quinta-feira, 8 de julho de 2010

TORÁXICO ou TORÁCICO?

Toráxico não existe. O correto é: torácico.
   Disseram que ele está com um problema torácico. ®Sérgio.

DUAS METADES É PLEONASMO - Linguagem & Dúvidas

Metade são sempre duas. Escreva ou diga:
   Cortou a fruta em duas partes. ®Sérgio.

BUJÃO ou BOTIJÃO? - Linguagem & Dúvidas

Tanto faz "bujão ou botijão" de gás. Ambos constam do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP). Portanto:
   Comprei um bujão ou botijão de gás. ®Sérgio.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

NÃO SE ENGANE...

Não se engane, diz o Dr. Edward M. Hallowel², a Internet e o telefone celular não economizam tempo, apenas aceleram o nosso já movimentado ritmo de vida. Ficamos maravilhados com a velocidade da Internet e adotamos seu ritmo instantaneamente; sentimos-nos obrigados a obter respostas imediatas, ou seja, abrir e responder e-mails e mensagens eletrônicas por impulso. Devemos preencher nossas horas de folga com tarefas agradáveis e não com obrigações.
Há uma frase, título de um livro do qual não me recordo mais o autor, que resume em poucas palavras todo o assunto tratado nesse texto: A vida é incerta... coma a sobremesa primeiro!  ®Sérgio.
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1 - Edward M. Hallowel e 2 - David B. Posen são especialistas no diagnóstico e tratamento do transtorno do déficit da atenção e distúrbio bipolar.

terça-feira, 6 de julho de 2010

MINHA FÉ, MINHA DÚVIDA

“Levanta-te, por que dormes, Senhor? Levanta-te e não nos desampare para sempre. Porque apartas teu rosto, e te esqueces da nossa miséria e da nossa tribulação? Levanta-te, senhor, ajuda-nos, e resgata-nos por amor do teu nome.” (Davi, Salmo 43 - 24, 25, 26, 27)
Em certo momento aflitivo de minha vida, deparei-me com dúvidas em relação a minha fé religiosa. Naquele momento roguei a ajuda de Deus, pois só ele poderia ajudar-me; porém não o senti ao meu lado e duvidei de sua existência. No entanto, logo vem o arrependimento, o sentimento de culpa, e passamos a lutar contra a ausência de fé.
Consola-me a fato de que, o próprio Cristo, segundo os relatos bíblicos, teve um momento de dúvida na cruz, ao questionar: “Deus, Deus, por que me abandonaste?” Consola-me, também, ter Santo Agostinho (354-430) se deparado com muitas dúvidas em sua fé. O padre Antônio Vieira, indignado, em um de seus sermões, pergunta a Deus: “Sois o mesmo, ou és outro...?”
No entanto, deixou-me mais convicto de que não é nada anormal passarmos por essas crises de fé, o livro do padre Brian Kolodiejchuk, que traz o título: Madre Tereza: Venha Ser Minha Luz (uma compilação de cartas confessionais da Missionária).
A missionária deixou-nos o exemplo de uma fé inabalável e sessenta anos de trabalho ininterrupto com os miseráveis, doentes e abandonados, que lhe renderam a alcunha de “santa das sarjetas” e um Prêmio Nobel da Paz (1979).
Agora, dez anos após sua morte o livro do padre Brian, traz à tona outro lado da vida interior de Madre Teresa. No livro iremos encontrar cartas em que ela também manifesta dúvidas com a própria fé. Dúvidas quanto à presença de Cristo em sua vida, quanto ao poder das orações e até mesmo quanto à existência de Deus. No seu íntimo, Madre Teresa lutava para acreditar no que pregava.
Chamou-me a atenção este trecho de uma das cartas ao padre confessor:
“Disseram-me que Deus me ama, e ainda assim a escuridão, o frio e o vazio são tão grandes que nada toca minha alma. Terei eu errado ao me entregar cegamente ao chamado do Sagrado Coração?”
A certa altura, ela desabafa: “Há uma escuridão terrível dentro de mim. Tem sido assim desde que comecei meu trabalho”.
A Igreja considera que essas crises de fé são ritos de passagem, muitas vezes necessários para alcançar a verdadeira iluminação. O padre Brian, que conduz o processo de canonização da Missionária e que compilou e publicou as cartas, diz que essa longa jornada de angústia e de dúvidas, em vez de desmerecer Madre Teresa, apenas enaltece suas virtudes. “Ela não sentia o amor de Cristo dentro de si e poderia ter-se fechado. Mas estava de pé toda a manhã às 4h30, sempre pronta a se dedicar em tempo integral aos menos favorecidos. Isso continua sendo um exemplo poderoso”.
Quanto a mim e aos meus momentos de dúvida, só me resta repetir os versos de Camões:
“Que não se arme e se indigne o céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno." ®Sérgio.

A TRADIÇÃO DO SANTO ROUBADO

Tenho um amigo cuja leitura favorita é antigos livros dos mais variados assuntos. Uma noite dessas, conversava com meu amigo e não me lembro, mais, de como a conversa recaiu em um antigo costume do interior da Paraíba. Não sei se esse costume ainda é praticado por lá, mas, com toda certeza, era.
Há uma frase filosófica que diz que a qualidade mais preciosa da arte, do costume, da tradição popular é a ingenuidade. E a tradição do santo roubado para que chova é mais um ato da magia popular que vem comprovar essa filosofia.
Um grupo de paraibanos combina com certa antecedência o roubo de uma imagem de santo. Escolhem o ladrão do santo e a casa onde deve o padroeiro ser tirado. De acordo com o combinado o plano é executado. Roubado, fica o santo em poder da pessoa que o roubou, até que ele (o santo) resolva fazer chover, quando, então, é devolvido.
Aqui, no meu Mato Grosso do Sul, chuva não falta. E, ao contrário do costume paraibano, há uma tradição muito antiga para fazer cessar a chuva, da qual, eu, na minha meninice, fiz uso muitas vezes. Vou lhe ensinar direitinho: Para fazer cessar uma chuva incômoda e inoportuna faça no chão o olho do sol, também chamado de olho de boi. Finque o calcanhar no chão e curve fortemente o dedão do pé para baixo; rode o pé, de modo a obter um círculo perfeito pelo dedão, com o sinal do calcanhar no meio. Assim, o sol é invocado e, rapidamente, a chuva cessa e ele aparece.
Fora cessar a chuva, tem uma simpatia muito boa para aquela visita que está demorando a ir embora e você não aguenta mais fazer sala. Peça para alguém de casa jogar um pouquinho de sal no fogo do fogão. A visita logo vai embora.
Você costuma (como eu costumo) perder alguma coisa em sua casa e não consegue encontrar? Pegue uma palha de milho e dê nela três nós, com o que se amarra o diabo que está escondendo o objeto; e o perdido aparecerá. Mas, depois de encontrá-lo não se esqueça de desmanchar os nós, se não tudo de ruim acontecerá na casa.
Têm outras, como chamar o vento, como impedir a chuva, como ter boa pescaria, para só citar essas. Outra hora eu lhe ensino, porque agora tenho de ir até a cozinha fazer uma simpatia para acabar com as formigas doceiras.
Inté! ®Sérgio.

domingo, 4 de julho de 2010

UM AMOR COM OUTRO SE PAGA¹

Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é que um amor com outro se apaga. Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito, assim no mesmo coração não podem caber dois amores, porque o amor que não é intenso não é amor. [...] É o amor entre os afetos como a luz entre as qualidades. Comumente se diz que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim. O maior contrário de uma luz é outra luz maior. As estrelas no meio das trevas luzem e resplandecem mais, mas em aparecendo o sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas. Em aparecendo o maior e melhor objeto, logo se desarmou o menor.
Padre Antônio Vieira (1608-1697), Sermão do Mandato, parte VI, in Sermões (1643).
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1 – Título Fantasia. (N. T.)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

QUEM TE MATOU, CAVEIRA? - Recontando Contos Populares

Durante toda esta minha vida ouvi muitos causos. Dos que guardei em mente, tem este que vou reproduzir conforme aconteceu. Foi o seguinte:
Numa tarde de certo dia, deu de acontecer que um caboclo ao passar perto da porteira de um sítio, pôs a atenção numa caveira feia como deve ser a Morte. É comum ouvir que nós, sertanejos, somos um povo muito supersticioso. Mas esse caboclo não tinha "um pingo" de medo; pois se acercou da caveira, deu-lhe um pontapé e caçoou:
— Quem te matou, caveira?
Você calcule qual não foi o espanto do caboclo, quando, com um estalejar dos ossos muito brancos, lavados de chuva e estorricados ao sol, a caveira respondeu:
— Foi a língua.
Lá se foi a coragem do homem. Na mesma hora o caboclo ficou aturdido, se arrepiou todo, tocou no crucifixo que no peito trazia, benzeu-se e se pôs numa carreira despinguelada.  Vencida obra de meia légua, estava no vilarejo; e foi logo botando a "boca no mundo". A história do caboclo tornou-se logo alguma coisa de fantástico ou mal-assombrada para aquela gente simples. Alguns acreditaram nele, mas a maioria, não. E como notícia, se boa corre, a ruim avoa... O delegado do vilarejo logo mandou chamar o caboclo.
— Que história é essa de caveira que fala?
— Eu juro senhor delegado, que ela respondeu.
— Vou lá ver isso. Mas veja lá, se for mentira sua, e você me fizer bancar o bobo, eu mando te pendurar pelo pescoço, na primeira árvore que encontrar.
— Foi verdade, excelência – murmurou o moço.
Formou-se, então, uma grande comitiva. O caboclo ia adiante, a pé; seguido do delegado na sua mulona ferrada, guarda sol aberto, muito seu fresco. Atrás, as outras autoridades do vilarejo e, por fim, e os moradores curiosos.
Chegando à porteira, a comitiva estacou.  Ao verem a caveira, todos se calaram, tão maligna parecia. Trêmulo, o caboclo perguntou:
— Quem te matou, caveira?
A caveira nada de responder. Quieta estava e quieta ficou.
O caboclo pensou que talvez tivesse perguntado muito baixo. Em voz mais alta, novamente inquiriu:
— Quem te matou, caveira?
E a caveira "nadica".
— Quem te matooou, caveiiira? – gritava agora, com as veias do pescoço saltadas, e o pavor da forca apertando-lhe o coração.
— Quem te matou, caveira? Quem te matou, caveira?
E a caveira muito branca, luzindo ao sol, em silêncio. O moço perdeu a cabeça, começou a dar-lhe pontapés, jogando-a a distância; e, ia atrás dela de um lado para outro, suando, amaldiçoando.
— Quem te matou, caveira? Quem te matou, caveira? Quem te matou, caveira?
O delegado convencido da mentira do caboclo ordenou, então, aos soldados que lhe acompanhavam que pendurassem o sertanejo na árvore ao lado da porteira. Os soldados fizeram o nó corrediço, e o caboclo ficou enforcado à beira do caminho, enquanto a comitiva voltava espalhafatosa, mas sem animação, para o vilarejo.
Depois disso, tudo, ficou em silêncio na porteira. Não passava vivalma. E, assim, decorreu a tarde quente; e, assim, anoiteceu; até que, a caveira, que parecia não ter movimento, rolou um pouco sobre si mesma e, aos pulos veio, chegou até sob a árvore onde estava o caboclo enforcado. E ali, com o feio buraco das órbitas vazias virado para cima, exclamou:
— Eu não te falei que quem me matou foi a língua! ®Sérgio.

sábado, 26 de junho de 2010

O PRIMO DE MALASARTE

Era aniversário de Pedro Malasarte. Ele adorava uma festa, mas estava sem dinheiro para festejar o aniversário. Resolveu então, visitar o primo que tinha muito dinheiro e, certamente, lhe ofereceria alguma coisa, apesar de ser um tanto pão-duro. Chegando a fazenda do primo, este o recebeu com muito entusiasmado, não pela visita, mas por economizar assim a viagem a casa do aniversariante. Entraram e o primo foi logo oferecendo:
— Ó, primo Pedro! Tenho aqui uma broa, fresquinha, que sinhá assou. É tanta que vai durar a semana inteira.
— Broa de milho, primo?
— É sim, quer um pedaço?
— Não, primo - agradeceu Malasarte - basta um cafezinho.
— Mas é seu aniversário primo, eu reconheço que sou um pão-duro, mas um pouco de cortesia ao primo não faz mal! Se quiser é só pedir.
Malasarte novamente agradeceu, porém continuou só com o café. Continuaram proseando e, em meio à prosa, o primo lhe diz:
— Olha Pedro, ontem mandei matar aquele leitão capado que eu vinha engordando. Temos uma porção de torresmo e toucinho frescos que mandei preparar. Quer um pouco, pois tenho bastante?
— Não me diga isso! Tem muito mesmo?
— É o que lhe digo! Tenho bastante, quer?
— Nada primo, pode deixar, basta um cafezinho.
— Seja dito..., mas quando quiser é só pedir.
Continuaram proseando mais e mais, até que o primo fez nova oferta:
— Pedro, faz tempo que guardo umas garrafas de cachaça. Vamos tomar uns goles para comemorar?
— E é dá boa?
— Da melhor.
— Não primo, para mim basta um cafezinho.
— Não se faça de rogado que você tá em casa. Quando ficar com vontade é só pedir.
E assim, o primo de Pedro Malasarte, querendo lhe agradar pela passagem do aniversário e ao mesmo tempo percebendo que Malasarte não estava querendo lhe dar despesa, foi oferecendo um pouco de cada coisa que tinha na despensa. Malasarte ouvia e recusava; contentando-se só com o cafezinho. E continuaram nessa toada até que ouviram uma tímida batida na porta. O primo de Malasarte se levantou, abriu a porta e pegou de espiar; do lado de fora havia uma verdadeira multidão de conhecidos. O primeiro foi logo falando:
— Olha, desculpa a intrusão, mas ficamos sabendo que Pedro Malasarte estava por aqui e passamos somente para dar lhe dar os parabéns.
Desconfiado, mas sem ter como recusar, o primo convidou a todos para entrar, mas foi logo avisando:
— Meus amigos! Gostaria de lhes oferecer alguma coisa, porém... quase nada tenho na despensa...
Malasarte, deixando de lado o cafezinho e interrompendo o primo, falou:
— Primo, sabe aquele torresmo, aquele toucinho, aquela broa, a cachaça, a suco de laranja, a rosca, a linguiça, e tudo mais que você me ofereceu? Agora eu até quero um pouquinho, que já me cansei desse cafezinho que tomava pra modo de esperar o pessoal chegar...
Vosmecê calcule: o primo ficou aturdido, tonteou... parecia inté que estava para dar a alma a Deus; entretanto, uma vez que o oferecido estava em vigor, acabou bancando toda a festa. Pois foi assim que Pedro Malasarte teve a sua festança. ®Sérgio.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

E DÁ-LHE EUFEMISMO

A metáfora tem, praticamente, presença obrigatória em qualquer texto literário. Qualquer escritor que se preze faz uso das figuras de linguagem, algumas em maior número que outras. Uma figura pouco usada nos textos literários é o "eufemismo". A sua finalidade é substituir uma palavra grosseira, odiosa ou triste por outra palavra mais agradável, ou menos desagradável. Por exemplo, para atenuar a violência do verbo matar, Camões se valeu do eufemismo "tirar ao mundo" na conhecida passagem do episódio de Inês de Castro:
Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso...” (Os Lusíadas, III, 123).
Apesar do seu acanhado uso na literatura, o eufemismo alcançou sua glorificação no ramo das profissões, principalmente naquelas tidas como mais grosseiras, odiosas ou ilegais. Pelo menos foi o que constatei nas leituras de artigos sobre profissões. Fique tão interessado pelo assunto que elaborei uma pequena lista (pinçadas de artigos e da internet) dos eufemismos usados para substituir o nome de antigas e tradicionais profissões. Por exemplo:
• Boy da Xérox é, agora, Especialista em Marketing Impresso.
• Faxineiro é: Supervisor Geral de Bem-Estar, Higiene e Saúde.
• Porteiro: Oficial Coordenador de Movimentação Interna.
• Vigia: Oficial Coordenador de Movimentação Noturna.
• Motorista de ônibus: Distribuidor de Recursos Humanos.
• Motorista de táxi: Distribuidor de Recursos Humanos VIP.
• Ascensorista: Distribuidor Interno de Recursos Humanos.
• Limpeza de banheiros: Diretora de Saneamento de Áreas.
• Frentista: Especialista em Logística de Energia Combustível.
• Peão de obra: Auxiliar de Serviços de Engenharia Civil.
• Office-boy: Especialista em Logística de Documentos.
• Motoboy: Especialista Avançado em Logística de Documentos.
• Distribuidor de santinho: Técnico de Marketing Direcionado.
• Garçom: Especialista em Logística de Alimentos.
• Camelô: Distribuidor de Produtos Alternativos de Alta Rotatividade.
• Gari: Técnico Saneador de Vias Públicas.
• Garota de Programa: Especialista em Entretenimento Masculino.
• Travesti: Dublê de Especialista em Entretenimento Masculino.
• Cafetão: Supervisor dos Serviços de Entretenimento Masculino.
• Ladrão: Técnico em Redistribuição de Renda.
Salve-se quem puder! ®Sérgio.

domingo, 20 de junho de 2010

A ARGUMENTAÇÃO NÃO SE CONFUNDE COM BATE-BOCA

A legítima argumentação, tal como deve ser entendida, não se confunde com o bate-boca estéril ou carregado de animosidade. Ela deve ser, ao contrário, construtiva na sua finalidade, cooperativa em espírito e socialmente útil. Embora seja exato que os ignorantes discutem pelas razões mais tolas, isto não constitui motivo para que os homens inteligentes se omitam de advogar ideias e projetos que valham a pena. (J.R. Whitaker. Apud Garcia Othon M. Comunicação em prosa moderna.)

sábado, 19 de junho de 2010

DOR SEM NOME

Jamais nesta vida e, possivelmente, na outra, me cansarei de louvar o poeta Gonçalves Dias. De poesia genuinamente brasileira, foi ele o nosso primeiro e jamais excedido poeta. Digo jamais excedido porque falo de um poeta comum, escrevendo sobre uma realidade comum a todos, na linguagem do homem comum.
Quando Gonçalves Dias viajou para Portugal, acompanhava-lhe seu pai. O poeta buscava instrução e seu pai a saúde. Pouco depois de ali terem chegado, morreu-lhe o pai, que já saíra do Brasil muito doente. Com quatorze anos, achou-se Gonçalves Dias só, em terra estranha. Esta circunstância, agravada pela distância da pátria e da mãe, aumentou-lhe a natural dor da perda do pai. No belíssimo poema autobiográfico “Saudades”, que dedicou à irmã, retirei este fragmento, que expressa os momentos de uma dor que não tem nome:
[...]
De quando sobre as bordas de um sepulcro
Anseia um filho, e nas feições queridas
Dum pai, dum conselheiro, dum amigo,
O selo eterno vai gravando a morte!
Escutei suas últimas palavras,
Repassado de dor! — Junto ao seu leito,
De joelhos, em lágrimas banhado
Recebi os seus últimos suspiros.
E a luz funérea e triste que lançaram
Seus olhos turvos, ao partir da vida,
De pálido clarão cobriu meu rosto
No meu amargo pranto refletido
O cansado porvir¹ que me aguardava!
______________________________
1 - o tempo que está por vir, por acontecer; futuro.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

CARA AMIGA...

Os olhos
Que olhas,
No espelho,
Não são teus olhos;
São os olhos
Da tua dor. ®Sérgio.

EU E MINHA ALEGRIA

Há uma perpétua distância entre mim e minha alegria; e quanto mais procuro vivê-la mais parece que ela se afasta de mim: como se os esforços que faço para encontrar a luz só servissem para tornar mais espeça e impenetrável à cortina que me separa dela. (Jacques Levigne)

O MATA-BURRO INSIDIOSO

O verso livre foi uma porteira aberta para os maus artistas. Mas há um mata-burro nessa porteira aberta. E o que se está vendo e muita perna quebrada nesse mata-burro insidioso. (Manuel Bandeira)

A MINHA ANIQUILAÇÃO

Eu acredito que quando morrer irei apodrecer e nada do meu ego sobreviverá. Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação. A felicidade não é menos felicidade porque deve chegar ao fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor porque não são eternos. (Bertrand Russel, filósofo galês)

domingo, 6 de junho de 2010

O MANIFESTO TÉCNICO DA LITERATURA FUTURISTA

Em 1912, escritor Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), publica em Milão, o Manifesto Técnico da Literatura Futurista, propondo:
    A destruição da sintaxe;
    O emprego do verbo no infinitivo;
    A abolição do adjetivo, do advérbio e da pontuação;
    A supressão dos elementos de comparação;
    Dispor os substantivos ao acaso, como nascem;
    A supressão do "eu";
    O uso de símbolos matemáticos e musicais.
Não seria sem razão afirmar que Marinetti abriu caminho para uma geração de escritores que empregaram uma estética liberada dos usos e da lógica tradicionais.
A respeito disso, ou melhor, da liberdade poética, Manuel Bandeira escreveu: "O verso livre foi uma porteira aberta para os maus artistas. Mas há um mata burro nessa porteira aberta. E o que se está vendo é muita perna quebrada nesse mata-burro insidioso." (M. Bandeira, in: Andorinha, Andorinha.) ®Sérgio.

VOCÊ SABIA QUE...

Na Antiguidade Grega, acreditava-se que o tamanho do nariz era proporcional ao dos órgãos genitais; portanto, narizes grandes eram sinônimos de virilidade. Virgílio, na "Eneida", descreve o costume de amputação da pirâmide nasal em homens e mulheres como punição ao crime de adultério.
Aristóteles (384-322 a.C.), em seu livro "A História dos Animais" escreveu que as pessoas com orelhas grandes e salientes tinham uma tendência para as conversas sem importância e fofocas.
O filósofo Diógenes de Apolônia (499–428 a.C) acreditava que os fluídos (menstruação) da mulher podiam enevoar um espelho de metal, tirar o corte de uma lâmina de aço, o brilho do marfim, enferrujar bronze e ferro, destruir colmeias de abelhas e enlouquecer cachorros.
Os gregos acreditavam que os seres vivos respiravam pelas orelhas. O filósofo Alcmaeon (século V a.C.) escreveu que "o sopro da vida entra pela orelha direita, e o sopro da morte, pela orelha esquerda". ®Sérgio.

sábado, 5 de junho de 2010

AS FORMAS DE ESCREVER

Cada indivíduo tem seu jeito de falar e de escrever, isto é, tem seu estilo. Mas, também, cada indivíduo, tem uma maneira, uma forma própria de melhor materializar seus pensamentos. Veja neste excerto a maneira escolhida por alguns dos mais consagrados escritores.
"Os escritores escrevem de forma anárquica: ao meio-dia, ao cair da tarde, à noite, no calor, nos cafés, na cama, sentados, deitados, de pé, passeando com um gravador, duas horas de vez em quando, 20 horas a fio... Nada de método, nada de receitas, nada que parece uma organização racional de trabalho.
Sim, escreve-se de dia ou de noite, de pé, sentado ou na cama, a lápis, com caneta, com máquina de escrever, ou mesmo com computador. Henry Miller confessava que na sua juventude escrevia de noite e que depois se acostumou a fazê-lo pela manhã, como Faulkner ou Moravia. De pé escrevia Hemingway, e na cama, Trumam Capote, Proust, Alexaindre... No escuro Gabriela Mistral... Em silencio total, Lamartine, Juan Ramón Jimenez... Com música ou no ambiente barulhento de um café, Ramon Gomes de La Serna, Breton, Valle-Inclán... Já vimos que Balsaque e Strindberg bebiam muito café, e este último fumava sem parar. Miller, Garcia Marques... com computador, o primeiro foi o autor de ficção Arthur Clarke, que muitos anos atrás foi morar numa ilha do Pacífico, de onde enviava seus romances num disquete, a seu editor... Deveria ser feita uma pesquisa para saber quantos escritores de hoje compõem seus textos diante de uma tela. Isso faria mais de um autor se revirar no túmulo. Flaubert, que levava quatro horas para completar uma frase e cinco dias para acabar uma página, enlouqueceria." (Nieto, Ramón. O Ofício de Escrever. Ed. Angra:2001)
E você, meu amigo, de que forma sente mais prazer para escrever? ®Sérgio.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O GOSTO EM SER PISADA - Seleta de Prosa

"A terra aqui é pegajenta e melada, agarra-se aos homens com modos de garanhona. Mas ao mesmo tempo parece sentir gosto em ser pisada e ferida pelos pés da gente, pelas patas dos bois e dos cavalos. Deixa-se docemente marcar até pelo pé de um menino que corra brincando, empinando um papagaio. Até pelas rodas de um cabriolé velho que vá aos solavancos de um engenho de fogo morto a uma estação da Great Western." (Gilberto Freyre, A Cana da Terra; in Nordeste. Rio de Janeiro: Record, 1989. p. 42.)
Gilberto de Mello Freyre (1900—1987) foi sociólogo, antropólogo, escritor e pintor brasileiro; um dos grandes nomes da história do Brasil. ®Sérgio.

sábado, 22 de maio de 2010

HEITOR E O FILHO DE TÉTIS

"Canto de ira, deusa, a destruidora ira de Aquiles, filho de Peleu, que trouxe incontáveis dores aos Aqueus, e mandou muitas almas valiosas de heróis a Hades, enquanto seus corpos serviam de alimento para os cães e pássaros, e a vontade de Zeus foi feita ..." (introdutório de a Ilíada de Homero)
Aquiles, o maior dos heróis gregos, era filho de Peleu, rei da Riótida, na Tessália. Pela parte de seu avô Éaco, ele descendia de Zeus (há quem diga de Posídon). Os vassalos de Peleu eram chamados de Mirmidões, desde quando Zeus, desejoso de dar um povo a Éaco, transformou uma colônia de myrmex (formigas) em homens. A mãe de Aquiles era Nereide Tétis, neta da Terra e do Mar.
Pois bem, durante nove anos, os gregos estiveram envolvidos em escaramuças com os Troianos sem grandes consequências. No decorrer desse período, os invasores aproveitaram para realizarem expedições às ilhas vizinhas de Tróia e pilharem as cidades. Em uma dessas expedições, Agamêmnon (o rei mais poderoso da Grécia) raptou Criseida, a filha do sacerdote de Apolo, e Aquiles, a bela Briseida, tornando-a sua serva.
No décimo ano de cerco a Tróia, Aquiles e Agamêmnon envolveram-se em uma disputa. Apolo dirigiu uma praga sobre o acampamento grego, que só seria retirada se Agamêmnon devolvesse Criseida ao pai. O rei grego, então, se viu obrigado a entregá-la ao pai; porém, como compensação, exigiu a serva de Aquiles. Enraivecido, o herói grego, decidiu abandonar a guerra e retirou-se para o acampamento, pondo assim em perigo a causa Grega.
Pátroclo, primo e possível amante de Aquiles, pediu-lhe que permitisse liderar os Mirmidões, na batalha que se fazia iminente. Pediu, também, emprestada a armadura de Aquiles; usando-a, espalharia o terror nas linhas troianas, pois iriam tomá-lo por Aquiles. Este concordou e Pátroclo partiu, lutou, e foi morto por Heitor, o melhor guerreiro troiano, filho de Príamo (rei de Troia).
Ao receber a notícia da morte de Pátroclo, Aquiles ficou enlouquecido de dor. Esqueceu a sua rixa com Agamêmnon, e só pensava em vingar a morte do primo. Sua mãe veio até ele e prometeu-lhe uma nova armadura para substituir a que ficou na posse de Heitor. Tetis encarregou Hefesto, o deus-ferreiro, de lhe forjar uma nova armadura. Assim, Aquiles e os Mirmidões conseguiram empurrar os troianos para dentro da muralha da cidade. As vítimas de Aquiles foram tantas que entulharam o leito do rio Escamandro. Mas é Heitor que Aquiles quer. E Heitor não viu alternativa, senão enfrentar Aquiles em duelo.
Quando o filho de Tétis, sombrio, olhar fulgurante, monstruoso dentro da nova armadura, surgiu diante de Heitor, este se aterrorizou e tentou fugir. Aquiles, porém, o perseguiu por três voltas ao redor das muralhas de Tróia. Na terceira volta, a deusa Atenas resolveu intervir. Assumindo a forma do irmão favorito de Heitor, Deífobo, convence-o a enfrentar Aquiles.
Antes que o duelo começasse, Heitor pede a Aquiles um pacto: que o vencedor respeitasse o cadáver do vencido, permitindo que o corpo fosse resgatado após a morte para que tivesse um funeral digno. Aquiles, furioso por Heitor ter matado Pátroclo, diz-lhe que não há pacto entre presa e predador. Dito isso, partiu, insano, para o duelo. Com a lança, fere mortalmente Heitor na garganta (a única parte desprotegida de armadura), que cai ao chão, mal podendo falar. Entretanto, compreendendo que ia morrer, com grande esforço, volta a implorar que Aquiles permita que seu corpo seja devolvido a Tróia para ser devidamente velado. Aquiles novamente nega-lhe o pedido, e lhe diz que seu corpo será pasto de cães e abutres, enquanto o de Pátroclo será honrado. Depois, mais uma vez, atravessa a garganta de Heitor com a lança. Assim morre o bravo Heitor diante de seus entes queridos, desmanchados em lágrimas e lamentos, que a tudo assistiram de dentro das muralhas.
Aquiles, então, amarra o corpo de Heitor - pelos calcanhares - atrás de sua biga e o arrasta ao redor das muralhas da cidade, para que toda Troia pudesse ver. Feito isso, arrasta-o até ao acampamento grego e joga-o em frente de sua choupana. A seguir, prepara um esmerado funeral em honra a Pátroclo. Uma grande pira foi construída; sobre ela ovelhas, bois, os quatro cavalos e dois dos cachorros de Pátroclo são sacrificados e suas carcaças empilhadas ao lado de seu corpo. A pira ardeu durante toda a noite. Nos dia seguinte, os ossos de Pátroclo foram coletados e colocados numa urna dourada, e um grande monte foi erguido no local da pira. Todo dia ao amanhecer, Aquiles arrastava por três vezes o corpo de Heitor ao redor do monte, que até mesmo os deuses ficaram chocados com isso. Tanto que Zeus enviou Íris (mensageiro dos deuses) a Tróia para instruir Príamo, pai de Heitor, a ir durante a noite, secretamente, pedir a Aquiles o corpo do filho.
Escoltado por um mensageiro ele veio escondido ao acampamento e, sem ser percebido, chegou à tenda de Aquiles. Jogando-se aos pés do herói grego, implorou que lhe fosse permitido levar a Tróia o corpo de seu filho, para que pudesse ser adequadamente pranteado e enterrado. O apelo foi tão comovente que choraram juntos. Aquiles, então, concede o salvo-conduto a Príamo. Ainda mais: promete-lhe trégua pelo tempo que fosse necessário para a realização do funeral de Heitor. Príamo leva o corpo do filho de volta a Tróia, onde são prestadas as honras fúnebres ao príncipe e maior herói troiano. ®Sérgio.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O DELEGADO, O BÊBADO E OS DIABOS - Recontando Contos Populares

Um amigo, que por alguns anos atuou como delegado em uma cidadezinha do interior, narrou-me esse "causo". Eu não sei se o acontecido é verdadeiro ou não; certo é que poderia ser. Mas “assim ou assado”, eu lhes conto, com minhas letras o que dele ouvi.
Havia, dentro do cemitério dessa pequena cidade, uma figueira "lotada" de frutos. Dois irmãos, seduzidos pelos figos, decidiram entrar no cemitério, na calada da noite, e pegar uma porção de figos. Pois então..., pularam o muro, aproximaram-se da figueira e o irmão mais velho subiu na árvore, enquanto o mais novo ficou embaixo para "catar" os figos que o mais velho deixava cair lá de cima.
E vêm, e vêm figos. De repente o irmão mais novo grita para o mais velho:
— Mano! Dois figos caíram do lado de fora do muro.
— Não tem importância, depois que a gente terminar aqui, pegamos os outros.
E vêm figos. Terminada a colheita, o mais velho desceu da árvore e com o mais novo, começou a repartir o resultado da coleta:
— Um pra mim, um pra você; um pra mim, um pra você; um...
E assim, cada qual ia colocando os figos em suas respectivas sacolas.
Segundo a crença de nossos sertanejos, a figueira é planta do diabo. É tido como certo que nas figueiras há reunião de demônios que ali fazem suas orgias. Então, um bêbado que passava do lado de fora do muro, escutou aquela conversa de "um pra mim, um pra você"; para ter certeza de que não estava imaginando coisas, parou e escutou novamente: "um pra mim, um pra você". Não deu outra, lançou-se numa carreira despinguelada até a delegacia da cidadezinha. Chegou quase sem fôlego, mas teve força suficiente para dizer ao delegado:
— Doutor, vem comigo! Os diabos estão no cemitério, debaixo da figueira, dividindo as almas dos mortos!
O delegado, suspeitando ser conversa fiada de cachaceiro, ameaçou-o de prisão caso não saísse, imediatamente, da delegacia. Ao que o bêbado respondeu:
- Juro Doutor! Juro por Deus que é verdade! Vem comigo!
Diante de tanta insistência, o delegado resolveu acompanhar o bebum. Foram até o cemitério, chegaram perto do muro e escutaram a repartição dos irmãos:
- Um pra mim, um pra você... Um pra mim, um pra você...
O delegado um tanto assustado exclama:
- Ora essa! É verdade! Eles estão dividindo as almas dos mortos!
Mal o delegado acabara de falar, os dois irmãos terminam a divisão dos figos; então o mais novo pergunta ao mais velho:
— Pronto, acabamos. E agora?
— Agora, a gente vai lá fora e pega os dois que estão do outro lado do muro…
O resto da história vocês podem imaginar, foi um tal de salve-se, quem puder. ®Sérgio.

REFLEXÕES SOBRE A CRÔNICA

"A crônica é filha do jornal e da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa. Ela não foi feita originalmente para o livro, mas para essa publicação efêmera que se compra num dia e no seguinte é usada para embrulhar um par de sapatos ou forrar o chão de cozinha." (CÂNDIDO, Antônio. A vida ao rés do chão. Em: Para gostar de ler: crônicas, volume 5. São Paulo, Ática.
Antonio Candido de Mello e Souza (Rio de Janeiro, 24 de julho de 1918) é poeta, ensaísta e professor. Recebeu os prêmios:  Intelectual do Ano 2007, conferido pela UBE - União Brasileira de Escritores, em 2008, e O Prêmio Juca Pato que agracia o intelectual que mais se destacou no ano anterior.
"A estrutura da crônica é uma desestrutura; a ambiguidade é sua lei. A crônica tanto pode ser um conto, como um poema em prosa, um pequeno ensaio, como as três coisas simultaneamente. Os gêneros literários não se excluem: incluem-se. O que interessa é que a crônica, acusada injustamente como um desdobramento marginal ou periférico do fazer literário, é o próprio fazer literário. E quando não o é, não o é por causa dela, a crônica, mas por culpa dele, o cronista. Aquele que se apega a notícia, que não é capaz de construir uma existência além do cotidiano, este se perde no dia-a-dia e tem apenas a vida efêmera do jornal. Os outros estes transcendem e permanecem." (PORTELLA, Eduardo. Visão prospectiva da literatura brasileira, 1979, p. 53-4. In: Vocabulário técnico da literatura brasileira. Rio de Janeiro, Tecnoprint, 1979.)
Eduardo Mattos Portella (Salvador, 8 de outubro de 1932) é crítico, professor, escritor, conferencista, pesquisador, pensador, advogado e político brasileiro. Pertence à Academia Brasileira de Letras.
®Sérgio.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

OS REMÉDIOS DO AMOR E O AMOR SEM REMÉDIO

"O que é o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem poderá apreendê-lo, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir em palavras o seu conceito? [...]. Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, então o tempo? Se ninguém me perguntar, eu o sei; se quiser explicá-lo a quem me fizer a pergunta, já não sei." (Santo Agostinho. Confissões, p.322.)
Há muito tempo, quando meu ser despertava para as letras, folheava um livro sobre nossa Literatura e, em dado momento, meus olhos fixaram-se sobre um texto do Padre Antônio Vieira. Já no primeiro parágrafo de leitura, senti-me tomado de emoção e, também de admiração, ao perceber que tinha em minhas mãos algo realmente maravilhoso. Assim, sempre que me é dada a oportunidade, procuro repassá-lo, na esperança de que os mesmos sentimentos que transpassaram meu coração, transpassem outros também.
OS REMÉDIOS DO AMOR E O AMOR SEM REMÉDIO¹
[...].Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore quanto mais a corações de cera! São as feições como as vidas, em que não há mais certo sinal de haverem durado pouco, do que terem durado muito. São as vidas como linhas espirais, que partindo do centro, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão vigoroso que chegue a ser velho. De arco e flecha que lhe armou a natureza, desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco com que já não mais atira; embota-lhe a seta, com que já não mais fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda essa diferença, é, porque o tempo tira a novidade das coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem mais as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso quanto mais o amor! O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.
Padre Antônio Vieira (1608-1697), Sermão do Mandato, parte III, in Sermões (1643).
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1 – Título Fantasia. (N. T.)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

QUEM SOU?

Sou matéria e espírito.
Sou finito e infinito.
Sou transitório e definitivo.
Sou provisório e permanente.
Sou mortal e imortal.
Sou terreno e celestial.
Sou o oximoro, o paradoxo, a antítese divina.