vigário para benzê-la e, chegando a casa, colocou-a em um pequeno oratório. Todos os dias, após o café de manhã, visitava o santo em seu oratório e lhe pedia a ajuda. Passaram semanas, meses, anos... e nada. O noivo não aparecia, nem se ouvia falar na região de algum jovem, ou mesmo na falta de outro, algum velhote endinheirado que tenha por ela se inclinado.
Vai daí, que a moça depois de lamentar, injuriada, o descaso do santo e questionar com a mãe sobre o desprestigiado poder miraculoso do santo casamenteiro, pega a imagem e, no limite do desespero, lança-a pela janela. Passava, nesse momento, por acaso, um jovem de igual beleza da moça, que recebe a imagem, em cheio sobre a cabeça. Um tanto atordoado, pega-a intacta, e sobe as escadas do sobrado de cuja janela a imagem partira. Vêm recebê-lo justamente a donzela formosa e geniosa. De imediato, apaixona-se o jovem pela moça e com ela vem a casar, com toda a certeza, por um milagre do santo casamenteiro. ®Sérgio.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

UMA RELAÇÃO COM FORÇAS SOBRENATURAIS

Júlio Cesar Monteiro - um seminarista de boa prosa com quem convivi nos tempos do Colégio Arquidiocesano - acreditava que homenzinhos, de alguns milímetros de altura, viviam dentro de sua cabeça. Esses homenzinhos davam-lhe ordens expressas, centenas de vezes, horas seguidas, tanto de dia como de noite, até a exaustão. Tinha certeza de eram emissários do diabo para atormentá-lo, roubar-lhe a alma. Para mim - o único a quem confiou o segredo - eram meras alucinações. Para ele uma relação com forças sobrenaturais. No entanto, para além de suas alucinações e delírios, Júlio Cesar continuava o que era: um amigo culto e informado. "Minha mente é tão clara quanto à de qualquer outra pessoa", estava sempre a me dizer.
Os homenzinhos iam e vinham na cabeça dele. Por vezes, desapareciam por um bom tempo; porém, acabavam retornando ou ressuscitando. Em agosto de 1998, pouco tempo antes de nos dirigirmos ao refeitório, ele confidenciou-me que as vozes dos emissários do diabo tornaram-se um tormento insuportável.
Logo após ter me acomodado na cadeira do refeitório para o café da manhã, notei que o lugar reservado ao meu amigo Júlio Cesar estava vazio. Olhei para o coordenador (irmão Marista), através de seu vidro especial - sempre limpo a tal ponto que não se pode dizer que está ali – como que perguntasse se havia notado a ausência de Júlio. Ele balança a cabeça para mim em sinal de aprovação. Após o café, saímos a procura de Júlio Cesar e o encontramos caído no banheiro do dormitório; um filete de sangue escorria de seu ouvido direito. Rapidamente o levamos a enfermaria e ali ficamos aterrorizados. O meu amigo, num surto de delírio, havia introduzido, em seu ouvido, uma caneta (daquelas de invólucro metálico) ficando de fora apenas o espaço que ele utilizou para introduzi-la. Apesar da gravidade do ato, Júlio Cesar estava consciente e explicou que o fizera para calar as vozes dos homenzinhos. Mais surpreendente, ainda, foi o resultado da tomografia feita no hospital: apesar da caneta destruir seu órgão auditivo, não causara dano algum ao cérebro de Júlio. Fora isso, foi  retirada sem mais problemas.
Em outubro deixei o Arquidiocesano para voltar à civilização, a união do lar; e, nunca mais vi Júlio Cesar, que ficara em um hospital psiquiátrico a espera da salvação. ®Sérgio.
Nota sobre o texto: Ouvir vozes na cabeça, interrompendo os pensamentos, é tão comum que é considerado normal, segundo psicólogos. Uma pesquisa realizada na Holanda sugere que uma em 25 pessoas ouve vozes regularmente. Pesquisadores britânicos da Universidade de Manchester afirmam que, ao contrário da crença tradicional, ouvir vozes não é necessariamente um sintoma de doença mental. Algumas pessoas que ouvem vozes descrevem o evento como se alguém as chamasse pelo nome, mas quando elas vão atender descobrem que não há ninguém. As pessoas também ouvem vozes como se fossem pensamentos de fora entrando em suas mentes. Elas não têm ideia do que estas vozes vão dizer e podem até iniciar uma conversa. Estudos anteriores descobriram que as pessoas que ouvem vozes geralmente tiveram uma infância traumática. Entretanto, Júlio Cesar não se enquadra em nenhum desses quadros, ele era portador de esquizofrenia.

TORTURANDO A LETRA

Dia desses, enquanto aguardava minha vez no saguão do consultório de meu cardiologista, folheava a Revista Gloss (editora Abril), de 08 de 2010, quando à pagina 158, dei "de cara" com um artigo de Fabiana Faria que me interessou grandemente. Vou transcrevê-lo a seguir, porque acho que ele se enquadra nos propósitos literários e artísticos dos associados e frequentadores do blog:
TRECHOS DA MÚSICA BRASILEIRA QUE NEM FREUD EXPLICA
"Inda da Lambuja tem o carneirinho, presente na boca." (Acabou Chorare, de L. Galvão e Morais Moreira)
"Vaca das Divinas Tetas /... E o resto inunde as almas dos caretas." (Vaca Profana, de Caetano Veloso)
"Grávida de um beija flor / grávida da terra / grávida de um liquidificador." (Grávida, de Arnaldo Antunes)
"Ó, menina pinta lainhá, iê / Biriti-guiri me dá / Biriti-guiri me dê / Biriti-guiri me diz." (Me dá, Me dê, Me diz, de Tom Zé)
"A paixão / puro afã, místico clã de sereia / castelo de areia, ira de tubarão, ilusão." (Acaí, Dijavan)
"Abacateiro, sabes ao que estou me referindo / Porque todo o tamarindo tem seu gosto azedo." (Refazenda, Gilberto Gil)
"O brilho do meu canto tem o tom / E a expressão da minha cor? Vermelho!..." (Vermelho de Chico da Silva)
"Colombo procurou as Índias, mas a terra avisto em você". (All Star de Nando Reis)
"[...] O peito como bússola / Nenhum receio do lado negro da rua / E me guia na bubuia". (Bubuia, da cantora Céu)
"Meu amor eu sinto muito, muito, muito, mais vou indo / Pois é tarde, muito tarde e eu preciso ir embora / Sinto muito meu amor mas acho que já vou andando / Amanhã acordo cedo e preciso ir embora / Eu queria ter você mas acho que já vou andando / [...]" (Núcleo Básico, Ira)
Quintus Horatius Flaccus, Horácio para nós, filósofo e um dos maiores poetas da Roma Antiga, achava que "aos poetas e aos pintores sempre foi concedida a liberdade de ousar qualquer coisa". Tá certo seu Horácio, quem sou eu para contradizê-lo, mas esse pessoal aí de cima ousou demais. É ou Noé? ®Sérgio.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

AS PÉROLAS DA DITADURA

O Cronista Sérgio Porto, Codinome Stanislaw Ponte Preta, em seu Febeapá um, Primeiro Festival de Besteira que Assola o País, 1996¹, coletou, entre os anos de 1995 e 1996, uma série de casos que faziam jus ao título de sua obra. São casos colhidos pela agência informativa de Stanislaw Ponte Preta a "Pretapress", que dizia ele ser a maior do mundo, porque nela colaboravam todos os seus leito­res. Desse festival de besteiras escolhi alguns casos que - com licença do mestre Sérgio Porto - quero compartilhar com vocês.
Ano de 65:
Em Belo Horizonte, um delegado de polícia distribuía espiões pelas arquibancadas dos estádios porque "da­qui para frente quem disser mais de três palavrões, tor­cendo pelo seu clube, vai preso".
Em Mariana (MG) outro delegado baixou portaria dizendo que moça só poderia ir ao cinema com atestado dos pais.
O Secretário de Segurança de Minas Gerais proibia (já que fevereiro ia entrar) que mulher se apresentasse com pernas de fora em bailes carnavalescos "para impedir que apareçam fan­tasias que ofendam as Forças Armadas". Como se perna de mulher alguma vez na vida tivesse ofendido as armas de alguém!
No nordeste de Minas a cidade de Itaboim, que fica à beira da estrada Rio - Bahia, viria para o noticiário depois que o prefeito local plantou lindas e tenras palmeiras para enfeitar a estrada, e a Oposição — com inveja — soltou 100 cabritos de madrugada, que jantaram as palmeiras.
Eram instituídos mais dois dias: o "Dia do Pobre" e o "Dia da Vovó". O primeiro por projeto do deputado Ge­raldo Ferraz e até hoje o pobre ainda não viu o dia dele; o segundo inventado por uma radialista "porque existem tantos dias e ninguém ainda se lembrou da avozinha". A distinta não reparou que existe o "Dia das Mães" e que — jamais em tempo algum — mulher nenhuma conseguiu ser avó sem ser mãe antes.
Foi então que estreou no Teatro Municipal de São Paulo a peça clássica "Electra", tendo comparecido ao lo­cal alguns agentes do DOPS para prender Sófocles, autor da peça e acusado de subversão, mas já falecido em 406 a. C.
Julho começava com a adesão do Banco Central à burrice vigente, baixando uma circular, relativa ao regis­tro de pessoas físicas, na qual explicava: "Os parentes consanguíneos de um dos cônjuges são parentes por afinida­de do outro; os parentes por afinidade de um dos cônju­ges não são parentes do outro cônjuge; são também pa­rentes por afinidade da pessoa, além dos parentes consanguíneos de seu cônjuge, os cônjuges de seus próprios parentes consanguíneos".
Em Campos ocorria um fato espantoso: a Associação Comercial da cidade organizou um júri simbólico de Adolf Hitler, sob o patrocínio do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito. Ao final do julgamento Hitler foi absolvido.
No dia 17 de agosto de 65, o deputado Eurico de Oliveira apresenta­va à Câmara um projeto para a importação de um milhão de portugueses para espalhar pela selva amazônica.
Na cidade de Mantena (MG) o delegado deu tanto tiro que a cidade deixou de ter população e passou a ter sobrevivente.
Ano 66:
O comandante da Base Aérea de Curitiba proibia o Padre Euvaldo de Andrade de rezar missa em ritmo de iê-iê-iê. Recorde-se que foi naquela Base que o piedoso sacerdote rezou pela primeira vez uma missa com música dos Beatles no Evangelho, bolero de Vanderlei Cardoso na Comunhão, e uma versão de "Quero que tudo mais vá pro inferno" ao final do ato religioso.
E julho começava com uma declaração muito bacaninha da Deputada espiroqueta Conceição da Costa Ne­ves, que afirmava nos bastidores da Assembléia Legislati­va de São Paulo: "A ARENA, se quiser, pode cassar o meu mandato e fazer dele supositório para quem estiver preci­sando".
Setembro começava com uma determinação de um governador, criando um novo ór­gão que tinha a sigla: SIRCFFSTETT. Ou seja, Setor de Investigações e Repressão ao Crime de Furtos de Fios de Serviços de Transmissões Elétricas, Telegráficas ou Tele­fônicas. Deve ser de lascar o cara trabalhar lá, atender ao telefone e ter que dizer: "Aqui é da SIRCFFSTETT".
O festival persistiu, mas vou interromper por aqui com este comunicado que a Pretapress recebeu do Serviço de Trânsito explicando que os talões de multa para motoristas infratores teriam agora três vias, para evitar o suborno do guarda. Em todo lugar do mundo, quando o guarda é subornável, muda-se o guarda. Aqui se muda o talão. ®Sérgio.
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¹ Ponte Preta, Stanislaw, 1923-1968, FEBEAPÁ 1: Primeiro Festival de Besteira Que Assola o País — 12. ed. — Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 1996.

A TESOURINHA - Recontando Contos Populares

Certo dia, o caboclo Romildo chegou a seu rancho desejando cortar umas fatias de queijo; então, pediu para sua mulher uma faca. A mulher que era teimosa a não mais poder, cismou que ele devia cortar o queijo com uma tesoura e, em vez da faca, trouxe-lhe uma tesoura. O caboclo estranhou e, de imediato, retrucou:
— Está doida, mulher? Pedi faca, e você me traz uma tesoura!
— Isso mesmo! Queijo não se corta com faca, corta-se com tesoura. Escutou?
— Não senhora! É com faca! E não me queima o juízo, senão...
— Senão o quê? É com tesoura! Com tesoura! Com tesoura! Vou dizer uma, duas, mil vezes...
Romildo insistia na faca e era sempre contestado pela mulher, tanto foi que o caboclo indignou-se e lhe aplicou o mais formidável bofetão de que há memória nas redondezas; depois agarrou sua mulher e a levou até o poço que havia no quintal, lançando-a dentro dele, gritando, irritado:
— Queijo se corta com faca ou com tesoura?
E debatendo-se dentro da cisterna, a mulher a gritou:
— Com tesoura! Com tesoura! Com tesoura... - E aos poucos foi submergindo, porém irredutível, inflexível na sua incompreensível teimosia.
Quando finalmente desapareceu em meio à água da cisterna, que lhe cobria todo o corpo, ainda conseguiu, num último esforço, erguer a mão e, com os dedos abertos, imitar as lâminas de uma tesoura.®Sérgio.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

COMO ERMA BOMBECK VÊ AS CRIANÇAS

Encontrei este texto nas minhas andanças pela internet. Ele foi escrito por Erma Bombeck, uma simples dona de casa americana. Traduzi, adaptei e lhes repasso, porque a minha paixão pelo espetáculo das ideias, não me permitiu banir da mente a vontade de compartilhá-lo com vocês. Aí está, como Erma Bombeck vê as crianças:
"Vejo as crianças como pipas. Você passa uma vida inteira tentando empiná-las. Você corre com elas até ficar sem fôlego..., elas caem..., você adiciona uma cauda mais longa. Você remenda e conforta, ajusta e ensina – e assegura-lhes que um dia vão voar.
Finalmente são capazes de voar, mas precisam de mais linha, que você continua a dar-lhes mais e mais. Com cada volta do carretel, a pipa fica mais distante. Você sabe que não vai demorar muito até que aquela bonita criatura arrebente a linha vital que os mantém unidos e voe – livre e sozinha. Só então saberá que terminou seu trabalho." ®Sérgio.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

VALORES INVERTIDOS

Já mencionei, por várias vezes em meus comentários a amigos, uma atitude comportamental que já está se tornando tradicional em nossa sociedade: a inversão de valores. Na minha adolescência, ansiávamos por participar do mundo de nossos pais e, para tanto, chegávamos até mesmo, imitá-los. Hoje, esse procedimento se inverteu: são os pais que imitam os filhos.
Pois é, para minha surpresa, lendo a revista Veja, "dou de cara" com o artigo: Os Limites da Amizade, que vem substanciar o que já havia comentado.
Diz o artigo que muitos pais e mães vão para as "baladas" com os filhos e chegam a namorar seus amigos/as. Renata Leão, que assina o artigo, pergunta: até que ponto isso é normal. Do meu ponto de vista e de meu conceito de família, isso é "anormal". É mais uma banalização, entre tantas outras. Veja o depoimento da bancária paulista Marize Tamaoki, 50 anos: "Fui casada durante mais de duas décadas com o pai de minhas filhas, Mirela, 20 anos, e Daniela, de 28. Quando me separei, em 2003, passei a frequentar, com minhas filhas, academias de ginásticas e baladas. Comecei a ir às danceterias da Vila Olímpia. Na primeira vez, os garotos da idade da Mirela vieram me paquerar. No começo ficava constrangida. Agora já me acostumei e acho ótimo".
Eis alguns trechos de outros depoimentos:
"[...] Foi estranho ver minha mãe com um amigo meu, tatuado e cabeludo, vinte anos mais novo que ela." (Camila, 20 anos)
"[...] Quando Camila quer ficar em casa, não me faço de rogada e saio com as amigas de minha filha. A moçada diz que eu tenho a síndrome de Peter Pan". (Alessandra, 52 anos)
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

sábado, 18 de setembro de 2010

TÁ FARTANDO FUBÁ - Recontando Contos Populares

Foi um dia um matuto queixar-se da falta de fubá nas redondezas onde morava, a um sitiante - homem muito simples que não gostava de contrariar as ideias do próximo.
— Eh, Patrão! É uma verdadeira desgraçia! Esse fubá anda pela horinha da morte. Não hai nem para tapar o buraco de um dente. Se continuar ansim, é coisa de pouco tempo se morrer de fome.
O sitiante, com sua natural cortesia, quis justificar a carestia:
— Há de ser com toda a certeza por falta de milho. Não tem chovido, decerto perderam-se as plantações lá pra suas bandas.
— Ih, Patrão! Choveu todo o ano. Água não fartou com a graça de Deus e ninguém deixou de plantar milho, louvado seja o Senhor, milho veio bonito que não se perdeu uma espiga!
— Então, já sei, será por avarias nos maquinismos dos moinhos lá de sua região.
— Também não é, patrão, os moinhos não têm desarranjo nenhuns, não hai outros como os nossos!
O sitiante já um tanto irritado, sem a natural cordialidade, ficou matutando, a olhar o matuto, e, não tendo mais nada pra dizer, saiu-se com esta:
— Então, patrício, há de ser por falta de fubá mesmo... ®Sérgio.

O REI QUE QUERIA CONHECER A HUMANIDADE - Recontando Contos Poulares

Mitos dos ensinamentos filosóficos da antiguidade Oriental vinham disfarçados em contos ou historinhas aparentemente inocentes, para melhor aproveitamento dos ensinamentos. É o caso deste conto do século VIII.
Conta-se que na Pérsia vivia um rei de nome Zemir. Coroado bastante jovem, descobriu que sabia muito pouco para ser um soberano. De modo que precisava, urgentemente, de instrução. Reuniu então a sua volta um grande número de eruditos, provenientes de muitos países. Pediu-lhes que compusessem, para seu uso, uma obra que contasse a história da humanidade.
Assim, os eruditos passaram a se concentrar nesse trabalho. Durante vinte anos se ocuparam no preparo da obra. Terminada, foram ao palácio, carregando quinhentos volumes acomodados no dorso de doze camelos. O Rei Zamir que já passara dos 40 anos, disse-lhes:
— Estou velho. Não terei mais tempo de ler todos esses quinhentos volumes antes de minha morte. Levando isso em conta, poderiam, por favor, preparar-me uma obra resumida?
Por mais vinte anos trabalharam os eruditos na feitura dos livros e voltaram ao palácio com três camelos apenas. Mas o rei envelhecera mais ainda. Com sessenta anos, sentia-se meio alquebrado:
— Não me será possível ler todos esses livros. Por favor, façam deles uma versão mais resumida!
Os eruditos trabalharam mais dez anos. Voltaram ao palácio com um camelo carregando alguns volumes da obra. A essa altura, com setenta anos, e quase cego, o rei não podia mais ler. Mesmo assim pediu uma versão mais resumida ainda. Os eruditos também tinham envelhecidos; mesmo assim, concentraram-se por mais cinco anos e, momentos antes da morte do monarca, voltaram com um só volume.
— Infelizmente morrerei sem nada conhecer da história do homem - disse o velho Rei.
Então, a sua cabeceira, o mais idoso dos sábios lhe respondeu:
— Vou explicar-lhe em três palavras a história do homem: o homem nasce, sofre e, finalmente, morre.
Pois foi depois de ouvir essas três palavras que o rei morreu. ®Sérgio.